29/01/10

a virgindade da maria luísa

terceiro ano, curso de direito, univ. moderna, porto, noventa e três


maria, agora que já viste como
estamos longe de tudo, achas que
podemos passar ao nosso quarto

é certo que não virá quem nos
incomode. não creio que isso
possa horrivelmente acontecer

deixei sobre a cama uma
fina camisa de seda para ti,
e para mim reservo a própria luz

sim, ficarei sob uma determinada
luz, estive a pensar nisso e
é bem verdade o que concluí

melhor te pareço no moreno das
lâmpadas mais fracas, um pouco
ao jeito da cor das árvores

o que me torna num homem
mais forte, muito masculino
e sobretudo de aparência estável

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

As imagens da BOMBA de ontem à noite

"Urra!Arre" ( Versão Boca de Cena)
Tânia Carvalho e Luís Guerra



Rui Spranger e Isaque Ferreira ( leituras)

Adolfo Luxúria Canibal e Sandra Salomé (leituras)

valter hugo mãe ( poeta convidado)

Ianina Khmelik (participação especial)







Tigrala - Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlos Mendonza (música)


Fotografias de Sara Moutinho.

Ponto Interrogativo - Pedro Tochas


De cima para baixo: revista Visão de ontem e semanário Grande Porto de hoje. Para ler por favor clicar sobre as imagens.

A próxima Quinta de Leitura é já para a semana !

Só para relembrar. Para ler por favor clicar sobre a imagem.

26/01/10

valter hugo mãe nas "Quintas" na próxima quinta-feira

maldição contra o amor sem corpo

para o alberto pimenta

teve a coragem de amar uma mulher com fino cabelo de cristal. à noite, na escuridão da cama, não lhe tocava por amor, e por amor a mulher cuidou do seu cabelo, cada vez mais frondoso e delicado. por isso, passeava o casal orgulhoso de tanta beleza pelas ruas. entravam em casa só mais tarde, quando ninguém sobrava para ver. era também quando se amavam sem se poderem suportar. cada um para seu lugar sem dizer mais nada, com a tensa proximidade da violência. sem filhos, desligavam as luzes e emudeciam. era quando alguns animais irrompiam pelos poros das paredes e fungavam-lhes nos pescoços. o cabelo da mulher ondulava em cintilações no escuro, pela moléstia das pequenas cócegas e mordidas

(poema de valter hugo mãe / livro de maldições / objecto cardíaco)

25/01/10

"BOMBA" ESGOTADA


Já só faltam 3 dias para recebermos de novo nas "Quintas" o poeta valter hugo mãe.
Adivinha-se uma festa cheia de fulgor e momentos imprevistos.
Recordamos, de novo, o nome das estrelas mais brilhantes deste evento único e irrepetível:

poeta convidado
valter hugo mãe

leituras
Adolfo Luxúria Canibal
Isaque Ferreira
Rui Spranger
Sandra Salomé

violino
Ianina Khmelik

fotografia
Nelson D' Aires

dança
Tânia Carvalho
Luís Guerra

música
Tigrala
(Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlo Mendonza)


Quintas de Leitura: não é possível viver sem poesia.

22/01/10

poema sobre o domínio do mundo

para o adolfo luxúria canibal

as raparigas que visitavam o prisioneiro b33920 voltavam a casa grávidas de luz. depois, pariam em segredo ideias absurdas sobre um amor de aflição e afastavam-se lentamente da família. o prisioneiro, sensual, sabedor de tal feito, sorria mostrando o dente brilhante de quem ferrava rápido e sem piedade. tempos passados, tão longe as raparigas, eram procuradas pelos pais e pelas mães com saudade, vítimas de coração, que não as encontravam nem esqueciam. alguns homens desconhecidos afirmavam tê-las visto um dia. os pais e as mães acreditavam. aos homens, frequentemente, faltava uma orelha, um dedo ou até uma perna. e eles reiteravam que as tinham visto. mas, instigados com insistência, admitiam poder tê-las confundido com os dias mais claros

(poema de valter hugo mãe / livro de maldições / objecto cardíaco)

Semanário Grande Porto de hoje


Para ler clicar sobre as imagens.

Entrevista de A. Pedro Ribeiro

ao jornal A VOZ DA PÓVOA refere a sua passagem pelo Teatro do Campo Alegre.
Para ler clicando aqui.

O novo romance de valter hugo mãe




Foi hoje colocada à venda o novo romance de valter hugo mãe, escritor convidado do nosso ciclo poético na próxima semana.

20/01/10

blues

(Fotografia de Pat)


farei do coração uma
caixa vazia, esperarei que se
compadeça apenas com pequenas
ervas e miniscúlos bichos à procura
do escuro e da aspereza da pedra.
e para mais nada servirei.
não serei sensível a coisa alguma e,
sem equívocos, a culpa será
toda tua, porque me disseste que
ficavas mas foste embora
dentro do coração, talvez, de tão
grande aridez, poderá surgir um
amor pela seca existência das
areias, acredito que um homem,
tão vazio quanto eu, um deserto,
queira sentar-se comigo para
sonhar com a humidade antiga
do beijo, e só esse gesto será todo
o amor permitido, nenhum outro

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)


18/01/10

a morte em três dimensões

o diabo ganiu de fúria quando me viu,
baixou a cabeça cem metros e encarou-me
pequeno e insignificante. por momentos,
não fez nada. reparei nos mutilados que me
traziam instrumentos de corte quando alguém me
ateou o fogo. depois, ele disse,
tens muito com que te entreteres, mas podes
começar por oferecer os pulmões à fome dos outros, no
inferno, como sabes, não se respira. e eu usei a adaga
para furar a pele e abrir caminho entre as
costelas, com a própria mão retirei
os pulmões e estendi-os no chão, pequenos,
fatiados


a margarida faz esborre

estou com o joão peste a
ver quem passa. o parque está
calmo e não há sobressaltos.
o joão pergunta, ei, senhor monstro,
quem lhe contou isso. rimos.
o senhor monstro quer sentar-se,
mas tem entre as pernas
a margarida que lhe entrou pelo cu.
que faz ela aí, perguntei eu

está à procura de ideias, disse
ele. se eu me sentar,
o mais certo é partir-lhe a
espinha das costas, desfazer-lhe os ossos.
dá-me pena

reparamos, antes ainda, que
os rapazes estão impossíveis,
ficam-nos com o dinheiro em troca
de um biscate. para irem buscar o
jornal já não chega que lhes digamos um
poema do cesariny, ou mesmo que lhes
prometamos bilhetes para os concertos.
gozam-nos as barrigas a crescer,
o lustro da calvice

os rapazes trazem o jornal, chupam
gelados, agarram nas moedas à pressa,
empurram o senhor monstro, ele cai,
a margarida faz esborre

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

a virgindade da amélia

primeiro ano, curso de direito, univ. moderna, porto, noventa

aceita este livro, diria, mais bonito
do que os outros. encontrarás nele
imagens, sim, imagens que talvez te
surpreendam. mas não te assustes,
tantas vezes to peço, não te assustes.
repara na natureza das coisas, em como
é tão comum depararmo-nos com estas ideias
e talvez entendas

há uma pornografia erudita feita
para gente como nós. uma coisa assim entre
o querer fazer, a aflição espiritual
e o amor eterno

depois vem cá ter. juro-te que às
cinco em ponto da tarde não há ninguém
na casa dos meus pais

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

Quase esgotado


Novo espectáculo de Pedro Tochas nas Quintas de Leitura

Pouco tempo depois de abrir, na passada sexta-feira, dia 15 de Janeiro, a bilheteira do TCA para o novo espectáculo de Pedro Tochas "PONTO INTERROGATIVO”, em estreia absoluta no Porto, já estava quase esgotada.

Este espectáculo marca a 13ª presença do comediante nas "Quintas de Leitura", promovidas pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, desta feita com uma fórmula simples: Pedro Tochas e mais dez pessoas, em círculo, instalados no palco do TCA, durante trinta minutos.

O mote: uma pergunta e depois se verá onde as coisas vão parar...

O comediante, na sua busca de encontrar novas formas de comunicar e estar em contacto com o público, criou "Ponto Interrogativo", uma mistura entre espectáculo, tertúlia, sessão de terapia em grupo e conversa de café, onde não faltarão os salgadinhos, bolachinhas e refrigerantes.

Esta performance/espectáculo/acontecimento vai ser completamente improvisada. Dez pessoas de cada vez, trinta minutos de partilha total com o artista. Tudo sem rede.

Cada sessão vai ser única e íntima. O resultado final será uma incógnita até para o próprio artista.

