
15/01/10
14/01/10
JANEIRO É MÊS DE VALTER HUGO MÃE NAS "QUINTAS"

Recordaremos, nos próximos dias, alguns textos emblemáticos da obra de valter hugo mãe.
erótica de fã
quero não ficar espantado se me nascer
um filho de tanto ouvir caetano veloso,
quero não explicar nada sobre este
tão grande amor
nossa senhora das andorinhas cansadas
no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada
(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)
13/01/10
AINDA CESARINY
nada sobre esta mão nada na outra
dum lado o pé do outro a maresia
para os lados do rim a luz é pouca
e uma vez sem exemplo é que eu queria
josé sebag em hong-kong toca
um psaltério roído pela traça
dá as mãos amarelas a uma foca
que evoca uma descida até à graça
dos dois elevadores lança-se a louca
paço por paço constrói-se o tapume
deita-se o sexo à beira da tua boca
o cardeal tardini vai ao lume
o teu cabelo sobe pela praça
anunciam-se braços de garoupa
À JUSTA
vou aqui por este lado
a vistoriar o historiado
vou por aqui e vou bem
já o dizia a minha mãe
pobre morta é verdade
mas é assim a eternidade
vou depressa antes que anoiteça
e o campo de facto desapareça
e canto esta canção irregular
que é como canta quem anda a vistoriar
(poemas de Mário Cesariny)
12/01/10
AINDA A POESIA DE MÁRIO CESARINY
quem lê na infância está perdido
quem não lê na infância está salvo
andar de automóvel é um acto suspeito
não andar de automóvel não é um acto suspeito
o lisboa não anda de automóvel
o fernando não anda de automóvel
o henrique não anda de automóvel
o carlos não anda de automóvel
o carlos lê na infância
o pedro oom não anda de automóvel
há um lago de brilhantes na minha boca
a minha boca é uma passadeira branca
as bocas dos meus amigos são passadeiras brancas
a boca da maria josé é uma passadeira branca
o mário henrique é uma passadeira branca
o joão artur é uma passadeira branca
(...)
(Mário Cesariny / Primavera Autónoma das Estradas / Assírio & Alvim)
11/01/10
MÁRIO CESARINY, SEMPRE!

A sessão do próximo dia 28 de Janeiro ("BOMBA") é uma homenagem de valter hugo mãe ao Poeta Mário Cesariny. Vamos, nos próximos dias, recordar alguns poemas de Cesariny.
TOCATA
quando tu tocas Debussy
chove extraordinariamente
o sol as casas levemente doira
mas na saleta está-se bem
fazes sempre assim!
por mim
sinto um duende benigno que sorri
não bem de ti!
nada de Debussy!
mas do igual da hora
de sempre chover
de estar sempre frio lá fora
quando tu tocas Debussy
LAFCÁDIO
o que a minha mão segue
tem mais perplexidade que moral
nunca é só triste nunca é só alegre
é o instante a curva desigual
a seta desferida
pela gratuitidade acontecida
(poemas de Mário Cesariny / Manual de Prestidigitação / Assírio & Alvim)
07/01/10
OS POETAS CONVIDADOS DAS "QUINTAS"
28 de Janeiro
"BOMBA"
poeta convidado: valter hugo mãe
25 de Março
"PÕE A CASSETE DA TEMPESTADE"
poetas convidadas: Ana Salomé, Bénèdicte Houart, Catarina Nunes de Almeida e Filipa Leal
Outros poetas que fazem parte da programação para 2010:
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
José Rui Teixeira
Rui Costa
Miguel-Manso
João Luís Barreto Guimarães
Rosa Alice Branco
Ana Luísa Amaral
José Luís Peixoto
Gonçalo M. Tavares
João Habitualmente
Sérgio Godinho
José Tolentino Mendonça
06/01/10
OS CONCERTOS DAS "QUINTAS"

Um comentário: muito boa música.
Vejam como não estamos a exagerar:
28 de Janeiro (22h00)
TIGRALA
Norberto Lobo (tambura) / Guilherme Canhão (guitarra acústica) / Ian Carlos Mendonza (vibrafone e percussão)
25 de Fevereiro (22h00)
B FACHADA
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
25 de Março (22h00)
THE LEGENDARY TIGERMAN
04/01/10
OS MOMENTOS MAIS MARCANTES DO ANO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
O programador parou para pensar, puxou pela memória, puxou dos apontamentos e fez alguns telefonemas secretos.
E, agora, quer partilhar convosco as suas opiniões.
OS 2 MELHORES ESPECTÁCULOS DO ANO:
Livre (Setembro 2009)
Fazes-me falta (Junho 2009)
MELHOR FLYER DO ANO:
Havemos de ir a Viana
MELHOR IMAGEM DO ANO:
Joana Rêgo em "Havemos de ir a Viana"
Mário Vitória em "Um poeta no sapato"
MELHOR PERFORMANCE DO ANO:
Álvaro Domingues em "A Rua da Estrada"
OS MELHORES CONCERTOS DO ANO:
Slimmy
B Fachada
Mazgani
Aldina Duarte
Raúl Peixoto da Costa (piano)
A REVELAÇÃO DO ANO:
Maria do Céu Ribeiro (leituras)
Quintas de Leitura: a força da Palavra.
RECEITA DE ANO NOVO
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
31/12/09
valter hugo mãe regressa ao TCA

A PRIMEIRA DAS QUINTAS DE LEITURA DE 2010 É “BOMBA”
A sessão "BOMBA" marca o regresso do poeta e romancista valter hugo mãe às "Quintas de Leitura" promovidas pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento. Será a sua 6ª presença neste ciclo poético, num espectáculo a realizar dia 28 de Janeiro de 2010, às 22h00, no Auditório do TCA.
"Bomba" é uma narrativa poética, inédita, de valter hugo mãe, escrita em jeito de homenagem a Mário Cesariny. A leitura dos 12 textos que compõem a obra será assegurada pelo próprio autor, que se fará acompanhar por Adolfo Luxúria Canibal, Isaque Ferreira, Rui Spranger e Sandra Salomé. A convidada especial Ianina Khomelik, violinista russa, também intervirá neste momento.
O jovem fotógrafo Nelson D' Aires, prémio revelação FNAC em 2006, dá imagem à sessão.
O sempre esperado momento de dança será, desta feita, afirmado por dois elementos da companhia "Bomba Suicida". Tânia Carvalho e Luís Guerra apresentarão a peça "HURRA! ARRE!" (versão Boca de Cena), numa ousada coreografia de Luís Guerra.
Fica para o fim um dos momentos mágicos da sessão - estreia nas "Quintas de Leitura" do trio lisboeta TIGRALA formado por Norberto Lobo (um dos mais promissores e celebrados guitarristas portugueses da nova geração), Guilherme Canhão (guitarrista dos Lobster) e Ian Carlos Mendonza (percussionista mexicano).
Oriundos de universos musicais que poucos achariam compatíveis, os TIGRALA apresentam-se em formato acústico, com Norberto Lobo a trocar a guitarra pela tambura, Guilherme Canhão a desligar a sua guitarra da corrente e Ian Carlos Mendonza a esticar criativa e melodicamente o conceito de percussão.
Em suma: uma noite bombástica, acima de todas as suspeitas.
Espectáculo para maiores de 18 anos.
Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.
A PRÓXIMA "QUINTA DE LEITURA". IMPERDÍVEL.
Vejam só:
valter hugo mãe (poeta convidado)
Adolfo Luxúria Canibal, Rui Spranger, Isaque Ferreira e Sandra Salomé (leituras)
Nelson D´Aires (fotografia)
Tânia Carvalho e Luís Guerra (dança)
Tigrala
(Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlos Mendonza)
e ainda a participação especial da violinista russa Ianina Khmelik.
Foi você que pediu uma sessão bombástica?
30/12/09
29/12/09
A POESIA DE ADÍLIA LOPES
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow
O NORTE DA EUROPA
O Pai Natal coberto de lantejoulas ia subindo a ladeira com ar circunstancial. O cumprimento que me dirigiu, corrigido por um gesto de perfeita cortesia, era tão naturalmente rico de proteínas que se comia à mão, em fato de baile.
Os dias iam correndo pela mão daquela cujo nome se vai ocultar na Península da Gata, a norte do Carvoeiro.
«É assim que cumpres?», perguntou Júlia Bahamas. Respondi que não era ainda tempo de colher maçãs e que também as uvas estavam por amadurecer. E acrescentei, exclamativamente:
«Ó Estações!»
Mas aí já ninguém ouvia ninguém, o círculo apertava-se coberto de espuma.
Mário Cesariny/António Dacosta
Primavera Autónoma das Estradas
24/12/09
23/12/09
UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não
(poema de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)
22/12/09
NATAL DE 1964
no seu centro vai haver
um grande grande ramo de flores
que é por onde vão entrar
uns atrás dos outros de cabeça pra baixo
os rapazes de mais categoria das artes e das letras
uns atrás dos outros de mãos dadas
cantarolando com a boca cheia
e escorregando docemente escorregando
para debaixo da mesa
onde os espera Jesus
para introduzi-los na grande sala de recepção ao vómito
Quanto ao autor destes versos
aguardará um telefonema até ao último momento
mas à cautela e antes que seja tarde
já comprou um cachucho
que mandou fechar à chave no seu cofre-forte
(poema de António José Forte, in "Uma Faca Nos Dentes")




