Os bilhetes para o espectáculo Lado B de Pedro Tochas ( 26 de Novembro de 2009) estão desde hoje à venda na bilheteira do TCA. Não se aceitam reservas. A venda é directa.
29/10/09
Pedro Tochas - Lado B - BILHETES À VENDA
Os bilhetes para o espectáculo Lado B de Pedro Tochas ( 26 de Novembro de 2009) estão desde hoje à venda na bilheteira do TCA. Não se aceitam reservas. A venda é directa.
27/10/09
UM POETA NO SAPATO
A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)
26/10/09
A. PEDRO RIBEIRO
A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada
É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.
x-x
SALOON
Todos os loucos desaguam à minha mesa.
O revisor da CP com dúvidas metafísicas
- sabe, estive a pensar como seria o mundo de pernas para o
ar-
o bisneto do escultor
- você é jornalista, faça-me uma entrevista.
As amigas acariciam-se nas bochechas
o filme recua dez anos
matilha que reconhece o totem
Bombos da corte
barbas pontiagudas
rússia imperial
Bazar do czar
Saloon
cavalos à porta
cowboys punks urinóis
chuta, chavalo
x-x
COLT 45
A pele a lata
O poema que se oferece
Em flor
A pose do assassino
Que controla
E o saloon é teu
A cidade é tua
Gingando de pistola
No coldre
Colt 45
x-x
LIKE A ROLLING STONE
Controlada
Abandonada à beira rádio
Perdes o controle e falas
Perdes o controle e calas
E o mundo vira lá fora
E o amigo é inimigo
E já não somos crianças
E meio mundo fode outro meio
E já não há pontos de apoio
Já não há palavras fáceis
E nenhuma das fórmulas gastas serve
E tu corres gemes choras
e eu observo
e amo-te
Quando tudo desaba
E o cigarro morre na boca.
(poemas de A. Pedro Ribeiro)
23/10/09
JOÃO RIOS
A LEI DA EVIDÊNCIA
Você vai a lisboa e não pensa
você vem de lisboa e não estuda
você passa a vida e não lembra
que só a morte o chumba
x - x
IMPRÓPRIOS BURGUESES
Os deste burgo às vezes impróprios burgueses
declaram inquisição ao queque embebedam o polvo
amnistiam o feijão frade
assediam em oratória de canino dourado
o romantismo subalimentado da pequena
do Serafim um seu humilde criado
puro-sague latino que sem pundonor
eleva em belicismo de bagaço
o arroto à condição de colunável
x - x
BIG BANG
Pede café e os últimos crimes bem sucedidos
um valete de viciado tamanho ergue a prata
do punhal e
e perseguem a solidão no friso nocturno da cidade
enquanto um buda de reputada faiança converte
umas suecas
e às tantas big bang um enforcado decide doar a corda
aos comissários mais capazes do paraíso
porque cândidos só os anjos e a alma não seca
por alcançar o céu
(poemas de João Rios. Fotografia de Sara Moutinho)
22/10/09
CASTING "QUINTAS DE LEITURA"
Para os candidatos não seleccionados, outros desafios se seguirão, para os quais contaremos sempre com a vossa energia e o vosso talento.
Iremos, à medida das nossas necessidades, trabalhar num futuro próximo, com os seguintes elementos apurados:
Ana Catarina Barbosa
Ana Paiva
Constança Carvalho Homem
David Costa Figueiredo
Gina Macedo
Isabel Fernandes Pinto
Luísa Kotsev
Manuel Tur
Margarida Carvalho
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Rita Machado
Susana Guimarães
Susana Madeira
Valdemar Santos
Saudações Poéticas,
João Gesta
(Programador)
e
Patrícia Vaz
(Produtora)
NUNO MOURA
que aquece debaixo da saia
um cavalo
vem da cor directa da fuça
o triciclo da dor
o cavalo vai pela mão
do príncipe
x - x
Um espaço e duas laranjeiras:
porque estava louco cortei
uns meses para a frente
e matei-me ontem entre as mimosas
antes de virem regar o jardim.
andaram da terra dois braços depressa
que me espetaram na cavalita do seu rosto.
com o tronco de fora
dominei o míssel horta toda.
foi a minha melhor cava de sempre.
x - x
Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.
mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.
mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.
mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.
