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01/09/09

JOAQUIM CASTRO CALDAS

O Poeta deixou-nos há exactamente um ano. Ficou a sua obra.

PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz

(Joaquim Castro Caldas)

20/11/08

HOJE É DIA DE "QUINTAS"

Mais um poema de Joaquim Castro Caldas:

AO LADO

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o abismo

de te perder num afago
de te ter do outro lado
do medo à minha beira

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o amor

que há noites ao teu lado
em que me dói não sei
onde é que a distância ai

havia tantas coisas
se não fosse este fuçar
de nem fugir nem amar

18/11/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Publicamos hoje mais um poema de Joaquim Castro Caldas.

PRECE

um dia hei-de
ser um escritor
se tu meu amor
estupor de mundo
quando perder
a falsa linha
que une e separa
o homem do poeta
o rosto da máscara
o sémen da seiva
farei da palavra
profecia e alma
promessa e arma
o tiro será teu
mas a bala minha

(in "Só cá vim ver o sol", Quasi Edições)

17/11/08

A Poesia de Joaquim Castro Caldas

O actor Pedro Lamares lerá no recital da próxima quinta-feira alguns poemas de Joaquim Castro Caldas. É a nossa forma singela e sentida de lembrar o Poeta, recentemente falecido.

DEVOLUÇÃO DOS CRAVOS

um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de uma G-3

hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país


PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz


MATANÇA DO TEMPO

já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado

(in "Convém Avisar os Ingleses", Quasi Edições)

30/10/08

UM RECITAL QUE APETECE LEVAR PARA CASA




Um verso de Alexandre O'Neill, que por acaso são dois, dão nome à próxima sessão das "Quintas de Leitura". "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" realiza-se no próximo dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.

Uma verdadeira festa da poesia que marca o encontro histórico entre dois colectivos poéticos acima de todas as suspeitas: O COPO, poesia de entretenimento científico pela boca e pelos cotovelos de Paulo Condessa e Nuno Moura, e a Caixa Geral de Despojos, que alinha, desta feita, com três avançados bons de cabeça: Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

O prato da noite é irresistível: textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas.

Prometemos: um recital com jantes alargadas, um recital com as vacinas em dia, um recital com curvas francesas, um recital com o futuro a tiracolo, um recital a pensar noutra coisa, um recital que parece dois. Por fim: um recital com o cunho da flamejante parelha João Gesta - Mafalda Capela. Ele, futuro preparador físico da selecção do Mali, ela, futura Ministra das Pescas e arredores. Gente sem jeito para o negócio, diga-se.

Registam-se, nesta noite, as estreias nas "Quintas de Leitura" da artista plástica Manuela Pimentel , responsável pela imagem da sessão (a imagem acima é dela), e ainda da performer Mariana Rocha que apresentará a peça "Curta-mixagem".

E no fim disto tudo, chega de Cuba, a tempo e horas, o pianista e compositor Carlos Maza. Dar-nos-á a conhecer o projecto "Trotamundo".

Um recital que apetece levar para casa.

Espectáculo para maiores de 16 anos, exactamente porque sim.

28/10/08

- IRENE! IRENE! SIRVA O LEITE-CREME!

Estes versos de Alexandre O´Neill dão nome à próxima sessão das "Quintas de Leitura".
Realiza-se no dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA. Os bilhetes para este espectáculo serão postos à venda a partir das 13h00 de hoje.
Participam nesta mega-festa da poesia os seguintes artistas:

Leituras
O COPO (Nuno Moura e Paulo Condessa)
CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Isaque Ferreira e Pedro Lamares)
Textos
Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas
Imagem
Manuela Pimentel
Performance
Mariana Rocha (apresenta a peça "Curta-mixagem)
Música
Carlos Maza (pianista e compositor) / projecto "Trotamundo"
Concepção e coordenação
João Gesta e Mafalda Capela

Um recital que apetece levar para casa...

02/09/08

ATÉ SEMPRE, POETA!



uma boina

eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara

enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa

(Joaquim Castro Caldas, in "Mágoa Das Pedras"/Deriva Editores)

01/09/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Morreu ontem Joaquim Castro Caldas. Morreu um grande Poeta e um Homem de uma enorme integridade intelectual.

Publicamos aqui, sem cortes, um belo e comovente depoimento do também grande Poeta António Pedro Ribeiro:

"Foi o Joaquim Castro Caldas que me ensinou a dizer poesia. Foi o Joaquim Castro Caldas que me mostrou aquele jeito rebelde e sarcástico de lidar com as palavras. O Joaquim foi o mentor das noites de poesia no Pinguim quando uma multidão acorria àquele bar no Porto para, simplesmente, ouvir e dizer poesia. O Joaquim foi um dos maiores divulgadores da poesia neste país. E era, também, um excelente poeta. Quando escrevo estas linhas o Joaquim se não está morto deverá estar às portas da morte. Agora é fácil culpar o álcool, as úlceras, a vida que o Joaquim levava. Agora toda a gente vai procurar os escritos que o Joaquim deixou por aí espalhados. O Joaquim Castro Caldas tinha um feitio difícil. Por vezes, parecia arrogante. Mas por detrás dessa aparente arrogância havia uma grande generosidade. A generosidade de quem viu o inferno mas também o céu. A obra do Joaquim não teve o reconhecimento que merecia. Porque o Joaquim era um verdadeiro poeta. Levou uma vida de poeta. Andou pelos bares, procurou a loucura. Não foi um desses versejadores da corte, bem comportadinhos, sempre à cata do prémio. Olha, Joaquim, espero que te safes desta. Senão vai para o céu. Vai para o céu, porque o mereces. "

(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)


Morreu o Poeta, fica o seu valioso legado poético.

QUE SE FREUD

aos 20 já fodes
ainda não te fodem

aos 30 ainda fodes
mas já te fodem

aos 40 nem odes
nem ais de cima

aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem

aos 60 dizem-te
que sabes da poda

aos 70 não te fodem
porque já se fodem

aos 80 que se Freud
porque a morte

(Joaquim Castro Caldas, in "Convém Avisar os Ingleses / Quasi Edições)

Joaquim, confesso-te, aqui, coração à altura do teclado: com a idade, fui aprendendo a gostar de ti.

16/06/08

BIFE PICADO - BURRO TRANSTORNADO

Mais um poema de Joaquim Castro Caldas.

SOPHIA

viveu sempre à distância
de uma milha ilha a ilha
que separa o mar da terra
escolheu por acaso a grécia
podia ter sido uma avenida
numa cidade puta ou divina
preferiu no entanto semente
os outros que a colham breve
ao que nus resta de inocência

(in "só cá vim ver o sol", Edições Quasi)

09/06/08

BIFE PICADO - POETA ENGASGADO

MENDIGO

na rua não dou a quem pede
o que pede, só dou à forma
como pede. no amor só dou
o que o amor me pede, não
dou à forma como pede.
e à vida peço me dê leve
aquilo que ninguém pede

(in "só cá vim ver o sol", Joaquim Castro Caldas, Edições Quasi)

06/06/08

BIFE PICADO - REGADOR FURADO

O "VOTO SECRETO" de Joaquim Castro Caldas:

um dia político
num grupo de amigos
eu disse desisto

à dúvida dos inimigos
rectifiquei resisto

pelo que ao meio termo
altero o discurso
insisto

(in "Convém Avisar os Ingleses", Edições Quasi")

02/06/08

BIFE PICADO - GATO ESCALDADO

Outro poema de Joaquim Castro Caldas:

MATANÇA DO TEMPO

já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado

(in "Convém Avisar os Ingleses", Edições Quasi)