02/12/09

“Cerco Voluntário”de Vasco Gato com entrada livre



Uma festa sublime de Poesia

A 98ª sessão do ciclo poético "Quintas de Leitura" ficará marcada pela presença de Vasco Gato, justamente considerado como uma das vozes mais importantes da chamada "novíssima poesia portuguesa".

A sessão, intitulada "Cerco Voluntário", realiza-se no dia 17 de Dezembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA, e assinalará o lançamento do 13º livro da colecção "Cadernos do Campo Alegre". O livro, também intitulado "Cerco Voluntário", é da autoria de Vasco Gato, o poeta convidado desta sessão.

Refira-se que por esta colecção, sob a direcção editorial de João Gesta, programador das "Quintas de Leitura", têm passado nomes importantes da poesia portuguesa como Marta Bernardes, Filipa Leal, Daniel Jonas, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Regina Guimarães.

A sessão de lançamento de "Cerco Voluntário" será uma longa e sublime festa da Poesia, cheia de convidados e momentos especiais.

A poeta Catarina Nunes de Almeida falará sobre o novo livro de Vasco Gato e será ajudada pelo actor Pedro Lamares na leitura de alguns poemas da obra. Vasco Gato também fará algumas leituras.

A imagem da sessão é assinada pela artista plástica Sandra Filipe, também responsável pela capa do livro, que assim se estreia nas "Quintas de Leitura".

No habitual e sempre esperado momento dedicado à performance, Sónia Baptista regressa com a irreverência de sempre, para nos mostrar a sua peça inédita "Rouge".

Como sempre, nas noites das "Quintas", muita música nos espera:

Marta Bernardes, cantora, artista plástica, poeta, filósofa, performer, videasta, e o que mais não se sabe, surpreender-nos-á com "Mofo". Actuará com os músicos Henrique Fernandes e as Balla Prop.

A noite fechará em beleza com um concerto de trinta minutos protagonizado por Tó Trips, membro da banda Dead Combo, que nos dará a conhecer temas do seu novo disco "Guitarra 66".

A boa notícia:

A entrada é LIVRE, sujeita a levantamento de bilhete até ao limite da lotação da sala. Depois não diga que as "Quintas de Leitura" não estão atentas à crise...

Junte-se a nós, na noite de 17 de Dezembro. Nós gostamos de o surpreender.


Uma enchente para assistir ao espectáculo de Pedro Tochas





Fotografias de Raquel Viegas
captadas na sessão de Quintas de Leitura do TCA - Lado B de Pedro Tochas,
a 26 de Novembro de 2009.

VASCO GATO NAS "QUINTAS DE LEITURA". DIA 17 DE DEZEMBRO. SESSÃO IMPERDÍVEL.

SONATA


O violoncelo encosta a cabeça ao teu ombro
e é um lamento ainda vegetal que lhe sai do sangue
quando o arco rasga o ar, o silêncio, a mão.


Fechas e abres os olhos, há gente a escutar,
as paredes curvam-se e estalam, tudo é frágil,
e a partitura é sempre um pouco além do olhar.
Os dedos levitam sua dureza sobre as cordas,
estremeces amarrada à vertigem da tua
própria queda - nisto se ergue a música.


Também tu não possuis trastos, tacteias
interiormente em busca das notas particulares
e do movimento inspirado.


Há uma demorada e subtil alquimia nesta sala.


E o violoncelo é o imóvel instrumento
da tua trágica, suave aparição.

x-x

DO CAIS


Todos os barcos partiram já
deste cais improvisado no abandono
das memórias queimadas, partiram sem velas,
e ninguém reconheceu o rasto incerto
do definitivo longe.


Só agora dou pelo peso do esquecimento.
A espuma embrulha-me com limos, espanto e sal.
E uma inviolável concha flutua na minha existência.


Apago as estrelas com a manga da absoluta solidão,
percebo que nenhuma luz me habita os olhos
- e fico cego diante do espelho.


Ninguém reconheceu que se morria.

(poemas de Vasco Gato, in "IMO"/Edições Quasi)

30/11/09

70.000 PÁGINAS VISITADAS


Festejamos com um belo poema de Vasco Gato, as (quase) 70.000 páginas visitadas ao blogue das "Quintas de Leitura".


DA PAIXÃO

É pelas horas amarrotadas do dia
que fulgura o centro vivo da paixão.

E o coração é como um astro privado.

Ao fundo, posso ver: lutas por raspar
toda a matéria espelhada
do teu corpo. Desejas existir.
Mas a pele, agora o sabes, é
uma dura conquista.