(poemas de Nuno Moura)
21/10/09
DANIEL JONAS
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.
x-x
AEROFÁGICAS
Anafada
aquela fada
tem o condão
de não gostar nada
de varinhas mágicas
x-x
COMÉDIA
Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.
x-x
ELEMENTÁRIO
O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
(poemas de Daniel Jonas)
19/10/09
A próxima sessão é vezes quatro
Uma "Quinta de Leitura" que vale por quatro.
Quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios.
As "Quintas de Leitura" vão pegar fogo. Quarenta minutos de poemas incendiários, eivados de amor e humor de todas as cores. Entre outros, "Declaração de amor ao primeiro-ministro", por A. Pedro Ribeiro:
"Estou apaixonado pelo primeiro-ministro
Quero vê-lo num filme porno."
Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios são os poetas convidados de um espectáculo único e irrepetível, a acontecer no próximo dia 29 de Outubro, às 22h00, no auditório do TCA.
Pedimos ajuda ao poeta valter hugo mãe e ele descobriu um nome para a sessão: "UM POETA NO SAPATO".
As leituras serão asseguradas pelos Poetas convidados, sendo que a guitarra de Aníbal Andrade acompanhará João Rios em dois poemas.
A bela Adriana Faria, mestre-de-cerimónias, põe água na fervura. O artista plástico Mário Vitória, responsável pela imagem da sessão, deita achas para a fogueira.
No momento dedicado à performance, Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (contrabaixista dos Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life", história baseada na violoncelista Guilhermina Suggia.
Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto de 30 minutos com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico). Bate forte, fortemente...
Concepção de João Gesta, que continua com a pastilha em atraso.
Foi você que pediu uma noite verdadeiramente esquisita?
chichi
sofá
antes
uma volta pelo TCA.
Espectáculo para maiores de 16 anos. Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.
A. Pedro Ribeiro
As mamas de Cláudia
Trouxeram-me o café e um copo de água
E empurraram-me ao balcão
A brasileira arrefece a coxa
Com cerveja
E olha para mim
Enquanto faço crítica literária
À esplanada do "Xaphariz"
E leio um poema
De Jorge de Sena
Os foguetes estalam no ar
E os UHF soltam os cavalos na Apúlia.
A ARDER
"O poeta embriagado
insultava o universo."
(Rimbaud)
O país a arder
e eu também
o país a chorar
e eu a enlouquecer
aos berros
pelas ruas da aldeia
a insultar Deus e o presidente
e a uivar led zeppelin
o país a arder
e eu a beber
copo sobre copo
sem parar
o país a arder
e eu a discutir
com o estalajadeiro
a exibir o cartão do partido
e a carteira profissional
a oferecer poemas às meninas
e a dar-lhes treta
o país a arder
e eu a sofrer
a cambalear
livre, embriagado
animal de palco
o país em fogo
e eu em chamas
anjo em chamas
o país a arder
e eu a delirar.
MUSA
Gigantes de pedra
majestosos
vastidões verdes
precipícios
Eis os teus cabelos
a raiz
os lugares
onde acasalas
onde és plena.
(poemas de A. Pedro Ribeiro)
15/10/09
10 Anos da Visão 7 - Poesia - Quintas de Leitura

14/10/09
NUNO MOURA
Era um divórcio impossível,
ela punha-o embora
mas e aconchegava-lhe a
roupa à mala.
SAPATOS CASTANHOS, CALÇAS, TALVEZ LENÇO
Travessa criança,
toda sinal, e sei que segues
q´nem noite, rastilho de
caramelo.
Consecutivo,
assobio bale ao fundo, tasca-me e
passas concerteza.
Lenga máquina de café.
FRANCISCO
Uma gota de
sangue
cresce verde no
campo.
Corre.
MIGUEL MACHADO, EU
Será um levante
uma enorme vontade de embebedar pelo cú
um arauto?
Será valentia de angora
uma botija de mel quente tão rota
uma patada?
Um soez, um suave português
um galo?
(poemas de NUNO MOURA)
13/10/09
JOÃO RIOS
CANÇONETA PARA O SENHOR CRISTOVÃO COLOMBO
Genovês ou moicano
a nacionalidade que se foda
puseste de pé um ovo pelo rabo
e já agora moralmente espero
que te enganes de novo
(poema de João Rios)
DANIEL JONAS
A. PEDRO RIBEIRO

A NOITE MORRE
A noite morre
Aos poucos
No café das conversas
Um aquecedor protege-me do frio
E os homens que bebem pedem rissóis
Ao som de música minimal repetitiva
A noite morre
À minha mesa
Enquanto o estalajadeiro conta os trocos
Que caem da máquina do tabaco
Que o Governo quer abolir
A noite morre
Mas ainda há gente que ri
Gente que se cruza e encontra e desencontra
E freaks a entoar cânticos futebolísticos
Ah! E depois sou eu que sou esquizofrénico
Sou eu o doido
Fechado no manicómio
No meu condomínio fechado
E a noite morre na cidade.
