Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens

24/05/10


É já na próxima quinta-feira que o colectivo poético "O COPO" apresentará na sessão das "Quintas de Leitura" a sua desconcertante performance "Ó`Neill, tás bué baril?".
Recordamos hoje mais um poema do grande Alexandre O'Neill:

FALA!

Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

(Alexandre O'Neill in "Poesias Completas"/Assírio & Alvim. Fotografia: O COPO por Pat)

13/05/10

MÁ CONSCIÊNCIA

O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?

Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo,
não por ilusão.

(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)

12/05/10

POESIA-CÃO

Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)

07/05/10

Ó'Neill, Tás Bué Baril?

Um dos momentos da próxima "Quinta de Leitura" será assegurado pelo colectivo poético "O Copo". Poesia de entretenimento científico, como eles gostam de dizer.
Apresentarão a performance Ó'Neill, Tás Bué Baril?
Começamos a publicar hoje alguns poemas de Alexandre O´Neill, só para vos aguçar o apetite.


POESIA E PROPAGANDA

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)

04/06/09

MAIS POEMAS DE AMOR

Outras escolhas de Inês Pedrosa para o dia 18 de Junho:

A MEU FAVOR

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

ALEXANDRE O'NEILL

*

SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

MARIA TERESA HORTA

19/05/09

FAZES-ME FALTA. POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA.

Para a sessão do dia 18 de Junho, Inês Pedrosa escolheu, para serem lidos, 25 poemas de Amor. Revelamos hoje os seus autores:

Mário Cesariny
António Botto
Álvaro de Campos
Eugénio de Andrade
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ana Hatherly
Natália Correia
Alexandre O'Neill
Fernando Assis Pacheco
Pedro Támen
Al Berto
Maria Teresa Horta
Nuno Júdice
Luís Miguel Nava
Luiza Neto Jorge
Manuel António Pina
Jorge Sousa Braga
Maria do Rosário Pedreira
Fernando Pinto do Amaral
José Tolentino Mendonça
Herberto Helder
Inês Pedrosa


Refira-se, ainda, que os poemas serão lidos por Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Rute Pimenta, Isaque Ferreira e Pedro Lamares.

20/03/09

ALGUNS POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA


O AMOR

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

(Eugénio de Andrade)

*

A MEU FAVOR

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

(Alexandre O'Neill)

*

POEMA DE AMOR

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo

(Jorge Sousa Braga)

*

POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

(Nuno Júdice)

*

MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(Maria Teresa Horta)

*

ASSIM O AMOR

Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

(Sophia de Mello Breyner)

*

DESINFERNO II

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse4
Que eu de amor apenas ressuscitaria

(Luiza Neto Jorge)

*

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

(Casimiro de Brito)

25/02/08

INVENTÁRIO

É o título de um desconcertante poema de Alexandre O´Neill. Será lido no próximo recital das "Quintas" pelo Paulo Campos dos Reis, ponta-de-lança do colectivo "Caixa Geral de Despojos".
Um dos seus versos dá nome à sessão.

Inventário

Um dente d' oiro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante

A costureira muito desgraçada
Um máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno

Um revólver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria

Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
O gafanhoto chamado surpresa

O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pé-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perdeu a fé

Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de facto perigosos
Um instantinho de beleza

Um octogenário divertido
Um menino coleccionando tampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas.

(Alexandre O'Neill)