11/11/09

ADÍLIA LOPES

A acrobata deu mal um salto mortal
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras

(Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim)

10/11/09

SÓ MAIS UM

UM FIGO


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

09/11/09

Lado B - Espectáculo emblemático


Pedro Tochas nas “Quintas de Leitura”

O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12ª vez. Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. A 26 de Novembro, às 22h00, no auditório do TCA, oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.

A propósito deste espectáculo, João Gesta, o programador, explica:

“Num gigantesco esforço patriótico, a que só as gerações vinhodouras darão o devido apreço, as ‘Quintas de Leitura’ propõem-se combater a depressão que assola o país através da administração de uma vacina feita à base de humor seguro e natural.

O posto de vacinação é o Teatro do Campo Alegre e o enfermeiro de serviço é o comediante Pedro Tochas. A vacina é recomendável a maiores de 16 anos.”

O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de volta nesta bem-disposta e irreverente visão do mundo. Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.


Espectáculo único, para maiores de 16 anos.

Venha curar-se dessa maldita depressão que não o larga, pela módica quantia de 9,00 Euros ou 6,00 (com desconto).

Fotografia: Susana Paiva.

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

LUCINDA E MADAME PALMIRA

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

06/11/09

JOÃO GESTA - Vizinhos - Parte I

Pedro Nunes visitou João Gesta numa das noites de ensaio do último espectáculo de Quintas de Leitura - Um Poeta no Sapato.

No dia da sessão com Daniel Jonas, A. Pedro Ribeiro, João Rios e Nuno Moura, ou seja 29 de Outubro de 2009, todos ficaram a saber desta visita: João Gesta, o nosso programador, esteve 30 minutos em antena na Porto Canal, no magnífico programa Vizinhos.

Aqui fica a primeira parte do programa.


A POESIA DE ADÍLIA LOPES


A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA


A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus

A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)

x-x

MICROBIOGRAFIAS


Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
Fotografia de Graça Sarsfield em Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001. )

04/11/09

MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

x-x

Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar

x-x

DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

x-x

A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

03/11/09

ADÍLIA LOPES


Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.

O BEIJO

Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me

x-x

ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)


Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

x-x

Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda

x-x

Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)

30/10/09

Uma noite revolucionária

Performance - The Story of My Life de Mônica Coteriano e Pedro Gonçalves.


Apresentação de Adriana Faria


O poeta João Rios

Aníbal Andrade acompanhou João Rios na leitura de dois dos seus poemas.

Um poeta no sapato - Nuno Moura, Daniel Jonas, João Rios e A. Pedro Ribeiro.


O poeta A. Pedro Ribeiro


João Rios e Aníbal Andrade


O poeta Nuno Moura

O poeta Daniel Jonas











Música - Moliquentos - Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria)
e Zeca Iglésias (baixo eléctrico)

Fotografias de Sara Moutinho.

27/10/09

UM POETA NO SAPATO

Registamos hoje o nome de todos os artistas envolvidos nesta incendiária sessão. 120 minutos de poesia, música, performance, moda e imagem. A não perder, para quem gosta de emoções fortes.

A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)

Jornal de Notícias

Sugestão publicada dia 25 de Outubro de 2009. Para ler clicar sobre a imagem.

26/10/09

RTP ONLINE

As Quintas de Leitura no site da RTP: para ler clicando aqui.

A. PEDRO RIBEIRO

RUA

A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada

É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.

x-x

SALOON

Todos os loucos desaguam à minha mesa.

O revisor da CP com dúvidas metafísicas
- sabe, estive a pensar como seria o mundo de pernas para o
ar-
o bisneto do escultor
- você é jornalista, faça-me uma entrevista.

As amigas acariciam-se nas bochechas
o filme recua dez anos
matilha que reconhece o totem

Bombos da corte
barbas pontiagudas
rússia imperial

Bazar do czar

Saloon
cavalos à porta
cowboys punks urinóis

chuta, chavalo

x-x

COLT 45

A pele a lata
O poema que se oferece
Em flor
A pose do assassino
Que controla
E o saloon é teu
A cidade é tua
Gingando de pistola
No coldre
Colt 45

x-x

LIKE A ROLLING STONE

Controlada
Abandonada à beira rádio
Perdes o controle e falas
Perdes o controle e calas
E o mundo vira lá fora
E o amigo é inimigo
E já não somos crianças
E meio mundo fode outro meio
E já não há pontos de apoio
Já não há palavras fáceis
E nenhuma das fórmulas gastas serve
E tu corres gemes choras
e eu observo
e amo-te
Quando tudo desaba
E o cigarro morre na boca.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