(poema de A. Pedro Ribeiro)
12/10/09
MIMOS PARA ELISA
elisa gosta de telefonar ao noivo. sentada no so
fá, com o joãozinho à beira, marca o número e diz:
elisa sim meu bem. entretanto o joãozinho mete o
s dedos por baixo da saia de elisa, mete as mãos,
mete os braços. elisa diz: sim meu bem. enquanto
elisa se recosta, joãozinho mete a cabeça debai
xo das saias de elisa, e faz que sim, faz vivamen
te que sim, enquanto elisa diz: sim meu bem. sim.
estes telefonemas com o noivo são tão longos! se
pararam-se há pouco tempo. o noivo suplica: não
chores elisa. não suspires. a separação não será
eterna. elisa acalma-se. joãozinho sai cá para fo
ra. elisa chega-se muito a ele. joãozinho está ag
ora de pé. o noivo fala fala fala. pergunta: elisa
já comeste os bombons todos que te mandei minha
gulosa? elisa não responde. está com a boca cheia
. mesmo na conchinha do ouvido, muito suavemente,
o noivo chama-lhe gulosa. e outros mimos. outros.
(poema de ALBERTO PIMENTA)
09/10/09
ESTADO DE GRAÇA
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.
António Pedro Ribeiro
NUNO MOURA
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luís pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
só em receitas publicitárias com a telecel pêtê cêpê
renô náique e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.
(poema de Nuno Moura)
08/10/09
DANIEL JONAS
Dizer meu Zeus não os engana.
Sobre um muro de cal demorada
nenhuma lamentação se torna mais branca,
nem percorrendo bosques no enleio
de ramosa dor Diana
tu não me apareces.
Como um veado inábil
enleio os próprios galhos
em galhos de frondoso alheio
ou o cálice prefixa a cal
como aviso.
Não sei por que procuro assim um deus:
ando à procura de um deus pelos bosques
como de bagas.
(poema de Daniel Jonas)
JOÃO RIOS
árvores e inclinações de bichos
machos e fêmeas
minúsculas pegadas a digitalizar
a lua na terra
havia
as aparas do Cristo dos domingos
levadas à boca mais que as meninas
ancoradas na geografia inexpugnável
do braço das mães
havia
cigarros colados na varanda do rosto
uma colmeia para guardar afagos
antes do uivo e da intriga de duas sílabas
sem fôlego
emudeceram o galope absoluto de um irmão
x - x
o sol é um câncer sem barcos a coreografar
nas mansardas da cidade a impaciência de um rosto
sitiado pelo espólio de uma gramática de angústia
nenhuma voz o resgata nenhuma lágrima o ostraciza
nas amplas galerias do seu nome esquece a rebentação
de outros nomes e que o tempo é uma fábrica de doenças
a contabilizar os seus dias
(dois poemas de João Rios)
07/10/09
CASTING “QUINTAS DE LEITURA”

06/10/09
NUNO MOURA
Eu vou muito suave nesta obra dos sóis
com o forno dos passos e a uretra
desmantelar a engonha dos salineiros
e a contabilidade do tacto.
De empreitada, arremessar-me fúria toira.
Eu vou muito deitado nesta voz roxa
que solta em pontilha então esbagaçe a pilha
das divisas e este tráfego do progresso
com a maleabilidade de um tira-olhos.
Pegar no soldo deste sismo e levar a impressão dos afagos.
Eu vou muito calmo neste corpo
que tu dizes ser melhor que a minha
cabeça porque um tu sentes e a outra
hás-de tomar, eu vou num grande andar.
(poema de Nuno Moura)
MAIS UM SONÓTONO DE DANIEL JONAS
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p´ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...
(Daniel Jonas)
02/10/09
JOÃO RIOS
1-não faças caixinhas à mãe
2-não desiludas a virilidade do pai
3-não micro-ondes o noivo da irmã
4-não alcatifes a oceânica língua da avó
5-não degeneres o cofre maçónico do avô
6-não sociabilizes as patinhas do cão
7-não aplaudas a acrobacia elíptica do gato
8-não enroles o falsete vegetariano do canário
9-não alimentes a neuro solidão do peixinho
10-não suavizes a liberdade geométrica do pombal
11-não aconteças por acaso neste circo domado país
(poema de João Rios)
NUNO MOURA
Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.
(poema de Nuno Moura)
01/10/09
DANIEL JONAS
Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.
(Sonótono de Daniel Jonas)
NUNO MOURA
atire a primeira pedra.
todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.
alguém disse: é o perdão
de deus.
alguém reparou: mas o mar
vem aí.
(poema de Nuno Moura)
30/09/09
JOÃO RIOS
Perseguido por um cão
um sorriso de Gioconda
pela boca de um cego
acende o fole do acordeão
e a cambalhota do ego
latin-lover´s histéricos
anti-cristos profissionais
do coração
sequestram liberdades enviuvadas
e castidades sobrenaturais
entusiasmadas com a precedência
três bailarinas estrábicas e um filme
de smoking vestido
entraram em greve de fome em favor
das vítimas profissionais do segundo balcão
(poema de João Rios)
29/09/09
A. PEDRO RIBEIRO.
Está-me a bater aquela gaja da mesa do fundo
Estás-me a bater, gaja da mesa do fundo!
Olha! Vais lá para fora,
Que pena!
Agora que te ia oferecer o poema
Sabes que às vezes escrevo umas coisas fora do comum
Sabes que às vezes escrevo o que ninguém espera
Mas, olha, paciência
Já estou a olhar para outra
Sabes que me deixei de apaixonar facilmente
Por isso é-me difícil mudar de gaja
Mesmo que esteja sozinho
Vou tendo uma gaja
Sabes, assim para as emergências
A verdade, gaja,
É que fiquei vidrado em ti
Aquelas paixões que vêm de vez em quando
Ah! Afinal ainda sou capaz de me apaixonar
Estás-me a bater, gaja que já não estás
Na mesa do fundo
E venha a cerveja, ó Adriano!
Que isto de criar não é para todos
O poeta está com sede
O mundo assim não avança.
( poema de A. Pedro Ribeiro)
Casting para leitores de poesia começa amanhã

O ciclo poético Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre pretende descobrir novos talentos na leitura de poemas que possam vir a integrar o conjunto de recitadores associados a esta iniciativa, pelo que preparou um casting que começa amanhã e se prolonga, numa primeira fase, por três dias (de 30 de Setembro a 2 de Outubro).
Devido ao sucesso desta iniciativa, cujo número de inscrições ultrapassou todas as expectativas, nesta primeira fase estão já marcados três dias de casting intensivo, no qual serão ouvidas mais de 80 pessoas.
Cada candidato trará um poema à sua escolha e será convidado ainda a ler um outro poema, seleccionado pelo programador das Quintas de Leitura, João Gesta.
Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.
Uma outra oportunidade ocorrerá numa segunda fase, a realizar até final de Novembro, para a qual estão previstos outros tantos inscritos.
28/09/09
Uma noite de tributo a José Luís Peixoto
24/09/09
SESSÃO ESGOTADA. OBRIGADO AO NOSSO FIEL PÚBLICO.
23/09/09
CARTA DE CONDUÇÃO
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.
Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.
A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.
Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.
Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
22/09/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de põr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Criança em Ruínas"/ Edições Quasi)
21/09/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
Estes serão os heróis da próxima quinta-feira:
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
AUGUSTO BRÁZIO
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
MARGARIDA CARDEAL
SANDRA SALOMÉ
PEDRO LAMARES
PEDRO NUNES
ISABEL ARIEL
CINDY
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
MÁRCIA
CRISTINA BACELAR
FÁTIMA SANTOS
SARA BARBOSA
ZAGALO
MAIS OS 300 ESPECTADORES QUE JÁ COMPRARAM BILHETE PARA A SESSÃO...
OBRIGADO A TODOS! - NESTA NOITE, A POESIA TOMARÁ CONTA DAS NOSSAS VIDAS.
18/09/09
POSTAIS
que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou
de ser solene.
Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças,
e rimo-nos. A história escreveu-se escreveu-se longe
das nossas mãos.
Não sabemos mais verdades do que a nossa.
Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos.
Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e
insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo
de creme.
X-X
E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos
às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro
de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.
X-X
Sozinho, chego a uma cidade saqueada
e caminho com vagar, os braços quase
parados, olho para as portas abertas,
o que sobrou está espalhado nas ruas,
o ar é limpo porque ninguém o respira,
esta cidade, este silêncio, esta cidade,
tenho na pele do rosto o contrário
do choro de uma criança, esse tempo
já passou, tenho tranquilidade séria
e erosão porque esta é a nossa cidade
e porque sei que não te vou encontrar
quando chegar a casa, minha mãe.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
17/09/09
Literatura Portuguesa no seu melhor
Quatro autores portugueses entre os 10 finalistas do Prémio PT
José Luís Peixoto é um deles.
São Paulo, 16 Set (Lusa) -- Quatro escritores portugueses e seis brasileiros estão entre os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom em Língua Portuguesa 2009, informaram hoje os organizadores.
Entre os finalistas portugueses estão "A eternidade e o desejo", de Inês Pedrosa, "Aprender a rezar na era da técnica", de Gonçalo M. Tavares, "Cemitério de pianos", de José Luís Peixoto, e "Ontem não te vi em Babilónia", de António Lobo Antunes.
As obras "A viagem do elefante", de José Saramago, e "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares, estavam entre os 50 finalistas mas não foram indicados para a disputa final, cujo resultado será conhecido a 10 de Novembro, em São Paulo.
RECORTES DE JORNAL
A situação é esta: os campos eram puros e limpos,
eu ateei muitos fogos, tinha fósforos e gasolina,
agora estou no exacto centro de todos eles,
cercam-me por todos os lados que não existem
para fugir, e espero pelo incêndio, apenas espero.
QUARTO
Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)
16/09/09
SIC Notícias | 20.02.2009 | Cartaz - As 3 Marias
Estarão na sessão de Quintas de Leitura de tributo a José Luís Peixoto, na noite de 24 de Setembro.
POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
15/09/09
60.000
DUAS IRMÃS SOLTEIRONAS
VIVEM JUNTAS
COM UMA GATA
QUE NUNCA DEIXAM SAIR
UMA DAS IRMÃS CASA
A OUTRA PEDE-LHE
UMA CARTA
A RELATAR PORMENORIZADAMENTE
A NOITE DE NÚPCIAS
A OUTRA MANDA-LHE
UM TELEGRAMA
"MANA, SOLTA A GATA"
AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)
14/09/09
AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.
FOTOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO
Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.
FOTOGRAFIA DE BUDAPESTE
Os monumentos de Budapeste e as suas ruas
são o mal que fiz a uma rapariga de olhos grandes.
Às vezes, lembro-me de Budapeste a propósito de
pormenores: ganchos de cabelo, caretas ao espelho.
Quando eu e Budapeste passeávamos de mão dada,
havia uma espécie de justiça na copa das árvores.
Nesse tempo, não existia memória, éramos apenas
as nossas pegadas na neve. Budapeste não tem solução.
Passarão décadas e morreremos cheios de segredos.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
11/09/09
Sugestão Diabólica - Prokofiev
Raúl Peixoto da Costa de regresso às Quintas de Leitura. De cortar a respiração.
Márcia - A Pele Que Há Em Mim @ Fnac Coimbra 2009
Para ouvir no recital Livre, em 24 de Setembro de 2009.
AS "FOTOGRAFIAS DE CIDADES" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

São Francisco és tu e são as tardes que passávamos
no sofá, sentados ou deitados de todas as formas,
em todas as direcções. Não guardo ressentimentos
de São Francisco e chegará um tempo em que,
de novo, seremos capazes de passar um fim-de-semana
entre chapéus de sol e sol. A Califórnia não é eterna,
mas há um certo tipo de silêncio que se procura
sempre e que se encontra apenas muito raramente.
Esse é o teu brilho, São Francisco. Vais ver, teremos
camisas de flores coloridas e saberemos rir-nos
de tudo. E, contra todas as expectativas, quando
um de nós estiver a morrer, o outro estará lá.
FOTOGRAFIA DE ABIDJAN
Abidjan tem cicatrizes nas ancas.
Cuidadoso, pouso as mãos noutro lado,
seguro Abidjan pela cintura.
Não porque as cicatrizes sejam dolorosas,
há muito que Abidjan se habituou a elas,
mas porque me fazem impressão a mim.
As cicatrizes de Abijan foram-lhe feitas pela avó
com um ferro em brasa, quando era criança.
Eu e Abijan bebemos garrafas de coca-cola.
Seguramo-las como algo valioso,
somos senhores por um momento.
