26/01/10

valter hugo mãe nas "Quintas" na próxima quinta-feira

maldição contra o amor sem corpo

para o alberto pimenta

teve a coragem de amar uma mulher com fino cabelo de cristal. à noite, na escuridão da cama, não lhe tocava por amor, e por amor a mulher cuidou do seu cabelo, cada vez mais frondoso e delicado. por isso, passeava o casal orgulhoso de tanta beleza pelas ruas. entravam em casa só mais tarde, quando ninguém sobrava para ver. era também quando se amavam sem se poderem suportar. cada um para seu lugar sem dizer mais nada, com a tensa proximidade da violência. sem filhos, desligavam as luzes e emudeciam. era quando alguns animais irrompiam pelos poros das paredes e fungavam-lhes nos pescoços. o cabelo da mulher ondulava em cintilações no escuro, pela moléstia das pequenas cócegas e mordidas

(poema de valter hugo mãe / livro de maldições / objecto cardíaco)

25/01/10

"BOMBA" ESGOTADA


Já só faltam 3 dias para recebermos de novo nas "Quintas" o poeta valter hugo mãe.
Adivinha-se uma festa cheia de fulgor e momentos imprevistos.
Recordamos, de novo, o nome das estrelas mais brilhantes deste evento único e irrepetível:

poeta convidado
valter hugo mãe

leituras
Adolfo Luxúria Canibal
Isaque Ferreira
Rui Spranger
Sandra Salomé

violino
Ianina Khmelik

fotografia
Nelson D' Aires

dança
Tânia Carvalho
Luís Guerra

música
Tigrala
(Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlo Mendonza)


Quintas de Leitura: não é possível viver sem poesia.

22/01/10

poema sobre o domínio do mundo

para o adolfo luxúria canibal

as raparigas que visitavam o prisioneiro b33920 voltavam a casa grávidas de luz. depois, pariam em segredo ideias absurdas sobre um amor de aflição e afastavam-se lentamente da família. o prisioneiro, sensual, sabedor de tal feito, sorria mostrando o dente brilhante de quem ferrava rápido e sem piedade. tempos passados, tão longe as raparigas, eram procuradas pelos pais e pelas mães com saudade, vítimas de coração, que não as encontravam nem esqueciam. alguns homens desconhecidos afirmavam tê-las visto um dia. os pais e as mães acreditavam. aos homens, frequentemente, faltava uma orelha, um dedo ou até uma perna. e eles reiteravam que as tinham visto. mas, instigados com insistência, admitiam poder tê-las confundido com os dias mais claros

(poema de valter hugo mãe / livro de maldições / objecto cardíaco)

Semanário Grande Porto de hoje


Para ler clicar sobre as imagens.

Entrevista de A. Pedro Ribeiro

ao jornal A VOZ DA PÓVOA refere a sua passagem pelo Teatro do Campo Alegre.
Para ler clicando aqui.

O novo romance de valter hugo mãe




Foi hoje colocada à venda o novo romance de valter hugo mãe, escritor convidado do nosso ciclo poético na próxima semana.

20/01/10

blues

(Fotografia de Pat)


farei do coração uma
caixa vazia, esperarei que se
compadeça apenas com pequenas
ervas e miniscúlos bichos à procura
do escuro e da aspereza da pedra.
e para mais nada servirei.
não serei sensível a coisa alguma e,
sem equívocos, a culpa será
toda tua, porque me disseste que
ficavas mas foste embora
dentro do coração, talvez, de tão
grande aridez, poderá surgir um
amor pela seca existência das
areias, acredito que um homem,
tão vazio quanto eu, um deserto,
queira sentar-se comigo para
sonhar com a humidade antiga
do beijo, e só esse gesto será todo
o amor permitido, nenhum outro

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)