A demorada beleza dos lírios
foi sempre o demorado lugar
da trégua. Apresentas o rosto
marcado pelo rodar das sombras,
e nas pálpebras o lucilar
tranquilo da idade.

Desapertas a luz, enches os olhos
das imagens impossíveis: todas
as muralhas se afundam na terra,
e o trapézio da noite balança
entre a boca segredada
e o espelho.

Atiras-te por fim para a tua própria
existência. O coração estanca,
transborda de sangue,
e o teu corpo dando nós,
vértebra por vértebra,
em torno do centro vivo da paixão.

(poema de Vasco Gato, in "IMO"/ Edições Quasi)

Poema de A. Pedro Ribeiro


ESPERO POR TI, GORETI

Espero por ti, Goreti
às quatro da manhã no "Big Ben"
espero por ti, Goreti
apesar de saber que estás na Madeira
a mares de mim
a mares das àguas
que bebo aqui
espero por ti, Goreti
no meio da fala da puta
da puta que fala
e dos chulos que se amontoam
em redor
espero por ti, Goreti
apesar de ter gasto o cacau todo
nos bares das redondezas
depois da entrevista na Rádio Casa Viva
depois da Idade Média
no "Armazém do Chá"
e dos outros sítios da moda
onde um gajo se sente como o Lou Reed
Take a walk on the wild side
espero por ti, Goreti
porque hoje até vi o Santo Graal
no "Piolho"
e dei dois euros ao mendigo
espero por ti, Goreti
no meio dos rufias da noite
após uma hora de conversa
com o Zé Pacheco
o escultor
que me passou três euros para a mão
sem eu lhe pedir nada
e a puta que fala
e não se cala
já as conheces há 2000 anos
e continuas a andar
a entrar nas casas
como entravas
e a puta que beija
e a puta que vai
e o empregado
que fala nos quintos do inferno
e até já me sinto nas minhas quintas
e até já volto a pedir cerveja
sou a estrela
e a barriga enche
e o Adriano goza
e o marquês de Sade
já ninguém se escandaliza
mal sabem elas
as palavras do divino
espero por ti, Goreti
e ando a estoirar o dinheiro
do Campo Alegre
assim
como se fosse nada
e a puta fala
e a outra puta não vem
não há aqui
estrelas do rock n' roll
só o gajo
a escrever à mesa
e o pessoal que fala
como a puta
de boina
brasileira
que bebe
e já não saca
mas dá lições de moral
à clientela
e que se vai
e nos deixa sós
com umas estranjas insossas
espero por ti, Goreti
e inauguro o caderno
e sinto-me como Allen Ginsberg
sabes, tens razão
há pessoas que não valem mesmo nada
e o Socrates hoje até foi derrotado
na Assembleia da República
e os gajos só falam
da pen e das gigas
e já não há putas
nem travestis
para animar esta merda

resta-me esperar pelo metro
e aturar estes matrecos
que não dizem
a ponta de um corno
espero por ti, Goreti
e o "Big Ben" já não é
o que era
por todo o lado
me tratam
como ao príncipe da Baviera
já não sou o que era
quando armava confusões
e não tinha um tostão
amanhã não vou sair da aldeia
~vou dar dinheiro aos de lá
sempre é a terra do meu pai
não me fica mal
o pessoal junta-se todo nos sítios
e os outros ficam ás moscas
é tudo uma questão de moda
top-model
como tu poderias ser
e entram os freaks
e pedem sanduíches
e o rock n' roll rola
e telefonei a horas á minha mãe
agora durmo com máscara
por causa da apneia
vai-te deitar, mãe
não fiques á minha espera
que eu hoje estou no rock
andei a fazer observação participante
como se dizia na Faculdade
e já só tenho vontade
de continuar a escrever
espero por ti, Goreti
e já não há putas
no "Big Ben"
anda tudo bem comportadinho
a falar de cabos
e playstations
como o Rocha
que apareceu no "Orfeuzinho"
e me pagou o cafézinho
não suporta o Red e o Dick
mas eu não tenho preconceitos
aprendi com o Nietzsche
já o disse na entevista
espero por ti, Goreti
e a mulher e a namorada
está entretida com o computador
enquanto o gajo olha para a TVI
até parece que os gajos
me querem filmar
sou uma estrela
há gajos que me reconhecem
mas as gajas não me dão
beijos na boca
deve ser por causa da barriga
é por causa dos fritos
e do pão
a cerveja já não conta
até a deito fora
a partir de certa hora
é veneno
mas juro que no "Piolho"
bebi o Graal
estava a micar uma gaja
que estava a escrever
eu conheço-a
não sei de onde
até ensaiei em Vila do Conde
na praia
onde há gajos a pescar
não sei o quê
vá-se lá perceber o homem

