Mostrar mensagens com a etiqueta Adília Lopes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adília Lopes. Mostrar todas as mensagens

29/12/09

A POESIA DE ADÍLIA LOPES

A árvore de Natal
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow

23/12/09

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL

Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não

(poema de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

11/11/09

ADÍLIA LOPES

A acrobata deu mal um salto mortal
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras

(Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim)

10/11/09

SÓ MAIS UM

UM FIGO


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

09/11/09

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

LUCINDA E MADAME PALMIRA

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

06/11/09

A POESIA DE ADÍLIA LOPES


A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA


A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus

A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)

x-x

MICROBIOGRAFIAS


Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
Fotografia de Graça Sarsfield em Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001. )

04/11/09

MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

x-x

Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar

x-x

DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

x-x

A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

03/11/09

ADÍLIA LOPES


Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.

O BEIJO

Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me

x-x

ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)


Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

x-x

Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda

x-x

Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)

15/09/09

60.000

Festejamos 60.000 páginas visitadas com um poema de Adília Lopes:

DUAS IRMÃS SOLTEIRONAS
VIVEM JUNTAS
COM UMA GATA
QUE NUNCA DEIXAM SAIR
UMA DAS IRMÃS CASA
A OUTRA PEDE-LHE
UMA CARTA
A RELATAR PORMENORIZADAMENTE
A NOITE DE NÚPCIAS
A OUTRA MANDA-LHE
UM TELEGRAMA
"MANA, SOLTA A GATA"

30/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ADÍLIA LOPES

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

(Adília Lopes, in "Quem Quer Casar Com a Poetisa?")

10/11/08

Miami Vice

A mansão foi encontrada
junto à piscina da mansão
a piscina não se encontrou
a si própria

(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)

07/11/08

SETE RIOS ENTRE CAMPOS de ADÍLIA LOPES

O Chão optimista

Cair do cavalo
cair da escada
cair em mim
o rés-do-chão é tão bonito
o chão é tão bom
as violetas são macias
e não têm picos
ao contrário das rosas
o chão está cheio de ouro
por dentro
por fora um besouro
Dale Carnegie tem razão
o meu cavalo lambe-me a cara
não parti nada
não é o alcatrão
ou o passeio
do defenestrado
nem o útero da mãe
agora morta
é a libertação da queda
de Adão e Eva
é Adão que me estende a mão

x

O chão pessimista

Escuro
como breu
o chão
me comeu

(in "Obra", Mariposa Azual)

06/11/08

Mais poesia de Adília Lopes

A mala da senhora cai ao chão.
O cavalheiro apanha-a.

- Merci beaucoup.
- Pas de quoi.

Mete-a no cu.
Não cabe cá.

(anedota contada pela tia Paulina)

x

O grilo come
a gaiola de plástico
e volta
para o campo
onde está
o pirilampo

x

Na estufa
a planta carnívora
abocanha as chaves
da minha mãe
uma barreira de água
impede as formigas
de entrar

(in "Obra", Mariposa Azual)

05/11/08

JÁ RESTAM POUCOS BILHETES PARA A PRÓXIMA SESSÃO DAS "QUINTAS".

A sessão "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" está quase a esgotar. Anuncia-se um recital de poesia cheio de emoção, com as presenças imaculadas dos colectivos "Caixa Geral de Despojos" e
"O Copo".

Hoje continuamos a divulgar poemas da grande Adília Lopes, que serão e não serão lidos na sessão por Nuno Moura e Paulo Condessa.

HARDCORE

Dez para as duas
Sapatos a mais para Cinderela
Não há orquídeas para Miss Blandish

x

Ela era boa rapariga - Sãozinha
ela era uma rapariga boa - Samantha
ela não era uma rapariga - Lassie

x

Saiu das suas tamanquinhas
para calçar escarpins de verniz
mas ficou descalça
depois tiveram de lhe cortar os pés
podres de ricos

(in "Obra", Mariposa Azual)

04/11/08

AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES 2


Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.

