09/10/09

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã.
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

António Pedro Ribeiro

Ribeiro na Pulga.

NUNO MOURA

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luís pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecel pêtê cêpê
renô náique e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(poema de Nuno Moura)

08/10/09

DANIEL JONAS

OS DEUSES NÃO FUNCIONAM.
Dizer meu Zeus não os engana.
Sobre um muro de cal demorada

nenhuma lamentação se torna mais branca,
nem percorrendo bosques no enleio
de ramosa dor Diana
tu não me apareces.

Como um veado inábil
enleio os próprios galhos
em galhos de frondoso alheio
ou o cálice prefixa a cal
como aviso.

Não sei por que procuro assim um deus:
ando à procura de um deus pelos bosques
como de bagas.

(poema de Daniel Jonas)

JOÃO RIOS

havia
árvores e inclinações de bichos
machos e fêmeas
minúsculas pegadas a digitalizar
a lua na terra

havia
as aparas do Cristo dos domingos
levadas à boca mais que as meninas
ancoradas na geografia inexpugnável
do braço das mães

havia
cigarros colados na varanda do rosto
uma colmeia para guardar afagos
antes do uivo e da intriga de duas sílabas
sem fôlego
emudeceram o galope absoluto de um irmão

x - x

o sol é um câncer sem barcos a coreografar
nas mansardas da cidade a impaciência de um rosto
sitiado pelo espólio de uma gramática de angústia

nenhuma voz o resgata nenhuma lágrima o ostraciza
nas amplas galerias do seu nome esquece a rebentação
de outros nomes e que o tempo é uma fábrica de doenças
a contabilizar os seus dias

(dois poemas de João Rios)

07/10/09

CASTING “QUINTAS DE LEITURA”


Queríamos, antes de tudo, agradecer e salientar o empenho e o profissionalismo demonstrado por todos os candidatos que connosco se cruzaram neste casting.

Os vossos testemunhos e experiências enriqueceram-nos e tornaram-nos mais fortes nesta maratona poética de 3 dias.

Apenas alguns passarão à derradeira fase deste processo. Todos os demais, contudo, poderão contar connosco para mais desafios no futuro.

Assim sendo, a próxima viagem será partilhada ao lado dos seguintes candidatos:


Dia 30 de Setembro

Filomena Gigante
Isabel Fernandes Pinto
Joana Teixeira
José Miguel Vitorino
Manuel Tur
Rita Machado
Valdemar Santos


Dia 1 de Outubro

Catarina Barbosa
Constança Carvalho Homem
David Figueiredo
David Pontes
Gina Macedo
Luísa Kotsev
Miguel Ramos
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Sílvia Silva


Dia 2 de Outubro

Ana Paiva
Andreia Serrão de Lima
Fábio Alves
Isabel Castiajo
Margarida Carvalho
Susana Guimarães
Susana Madeira
Tiago Correia
Xana Miranda

Os nomes estão indicados pelo dia de casting e por ordem alfabética, sem qualquer outra ordem.

Os seleccionados serão brevemente contactados, via e-mail, para a etapa derradeira deste processo.

Saudações Poéticas,

João Gesta e Patrícia Vaz

06/10/09

NUNO MOURA

UMA TORRE EM VÃO


Eu vou muito suave nesta obra dos sóis
com o forno dos passos e a uretra
desmantelar a engonha dos salineiros
e a contabilidade do tacto.

De empreitada, arremessar-me fúria toira.

Eu vou muito deitado nesta voz roxa
que solta em pontilha então esbagaçe a pilha
das divisas e este tráfego do progresso
com a maleabilidade de um tira-olhos.

Pegar no soldo deste sismo e levar a impressão dos afagos.

Eu vou muito calmo neste corpo
que tu dizes ser melhor que a minha
cabeça porque um tu sentes e a outra
hás-de tomar, eu vou num grande andar.

