07/05/10

Ó'Neill, Tás Bué Baril?

Um dos momentos da próxima "Quinta de Leitura" será assegurado pelo colectivo poético "O Copo". Poesia de entretenimento científico, como eles gostam de dizer.
Apresentarão a performance Ó'Neill, Tás Bué Baril?
Começamos a publicar hoje alguns poemas de Alexandre O´Neill, só para vos aguçar o apetite.


POESIA E PROPAGANDA

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

(Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas"/ Assírio & Alvim)

04/05/10


“Casas Kitadas”

As "Quintas de Leitura", ciclo poético organizado pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, prossegue o seu curso imparável com uma sessão verdadeiramente esquisita intitulada "Casas Kitadas". Uma noite estranha, rara, requintada e invulgar ao serviço da Palavra.

O evento realiza-se no dia 27 de Maio, às 22h00, no Auditório do Teatro do Campo Alegre.

Anunciam-se duas horas de intenso espectáculo, divididas por quatro momentos distintos. Não faltará a poesia, a música, o canto lírico, a performance e até o sapateado.

O geógrafo (e performer) Álvaro Domingues abre as hostilidades. Vai falar-nos de "Casas Kitadas". E explica:

"Enganam-se os que pensam que uma casa serve só para habitação, ou que é o domínio do privado e da vida familiar. Uma Casa Kitada na Rua da Estrada é muito mais do que um lar; é um desassossego, uma arquitectura instável buscando uma solução para adequar um edifício a outra função para a qual não foi pensado - um café no rés-do-chão ou uma esplanada no jardim, o que seja. Só se estranha o que não se consegue explicar."

A conferência de Álvaro Domingues será abrilhantada pela interacção da cantora lírica Mónica Lacerda Pais. Momento sublime, a não perder.

O momento de poesia será assegurado pelo colectivo poético "O Copo". Poesia de entretenimento científico. Nuno Moura e Paulo Condessa lerão textos de Alexandre O'Neill, numa actuação intitulada "Ó 'Neill, tás bué baril?". São textos do dito, assim ditos sem correctamente nem politicamente. Imprevisibilidade q.b. tal qual o próprio O`Neill, isto é, poesia quente e fria.

Falando de música, estreia absoluta no Porto e nas "Quintas" da banda "GUTA NAKI". Vencedores do último Restart Resound Fest, de onde saíram nomes como "Os Pontos Negros" e "Lobster" em edições anteriores, os "Guta Naki" apresentam-nos canções de corpo inteiro. Uma voz ampla capaz de abarcar o céu e o inferno num só fôlego, numa lírica cuidada. Um trio (Cátia Pereira, Dinis Lapa e Nuno Palma) aparentemente inofensivo que, depois de ligado à corrente, se transfigura, envolvendo-nos numa catártica viagem que se quer interminável.

Por fim, um regresso muito esperado nas "Quintas": Cristina Delius, artista de sapateado contemporâneo.

Cristina, um dos nomes mais importantes do sapateado europeu, a residir há muitos anos em Berlim, faz-se acompanhar, desta feita, pela sua banda "Tripeco", constituída por Silvia Ocougne (guitarra), Johannes Gunkel (contrabaixo) e Beatriz Serrão (percussão). Promete-se ao espectador uma viagem percussiva através da música dos mundos. Emoção, improvisação, virtuosismo. Uma aventura acústica e visual, com a marca das "Quintas de Leitura".

João Gesta, o programador do ciclo, remata, com um conselho amigo:

“Seja um dos 250 espectadores privilegiados que poderão, no dia seguinte, contar esta noite esquisita aos seus amigos. Noite única, irrepetível. Salte para o nosso lado da barricada”.

28/04/10

Descobrimos na Internet esta obra.
O Pinguim é Tiago Guillul
(novo EP - "O Aquecimento do Lendário Homem-Pinguim")
- o desenho também.
Gostamos por isso partilhamos, embora esta sessão tenha sido na semana passada.
Para ver melhor por favor clicar sobre a imagem.

27/04/10

Espaço dos Livros



Performance de Lila e Thoth Angelique (EUA)



Performance de Antonija Livingstone (Canadá)

Eduardo Dias Martins

Gonçalo M. Tavares e Luis Baptista

Diogo de Castro Guimarães

Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares e Luis Baptista

Ben, Tiago Guillul e Lipe.

Rui Reininho, de surpresa, numa actuação extraordinária.

Tiago Guillul



A sessão de Quintas de Leitura de 22 de Abril com Gonçalo M. Tavares.
Fotografias de Sara Moutinho.