Espero por ti, Goreti
e ainda há gajos que dão
as boas noites
a toda a gente
que se armam
em presidente
e o Sócrates
e o Vara
e o Godinho
são todos um docinho
deviam ir todos presos
apesar do Reinaldo
e dos indefesos
ide todos dar uma volta
o homem controla
e ordena
e isto está uma bruta seca
espero por ti, Goreti
e vou ter de pedir mais cerveja
é mais forte do que eu
estes gajos fazem-me a cama
e só me pedem cartão
e eu vou até
ao fim do filão
este pessoal dos bares
desconhece o "Big Ben"
fica mesmo junto à estação
não há que enganar
está tudo fodido
mas é o que está a dar
espero por ti, Goreti
e aparecem gajas
para um gajo olhar
não são grande coisa
até vou mijar
espero por ti, Goreti
e até dou espectáculo
faço piruetas
equilibrismo
e até nem fui dançar
as putas falam comigo
mas eu já gastei o cacau
sou o maior
sou um carapau
espero por ti, Goreti
e nunca escrevi como hoje
se me tivesses ligado
era outra dose
espero por ti, Goreti,
não sou o Pablo Neruda
sou mais como o Ginsberg
levo tudo à bruta
espero por ti, Goreti
e esta merda não muda
um gajo bem diz umas coisas
mas a gaja é surda
espero por ti, Goreti
e não se passa nada
o cabrão fala, fala
e nunca mais é
de madrugada
o gerente inteligente
mas põe-me doente
e anda tudo com
um sorriso "pepsodent"
espero por ti, Goreti
e isto nunca mais acaba
o relógio não avança
e não se passa nada
ninguém fala do Sócrates
nem do Vara
anda tudo de tola avariada
espero por ti, Goreti
e sabes que te espero
e sabes que te quero
até ao fim.


Porto, "Big Ben", Novembro de 2009.

(Fotografia de Pat captada na sessão de Quintas de Leitura do TCA - Um Poeta no Sapato - Outubro de 2009. A ler: António Pedro Ribeiro)

27/11/09

MAIS POESIA DE VASCO GATO

MÍMICA

Pode a noite doer
se as mãos tocarem a sua própria pureza
e houver um ponto negro ao centro

Quando no pulso
parece crescer uma pequena solidão
como se o espaço se afastasse e de repente
um véu cobrisse
todas as memórias futuras

Pode a noite tremer assim
para que os muros se abram ao meio

Para que a transparência dos gestos
publique essa mímica oculta
antiga intimidade

x-x

REGRAS DO ESQUECIMENTO


Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

x-x

ETERNO OUTONO

Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?

(poemas de VASCO GATO, in "IMO"/ Edições Quasi)

25/11/09

CASTING QUINTAS DE LEITURA


- A AVENTURA CHEGOU AO FIM -

Concluímos ontem o processo de selecção dos candidatos ao Casting das “Quintas de Leitura”, que envolveu quase duzentos participantes e oito dias de apresentações, ao longo de três meses de trabalho.

Queremos, antes de tudo, agradecer e salientar o empenho e o profissionalismo demonstrado por todos os candidatos que connosco se cruzaram nesta maratona poética.

As “Quintas de Leitura” saíram fortalecidas ao fim deste Caminho trilhado entre versos, emoções e descobertas.

Resta-nos referir os nomes dos candidatos seleccionados nesta derradeira fase, que nos acompanharão nas acções poéticas a realizar em 2010 e 2011:

Ana Celeste Ferreira
Brisa Marques
Carla Marques
Mariana Reis
Miguel Ramos
Pedro J. Ribeiro
Renato Cardoso
Rita Reis
Teresa Arcanjo
Teresa Coutinho
Vera Cruz

Saudações Poéticas

João Gesta

E

Patrícia Vaz

(Fotografia de Pat em 24 de Novembro de 2009)

23/11/09

A POESIA DE VASCO GATO


haverá talvez um poema


haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

x-x

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem


quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

x-x

primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

(poemas de VASCO GATO, in "Um Mover de Mão"/Assírio & Alvim)
Fotografia de Tiago Vieira

João Gesta - Programa Vizinhos - Porto Canal - Segunda Parte




Pedro Nunes, da Porto Canal, visitou João Gesta no Teatro do Campo Alegre numa noite de ensaios para a sessão de Quintas de Leitura «Um Poeta no Sapato» ( A. Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, Nuno Moura e João Rios).


Dia 29 de Outubro o programa Vizinhos foi emitido.


(Peço desculpa pela demora da publicação da segunda-parte deste programa, mas nem sempre a Internet responde da forma que pretendo. Foi demorado mas consegui).