23/10/09

JOÃO RIOS


A LEI DA EVIDÊNCIA


Você vai a lisboa e não pensa
você vem de lisboa e não estuda
você passa a vida e não lembra
que só a morte o chumba

x - x

IMPRÓPRIOS BURGUESES


Os deste burgo às vezes impróprios burgueses
declaram inquisição ao queque embebedam o polvo
amnistiam o feijão frade
assediam em oratória de canino dourado
o romantismo subalimentado da pequena
do Serafim um seu humilde criado
puro-sague latino que sem pundonor
eleva em belicismo de bagaço
o arroto à condição de colunável

x - x

BIG BANG


Pede café e os últimos crimes bem sucedidos
um valete de viciado tamanho ergue a prata
do punhal e
e perseguem a solidão no friso nocturno da cidade
enquanto um buda de reputada faiança converte
umas suecas
e às tantas big bang um enforcado decide doar a corda
aos comissários mais capazes do paraíso
porque cândidos só os anjos e a alma não seca
por alcançar o céu

(poemas de João Rios. Fotografia de Sara Moutinho)

22/10/09

CASTING "QUINTAS DE LEITURA"


Queríamos, antes de tudo, referir o nível elevado das prestações efectuadas por todos os candidatos. Gostaríamos, ainda, de agradecer o empenho e a cumplicidade manifestada pelos participantes nesta derradeira fase do casting.

Para os candidatos não seleccionados, outros desafios se seguirão, para os quais contaremos sempre com a vossa energia e o vosso talento.

Iremos, à medida das nossas necessidades, trabalhar num futuro próximo, com os seguintes elementos apurados:

Ana Catarina Barbosa
Ana Paiva
Constança Carvalho Homem
David Costa Figueiredo
Gina Macedo
Isabel Fernandes Pinto
Luísa Kotsev
Manuel Tur
Margarida Carvalho
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Rita Machado
Susana Guimarães
Susana Madeira
Valdemar Santos


Saudações Poéticas,

João Gesta
(Programador)

e

Patrícia Vaz
(Produtora)

NUNO MOURA

é mais para a menina
que aquece debaixo da saia
um cavalo

vem da cor directa da fuça
o triciclo da dor

o cavalo vai pela mão
do príncipe

x - x

Um espaço e duas laranjeiras:

porque estava louco cortei
uns meses para a frente
e matei-me ontem entre as mimosas
antes de virem regar o jardim.

andaram da terra dois braços depressa
que me espetaram na cavalita do seu rosto.

com o tronco de fora
dominei o míssel horta toda.

foi a minha melhor cava de sempre.

x - x

Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.

mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.

(poemas de Nuno Moura)

21/10/09

DANIEL JONAS

CONFIAVA QUE SENDO MITSUBISHI A MINHA PENA
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.

x-x


AEROFÁGICAS

Anafada
aquela fada
tem o condão
de não gostar nada
de varinhas mágicas

x-x

COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

x-x

ELEMENTÁRIO

O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer

isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.


(poemas de Daniel Jonas)

19/10/09

A próxima sessão é vezes quatro


Uma "Quinta de Leitura" que vale por quatro.

Quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios.

As "Quintas de Leitura" vão pegar fogo. Quarenta minutos de poemas incendiários, eivados de amor e humor de todas as cores. Entre outros, "Declaração de amor ao primeiro-ministro", por A. Pedro Ribeiro:

"Estou apaixonado pelo primeiro-ministro

Quero vê-lo num filme porno."

Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios são os poetas convidados de um espectáculo único e irrepetível, a acontecer no próximo dia 29 de Outubro, às 22h00, no auditório do TCA.

Pedimos ajuda ao poeta valter hugo mãe e ele descobriu um nome para a sessão: "UM POETA NO SAPATO".

As leituras serão asseguradas pelos Poetas convidados, sendo que a guitarra de Aníbal Andrade acompanhará João Rios em dois poemas.

A bela Adriana Faria, mestre-de-cerimónias, põe água na fervura. O artista plástico Mário Vitória, responsável pela imagem da sessão, deita achas para a fogueira.

No momento dedicado à performance, Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (contrabaixista dos Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life", história baseada na violoncelista Guilhermina Suggia.

Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto de 30 minutos com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico). Bate forte, fortemente...

Concepção de João Gesta, que continua com a pastilha em atraso.

Foi você que pediu uma noite verdadeiramente esquisita?

chichi

sofá

antes

uma volta pelo TCA.