(in "Obra", Mariposa Azual)
Fotografia: Europa Sugar por Pat

03/11/08

PROGRAMADOR "MAGALHÃES" ÀS VOSSAS ORDENS

O Teatro do Campo Alegre do Porto é o primeiro espaço cultural do mundo a ter um programador "Magalhães". Sou eu. João MAGALHÃES Coutinho Gesta. 55 anos, careca reluzente, quase solteiro, próteses a brilhar.
O TCA e a sua programação editorial e de leituras está, portanto, na moda, está na vanguarda, está virada para o futuro, em suma, está muito à frente. Em breve, exportaremos programação para o Brasil, Venezuela, Mali e, quem sabe, para lá de Marraquexe.
A todos os que acreditam no programador "Magalhães", dedico, do fundo do coração, um poema quase normal de Adília Lopes, uma das nossas próximas convidadas:

Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

(in "Obra", Mariposa Azual)

31/10/08

ADÍLIA LOPES

Mais um desconcertante poema de Adília Lopes, poeta pop e nem por isso:

D. Sebastião e Mariana Alcoforado

A minha prisão
está cheia
de nevoeiro

O meu convento
está cheio
de vento

No nevoeiro
não tenho
paradeiro

No vento
não tenho
contento

Passo os dias
com as minhas tias

Eu também

Estou farto
do meu parto

Estou farta
de Esparta

Um bispo
não resolve isto

(in "Obra", Mariposa Azual)

30/10/08

UM RECITAL QUE APETECE LEVAR PARA CASA




Um verso de Alexandre O'Neill, que por acaso são dois, dão nome à próxima sessão das "Quintas de Leitura". "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" realiza-se no próximo dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.

Uma verdadeira festa da poesia que marca o encontro histórico entre dois colectivos poéticos acima de todas as suspeitas: O COPO, poesia de entretenimento científico pela boca e pelos cotovelos de Paulo Condessa e Nuno Moura, e a Caixa Geral de Despojos, que alinha, desta feita, com três avançados bons de cabeça: Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

O prato da noite é irresistível: textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas.

Prometemos: um recital com jantes alargadas, um recital com as vacinas em dia, um recital com curvas francesas, um recital com o futuro a tiracolo, um recital a pensar noutra coisa, um recital que parece dois. Por fim: um recital com o cunho da flamejante parelha João Gesta - Mafalda Capela. Ele, futuro preparador físico da selecção do Mali, ela, futura Ministra das Pescas e arredores. Gente sem jeito para o negócio, diga-se.

Registam-se, nesta noite, as estreias nas "Quintas de Leitura" da artista plástica Manuela Pimentel , responsável pela imagem da sessão (a imagem acima é dela), e ainda da performer Mariana Rocha que apresentará a peça "Curta-mixagem".

E no fim disto tudo, chega de Cuba, a tempo e horas, o pianista e compositor Carlos Maza. Dar-nos-á a conhecer o projecto "Trotamundo".

Um recital que apetece levar para casa.

Espectáculo para maiores de 16 anos, exactamente porque sim.

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

Mais alguns imarcescíveis momentos com Adília Lopes:

Amo-te

1
A serpente do Paraíso
era de plástico
biodegradável

2
Não sou
uma poetisa obscura
a literatura
não me fez
bizarra
e não é uma parra

3
Sem caridade
a literatura
não vale

4
Conheço o pão
que o Diabo
amassou
e o maná

5
Não me basta
este jacarandá

(in "Obra", Mariposa Azual)

29/10/08

-Irene!Irene!Sirva o leite-creme!

(Paulo Condessa e Nuno Moura - o COPO por Pat)

O COPO, distinto colectivo poético da Lísbia, apresentará uma intervenção composta exclusivamente por poemas de Adília Lopes.

Publicaremos, a partir de hoje, para aguçar o apetite aos seguidores das "Quintas", alguns poemas dessa inefável poeta.

Dois casos citados por Christian Lacroix

Uma freira
passou a vida
a passajar
tom sobre tom
o mesmo avental
azul escuro

Um funcionário público
coleccionou
a vida inteira
a publicidade
que lhe metiam
na caixa do correio

x

Andou
pelas casas
de Deus
a pedir Deus
às pedras
e as pedras
deram-lhe Deus

x

A tua carta
é palpável
cheirável
e beijável
tu não
porque estás
muito longe
de mim
(tenho pena
que seja
assim)

x

Ela fodeu
mas não
como eu

x

No cacilheiro
o namorado beija
a namorada
mas por cima
do ombro dela
olha-me
com muita curiosidade

(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)