20/11/09

VASCO GATO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

O poeta Vasco Gato será o convidado das "Quintas de Leitura" no próximo dia 17 de Dezembro.
A sessão intitula-se "Cerco Voluntário" e servirá para lançar o seu livro com o mesmo título, integrado na colecção "Cadernos do Campo Alegre".
Iniciamos hoje a publicação de alguns dos mais belos poemas de Vasco Gato, justamente considerado como uma das vozes mais singulares e importantes da "novíssima poesia portuguesa".


um no outro


imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra


na palma da tua mão


e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te


segredo


segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.

segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.


traço comum


descalço-me de sombras para chegar até ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho a criança o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira

(poemas de Vasco Gato, in "Um Mover de Mão"/ Assírio & Alvim)

18/11/09

Fotografia de Pat


IGUAIS AOS DEUSES

António Pedro Ribeiro

Acordo de madrugada. Penso que sou um rei em cima do palco. As mulheres acham-me piada e riem-se para mim. Ontem só bebi cinco cervejas. Tenho bebido muitas mais noutras noites. Pensava que depois de ter ido ao Campo Alegre as mulheres bonitas me viriam dar beijos na boca. Afinal, não. É a mesma rotina de sempre. É como um gajo em frente ao computador a teclar. Terei algo que os outros não têm. Ando na demanda do Graal, procuro os moinhos de Quixote. A anarquia vem ter comigo. Estou mesmo muito bem disposto. Poderia ter conversas espirituosas com muita gente. Fá-los-ia rir. Pelo menos não ando para aí a partir os vidros dos carros. O que até nem era má ideia. Anjo em chamas. Por onde andas? Por aí, atrás da minha loucura. Os meus berros são de louco. Cambaleio pelo palco. Faz-me falta o Henrique. Ando a ouvir as canções todas das Las Tequillas no youtube. Diz a palavra. Quero ir para o palco. O meu reino por um palco. A plateia aborrece-se, entendia-me. Sempre as pessoas normais a fazer as coisas normais. Sempre as pessoas a dizer avé-maria ao chefe, ao Sócrates, ao Cavaco. Sempre atrás do dinheiro e do estatuto social. Sempre fechadas na família. Sempre a fingir que estão bem. Sempre a criticar o parceiro do lado. Não! Não é isso que quero. Afastei-me dessa via. Não sou mesquinho, não sou merceeiro. Estou do lado da liberdade. Do lado do criador. Do bailarino. Vim para aqui de graça para criar. Assim devo continuar. Assim é o Artista. Provoco os outros. Faço-os rir. Para isso vim ao mundo. Nada a fazer. A vida não é só comer, beber e sacar dinheiro. Estamos aqui para algo de muito mais alto, de mais sublime. Estamos aqui para sermos iguais aos deuses.

17/11/09

Em Dezembro novo livro de Vasco Gato

Para ler clicar sobre a imagem.

CASTING "QUINTAS DE LEITURA" EFECTUADO NOS DIAS 12 E 13 DE NOVEMBRO

Queremos, antes de tudo, registar e agradecer a valiosa participação
e o empenhamento de todos os candidatos
ao casting das "Quintas de Leitura".

Comunicamos, ainda, que passam à segunda e derradeira fase os seguintes participantes:

Ana Celeste Ferreira
Ana Melo
Avelina Vieira
Brisa Marques
Carla Marques
Carolina Sousa
Catarina Costa
Fátima Vale
Isabel Carvalho
Laura Gonzalez
Leonor Cabral
Manuela Leitão
Maria Mata
Mariana Reis
Pedro J. Ribeiro
Renato Cardoso
Rita Reis
Rute Miranda
Sónia Costa
Tânia Dinis
Teresa Arcanjo
Teresa Coutinho
Vera Cruz

Saudações Poéticas

"LADO B" DE PEDRO TOCHAS


ESTE ESPECTÁCULO JÁ ESTÁ ESGOTADO.

PARABÉNS, PEDRO TOCHAS!

11/11/09

ADÍLIA LOPES

A acrobata deu mal um salto mortal
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras

(Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim)

10/11/09

SÓ MAIS UM

UM FIGO


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

09/11/09

Lado B - Espectáculo emblemático


Pedro Tochas nas “Quintas de Leitura”

O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12ª vez. Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. A 26 de Novembro, às 22h00, no auditório do TCA, oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.

A propósito deste espectáculo, João Gesta, o programador, explica:

“Num gigantesco esforço patriótico, a que só as gerações vinhodouras darão o devido apreço, as ‘Quintas de Leitura’ propõem-se combater a depressão que assola o país através da administração de uma vacina feita à base de humor seguro e natural.