22/04/10





Notícias publicadas na imprensa de hoje. Por ordem: Público, Oje, Jornal de Notícias e Destak.
Para ler clicar sobre as imagens.

21/04/10

NUNCA SE VIU NADA ASSIM

Um cardápio saboroso e variado. Amanhã, dia 22, nas "Quintas de leitura":


GONÇALO M. TAVARES - leituras

OS ESPACIALISTAS (Luís Baptista e Diogo de Castro Guimarães) - imagem

ANTONIJA LIVINGSTONE - performance

THOTH e LILA ANGELIQUE - performance musical

EDUARDO DIAS MARTINS - harpa

TIAGO GUILLUL & CONVIDADOS - música


Momentos irrepetíveis. Se não viu, nunca mais verá.

É já na próxima "Quinta".

o cão e a cidade

É simples e rápido de contar: o cão de um vizinho, mais precisamente do senhor D., cegou. Uma doença e a idade.
O cão sempre vivera e passeara por ali, pelas redondezas, pelo meio dos sons, dos cheiros, daquele ar.
O senhor Calvino ofereceu-se. Ao fim do dia ia buscar o cão cego e levava-o, de coleira, a passear pela cidade.

(texto de Gonçalo M. Tavares, in " O Senhor Calvino" / Editorial Caminho)

19/04/10

Um poema de Gonçalo M. Tavares

o perto, o longe

Não há definições minuciosas, quando aproximamos
O olhar daquilo que conhecemos surge o espanto,
Por vezes assustamo-nos; é no pormenor
Daquilo que é familiar que surge o perigo, e um certo
Desencanto. Por vezes é
Melhor não olharmos tempo de mais para o que
Amamos, alguém disse.
Dá atenção ao inimigo para o conseguires
Amar, não analises o que amas para que nenhum erro
Se infiltre no encanto. Se fiz isto, se o faço?

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água Editores)

16/04/10

Gonçalo M. Tavares nas "Quintas de Leitura". Dia 22 de Abril. A não perder.

perguntas, respostas

Conheço pouco o mundo, os meus pais sempre
Perceberam o aborrecimento profundo que
Qualquer viagem me trazia. Fui absolutamente físico,
Lutava, era empurrado, empurrava, caía,
Na mesma tarde apanhava sol calmo e um murro forte.
Mas agora não. Por mim, a partir de hoje,
Fixava os acontecimentos
Dos dias a uma parede, com um material qualquer -
Não há cola assim tão forte, eu sei, nem os agrafos
São ferramenta com força para agarrar o que acontece,
Mas um certo recato sim, uma certa constância de hábitos,
Uma disciplina inútil, estúpida, egoísta, sim, certamente
Isso tudo, mas a disciplina, o saber qual é o nosso
Passo, quais os sítios onde preferimos perder-nos, isso sim
Permite tornar os acontecimentos paisagem
E a nossa cabeça, protagonista.
E o mundo?, dirão. Sim, é verdade, a certas perguntas
Não sei responder e certas respostas que dou
Envergonham-me.

(poema de Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D' Água Editores)

12/04/10

O Senhor Gonçalo nas "Quintas de Leitura"

Uma carta de Calvino (em férias)

Excelentíssima Anna, por aqui os campos, com os seus cereais robustos, continuam a tapar melhor os movimentos sexuais do que os uivos que daí resultam. Trata-se pois de uma discordância evidente entre som e sua origem. E sendo o prazer um excesso acima do mais táctil, é de salientar no entanto a elevação agitada do som que se torna na atmosfera o actor principal, atirando assim - por via do vento - um rubor forte à cara das aldeãs que da janela pensavam ver, mas afinal ouvem.
Devido aos campos férteis que funcionam como cortina, nesses instantes, onde casais jovens se excitam como instrumentos afinados, para um surdo, cara Anna, a janela torna-se subitamente inútil.

(texto de Gonçalo M. Tavares, in "O Senhor Calvino" / Editorial Caminho)

07/04/10

"O ESPAÇO" na obra de Gonçalo M. Tavares

1.º sonho de Calvino

Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores.Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para onó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento:chega ao chão, impecável.

(texto de Gonçalo M. Tavares, in "O Senhor Calvino, Editorial Caminho)

01/04/10

Gonçalo M. Tavares de regresso às “Quintas de Leitura”


A próxima sessão do ciclo poético "Quintas de Leitura"- promovido pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento - assinala a 5ª presença do escritor Gonçalo M. Tavares nesta iniciativa. O evento, intitulado "ESPAÇO DOS LIVROS", realiza-se no próximo dia 22 de Abril, às 22h00, no Auditório do Teatro do Campo Alegre.