(poema de Nuno Moura)

MAIS UM SONÓTONO DE DANIEL JONAS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p´ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

(Daniel Jonas)

02/10/09

JOÃO RIOS

ONZE MANDAMENTOS SEM A MÃO DE DEUS

1-não faças caixinhas à mãe
2-não desiludas a virilidade do pai
3-não micro-ondes o noivo da irmã
4-não alcatifes a oceânica língua da avó
5-não degeneres o cofre maçónico do avô
6-não sociabilizes as patinhas do cão
7-não aplaudas a acrobacia elíptica do gato
8-não enroles o falsete vegetariano do canário
9-não alimentes a neuro solidão do peixinho
10-não suavizes a liberdade geométrica do pombal
11-não aconteças por acaso neste circo domado país

(poema de João Rios)

NUNO MOURA

Desemprego

Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.

(poema de Nuno Moura)

01/10/09

DANIEL JONAS

É OUTONO E CHOVE NO MEU SONETO.

Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.

(Sonótono de Daniel Jonas)

NUNO MOURA

Quem nunca pecou que
atire a primeira pedra.

todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.

alguém disse: é o perdão
de deus.

alguém reparou: mas o mar
vem aí.

(poema de Nuno Moura)

30/09/09

JOÃO RIOS

FREE NATION

Perseguido por um cão
um sorriso de Gioconda
pela boca de um cego
acende o fole do acordeão
e a cambalhota do ego

latin-lover´s histéricos
anti-cristos profissionais
do coração
sequestram liberdades enviuvadas
e castidades sobrenaturais

entusiasmadas com a precedência
três bailarinas estrábicas e um filme
de smoking vestido
entraram em greve de fome em favor
das vítimas profissionais do segundo balcão

(poema de João Rios)

29/09/09

A. PEDRO RIBEIRO.

POEMA À GAJA DA MESA DO FUNDO

Está-me a bater aquela gaja da mesa do fundo
Estás-me a bater, gaja da mesa do fundo!
Olha! Vais lá para fora,
Que pena!
Agora que te ia oferecer o poema
Sabes que às vezes escrevo umas coisas fora do comum
Sabes que às vezes escrevo o que ninguém espera
Mas, olha, paciência
Já estou a olhar para outra
Sabes que me deixei de apaixonar facilmente
Por isso é-me difícil mudar de gaja
Mesmo que esteja sozinho
Vou tendo uma gaja
Sabes, assim para as emergências
A verdade, gaja,
É que fiquei vidrado em ti
Aquelas paixões que vêm de vez em quando
Ah! Afinal ainda sou capaz de me apaixonar
Estás-me a bater, gaja que já não estás
Na mesa do fundo
E venha a cerveja, ó Adriano!
Que isto de criar não é para todos
O poeta está com sede
O mundo assim não avança.

( poema de A. Pedro Ribeiro)

Casting para leitores de poesia começa amanhã



O ciclo poético Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre pretende descobrir novos talentos na leitura de poemas que possam vir a integrar o conjunto de recitadores associados a esta iniciativa, pelo que preparou um casting que começa amanhã e se prolonga, numa primeira fase, por três dias (de 30 de Setembro a 2 de Outubro).

Devido ao sucesso desta iniciativa, cujo número de inscrições ultrapassou todas as expectativas, nesta primeira fase estão já marcados três dias de casting intensivo, no qual serão ouvidas mais de 80 pessoas.

Cada candidato trará um poema à sua escolha e será convidado ainda a ler um outro poema, seleccionado pelo programador das Quintas de Leitura, João Gesta.

Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.

Uma outra oportunidade ocorrerá numa segunda fase, a realizar até final de Novembro, para a qual estão previstos outros tantos inscritos.

Fotografia de Mafalda Capela.

28/09/09

Em Outubro 4 Poetas

Para ler clicar sobre a imagem.

Uma noite de tributo a José Luís Peixoto


Catarina Nunes de Almeida e Margarida Cardeal ( leituras)



Sandra Salomé e Pedro Lamares ( leituras)




José Luís Peixoto



Raúl Peixoto da Costa (piano)



Pedro Nunes (apresentação)



Isabel Ariel ( dança)



Márcia (voz e guitarra)



Cindy ( striptease)



As 3 Marias (tango fusão. Cristina Bacelar- guitarra e voz; Fátima Santos - acordeão; Sara Barbosa - contrabaixo; e Zagalo - percussão; Ianina Khmelik - violinista convidada).