O posto de vacinação é o Teatro do Campo Alegre e o enfermeiro de serviço é o comediante Pedro Tochas. A vacina é recomendável a maiores de 16 anos.”

O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de volta nesta bem-disposta e irreverente visão do mundo. Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.


Espectáculo único, para maiores de 16 anos.

Venha curar-se dessa maldita depressão que não o larga, pela módica quantia de 9,00 Euros ou 6,00 (com desconto).

Fotografia: Susana Paiva.

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

LUCINDA E MADAME PALMIRA

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

06/11/09

JOÃO GESTA - Vizinhos - Parte I

Pedro Nunes visitou João Gesta numa das noites de ensaio do último espectáculo de Quintas de Leitura - Um Poeta no Sapato.

No dia da sessão com Daniel Jonas, A. Pedro Ribeiro, João Rios e Nuno Moura, ou seja 29 de Outubro de 2009, todos ficaram a saber desta visita: João Gesta, o nosso programador, esteve 30 minutos em antena na Porto Canal, no magnífico programa Vizinhos.

Aqui fica a primeira parte do programa.


A POESIA DE ADÍLIA LOPES


A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA


A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus

A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)

x-x

MICROBIOGRAFIAS


Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
Fotografia de Graça Sarsfield em Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001. )

04/11/09

MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

x-x

Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar

x-x

DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

x-x

A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

03/11/09

ADÍLIA LOPES


Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.

O BEIJO

Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me

x-x

ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)


Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

x-x

Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda

x-x

Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)

30/10/09

Uma noite revolucionária

Performance - The Story of My Life de Mônica Coteriano e Pedro Gonçalves.


Apresentação de Adriana Faria


O poeta João Rios

Aníbal Andrade acompanhou João Rios na leitura de dois dos seus poemas.

Um poeta no sapato - Nuno Moura, Daniel Jonas, João Rios e A. Pedro Ribeiro.


O poeta A. Pedro Ribeiro


João Rios e Aníbal Andrade


O poeta Nuno Moura

O poeta Daniel Jonas











Música - Moliquentos - Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria)
e Zeca Iglésias (baixo eléctrico)

Fotografias de Sara Moutinho.

27/10/09

UM POETA NO SAPATO

Registamos hoje o nome de todos os artistas envolvidos nesta incendiária sessão. 120 minutos de poesia, música, performance, moda e imagem. A não perder, para quem gosta de emoções fortes.

A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)

Jornal de Notícias

Sugestão publicada dia 25 de Outubro de 2009. Para ler clicar sobre a imagem.

26/10/09

RTP ONLINE

As Quintas de Leitura no site da RTP: para ler clicando aqui.

A. PEDRO RIBEIRO

RUA

A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada

É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.

x-x

SALOON

Todos os loucos desaguam à minha mesa.

O revisor da CP com dúvidas metafísicas
- sabe, estive a pensar como seria o mundo de pernas para o
ar-
o bisneto do escultor
- você é jornalista, faça-me uma entrevista.

As amigas acariciam-se nas bochechas
o filme recua dez anos
matilha que reconhece o totem

Bombos da corte
barbas pontiagudas
rússia imperial

Bazar do czar

Saloon
cavalos à porta
cowboys punks urinóis

chuta, chavalo

x-x

COLT 45

A pele a lata
O poema que se oferece
Em flor
A pose do assassino
Que controla
E o saloon é teu
A cidade é tua
Gingando de pistola
No coldre
Colt 45

x-x

LIKE A ROLLING STONE

Controlada
Abandonada à beira rádio
Perdes o controle e falas
Perdes o controle e calas
E o mundo vira lá fora
E o amigo é inimigo
E já não somos crianças
E meio mundo fode outro meio
E já não há pontos de apoio
Já não há palavras fáceis
E nenhuma das fórmulas gastas serve
E tu corres gemes choras
e eu observo
e amo-te
Quando tudo desaba
E o cigarro morre na boca.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

23/10/09

JOÃO RIOS


A LEI DA EVIDÊNCIA


Você vai a lisboa e não pensa
você vem de lisboa e não estuda
você passa a vida e não lembra
que só a morte o chumba

x - x

IMPRÓPRIOS BURGUESES


Os deste burgo às vezes impróprios burgueses
declaram inquisição ao queque embebedam o polvo
amnistiam o feijão frade
assediam em oratória de canino dourado
o romantismo subalimentado da pequena
do Serafim um seu humilde criado
puro-sague latino que sem pundonor
eleva em belicismo de bagaço
o arroto à condição de colunável

x - x

BIG BANG


Pede café e os últimos crimes bem sucedidos
um valete de viciado tamanho ergue a prata
do punhal e
e perseguem a solidão no friso nocturno da cidade
enquanto um buda de reputada faiança converte
umas suecas
e às tantas big bang um enforcado decide doar a corda
aos comissários mais capazes do paraíso
porque cândidos só os anjos e a alma não seca
por alcançar o céu

(poemas de João Rios. Fotografia de Sara Moutinho)

22/10/09

CASTING "QUINTAS DE LEITURA"


Queríamos, antes de tudo, referir o nível elevado das prestações efectuadas por todos os candidatos. Gostaríamos, ainda, de agradecer o empenho e a cumplicidade manifestada pelos participantes nesta derradeira fase do casting.