Espectáculo para maiores de 16 anos. Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.


A. Pedro Ribeiro

MAMAS

As mamas de Cláudia
Trouxeram-me o café e um copo de água
E empurraram-me ao balcão

A brasileira arrefece a coxa
Com cerveja
E olha para mim
Enquanto faço crítica literária
À esplanada do "Xaphariz"
E leio um poema
De Jorge de Sena

Os foguetes estalam no ar
E os UHF soltam os cavalos na Apúlia.


A ARDER


"O poeta embriagado
insultava o universo."

(Rimbaud)



O país a arder
e eu também
o país a chorar
e eu a enlouquecer
aos berros
pelas ruas da aldeia
a insultar Deus e o presidente
e a uivar led zeppelin

o país a arder
e eu a beber
copo sobre copo
sem parar
o país a arder
e eu a discutir
com o estalajadeiro
a exibir o cartão do partido
e a carteira profissional
a oferecer poemas às meninas
e a dar-lhes treta

o país a arder
e eu a sofrer
a cambalear
livre, embriagado
animal de palco
o país em fogo
e eu em chamas
anjo em chamas

o país a arder
e eu a delirar.


MUSA

Gigantes de pedra
majestosos
vastidões verdes
precipícios

Eis os teus cabelos
a raiz
os lugares
onde acasalas
onde és plena.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

15/10/09

10 Anos da Visão 7 - Poesia - Quintas de Leitura

A Revista Visão 7, suplemento da revista semanal Visão, faz 10 anos - PARABÉNS!
Para celebar a data, publica hoje um caderno especial (10 Marcos de Mudança) que dá destaque às 10 coisas que mudaram no Porto e no Norte ao longo destes dez anos.
Aqui fica o que dizem das
Quintas de Leitura do TCA.

Para ler por favor clicar sobre a imagem.

14/10/09

NUNO MOURA


(fotografia de Pat - 2008)

UM E UM FORA NADA



Era um divórcio impossível,
ela punha-o embora
mas e aconchegava-lhe a
roupa à mala.


SAPATOS CASTANHOS, CALÇAS, TALVEZ LENÇO


Travessa criança,
toda sinal, e sei que segues
q´nem noite, rastilho de
caramelo.

Consecutivo,
assobio bale ao fundo, tasca-me e
passas concerteza.

Lenga máquina de café.


FRANCISCO


Uma gota de
sangue
cresce verde no
campo.

Corre.


MIGUEL MACHADO, EU


Será um levante
uma enorme vontade de embebedar pelo cú
um arauto?

Será valentia de angora
uma botija de mel quente tão rota
uma patada?

Um soez, um suave português
um galo?

(poemas de NUNO MOURA)

13/10/09

JOÃO RIOS

(Fotografia de Sara Moutinho no espectáculo de lançamento da antologia - Diga 33 - Os poetas das Quintas de Leitura /TCA)

CANÇONETA PARA O SENHOR CRISTOVÃO COLOMBO


Genovês ou moicano
a nacionalidade que se foda
puseste de pé um ovo pelo rabo
e já agora moralmente espero
que te enganes de novo

(poema de João Rios)

DANIEL JONAS

(fotografia retirada do site da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas)


VENTO TOLO


Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjaram colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.

(poema de Daniel Jonas)

A. PEDRO RIBEIRO

(fotografia de Pat)


A NOITE MORRE


A noite morre
Aos poucos
No café das conversas
Um aquecedor protege-me do frio
E os homens que bebem pedem rissóis
Ao som de música minimal repetitiva

A noite morre
À minha mesa
Enquanto o estalajadeiro conta os trocos
Que caem da máquina do tabaco
Que o Governo quer abolir

A noite morre
Mas ainda há gente que ri
Gente que se cruza e encontra e desencontra
E freaks a entoar cânticos futebolísticos

Ah! E depois sou eu que sou esquizofrénico
Sou eu o doido
Fechado no manicómio
No meu condomínio fechado

E a noite morre na cidade.