Gonçalo M. Tavares fará leituras - em redor do espaço - de excertos dos livros "1" e "O Bairro" (onde vivem vários Senhores, entre eles, o Senhor Calvino, que dará o texto à folha de sala da sessão). "Os Espacialistas" (Luís Baptista e Diogo de Castro Guimarães) interagem com as leituras do convidado, apresentando um trabalho visual e plástico. Estreia absoluta.

Assinale-se a participação da coreógrafa e performer canadiana Antonija Livingstone. Uma participação especial nas "Quintas de Leitura", inspirada na obra de Gonçalo M. Tavares. A sua prática como coreógrafa é bastante autodidacta, tendo raízes nas intersecções da sua experiência com o Ballet Clássico, o Contact-Improvisation e as Artes Marcias chinesas e actuando como Drag King, em clubes e contextos queer em todo o Canadá, Nova York e Berlim. A convite da Obra Madastra - estrutura de produção e difusão de artes performativas - Antonija Livingstone apresentará ainda no Auditório de Serralves o solo "The part" (24 de Abril) e participará num workshop (dias 25 e 26 de Abril).

Ao espectáculo acrescente-se também a estreia neste ciclo do harpista Eduardo Dias Martins que também ajudará à festa.

A sessão fecha em beleza com o músico Tiago Guillul. Ele é um pregador baptista, homem de família, colunista, crítico literário, conferencista e, nas horas vagas, um dos mais importantes e proeminentes nomes da música portuguesa do Séc.XXI. Em 1999 Tiago Guillul funda a editora FlorCaveira que o vem consolidar enquanto músico profícuo e visionário produtor. O seu quarto álbum a solo, "Tiago Guillul IV", é o disco do reconhecimento, com os generalizados aplausos da crítica e a incessante curiosidade dos media. Faz-se acompanhar, neste concerto, pelos músicos Guel e Lipe.

Uma grande festa da poesia porque, já se sabe, ninguém pode viver sem Sonho.

Espectáculo para maiores de 16 anos.

26/03/10

Ontem à noite: PÕE A CASSETE DA TEMPESTADE

Sónia Baptista (performance)


A actriz Isabel Nunes

Ana Salomé

A bailarina Iris Sofia

Bénédicte Houart

Catarina Nunes de Almeida

Filipa Leal


Marta Bernardes apresentou as Poetas em substituição de Catarina Portas



The Lengendary Tigerman

Fotografias de Sara Moutinho.

22/03/10

AS "QUINTAS" EM CONCERTO:


Fotografia "Legendary Tigerman" por JBMondino

Muita e boa música se anuncia para as próximas sessões.
Fiquem com água na boca:


25 de Março
THE LEGENDARY TIGERMAN

22 de ABRIL
TIAGO GUILLUL & CONVIDADOS (GUEL e LIPE)

27 de Maio
GUTA NAKI

17 de Junho
SEAN RILLEY & SLOWRIDERS
e ainda
RUI LIMA ( "O projecto é Grave!")

15 de Julho
OSSO VAIDOSO(Ana Deus + Alexandre Soares)
Os Dois Tristes Tigres voltam a atacar...

30 de Setembro
SAMUEL ÚRIA

"Quintas de Leitura" ou A MÚSICA DA POESIA.

19/03/10

A POESIA DE FILIPA LEAL

POR UMA LUZ REAL

A rapariga debaixo da luz verde
da árvore
parecia usar a máscara disforme
dos pesadelos.

Era uma imagem nítida,
quase branca.

Fumava.
Olhava-me para dentro do medo
sem rosto
debruçada, lenta, circular.

Era noite.
Eu estava na rua à tua espera.
Na rua não, no carro.
Eu estava no carro de vidros abertos
de olhos abertos
debruçada.

Mas felizmente tu chegaste
com a tua luz real (tão real)
para me interromper o pesadelo.

x-x


QUARTO MINGUANTE

Os adolescentes da cidade
deitavam-se cada vez mais cedo.

Faltava-lhes o espaço para a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que só no quarto a sós
lhes denunciava a paixão.

Os adultos da cidade
deitavam-se cada vez mais tarde.

Não suportavam a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que no quarto só
lhes denunciava a solidão.

(2 poemas de Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/Deriva Editores)