Para os candidatos não seleccionados, outros desafios se seguirão, para os quais contaremos sempre com a vossa energia e o vosso talento.

Iremos, à medida das nossas necessidades, trabalhar num futuro próximo, com os seguintes elementos apurados:

Ana Catarina Barbosa
Ana Paiva
Constança Carvalho Homem
David Costa Figueiredo
Gina Macedo
Isabel Fernandes Pinto
Luísa Kotsev
Manuel Tur
Margarida Carvalho
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Rita Machado
Susana Guimarães
Susana Madeira
Valdemar Santos


Saudações Poéticas,

João Gesta
(Programador)

e

Patrícia Vaz
(Produtora)

NUNO MOURA

é mais para a menina
que aquece debaixo da saia
um cavalo

vem da cor directa da fuça
o triciclo da dor

o cavalo vai pela mão
do príncipe

x - x

Um espaço e duas laranjeiras:

porque estava louco cortei
uns meses para a frente
e matei-me ontem entre as mimosas
antes de virem regar o jardim.

andaram da terra dois braços depressa
que me espetaram na cavalita do seu rosto.

com o tronco de fora
dominei o míssel horta toda.

foi a minha melhor cava de sempre.

x - x

Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.

mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.

(poemas de Nuno Moura)

21/10/09

DANIEL JONAS

CONFIAVA QUE SENDO MITSUBISHI A MINHA PENA
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.

x-x


AEROFÁGICAS

Anafada
aquela fada
tem o condão
de não gostar nada
de varinhas mágicas

x-x

COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

x-x

ELEMENTÁRIO

O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer

isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.


(poemas de Daniel Jonas)

19/10/09

A próxima sessão é vezes quatro


Uma "Quinta de Leitura" que vale por quatro.

Quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios.

As "Quintas de Leitura" vão pegar fogo. Quarenta minutos de poemas incendiários, eivados de amor e humor de todas as cores. Entre outros, "Declaração de amor ao primeiro-ministro", por A. Pedro Ribeiro:

"Estou apaixonado pelo primeiro-ministro

Quero vê-lo num filme porno."

Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios são os poetas convidados de um espectáculo único e irrepetível, a acontecer no próximo dia 29 de Outubro, às 22h00, no auditório do TCA.

Pedimos ajuda ao poeta valter hugo mãe e ele descobriu um nome para a sessão: "UM POETA NO SAPATO".

As leituras serão asseguradas pelos Poetas convidados, sendo que a guitarra de Aníbal Andrade acompanhará João Rios em dois poemas.

A bela Adriana Faria, mestre-de-cerimónias, põe água na fervura. O artista plástico Mário Vitória, responsável pela imagem da sessão, deita achas para a fogueira.

No momento dedicado à performance, Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (contrabaixista dos Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life", história baseada na violoncelista Guilhermina Suggia.

Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto de 30 minutos com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico). Bate forte, fortemente...

Concepção de João Gesta, que continua com a pastilha em atraso.

Foi você que pediu uma noite verdadeiramente esquisita?

chichi

sofá

antes

uma volta pelo TCA.


Espectáculo para maiores de 16 anos. Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.


A. Pedro Ribeiro

MAMAS

As mamas de Cláudia
Trouxeram-me o café e um copo de água
E empurraram-me ao balcão

A brasileira arrefece a coxa
Com cerveja
E olha para mim
Enquanto faço crítica literária
À esplanada do "Xaphariz"
E leio um poema
De Jorge de Sena

Os foguetes estalam no ar
E os UHF soltam os cavalos na Apúlia.


A ARDER


"O poeta embriagado
insultava o universo."

(Rimbaud)



O país a arder
e eu também
o país a chorar
e eu a enlouquecer
aos berros
pelas ruas da aldeia
a insultar Deus e o presidente
e a uivar led zeppelin

o país a arder
e eu a beber
copo sobre copo
sem parar
o país a arder
e eu a discutir
com o estalajadeiro
a exibir o cartão do partido
e a carteira profissional
a oferecer poemas às meninas
e a dar-lhes treta

o país a arder
e eu a sofrer
a cambalear
livre, embriagado
animal de palco
o país em fogo
e eu em chamas
anjo em chamas

o país a arder
e eu a delirar.