Abidjan diz: mostra-me o teu quarto,
e eu, não sou capaz de resistir.
FOTOGRAFIA DE MADRID
Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
10/09/09
Música, tango e striptease em tributo a José Luís Peixoto

O escritor regressa às Quintas de Leitura
O dia 24 de Setembro marcará a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". A sessão, intitulada "LIVRE", realiza-se às 22h00 no Auditório do TCA.
José Luís Peixoto irá revelar-nos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano pela Editora Quetzal.
Esta sessão deverá também ser entendida como um tributo das "Quintas de Leitura" ao Poeta. Reconhecemos a fidelidade e a atenção que José Luís Peixoto tem dedicado a este ciclo e queremos agradecer-lhe esse afecto.
Para tal, foi montada uma grande festa da Poesia que incluirá leituras, dança, imagem e muita música. Um espectáculo com a duração de cerca de 150 minutos, cheio de momentos inusitados e muitas surpresas.
Participam nas leituras os actores Pedro Lamares, Sandra Salomé e Margarida Cardeal e também a poeta Catarina Nunes de Almeida. Pedro Nunes será o mestre-de-cerimónias da festa.
Na dança, presença da bailarina Isabel Ariel. Assinale-se ainda um momento de striptease assegurado pela dançarina romena Cindy.
A imagem da sessão será assinada por Augusto Brázio, cúmplice de José Luís Peixoto em muitas aventuras fotográficas.
Por fim, momentos sempre esperados nas "Quintas de Leitura": a música.
O jovem e laureado pianista Raúl Peixoto da Costa vai, como habitualmente, deixar-nos sem respiração. A presença encantatória de Márcia (voz e guitarra), novo talento da música portuguesa. Por fim, o som do novo projecto do Porto "As 3 Marias", grupo constituído por Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (Contrabaixo) e Zagalo (percussão) - tango clássico misturado com flamenco, bolero, bossa, jazz e tango canção.
Mimos para Peixoto, antes da sua partida para a Roménia e para a Argentina, entre muitos outros países. Um espectáculo total, imperdível, para pessoas que gostam de emoções fortes.
Espectáculo para maiores de 18 anos, não vá o diabo tecê-las.
Nota: bilhetes entre 6 e 9 euros.
Fotografia: Augusto Brázio.
MONÓLOGO
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.
Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.
Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.
Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.
(José Luís Peixoto, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)
09/09/09
CASTING DAS "QUINTAS DE LEITURA"
AS CONTAS DAS "QUINTAS"
José Luís Peixoto - 6 presenças
valter hugo mãe - 5
Gonçalo M. Tavares - 4
Jorge Sousa Braga - 3
Nuno Júdice - 3
Daniel Maia-Pinto Rodrigues - 3
Filipa Leal - 3
AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"
Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:
20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho
22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
19 de Maio 2005
MORRESTE-ME
18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO
19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira
17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
08/09/09
OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
07/09/09
MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:
Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.
Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.
Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.
A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.
Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.
E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
04/09/09
PARABÉNS, ZÉ LUÍS!
Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:
"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."
(Raoul Vaneigen)
"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,
como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,
como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.
LAVAR A LOIÇA
E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados
nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.
A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Até ao fim do segundo acto, continuo convencido
de que sou imortal. Os meus dedos são Medeias
feitas de aço, ou são papéis, ou são mesmo dedos,
mas estão embaraçados numa contradição negra.
Com o fim do terceiro acto a aproximar-se, com o fim
a aproximar-se, reparo no pó e nos pormenores da ruína.
O meu estômago desfaz-se dentro de mim. Já não sou
o rapaz que desprezaste durante todo o segundo acto.
Houve qualquer coisa adiada e tudo foi tão breve.
Polvilho a palavra agora pelas conversas, deixo
de saber aquilo que sou, os meus olhos sobrevoam
os objectos e constato que o mundo é assim-assim.
03/09/09
QUEM TE AVISA...
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
02/09/09
O POETA CONVIDADO DE SETEMBRO
Retomamos hoje a publicação de alguns poemas da sua autoria.
CERTIDÃO DE NASCIMENTO
Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.
Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na auto-estrada e
que se despedem com a mesma sílaba.
O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.
Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.
Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.
O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
01/09/09
JOAQUIM CASTRO CALDAS
PARÁBOLA DA PEQUENEZ
uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente
ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez
ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez
ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz
(Joaquim Castro Caldas)
























