Por serem mães, nem viram aquilo que parecia
um raio de sol interrompendo o mundo – e
levam os meninos mortos ao colo no fio dos
caminhos, confundindo sempre a lã do xaile
com o calor do sangue que lhes ensopa as mãos.
Seguem sem poder acreditar – ou então acreditam
que não seriam capazes de amar tanto uma coisa
parada no tempo, e por isso vão, imperturbáveis,
ouvindo bater dentro do próprio peito os corações
vermelhos pequeníssimos. Mais adiante, deter-se-ão
para descobrir um seio redondo e cheio à minúscula
boca prometido – não vá ela abrir-se de repente e,
milagrosamente, começar a chorar.
Maria do Rosário Pedreira
Outubro de 2008
Inédito
(Poema para Dia da Mãe - parceria Quintas de Leitura / Antena 1)
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13/05/09
Jorge Sousa Braga
LITANIA
Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório
e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente
Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos
ainda escorrendo sangue
Uma pequena construção toda em pedra
com divisões de tijolo e cal hidráulica
e janelas abrindo para o vale
Com o teu útero
Com a memória do pão depois de levedado e da tua saia comprida cheia de farinha
Com a memória de uma gema de ovo
Com o teu útero
Com a memória de uns sapatos demasiado apertados
Com a memória do giz e do ferro a carvão e dos alinhavos
Na minha alma antes de ser posta à prova
Com o teu útero
Com a memória de uma véspera de Natal das rabanadas e da aletria
E das águas que de súbito inundaram o soalho da cozinha
Com a memória agitada dessas águas
Com o teu útero
Com a memória de uma explosão de mimosas
Com a memória do cheiro a flor de laranjeira e a neroli
Com o teu útero
Que o anatomo-patologista dentro em pouco se encarregaria de retalhar
Com a lâmina do bisturi
Jorge Sousa Braga
(Poema para Dia da Mãe - parceria Antena 1/Quintas de Leitura)
Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório
e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente
Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos
ainda escorrendo sangue
Uma pequena construção toda em pedra
com divisões de tijolo e cal hidráulica
e janelas abrindo para o vale
Com o teu útero
Com a memória do pão depois de levedado e da tua saia comprida cheia de farinha
Com a memória de uma gema de ovo
Com o teu útero
Com a memória de uns sapatos demasiado apertados
Com a memória do giz e do ferro a carvão e dos alinhavos
Na minha alma antes de ser posta à prova
Com o teu útero
Com a memória de uma véspera de Natal das rabanadas e da aletria
E das águas que de súbito inundaram o soalho da cozinha
Com a memória agitada dessas águas
Com o teu útero
Com a memória de uma explosão de mimosas
Com a memória do cheiro a flor de laranjeira e a neroli
Com o teu útero
Que o anatomo-patologista dentro em pouco se encarregaria de retalhar
Com a lâmina do bisturi
Jorge Sousa Braga
(Poema para Dia da Mãe - parceria Antena 1/Quintas de Leitura)
12/05/09
José Luís Peixoto
PALAVRAS PARA A MINHA MÃE
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo.
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho. gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras. sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste. somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto ("A Casa, a Escuridão")
Texto para Dia da Mãe - Parceria Quintas de Leitura / Antena 1
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo.
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho. gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras. sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste. somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto ("A Casa, a Escuridão")
Texto para Dia da Mãe - Parceria Quintas de Leitura / Antena 1
11/05/09
Aldina Duarte
Tri (Maternal)
Mãe, pai e véu
Pão, mel e lar
Lua, ovo e céu
Sol, rio e mar
Teu, ser e ter
Ele, noz e voz
Meu, ver e ler
Ela ali por nós.
(Inédito - Dia da Mãe - parceria Quintas de Leitura / Antena 1)
Mãe, pai e véu
Pão, mel e lar
Lua, ovo e céu
Sol, rio e mar
Teu, ser e ter
Ele, noz e voz
Meu, ver e ler
Ela ali por nós.
(Inédito - Dia da Mãe - parceria Quintas de Leitura / Antena 1)
08/05/09
ANA LUÍSA AMARAL
TESTAMENTO
Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos
Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas
Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras
Ana Luísa Amaral, Minha Senhora de Quê, Fora do Texto, Coimbra, 1990, reed. Lisboa, Quetzal, 1999
(Poema para o Dia da Mãe - Quintas de Leitura / Antena 1)
Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos
Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas
Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras
Ana Luísa Amaral, Minha Senhora de Quê, Fora do Texto, Coimbra, 1990, reed. Lisboa, Quetzal, 1999
(Poema para o Dia da Mãe - Quintas de Leitura / Antena 1)
07/05/09
NUNO JÚDICE - INÉDITO
SINA HEREDITÁRIA
As mães lêem nas mãos dos antepassados
o destino que nunca tiveram. Sentam-se
às portas das casas onde enlouquecem
à vista das filhas; e as filhas seguram-lhes
as mãos para que não atirem aos cães
o destino que nelas está escrito.
Mas se as mães empurram as filhas
para dentro de casa, e ficam a falar
umas com as outras, a loucura toma
conta das suas mãos, e sobe até aos
braços que agarram as filhas que
fugiram para dentro da casa, gritando.
E as mães loucas gritam por cima
do grito das filhas, enquanto a tarde
chega a todas as casas, libertando as
mães e as filhas do destino que os cães
apanharam do chão, e arrastam pelas ruas
para que todos o leiam nas mãos caídas.
Nuno Júdice
(POEMA DO DIA DA MÃE)
As mães lêem nas mãos dos antepassados
o destino que nunca tiveram. Sentam-se
às portas das casas onde enlouquecem
à vista das filhas; e as filhas seguram-lhes
as mãos para que não atirem aos cães
o destino que nelas está escrito.
Mas se as mães empurram as filhas
para dentro de casa, e ficam a falar
umas com as outras, a loucura toma
conta das suas mãos, e sobe até aos
braços que agarram as filhas que
fugiram para dentro da casa, gritando.
E as mães loucas gritam por cima
do grito das filhas, enquanto a tarde
chega a todas as casas, libertando as
mães e as filhas do destino que os cães
apanharam do chão, e arrastam pelas ruas
para que todos o leiam nas mãos caídas.
Nuno Júdice
(POEMA DO DIA DA MÃE)
06/05/09
Especial Dia da Mãe - Quintas de Leitura / Antena 1

Uma parceria Antena 1 / Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre a partir de uma ideia de Tiago Alves, com sonorização de Paulo Martins e Jorge Martins, e realização e produção de Paula Magalhães.
Poemas inéditos de Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice e Aldina Duarte. A partir de hoje, um por dia, publicarei neste blogue os poemas que nos falam da Mãe e das Mães do Mundo.
Para ler, ver e ouvir o programa especial da Antena 1 clicando aqui.
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