MUSA

Gigantes de pedra
majestosos
vastidões verdes
precipícios

Eis os teus cabelos
a raiz
os lugares
onde acasalas
onde és plena.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

15/10/09

10 Anos da Visão 7 - Poesia - Quintas de Leitura

A Revista Visão 7, suplemento da revista semanal Visão, faz 10 anos - PARABÉNS!
Para celebar a data, publica hoje um caderno especial (10 Marcos de Mudança) que dá destaque às 10 coisas que mudaram no Porto e no Norte ao longo destes dez anos.
Aqui fica o que dizem das
Quintas de Leitura do TCA.

Para ler por favor clicar sobre a imagem.

14/10/09

NUNO MOURA


(fotografia de Pat - 2008)

UM E UM FORA NADA



Era um divórcio impossível,
ela punha-o embora
mas e aconchegava-lhe a
roupa à mala.


SAPATOS CASTANHOS, CALÇAS, TALVEZ LENÇO


Travessa criança,
toda sinal, e sei que segues
q´nem noite, rastilho de
caramelo.

Consecutivo,
assobio bale ao fundo, tasca-me e
passas concerteza.

Lenga máquina de café.


FRANCISCO


Uma gota de
sangue
cresce verde no
campo.

Corre.


MIGUEL MACHADO, EU


Será um levante
uma enorme vontade de embebedar pelo cú
um arauto?

Será valentia de angora
uma botija de mel quente tão rota
uma patada?

Um soez, um suave português
um galo?

(poemas de NUNO MOURA)

13/10/09

JOÃO RIOS

(Fotografia de Sara Moutinho no espectáculo de lançamento da antologia - Diga 33 - Os poetas das Quintas de Leitura /TCA)

CANÇONETA PARA O SENHOR CRISTOVÃO COLOMBO


Genovês ou moicano
a nacionalidade que se foda
puseste de pé um ovo pelo rabo
e já agora moralmente espero
que te enganes de novo

(poema de João Rios)

DANIEL JONAS

(fotografia retirada do site da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas)


VENTO TOLO


Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjaram colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.

(poema de Daniel Jonas)

A. PEDRO RIBEIRO

(fotografia de Pat)


A NOITE MORRE


A noite morre
Aos poucos
No café das conversas
Um aquecedor protege-me do frio
E os homens que bebem pedem rissóis
Ao som de música minimal repetitiva

A noite morre
À minha mesa
Enquanto o estalajadeiro conta os trocos
Que caem da máquina do tabaco
Que o Governo quer abolir

A noite morre
Mas ainda há gente que ri
Gente que se cruza e encontra e desencontra
E freaks a entoar cânticos futebolísticos

Ah! E depois sou eu que sou esquizofrénico
Sou eu o doido
Fechado no manicómio
No meu condomínio fechado

E a noite morre na cidade.

(poema de A. Pedro Ribeiro)

12/10/09

MIMOS PARA ELISA

elisa. elisa tem ancas gordas e beiços carnudos.
elisa gosta de telefonar ao noivo. sentada no so
fá, com o joãozinho à beira, marca o número e diz:
elisa sim meu bem. entretanto o joãozinho mete o
s dedos por baixo da saia de elisa, mete as mãos,
mete os braços. elisa diz: sim meu bem. enquanto
elisa se recosta, joãozinho mete a cabeça debai
xo das saias de elisa, e faz que sim, faz vivamen
te que sim, enquanto elisa diz: sim meu bem. sim.
estes telefonemas com o noivo são tão longos! se
pararam-se há pouco tempo. o noivo suplica: não
chores elisa. não suspires. a separação não será
eterna. elisa acalma-se. joãozinho sai cá para fo
ra. elisa chega-se muito a ele. joãozinho está ag
ora de pé. o noivo fala fala fala. pergunta: elisa
já comeste os bombons todos que te mandei minha
gulosa? elisa não responde. está com a boca cheia
. mesmo na conchinha do ouvido, muito suavemente,
o noivo chama-lhe gulosa. e outros mimos. outros.

(poema de ALBERTO PIMENTA)

09/10/09

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã.
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

António Pedro Ribeiro

Ribeiro na Pulga.

NUNO MOURA

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luís pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecel pêtê cêpê
renô náique e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(poema de Nuno Moura)

08/10/09

DANIEL JONAS

OS DEUSES NÃO FUNCIONAM.
Dizer meu Zeus não os engana.
Sobre um muro de cal demorada

nenhuma lamentação se torna mais branca,
nem percorrendo bosques no enleio
de ramosa dor Diana
tu não me apareces.