As possibilidades de participar neste "encontro" são várias:

Dias 4, 5 e 6 de Fevereiro. Cinco espectáculos por dia, nos seguintes horários: 21h00, 21h45, 22h30, 23h15 e 24h00. Os Bilhetes custam 6,00 e 9,00 Euros.

Avançamos, ainda, algumas recomendações para tirarem o máximo partido desta experiência única:

- tente fazer a sua sessão/espectáculo com desconhecidos;

- casais e grupos deverão procurar sessões diferentes para depois poderem partilhar o que aconteceu em cada sessão.

O TCA cá o espera para mais esta desconcertante aventura com Pedro Tochas.


(Fotografia de Raquel Viegas)

Fevereiro - espectáculo em estreia

Para ler clicar sobre a imagem.


CONSELHO PARA O PÚBLICO

(Sugerido por Pedro Tochas):

Ø PARA TIRAR O MAIOR PARTIDO DESTA EXPERIÊNCIA, É ACONSELHADO QUE TENTE FAZER A SUA SESSÃO/ESPECTÁCULO COM DESCONHECIDOS.

Ø CASAIS E GRUPOS DEVEM TENTAR IR A SESSÕES/ESPECTÁCULOS DIFERENTES PARA, NO FIM, PODEREM PARTILHAR O QUE ACONTECEU EM CADA UMA.

A POESIA DE VALTER HUGO MÃE

a minha avó

um dia, não passou pela porta da
cozinha.
como se nada fosse,
deu a volta pelo corredor e
abriu a entrada de portadas duplas e
seguiu gorda embora

um dia, saltaram os botões à
bata que vestia, quando se sentou e
a barriga quis espaço para cima dos
joelhos

um dia, apareceu num carro
escuro e chamou por mim. não
quis que o meu pai me oferecesse
dinheiro, achava que era demasiado
para o que eu valia

um dia, soubemos que não nos avisava de
estar em portugal. eu achava que era
muito convencida, como se lhe viessem
flores do cu por privilégio real

um dia, agarrou no meu braço prendendo-me.
suava, estava calor e parecia poder
derreter. disse-me mentiras por maldade. odiava
a candura dos meus doze anos. olhei para ela
e pensei, és uma puta gorda, és gorda e és porca

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

15/01/10

valter hugo mãe

o rapaz dotado de três mortes
tem o nome exactamente igual ao
meu. passa perto de mim a caminho
dos seus afazeres, triste, sem procurar,
como quem sabe chegar inevitavelmente ao
mesmo lugar de sempre. eu nunca diria
algo que pudesse atrasar-lhe o passo,
deixo-me ficar a vê-lo, convencido de
que sei o que acontece na sua vida, certo
de que entrará em casa, logo depois, com
a má sensação de soterrar a alma.
o rapaz dotado de três mortes
tem o rosto exactamente igual ao
meu. dirige-o para o chão e vê pequenas
pedras e grãos de areia, desvia-se do
lixo que moribunda pelo vento, os olhos
castanhos capazes de serem verdes pela luz
mais intensa do sol, o cabelo raro, a boca muito
fechada para dentro, poucos lábios, um queixo
redondo, feio, muito redonda toda a expressão,
delicada de mais para quem contém tanta
fúria para o bem e para o mal.
o rapaz dotado de três mortes
tem um sonho exactamente igual ao
meu. espera encontrar quem genuinamente o
queira, sem condições, como se esperasse
pela água e fosse semente e pudesse germinar
com o aspecto que lhe aprouvesse e ser, enfim,
de uma qualquer espécie sem reservas nem
preocupações.
o rapaz dotado de três mortes
só pensa em morrer. acorda para morrer.
pensa que a morte é a grande oportunidade. tudo
o mais é atrito no caminho. pensa que,
se houver deus, a morte é
verdadeiramente a oportunidade que conta. e
esforça-se por merecê-la.
hoje, sem que eu contasse, olhou para mim, não
disse nada, percebeu como éramos iguais e
não me estranhou. convenci-me de que já vira
outros como nós, à espera, fartos da vida
com ar de quem ainda quer mais. cheguei a casa,
pouco depois, soterrei a alma, permaneci
imóvel diante dos livros. pensei, há-de
haver um poema que me tire daqui, um
só poema que me traga a morte com toda a
benignidade do mundo

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)
Jornal Global Notícias de hoje.