
26/03/10
24/03/10
16/03/10
A POESIA DE ANA SALOMÉ
Para todos os que amam como a estrada começa.
queria de ti um país
um arco de sol para brincar nas manhãs
a roda das tuas mãos na cintura
engravidando de deslumbre
e a urdidura dos filhos
para além da alegria.
queria que entumecesses o tempo
dentro de maçãs relidas
em poemas sobre a mesa.
no teu jeito de apertares os lábios
e me fechares numa sílaba
queria de nós um país
juntando-se a outro.
compor o tratado dos nossos beijos
na morfologia das estrelas
que encimam esta solidão
faz-me querer de ti
se não um país o coração
da tua cidade
coisa tanta e pouca
alguma coisa só
um beijo talvez
que retenha a bruma
de avançar sobre Portugal
e me tome de vez
o destino por invisível.
(Ana Salomé, in "Odes"/Editora Canto Escuro)
15/03/10
A POESIA DAS NOSSA CONVIDADAS
Fui uma criança medrosa.
Tinha, como todas as crianças,
medo do escuro.
A minha irmã dizia-me: pensa no Mickey.
E eu calava-me e ficava perplexa a pensar:
mas porquê o Mickey.
(Filipa Leal, poema inédito)
Uma pedra
Atiro uma pedra à noite
a noite desfaz-se em aros
e há silêncio e solenidade
e trabalho o poema
com nova pedra na mão
mas não acuso tento salvar
aquilo a que me disponho
aquilo a que venho
sem temas nem fios
frente à grande boca da noite
com fome de nomes de coisas
maiores do que nós
que adormecemos sem querermos
na pouca luz que faz.
(Ana Salomé, poema inédito)
Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sotão
se me cresceram músculos neste olhar-te
neste cuidar que dá cuidado.
Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.
(Catarina Nunes de Almeida)
e por vezes os afogados
voltam à tona de água
pois desejam de novo atirar-se
ainda não esgotaram o desespero
ainda não esperam completamente
ainda temem que nada chegue
não sabem ainda que já ninguém virá
que mesmo o mergulho foi em vão
que tudo a água lava, mas a vida não
(Bénédicte Houart, poema inédito)
10/03/10
Um espectáculo no feminino
Depois do estrondoso sucesso da sessão 100
“Põe a cassete da tempestade” é o título da próxima sessão das "Quintas de Leitura", ciclo poético promovido pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, que no passado dia 25 de Fevereiro celebrou a sua sessão número 100.
As "Quintas de Leitura" voltam à carga a 25 de Março, às 22h00, no Auditório do TCA. Carga poética de altíssima voltagem. Um espectáculo pensado no feminino, que reúne, à volta de um verso, quatro vozes singulares e insubmissas da novíssima poesia portuguesa: Ana Salomé, Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida e Bénèdicte Houart.
As poetas convidadas lerão muitos textos inéditos, de sua autoria, destacando-se entre eles um texto de homenagem a Adília Lopes, escrito por Filipa Leal.
A apresentação da sessão estará a cargo de Catarina Portas, que fará, assim, a sua estreia nas "Quintas de Leitura". O espectáculo contará com dois momentos dedicados ao Movimento: a performer e bailarina Sónia Baptista vai surpreender-nos com a peça "Secrétaire"- dez irrepreensíveis minutos de dança; e, da Noruega, chega Iris Sofia, dançarina profissional de dança do ventre. Um momento que não esquecerá mais.
Refira-se ainda que a desconcertante artista plástica Isabel Padrão assina a imagem do espectáculo. Um trabalho inspirado no universo poético das escritoras convidadas.
Depois de um retemperador intervalo, adivinha-se um concerto memorável de Paulo Furtado, "The Legendary Tigerman". Uma "one-man band" na tradição dos velhos blues do Delta do Mississipi. Tocará temas do seu novo e aclamado disco "Femina". Tudo a propósito, num espectáculo dedicado à mulher e à sua beleza.
Junte-se a nós. A razão já é conhecida: ninguém pode viver sem poesia.
Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros. Espectáculo para maiores de 16 anos (bem contados).
é uma casa de passagem onde
se vê o mar quando
a puta veste o fato de marinheiro e
põe a cassete da tempestade
(poema de Bénèdicte Houart)