(poema de A. Pedro Ribeiro)

12/10/09

MIMOS PARA ELISA

elisa. elisa tem ancas gordas e beiços carnudos.
elisa gosta de telefonar ao noivo. sentada no so
fá, com o joãozinho à beira, marca o número e diz:
elisa sim meu bem. entretanto o joãozinho mete o
s dedos por baixo da saia de elisa, mete as mãos,
mete os braços. elisa diz: sim meu bem. enquanto
elisa se recosta, joãozinho mete a cabeça debai
xo das saias de elisa, e faz que sim, faz vivamen
te que sim, enquanto elisa diz: sim meu bem. sim.
estes telefonemas com o noivo são tão longos! se
pararam-se há pouco tempo. o noivo suplica: não
chores elisa. não suspires. a separação não será
eterna. elisa acalma-se. joãozinho sai cá para fo
ra. elisa chega-se muito a ele. joãozinho está ag
ora de pé. o noivo fala fala fala. pergunta: elisa
já comeste os bombons todos que te mandei minha
gulosa? elisa não responde. está com a boca cheia
. mesmo na conchinha do ouvido, muito suavemente,
o noivo chama-lhe gulosa. e outros mimos. outros.

(poema de ALBERTO PIMENTA)

09/10/09

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã.
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

António Pedro Ribeiro

Ribeiro na Pulga.

NUNO MOURA

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luís pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecel pêtê cêpê
renô náique e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(poema de Nuno Moura)

08/10/09

DANIEL JONAS

OS DEUSES NÃO FUNCIONAM.
Dizer meu Zeus não os engana.
Sobre um muro de cal demorada

nenhuma lamentação se torna mais branca,
nem percorrendo bosques no enleio
de ramosa dor Diana
tu não me apareces.

Como um veado inábil
enleio os próprios galhos
em galhos de frondoso alheio
ou o cálice prefixa a cal
como aviso.

Não sei por que procuro assim um deus:
ando à procura de um deus pelos bosques
como de bagas.

(poema de Daniel Jonas)

JOÃO RIOS

havia
árvores e inclinações de bichos
machos e fêmeas
minúsculas pegadas a digitalizar
a lua na terra

havia
as aparas do Cristo dos domingos
levadas à boca mais que as meninas
ancoradas na geografia inexpugnável
do braço das mães

havia
cigarros colados na varanda do rosto
uma colmeia para guardar afagos
antes do uivo e da intriga de duas sílabas
sem fôlego
emudeceram o galope absoluto de um irmão

x - x

o sol é um câncer sem barcos a coreografar
nas mansardas da cidade a impaciência de um rosto
sitiado pelo espólio de uma gramática de angústia

nenhuma voz o resgata nenhuma lágrima o ostraciza
nas amplas galerias do seu nome esquece a rebentação
de outros nomes e que o tempo é uma fábrica de doenças
a contabilizar os seus dias

(dois poemas de João Rios)

07/10/09

CASTING “QUINTAS DE LEITURA”


Queríamos, antes de tudo, agradecer e salientar o empenho e o profissionalismo demonstrado por todos os candidatos que connosco se cruzaram neste casting.

Os vossos testemunhos e experiências enriqueceram-nos e tornaram-nos mais fortes nesta maratona poética de 3 dias.

Apenas alguns passarão à derradeira fase deste processo. Todos os demais, contudo, poderão contar connosco para mais desafios no futuro.

Assim sendo, a próxima viagem será partilhada ao lado dos seguintes candidatos:


Dia 30 de Setembro

Filomena Gigante
Isabel Fernandes Pinto
Joana Teixeira
José Miguel Vitorino
Manuel Tur
Rita Machado
Valdemar Santos


Dia 1 de Outubro

Catarina Barbosa
Constança Carvalho Homem
David Figueiredo
David Pontes
Gina Macedo
Luísa Kotsev
Miguel Ramos
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Sílvia Silva


Dia 2 de Outubro

Ana Paiva
Andreia Serrão de Lima
Fábio Alves
Isabel Castiajo
Margarida Carvalho
Susana Guimarães
Susana Madeira
Tiago Correia
Xana Miranda

Os nomes estão indicados pelo dia de casting e por ordem alfabética, sem qualquer outra ordem.

Os seleccionados serão brevemente contactados, via e-mail, para a etapa derradeira deste processo.

Saudações Poéticas,

João Gesta e Patrícia Vaz

06/10/09

NUNO MOURA

UMA TORRE EM VÃO


Eu vou muito suave nesta obra dos sóis
com o forno dos passos e a uretra
desmantelar a engonha dos salineiros
e a contabilidade do tacto.

De empreitada, arremessar-me fúria toira.

Eu vou muito deitado nesta voz roxa
que solta em pontilha então esbagaçe a pilha
das divisas e este tráfego do progresso
com a maleabilidade de um tira-olhos.

Pegar no soldo deste sismo e levar a impressão dos afagos.

Eu vou muito calmo neste corpo
que tu dizes ser melhor que a minha
cabeça porque um tu sentes e a outra
hás-de tomar, eu vou num grande andar.

(poema de Nuno Moura)

MAIS UM SONÓTONO DE DANIEL JONAS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p´ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

(Daniel Jonas)

02/10/09

JOÃO RIOS

ONZE MANDAMENTOS SEM A MÃO DE DEUS

1-não faças caixinhas à mãe
2-não desiludas a virilidade do pai
3-não micro-ondes o noivo da irmã
4-não alcatifes a oceânica língua da avó
5-não degeneres o cofre maçónico do avô
6-não sociabilizes as patinhas do cão
7-não aplaudas a acrobacia elíptica do gato
8-não enroles o falsete vegetariano do canário
9-não alimentes a neuro solidão do peixinho
10-não suavizes a liberdade geométrica do pombal
11-não aconteças por acaso neste circo domado país

(poema de João Rios)

NUNO MOURA

Desemprego

Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.

(poema de Nuno Moura)

01/10/09

DANIEL JONAS

É OUTONO E CHOVE NO MEU SONETO.

Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.

(Sonótono de Daniel Jonas)

NUNO MOURA

Quem nunca pecou que
atire a primeira pedra.

todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.

alguém disse: é o perdão
de deus.

alguém reparou: mas o mar
vem aí.

(poema de Nuno Moura)

30/09/09

JOÃO RIOS

FREE NATION

Perseguido por um cão
um sorriso de Gioconda
pela boca de um cego
acende o fole do acordeão
e a cambalhota do ego

latin-lover´s histéricos
anti-cristos profissionais
do coração
sequestram liberdades enviuvadas
e castidades sobrenaturais

entusiasmadas com a precedência
três bailarinas estrábicas e um filme
de smoking vestido
entraram em greve de fome em favor
das vítimas profissionais do segundo balcão

(poema de João Rios)

29/09/09

A. PEDRO RIBEIRO.

POEMA À GAJA DA MESA DO FUNDO

Está-me a bater aquela gaja da mesa do fundo
Estás-me a bater, gaja da mesa do fundo!
Olha! Vais lá para fora,
Que pena!
Agora que te ia oferecer o poema
Sabes que às vezes escrevo umas coisas fora do comum
Sabes que às vezes escrevo o que ninguém espera
Mas, olha, paciência
Já estou a olhar para outra
Sabes que me deixei de apaixonar facilmente
Por isso é-me difícil mudar de gaja
Mesmo que esteja sozinho
Vou tendo uma gaja
Sabes, assim para as emergências
A verdade, gaja,
É que fiquei vidrado em ti
Aquelas paixões que vêm de vez em quando
Ah! Afinal ainda sou capaz de me apaixonar
Estás-me a bater, gaja que já não estás
Na mesa do fundo
E venha a cerveja, ó Adriano!
Que isto de criar não é para todos
O poeta está com sede
O mundo assim não avança.

( poema de A. Pedro Ribeiro)

Casting para leitores de poesia começa amanhã



O ciclo poético Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre pretende descobrir novos talentos na leitura de poemas que possam vir a integrar o conjunto de recitadores associados a esta iniciativa, pelo que preparou um casting que começa amanhã e se prolonga, numa primeira fase, por três dias (de 30 de Setembro a 2 de Outubro).

Devido ao sucesso desta iniciativa, cujo número de inscrições ultrapassou todas as expectativas, nesta primeira fase estão já marcados três dias de casting intensivo, no qual serão ouvidas mais de 80 pessoas.

Cada candidato trará um poema à sua escolha e será convidado ainda a ler um outro poema, seleccionado pelo programador das Quintas de Leitura, João Gesta.

Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.

Uma outra oportunidade ocorrerá numa segunda fase, a realizar até final de Novembro, para a qual estão previstos outros tantos inscritos.

Fotografia de Mafalda Capela.

28/09/09

Em Outubro 4 Poetas

Para ler clicar sobre a imagem.

Uma noite de tributo a José Luís Peixoto


Catarina Nunes de Almeida e Margarida Cardeal ( leituras)



Sandra Salomé e Pedro Lamares ( leituras)




José Luís Peixoto



Raúl Peixoto da Costa (piano)



Pedro Nunes (apresentação)



Isabel Ariel ( dança)



Márcia (voz e guitarra)



Cindy ( striptease)



As 3 Marias (tango fusão. Cristina Bacelar- guitarra e voz; Fátima Santos - acordeão; Sara Barbosa - contrabaixo; e Zagalo - percussão; Ianina Khmelik - violinista convidada).



Fotografias de Sara Moutinho.