Fotografias de Sara Moutinho.

23/09/09

CARTA DE CONDUÇÃO

Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.

Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.

A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.

Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.

Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

No JN de hoje.

Para ler clicar sobre a imagem. Obrigada.

22/09/09

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

É, talvez, o mais conhecido poema de José Luís Peixoto e um dos mais belos.


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de põr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Criança em Ruínas"/ Edições Quasi)

21/09/09

Sugestão da revista Pública de ontem. Para ler clicar sobre a imagem.

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

"LIVRE", uma espécie de tributo ao poeta José Luís Peixoto, trará a palco, durante 3 horas de espectáculo, quase duas dezenas de artistas.
Estes serão os heróis da próxima quinta-feira:

JOSÉ LUÍS PEIXOTO
AUGUSTO BRÁZIO
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
MARGARIDA CARDEAL
SANDRA SALOMÉ
PEDRO LAMARES
PEDRO NUNES
ISABEL ARIEL
CINDY
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
MÁRCIA
CRISTINA BACELAR
FÁTIMA SANTOS
SARA BARBOSA
ZAGALO

MAIS OS 300 ESPECTADORES QUE JÁ COMPRARAM BILHETE PARA A SESSÃO...

OBRIGADO A TODOS! - NESTA NOITE, A POESIA TOMARÁ CONTA DAS NOSSAS VIDAS.

18/09/09

POSTAIS

Quando chegaste - esquálida e coberta de adjectivos
que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou
de ser solene.

Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças,
e rimo-nos. A história escreveu-se escreveu-se longe
das nossas mãos.

Não sabemos mais verdades do que a nossa.

Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos.
Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e
insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo
de creme.

X-X

E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos
às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro
de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.

X-X

Sozinho, chego a uma cidade saqueada
e caminho com vagar, os braços quase
parados, olho para as portas abertas,
o que sobrou está espalhado nas ruas,
o ar é limpo porque ninguém o respira,
esta cidade, este silêncio, esta cidade,
tenho na pele do rosto o contrário
do choro de uma criança, esse tempo
já passou, tenho tranquilidade séria
e erosão porque esta é a nossa cidade
e porque sei que não te vou encontrar
quando chegar a casa, minha mãe.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

17/09/09

Literatura Portuguesa no seu melhor

Quatro autores portugueses entre os 10 finalistas do Prémio PT

José Luís Peixoto é um deles.

São Paulo, 16 Set (Lusa) -- Quatro escritores portugueses e seis brasileiros estão entre os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom em Língua Portuguesa 2009, informaram hoje os organizadores.

Entre os finalistas portugueses estão "A eternidade e o desejo", de Inês Pedrosa, "Aprender a rezar na era da técnica", de Gonçalo M. Tavares, "Cemitério de pianos", de José Luís Peixoto, e "Ontem não te vi em Babilónia", de António Lobo Antunes.

As obras "A viagem do elefante", de José Saramago, e "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares, estavam entre os 50 finalistas mas não foram indicados para a disputa final, cujo resultado será conhecido a 10 de Novembro, em São Paulo.



Prémio PT: Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009.



RECORTES DE JORNAL

PIRÓMANO

A situação é esta: os campos eram puros e limpos,
eu ateei muitos fogos, tinha fósforos e gasolina,
agora estou no exacto centro de todos eles,
cercam-me por todos os lados que não existem
para fugir, e espero pelo incêndio, apenas espero.


QUARTO

Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)

16/09/09

SIC Notícias | 20.02.2009 | Cartaz - As 3 Marias

Estarão na sessão de Quintas de Leitura de tributo a José Luís Peixoto, na noite de 24 de Setembro.

POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

15/09/09

60.000

Festejamos 60.000 páginas visitadas com um poema de Adília Lopes:

DUAS IRMