16/06/10
AS ESCOLHAS POÉTICAS DE ISAQUE FERREIRA
Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter
Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas
Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)
A vida
é livro
e o livro
não é livre
Choro
chove
mas isto é
Verlaine
Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico
(poema de Adília Lopes)
15/06/10
AS ESCOLHAS POÉTICAS DE ISAQUE FERREIRA
quando eu partir apanhado de surpresa
como se tolhido por um dislate dito
vão fazer o quê com os meus livros?
com o problema inesperado do peso?
com o teu modo peculiar de olhar-me?
com a minha aptidão para o silêncio?
(a minha biblioteca é indivisível)
quando eu estiver como um retrato
acelerado ao longo de uma recta
vão desiquilibrar os meus cristais?
representar um luto muito preto?
respeitar a distância que mantinha?
quando eu partir apanhado de surpresa
para a viagem que jamais descarrila
(poema de José Sebag)
14/06/10
AS ESCOLHAS POÉTICAS DE ISAQUE FERREIRA
Herberto Helder, para começar:
Uma negra californiana, prevendo a morte próxima do seu cão, quis adquirir uma concessão perpétua num cemitério canino. O concessionário devolveu-lhe o pedido com a seguinte nota: «Os cães cujos proprietários são negros devem ser inumados em cemitérios para cães negros.»
07/06/10
“ISAQUETAMENTE”

O ciclo poético “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre, organizado pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, propõe para este mês um espectáculo diferente, baseado nas escolhas poéticas de Isaque Ferreira, um dos recitadores mais aclamados no decorrer dos 9 anos de existência deste ciclo.
“Isaquetamente”- nome dado ao recital – está agendado para 17 de Junho, às 22h00, no grande auditório do TCA, com um alinhamento fértil em momentos inusitados.
Isaque Ferreira escolheu textos de Luiz Pacheco, Herberto Helder, José Sebag, Nuno Brito, Mário Cesariny e António José Forte, entre outros, e será acompanhado nas leituras por Teresa Coutinho, Margarida Carvalho e Paulo Campos dos Reis. O recital começa com um incisivo manifesto do Poeta argentino Aldo Pellegrini onde se define a Poesia como tudo aquilo que fecha a porta aos imbecis e a abre de par em par aos inocentes. Segundo Pellegrini, a Poesia só pretende cumprir uma tarefa: que este mundo não seja habitável só para os imbecil.
Em ligação com textos e leituras poder-se-á ver ao vivo e a cores a pintura do artista plástico Mário Vitória, expressa em quatro trabalhos de grande dimensão que depois do palco transitarão para o foyer deste teatro.
Pretexto ainda para a participação especial de Rui Lima (música), de Natasha Semmynova (Drag Queen performance) e de Né Barros (dança) que convida João Martinho Moura (arte digital/engageLab, UMinho).
Fecha a noite uma das bandas mais inspiradas do panorama musical português - Sean Riley & The Slowriders, num imperdível concerto (quase) acústico.
Há noites assim: lucipotentes.
Espectáculo para maiores de 16 anos.
31/05/10
27/05/10
24/05/10
É já na próxima quinta-feira que o colectivo poético "O COPO" apresentará na sessão das "Quintas de Leitura" a sua desconcertante performance "Ó`Neill, tás bué baril?".
Recordamos hoje mais um poema do grande Alexandre O'Neill:
FALA!
Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala franciú fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.
(Alexandre O'Neill in "Poesias Completas"/Assírio & Alvim. Fotografia: O COPO por Pat)
20/05/10
19/05/10
Notável Eça
"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá...vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal".
18/05/10
Que será?
"QUINTAS DE LEITURA": EU VOU
ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
(poema de Wislawa Szymborska, Prémio Nobel de Literatura 1996)
13/05/10
MÁ CONSCIÊNCIA
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?
Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo,
não por ilusão.
(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)
12/05/10
POESIA-CÃO
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)
GUTA NAKI
Estreia absoluta no Porto e nas "Quintas" da banda "GUTA NAKI".
Será na noite de 27 de Maio na sessão Casas Kitadas.
Vencedores do último Restart Resound Fest, de onde saíram nomes como "Os Pontos Negros" e "Lobster" em edições anteriores, os "Guta Naki" apresentam-nos canções de corpo inteiro. Uma voz ampla capaz de abarcar o céu e o inferno num só fôlego, numa lírica cuidada. Um trio (Cátia Pereira, Dinis Lapa e Nuno Palma) aparentemente inofensivo que, depois de ligado à corrente, se transfigura, envolvendo-nos numa catártica viagem que se quer interminável.
A POESIA DE ALEXANDRE O´NEILL
Da gaiola de vidro, à prova de bala,
o suja-chaminés observava a sala.
Reforçara-se muito, nos últimos meses,
a sua fé em Deus.
Não nesse que desce pela chaminé
e entretém, candidamente, a nossa fé.
Mas num Deus mais volátil,
de iconografia mais industrial,
sempre a subir ao céu por toda a eternidade.
Na gaiola de vidro, à prova de bala,
o suja-chaminés era visto da sala.
Diz-se que, afinal,
matou menos judeus do que se julgava.
(Alexandre O´Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)
10/05/10
O COPO NAS "QUINTAS" - Dia 27 de Maio
Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor
Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um
De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)
07/05/10
Ó'Neill, Tás Bué Baril?
Apresentarão a performance Ó'Neill, Tás Bué Baril?
Começamos a publicar hoje alguns poemas de Alexandre O´Neill, só para vos aguçar o apetite.
POESIA E PROPAGANDA
Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:
E será um verso de amor...
(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)





