18/01/10

a morte em três dimensões

o diabo ganiu de fúria quando me viu,
baixou a cabeça cem metros e encarou-me
pequeno e insignificante. por momentos,
não fez nada. reparei nos mutilados que me
traziam instrumentos de corte quando alguém me
ateou o fogo. depois, ele disse,
tens muito com que te entreteres, mas podes
começar por oferecer os pulmões à fome dos outros, no
inferno, como sabes, não se respira. e eu usei a adaga
para furar a pele e abrir caminho entre as
costelas, com a própria mão retirei
os pulmões e estendi-os no chão, pequenos,
fatiados


a margarida faz esborre

estou com o joão peste a
ver quem passa. o parque está
calmo e não há sobressaltos.
o joão pergunta, ei, senhor monstro,
quem lhe contou isso. rimos.
o senhor monstro quer sentar-se,
mas tem entre as pernas
a margarida que lhe entrou pelo cu.
que faz ela aí, perguntei eu

está à procura de ideias, disse
ele. se eu me sentar,
o mais certo é partir-lhe a
espinha das costas, desfazer-lhe os ossos.
dá-me pena

reparamos, antes ainda, que
os rapazes estão impossíveis,
ficam-nos com o dinheiro em troca
de um biscate. para irem buscar o
jornal já não chega que lhes digamos um
poema do cesariny, ou mesmo que lhes
prometamos bilhetes para os concertos.
gozam-nos as barrigas a crescer,
o lustro da calvice

os rapazes trazem o jornal, chupam
gelados, agarram nas moedas à pressa,
empurram o senhor monstro, ele cai,
a margarida faz esborre

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

a virgindade da amélia

primeiro ano, curso de direito, univ. moderna, porto, noventa

aceita este livro, diria, mais bonito
do que os outros. encontrarás nele
imagens, sim, imagens que talvez te
surpreendam. mas não te assustes,
tantas vezes to peço, não te assustes.
repara na natureza das coisas, em como
é tão comum depararmo-nos com estas ideias
e talvez entendas

há uma pornografia erudita feita
para gente como nós. uma coisa assim entre
o querer fazer, a aflição espiritual
e o amor eterno

depois vem cá ter. juro-te que às
cinco em ponto da tarde não há ninguém
na casa dos meus pais

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

Quase esgotado


Novo espectáculo de Pedro Tochas nas Quintas de Leitura

Pouco tempo depois de abrir, na passada sexta-feira, dia 15 de Janeiro, a bilheteira do TCA para o novo espectáculo de Pedro Tochas "PONTO INTERROGATIVO”, em estreia absoluta no Porto, já estava quase esgotada.

Este espectáculo marca a 13ª presença do comediante nas "Quintas de Leitura", promovidas pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, desta feita com uma fórmula simples: Pedro Tochas e mais dez pessoas, em círculo, instalados no palco do TCA, durante trinta minutos.

O mote: uma pergunta e depois se verá onde as coisas vão parar...

O comediante, na sua busca de encontrar novas formas de comunicar e estar em contacto com o público, criou "Ponto Interrogativo", uma mistura entre espectáculo, tertúlia, sessão de terapia em grupo e conversa de café, onde não faltarão os salgadinhos, bolachinhas e refrigerantes.

Esta performance/espectáculo/acontecimento vai ser completamente improvisada. Dez pessoas de cada vez, trinta minutos de partilha total com o artista. Tudo sem rede.

Cada sessão vai ser única e íntima. O resultado final será uma incógnita até para o próprio artista.

As possibilidades de participar neste "encontro" são várias:

Dias 4, 5 e 6 de Fevereiro. Cinco espectáculos por dia, nos seguintes horários: 21h00, 21h45, 22h30, 23h15 e 24h00. Os Bilhetes custam 6,00 e 9,00 Euros.

Avançamos, ainda, algumas recomendações para tirarem o máximo partido desta experiência única:

- tente fazer a sua sessão/espectáculo com desconhecidos;

- casais e grupos deverão procurar sessões diferentes para depois poderem partilhar o que aconteceu em cada sessão.

O TCA cá o espera para mais esta desconcertante aventura com Pedro Tochas.


(Fotografia de Raquel Viegas)

Fevereiro - espectáculo em estreia

Para ler clicar sobre a imagem.


CONSELHO PARA O PÚBLICO

(Sugerido por Pedro Tochas):

Ø PARA TIRAR O MAIOR PARTIDO DESTA EXPERIÊNCIA, É ACONSELHADO QUE TENTE FAZER A SUA SESSÃO/ESPECTÁCULO COM DESCONHECIDOS.

Ø CASAIS E GRUPOS DEVEM TENTAR IR A SESSÕES/ESPECTÁCULOS DIFERENTES PARA, NO FIM, PODEREM PARTILHAR O QUE ACONTECEU EM CADA UMA.

