
30/04/10
28/04/10
27/04/10
Espaço dos Livros
22/04/10
21/04/10
NUNCA SE VIU NADA ASSIM
GONÇALO M. TAVARES - leituras
OS ESPACIALISTAS (Luís Baptista e Diogo de Castro Guimarães) - imagem
ANTONIJA LIVINGSTONE - performance
THOTH e LILA ANGELIQUE - performance musical
EDUARDO DIAS MARTINS - harpa
TIAGO GUILLUL & CONVIDADOS - música
Momentos irrepetíveis. Se não viu, nunca mais verá.
É já na próxima "Quinta".
É simples e rápido de contar: o cão de um vizinho, mais precisamente do senhor D., cegou. Uma doença e a idade.
O cão sempre vivera e passeara por ali, pelas redondezas, pelo meio dos sons, dos cheiros, daquele ar.
O senhor Calvino ofereceu-se. Ao fim do dia ia buscar o cão cego e levava-o, de coleira, a passear pela cidade.
(texto de Gonçalo M. Tavares, in " O Senhor Calvino" / Editorial Caminho)
19/04/10
Um poema de Gonçalo M. Tavares
Não há definições minuciosas, quando aproximamos
O olhar daquilo que conhecemos surge o espanto,
Por vezes assustamo-nos; é no pormenor
Daquilo que é familiar que surge o perigo, e um certo
Desencanto. Por vezes é
Melhor não olharmos tempo de mais para o que
Amamos, alguém disse.
Dá atenção ao inimigo para o conseguires
Amar, não analises o que amas para que nenhum erro
Se infiltre no encanto. Se fiz isto, se o faço?
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água Editores)
16/04/10
Gonçalo M. Tavares nas "Quintas de Leitura". Dia 22 de Abril. A não perder.
Conheço pouco o mundo, os meus pais sempre
Perceberam o aborrecimento profundo que
Qualquer viagem me trazia. Fui absolutamente físico,
Lutava, era empurrado, empurrava, caía,
Na mesma tarde apanhava sol calmo e um murro forte.
Mas agora não. Por mim, a partir de hoje,
Fixava os acontecimentos
Dos dias a uma parede, com um material qualquer -
Não há cola assim tão forte, eu sei, nem os agrafos
São ferramenta com força para agarrar o que acontece,
Mas um certo recato sim, uma certa constância de hábitos,
Uma disciplina inútil, estúpida, egoísta, sim, certamente
Isso tudo, mas a disciplina, o saber qual é o nosso
Passo, quais os sítios onde preferimos perder-nos, isso sim
Permite tornar os acontecimentos paisagem
E a nossa cabeça, protagonista.
E o mundo?, dirão. Sim, é verdade, a certas perguntas
Não sei responder e certas respostas que dou
Envergonham-me.
(poema de Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D' Água Editores)
12/04/10
O Senhor Gonçalo nas "Quintas de Leitura"
Excelentíssima Anna, por aqui os campos, com os seus cereais robustos, continuam a tapar melhor os movimentos sexuais do que os uivos que daí resultam. Trata-se pois de uma discordância evidente entre som e sua origem. E sendo o prazer um excesso acima do mais táctil, é de salientar no entanto a elevação agitada do som que se torna na atmosfera o actor principal, atirando assim - por via do vento - um rubor forte à cara das aldeãs que da janela pensavam ver, mas afinal ouvem.
Devido aos campos férteis que funcionam como cortina, nesses instantes, onde casais jovens se excitam como instrumentos afinados, para um surdo, cara Anna, a janela torna-se subitamente inútil.
(texto de Gonçalo M. Tavares, in "O Senhor Calvino" / Editorial Caminho)
07/04/10
"O ESPAÇO" na obra de Gonçalo M. Tavares
Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores.Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para onó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento:chega ao chão, impecável.
(texto de Gonçalo M. Tavares, in "O Senhor Calvino, Editorial Caminho)
01/04/10
Gonçalo M. Tavares de regresso às “Quintas de Leitura”

A próxima sessão do ciclo poético "Quintas de Leitura"- promovido pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento - assinala a 5ª presença do escritor Gonçalo M. Tavares nesta iniciativa. O evento, intitulado "ESPAÇO DOS LIVROS", realiza-se no próximo dia 22 de Abril, às 22h00, no Auditório do Teatro do Campo Alegre.
Gonçalo M. Tavares fará leituras - em redor do espaço - de excertos dos livros "1" e "O Bairro" (onde vivem vários Senhores, entre eles, o Senhor Calvino, que dará o texto à folha de sala da sessão). "Os Espacialistas" (Luís Baptista e Diogo de Castro Guimarães) interagem com as leituras do convidado, apresentando um trabalho visual e plástico. Estreia absoluta.
Assinale-se a participação da coreógrafa e performer canadiana Antonija Livingstone. Uma participação especial nas "Quintas de Leitura", inspirada na obra de Gonçalo M. Tavares. A sua prática como coreógrafa é bastante autodidacta, tendo raízes nas intersecções da sua experiência com o Ballet Clássico, o Contact-Improvisation e as Artes Marcias chinesas e actuando como Drag King, em clubes e contextos queer em todo o Canadá, Nova York e Berlim. A convite da Obra Madastra - estrutura de produção e difusão de artes performativas - Antonija Livingstone apresentará ainda no Auditório de Serralves o solo "The part" (24 de Abril) e participará num workshop (dias 25 e 26 de Abril).
Ao espectáculo acrescente-se também a estreia neste ciclo do harpista Eduardo Dias Martins que também ajudará à festa.
A sessão fecha em beleza com o músico Tiago Guillul. Ele é um pregador baptista, homem de família, colunista, crítico literário, conferencista e, nas horas vagas, um dos mais importantes e proeminentes nomes da música portuguesa do Séc.XXI. Em 1999 Tiago Guillul funda a editora FlorCaveira que o vem consolidar enquanto músico profícuo e visionário produtor. O seu quarto álbum a solo, "Tiago Guillul IV", é o disco do reconhecimento, com os generalizados aplausos da crítica e a incessante curiosidade dos media. Faz-se acompanhar, neste concerto, pelos músicos Guel e Lipe.
Uma grande festa da poesia porque, já se sabe, ninguém pode viver sem Sonho.
Espectáculo para maiores de 16 anos.
26/03/10
24/03/10
22/03/10
AS "QUINTAS" EM CONCERTO:

Fiquem com água na boca:
25 de Março
THE LEGENDARY TIGERMAN
22 de ABRIL
TIAGO GUILLUL & CONVIDADOS (GUEL e LIPE)
27 de Maio
GUTA NAKI
17 de Junho
SEAN RILLEY & SLOWRIDERS
e ainda
RUI LIMA ( "O projecto é Grave!")
15 de Julho
OSSO VAIDOSO(Ana Deus + Alexandre Soares)
Os Dois Tristes Tigres voltam a atacar...
30 de Setembro
SAMUEL ÚRIA
"Quintas de Leitura" ou A MÚSICA DA POESIA.
19/03/10
A POESIA DE FILIPA LEAL
A rapariga debaixo da luz verde
da árvore
parecia usar a máscara disforme
dos pesadelos.
Era uma imagem nítida,
quase branca.
Fumava.
Olhava-me para dentro do medo
sem rosto
debruçada, lenta, circular.
Era noite.
Eu estava na rua à tua espera.
Na rua não, no carro.
Eu estava no carro de vidros abertos
de olhos abertos
debruçada.
Mas felizmente tu chegaste
com a tua luz real (tão real)
para me interromper o pesadelo.
x-x
QUARTO MINGUANTE
Os adolescentes da cidade
deitavam-se cada vez mais cedo.
Faltava-lhes o espaço para a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que só no quarto a sós
lhes denunciava a paixão.
Os adultos da cidade
deitavam-se cada vez mais tarde.
Não suportavam a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que no quarto só
lhes denunciava a solidão.
(2 poemas de Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/Deriva Editores)
18/03/10
A POESIA DE CATARINA NUNES DE ALMEIDA

na cavalgada.
Irei eu a galope em meus pés
veloz por entre as avezinhas
do fundo das águas-furtadas
em águas de lábios furtadas
veloz e espessa como a torrente
de um parto.
Irei eu em todas as minhas mãos
pégasos e ventanias
o corpo preso por um frio gentil
o corpo a tilintar de sonhos.
Serei eu o que ele for
na cavalgada.
Irei eu sem música sem mesa posta
dar-lhe prato verde
onde caibamos os dois dar-lhe
este emudecimento este abatimento cardíaco
da floresta.
x-x
Cântico dos Cântaros
Voltando um pouco atrás
à costura das fotografias
àquela escuridão pulmonar onde te vi
pela primeira vez onde eras
mais que certo quase cavalo
quase branco
a galope nos meus dentes.
Fotografias do tempo em que chamavas
árvore de rapina ao instrumento
que te educava os dedos.
Um dedilhar de amigo
à beira do vinhal.
Um encantar de amigo.
Se te deixasse ficar à sombra
haveria ainda as linhas da tua mão
tão irregulares tão imponderáveis
como a chuva nas boas noites.
Haveria ainda o perfume das grainhas
na primeira curva da manhã.
Era no tempo das fotografias.
Agora, dizes tu, há o orvalho dos murtais
um cesto silencioso e humano.
Nunca saberás que isso a que chamas
silêncio orvalho
eu chamo música
e toco-a.
(2 poemas de Catarina Nunes de Almeida)
17/03/10
A poesia de Bénédicte Houart
no exterior do café portugal
ninguém lhe põe moedas
ninguém empoleirado
aos solavancos, ninguém
as moedas mudaram
as crianças cresceram
os adultos ganharam juízo e amealharam
para elefantes de verdade
com bosta e tudo
se não pelo teu próprio nome
por que nome responderás tu então?
x - x
fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objectos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma, escoamentos
coisa que como podeis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar poema tão original
x - x
tenho um mamilo sempre erecto e
outro sempre murcho
ora bem,
a interpretação que faço do fenómeno
embora duvidando que entusiasme alguém
é a seguinte:
um pressente coisas de que o outro nem suspeita
coitado do primeiro
quando não há nada
coitado do segundo
se quiser arrebitar
(3 poemas de Bénédicte Houart, in "Vida:Variações"/ Cotovia)




