Como um veado inábil
enleio os próprios galhos
em galhos de frondoso alheio
ou o cálice prefixa a cal
como aviso.

Não sei por que procuro assim um deus:
ando à procura de um deus pelos bosques
como de bagas.

(poema de Daniel Jonas)

JOÃO RIOS

havia
árvores e inclinações de bichos
machos e fêmeas
minúsculas pegadas a digitalizar
a lua na terra

havia
as aparas do Cristo dos domingos
levadas à boca mais que as meninas
ancoradas na geografia inexpugnável
do braço das mães

havia
cigarros colados na varanda do rosto
uma colmeia para guardar afagos
antes do uivo e da intriga de duas sílabas
sem fôlego
emudeceram o galope absoluto de um irmão

x - x

o sol é um câncer sem barcos a coreografar
nas mansardas da cidade a impaciência de um rosto
sitiado pelo espólio de uma gramática de angústia

nenhuma voz o resgata nenhuma lágrima o ostraciza
nas amplas galerias do seu nome esquece a rebentação
de outros nomes e que o tempo é uma fábrica de doenças
a contabilizar os seus dias

(dois poemas de João Rios)

07/10/09

CASTING “QUINTAS DE LEITURA”


Queríamos, antes de tudo, agradecer e salientar o empenho e o profissionalismo demonstrado por todos os candidatos que connosco se cruzaram neste casting.

Os vossos testemunhos e experiências enriqueceram-nos e tornaram-nos mais fortes nesta maratona poética de 3 dias.

Apenas alguns passarão à derradeira fase deste processo. Todos os demais, contudo, poderão contar connosco para mais desafios no futuro.

Assim sendo, a próxima viagem será partilhada ao lado dos seguintes candidatos:


Dia 30 de Setembro

Filomena Gigante
Isabel Fernandes Pinto
Joana Teixeira
José Miguel Vitorino
Manuel Tur
Rita Machado
Valdemar Santos


Dia 1 de Outubro

Catarina Barbosa
Constança Carvalho Homem
David Figueiredo
David Pontes
Gina Macedo
Luísa Kotsev
Miguel Ramos
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Sílvia Silva


Dia 2 de Outubro

Ana Paiva
Andreia Serrão de Lima
Fábio Alves
Isabel Castiajo
Margarida Carvalho
Susana Guimarães
Susana Madeira
Tiago Correia
Xana Miranda

Os nomes estão indicados pelo dia de casting e por ordem alfabética, sem qualquer outra ordem.

Os seleccionados serão brevemente contactados, via e-mail, para a etapa derradeira deste processo.

Saudações Poéticas,

João Gesta e Patrícia Vaz

06/10/09

NUNO MOURA

UMA TORRE EM VÃO


Eu vou muito suave nesta obra dos sóis
com o forno dos passos e a uretra
desmantelar a engonha dos salineiros
e a contabilidade do tacto.

De empreitada, arremessar-me fúria toira.

Eu vou muito deitado nesta voz roxa
que solta em pontilha então esbagaçe a pilha
das divisas e este tráfego do progresso
com a maleabilidade de um tira-olhos.

Pegar no soldo deste sismo e levar a impressão dos afagos.

Eu vou muito calmo neste corpo
que tu dizes ser melhor que a minha
cabeça porque um tu sentes e a outra
hás-de tomar, eu vou num grande andar.

(poema de Nuno Moura)

MAIS UM SONÓTONO DE DANIEL JONAS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p´ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

(Daniel Jonas)

02/10/09

JOÃO RIOS

ONZE MANDAMENTOS SEM A MÃO DE DEUS

1-não faças caixinhas à mãe
2-não desiludas a virilidade do pai
3-não micro-ondes o noivo da irmã
4-não alcatifes a oceânica língua da avó
5-não degeneres o cofre maçónico do avô
6-não sociabilizes as patinhas do cão
7-não aplaudas a acrobacia elíptica do gato
8-não enroles o falsete vegetariano do canário
9-não alimentes a neuro solidão do peixinho
10-não suavizes a liberdade geométrica do pombal
11-não aconteças por acaso neste circo domado país

(poema de João Rios)

NUNO MOURA

Desemprego

Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.

(poema de Nuno Moura)

01/10/09

DANIEL JONAS

É OUTONO E CHOVE NO MEU SONETO.

Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.

(Sonótono de Daniel Jonas)

NUNO MOURA

Quem nunca pecou que
atire a primeira pedra.

todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.

alguém disse: é o perdão
de deus.

alguém reparou: mas o mar
vem aí.

(poema de Nuno Moura)