A POESIA DE VALTER HUGO MÃE

a minha avó

um dia, não passou pela porta da
cozinha.
como se nada fosse,
deu a volta pelo corredor e
abriu a entrada de portadas duplas e
seguiu gorda embora

um dia, saltaram os botões à
bata que vestia, quando se sentou e
a barriga quis espaço para cima dos
joelhos

um dia, apareceu num carro
escuro e chamou por mim. não
quis que o meu pai me oferecesse
dinheiro, achava que era demasiado
para o que eu valia

um dia, soubemos que não nos avisava de
estar em portugal. eu achava que era
muito convencida, como se lhe viessem
flores do cu por privilégio real

um dia, agarrou no meu braço prendendo-me.
suava, estava calor e parecia poder
derreter. disse-me mentiras por maldade. odiava
a candura dos meus doze anos. olhei para ela
e pensei, és uma puta gorda, és gorda e és porca

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

15/01/10

valter hugo mãe

o rapaz dotado de três mortes
tem o nome exactamente igual ao
meu. passa perto de mim a caminho
dos seus afazeres, triste, sem procurar,
como quem sabe chegar inevitavelmente ao
mesmo lugar de sempre. eu nunca diria
algo que pudesse atrasar-lhe o passo,
deixo-me ficar a vê-lo, convencido de
que sei o que acontece na sua vida, certo
de que entrará em casa, logo depois, com
a má sensação de soterrar a alma.
o rapaz dotado de três mortes
tem o rosto exactamente igual ao
meu. dirige-o para o chão e vê pequenas
pedras e grãos de areia, desvia-se do
lixo que moribunda pelo vento, os olhos
castanhos capazes de serem verdes pela luz
mais intensa do sol, o cabelo raro, a boca muito
fechada para dentro, poucos lábios, um queixo
redondo, feio, muito redonda toda a expressão,
delicada de mais para quem contém tanta
fúria para o bem e para o mal.
o rapaz dotado de três mortes
tem um sonho exactamente igual ao
meu. espera encontrar quem genuinamente o
queira, sem condições, como se esperasse
pela água e fosse semente e pudesse germinar
com o aspecto que lhe aprouvesse e ser, enfim,
de uma qualquer espécie sem reservas nem
preocupações.
o rapaz dotado de três mortes
só pensa em morrer. acorda para morrer.
pensa que a morte é a grande oportunidade. tudo
o mais é atrito no caminho. pensa que,
se houver deus, a morte é
verdadeiramente a oportunidade que conta. e
esforça-se por merecê-la.
hoje, sem que eu contasse, olhou para mim, não
disse nada, percebeu como éramos iguais e
não me estranhou. convenci-me de que já vira
outros como nós, à espera, fartos da vida
com ar de quem ainda quer mais. cheguei a casa,
pouco depois, soterrei a alma, permaneci
imóvel diante dos livros. pensei, há-de
haver um poema que me tire daqui, um
só poema que me traga a morte com toda a
benignidade do mundo

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)
Jornal Global Notícias de hoje.

14/01/10

JANEIRO É MÊS DE VALTER HUGO MÃE NAS "QUINTAS"

(Fotografia valter hugo mãe por Pat)

O Poeta valter hugo mãe é o próximo convidado das "Quintas de Leitura". BOMBA, assim se intitula a sessão, será uma grande festa da poesia, construída em torno da figura e da obra deste grande nome da literatura portuguesa.

Recordaremos, nos próximos dias, alguns textos emblemáticos da obra de valter hugo mãe.


erótica de fã

quero não ficar espantado se me nascer
um filho de tanto ouvir caetano veloso,
quero não explicar nada sobre este
tão grande amor



nossa senhora das andorinhas cansadas

no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

13/01/10

AINDA CESARINY

SONETO

nada sobre esta mão nada na outra
dum lado o pé do outro a maresia
para os lados do rim a luz é pouca
e uma vez sem exemplo é que eu queria

josé sebag em hong-kong toca
um psaltério roído pela traça
dá as mãos amarelas a uma foca
que evoca uma descida até à graça

dos dois elevadores lança-se a louca
paço por paço constrói-se o tapume
deita-se o sexo à beira da tua boca

o cardeal tardini vai ao lume
o teu cabelo sobe pela praça
anunciam-se braços de garoupa



À JUSTA

vou aqui por este lado
a vistoriar o historiado

vou por aqui e vou bem
já o dizia a minha mãe

pobre morta é verdade
mas é assim a eternidade

vou depressa antes que anoiteça
e o campo de facto desapareça

e canto esta canção irregular
que é como canta quem anda a vistoriar

(poemas de Mário Cesariny)

12/01/10

AINDA A POESIA DE MÁRIO CESARINY

ENVOÛTEMENT

quem lê na infância está perdido
quem não lê na infância está salvo
andar de automóvel é um acto suspeito
não andar de automóvel não é um acto suspeito
o lisboa não anda de automóvel
o fernando não anda de automóvel
o henrique não anda de automóvel
o carlos não anda de automóvel
o carlos lê na infância
o pedro oom não anda de automóvel

há um lago de brilhantes na minha boca
a minha boca é uma passadeira branca
as bocas dos meus amigos são passadeiras brancas
a boca da maria josé é uma passadeira branca
o mário henrique é uma passadeira branca
o joão artur é uma passadeira branca
(...)

(Mário Cesariny / Primavera Autónoma das Estradas / Assírio & Alvim)

Página 1 - 8 de Janeiro de 2010.

No Jornal de Notícias de hoje.

11/01/10

MÁRIO CESARINY, SEMPRE!

Fotografia de Manuel Luís Cochofel (a-trompa. net)


A sessão do próximo dia 28 de Janeiro ("BOMBA") é uma homenagem de valter hugo mãe ao Poeta Mário Cesariny. Vamos, nos próximos dias, recordar alguns poemas de Cesariny.

TOCATA

quando tu tocas Debussy
chove extraordinariamente
o sol as casas levemente doira
mas na saleta está-se bem
fazes sempre assim!

por mim
sinto um duende benigno que sorri
não bem de ti!
nada de Debussy!
mas do igual da hora
de sempre chover
de estar sempre frio lá fora
quando tu tocas Debussy



LAFCÁDIO

o que a minha mão segue
tem mais perplexidade que moral
nunca é só triste nunca é só alegre
é o instante a curva desigual
a seta desferida
pela gratuitidade acontecida

(poemas de Mário Cesariny / Manual de Prestidigitação / Assírio & Alvim)

07/01/10

OS POETAS CONVIDADOS DAS "QUINTAS"

Nos próximos meses iremos receber os seguintes poetas:

28 de Janeiro
"BOMBA"
poeta convidado: valter hugo mãe

25 de Março
"PÕE A CASSETE DA TEMPESTADE"
poetas convidadas: Ana Salomé, Bénèdicte Houart, Catarina Nunes de Almeida e Filipa Leal

Outros poetas que fazem parte da programação para 2010:

Daniel Maia-Pinto Rodrigues
José Rui Teixeira
Rui Costa
Miguel-Manso
João Luís Barreto Guimarães
Rosa Alice Branco
Ana Luísa Amaral
José Luís Peixoto
Gonçalo M. Tavares
João Habitualmente
Sérgio Godinho
José Tolentino Mendonça

06/01/10

OS CONCERTOS DAS "QUINTAS"



Um comentário: muito boa música.
Vejam como não estamos a exagerar:

28 de Janeiro (22h00)
TIGRALA
Norberto Lobo (tambura) / Guilherme Canhão (guitarra acústica) / Ian Carlos Mendonza (vibrafone e percussão)


25 de Fevereiro (22h00)
B FACHADA
RAÚL PEIXOTO DA COSTA


25 de Março (22h00)
THE LEGENDARY TIGERMAN


Digam connosco: - concertos imperdíveis!!!

(Fotografia : Legendary Tigerman por JBMondino)

04/01/10

OS MOMENTOS MAIS MARCANTES DO ANO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

("Fazes-me falta"- fotografia de Sara Moutinho)

O programador parou para pensar, puxou pela memória, puxou dos apontamentos e fez alguns telefonemas secretos.

E, agora, quer partilhar convosco as suas opiniões.


OS 2 MELHORES ESPECTÁCULOS DO ANO:

Livre (Setembro 2009)

Fazes-me falta (Junho 2009)


MELHOR FLYER DO ANO:

Havemos de ir a Viana


MELHOR IMAGEM DO ANO:

Joana Rêgo em "Havemos de ir a Viana"

Mário Vitória em "Um poeta no sapato"


MELHOR PERFORMANCE DO ANO:

Álvaro Domingues em "A Rua da Estrada"


OS MELHORES CONCERTOS DO ANO:

Slimmy

B Fachada

Mazgani

Aldina Duarte

Raúl Peixoto da Costa (piano)


A REVELAÇÃO DO ANO:

Maria do Céu Ribeiro (leituras)


Quintas de Leitura: a força da Palavra.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

31/12/09

Bom 2010

valter hugo mãe regressa ao TCA



A PRIMEIRA DAS QUINTAS DE LEITURA DE 2010 É “BOMBA”

A sessão "BOMBA" marca o regresso do poeta e romancista valter hugo mãe às "Quintas de Leitura" promovidas pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento. Será a sua 6ª presença neste ciclo poético, num espectáculo a realizar dia 28 de Janeiro de 2010, às 22h00, no Auditório do TCA.

"Bomba" é uma narrativa poética, inédita, de valter hugo mãe, escrita em jeito de homenagem a Mário Cesariny. A leitura dos 12 textos que compõem a obra será assegurada pelo próprio autor, que se fará acompanhar por Adolfo Luxúria Canibal, Isaque Ferreira, Rui Spranger e Sandra Salomé. A convidada especial Ianina Khomelik, violinista russa, também intervirá neste momento.

O jovem fotógrafo Nelson D' Aires, prémio revelação FNAC em 2006, dá imagem à sessão.

O sempre esperado momento de dança será, desta feita, afirmado por dois elementos da companhia "Bomba Suicida". Tânia Carvalho e Luís Guerra apresentarão a peça "HURRA! ARRE!" (versão Boca de Cena), numa ousada coreografia de Luís Guerra.

Fica para o fim um dos momentos mágicos da sessão - estreia nas "Quintas de Leitura" do trio lisboeta TIGRALA formado por Norberto Lobo (um dos mais promissores e celebrados guitarristas portugueses da nova geração), Guilherme Canhão (guitarrista dos Lobster) e Ian Carlos Mendonza (percussionista mexicano).

Oriundos de universos musicais que poucos achariam compatíveis, os TIGRALA apresentam-se em formato acústico, com Norberto Lobo a trocar a guitarra pela tambura, Guilherme Canhão a desligar a sua guitarra da corrente e Ian Carlos Mendonza a esticar criativa e melodicamente o conceito de percussão.

Em suma: uma noite bombástica, acima de todas as suspeitas.

Espectáculo para maiores de 18 anos.

Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.

A PRÓXIMA "QUINTA DE LEITURA". IMPERDÍVEL.

Intitula-se "BOMBA" e realiza-se no dia 28 de Janeiro (22h00).
Trará ao palco do Auditório do TCA um mar de estrelas.
Vejam só:

valter hugo mãe (poeta convidado)

Adolfo Luxúria Canibal, Rui Spranger, Isaque Ferreira e Sandra Salomé (leituras)

Nelson D´Aires (fotografia)

Tânia Carvalho e Luís Guerra (dança)

Tigrala
(Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlos Mendonza)

e ainda a participação especial da violinista russa Ianina Khmelik.

Foi você que pediu uma sessão bombástica?

29/12/09

A POESIA DE ADÍLIA LOPES

A árvore de Natal
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow

O NORTE DA EUROPA

I

O Pai Natal coberto de lantejoulas ia subindo a ladeira com ar circunstancial. O cumprimento que me dirigiu, corrigido por um gesto de perfeita cortesia, era tão naturalmente rico de proteínas que se comia à mão, em fato de baile.
Os dias iam correndo pela mão daquela cujo nome se vai ocultar na Península da Gata, a norte do Carvoeiro.
«É assim que cumpres?», perguntou Júlia Bahamas. Respondi que não era ainda tempo de colher maçãs e que também as uvas estavam por amadurecer. E acrescentei, exclamativamente:
«Ó Estações!»
Mas aí já ninguém ouvia ninguém, o círculo apertava-se coberto de espuma.

Mário Cesariny/António Dacosta
Primavera Autónoma das Estradas

23/12/09

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL

Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não

(poema de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

22/12/09

NATAL DE 1964

Este ano a quadra festiva vai ser melhor do que nunca

no seu centro vai haver
um grande grande ramo de flores
que é por onde vão entrar
uns atrás dos outros de cabeça pra baixo
os rapazes de mais categoria das artes e das letras
uns atrás dos outros de mãos dadas
cantarolando com a boca cheia
e escorregando docemente escorregando
para debaixo da mesa
onde os espera Jesus
para introduzi-los na grande sala de recepção ao vómito

Quanto ao autor destes versos
aguardará um telefonema até ao último momento
mas à cautela e antes que seja tarde
já comprou um cachucho
que mandou fechar à chave no seu cofre-forte

(poema de António José Forte, in "Uma Faca Nos Dentes")

21/12/09

Uma Família Inglesa
















Fotografias de Ana Pereira

Uma Família Inglesa
O Serviço Educativo e as Quintas de Leitura do TCA, numa nova iniciativa em conjunto propuseram, desta feita, uma leitura encenada do clássico "Uma Família Inglesa" de Júlio Diniz, numa adaptação do escritor Manuel Jorge Marmelo para a Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças.

Tratou-se de um projecto destinado a famílias, multidisciplinar, reunindo à volta da obra a criatividade e o talento de quatro artistas.

Concepção: João Gesta e Rute Pimenta
Leituras: Ângela Marques
Fotografia e Vídeo: Ana Pereira e Paulo Américo
Música: Hugo Osga com os instrumentos GU CHANG ( china), BUL BUL TARANG (Índia), DUM DUM (África , etnia Mandinga) Cabaça Africana Dentro de Alguidar de Água e Berimbau de Boca (Sibéria).

Desenho de luz: Diogo Barbedo
Desenho de som: Luís Carlos Pereira.
Este espectáculo estreou no TCA dias 12 e 13 de Dezembro de 2009.

NATAL

A caixa com os enfeites da árvore de Natal guardada no fundo do armário; os filmes bíblicos; a reportagem dos telejornais sobre um homem vestido de pai Natal a andar de trenó na Lapónia; as guerras que param durante a véspera e o dia de Natal; a reportagem sobre a ceia de Natal dos sem-abrigo; o Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras; os anúncios de brinquedos cada vez mais surpreendentes: bonecas que fazem isto, robots que fazem aquilo; o Natal dos Hospitais; os domingos passados em pijama, no sofá; a sensação de que nos pode sair o brinde do bolo rei; a comida; os circos; as compras; as ruas com luzes de Natal; velas, sinos, bolas, estrelas; os homens que passam a tarde vestidos de pai Natal no centro comercial; as palavras "especialidades de Natal" escritas em quadrados de papel na montra das pastelarias; os objectos partidos que ficam abandonados nas prateleiras quase vazias da secção de promoções; a senhora da caixa a olhar-nos nos olhos e a dizer: "verde código verde"; as pessoas que são contratadas para passarem dias a embrulharem presentes sem parar; os postais de Natal que as empresas se lembram de enviar para agradar aos clientes; as mensagens de telemóvel que as pessoas enviam, querendo desejar boas festas e tentando ser originais; os emails que as pessoas enviam, querendo desejar boas festas e tentando ser originais; os aquecedores, as lareiras e as braseiras; a lembrança da missa do galo; os amigos, os vizinhos, os tios, os primos, os irmãos, os cunhados, os sobrinhos; os avós sentados num canto da sala, a assistirem a tudo, a sorrirem, em silêncio; e os pais, e as mães, e os filhos.

(texto de José Luís Peixoto)

TV Porto no site da CMP


Veja reportagens sobre as Quintas de Leitura clicando aqui.

18/12/09

Ontem à noite - CERCO VOLUNTÁRIO


Sónia Baptista - "Rouge"

Vasco Gato, Catarina Nunes de Almeida e Pedro Lamares.


Vasco Gato

Catarina Nunes de Almeida e Pedro Lamares

Pedro Lamares



Marta Bernardes canta na performance "Mofo", com Henrique Fernandes e os Balla Prop.

Durante a performance de Marta Bernardes





Tó Trips deu a conhecer temas do seu novo disco "Guitarra 66".

Fotografias de Sara Moutinho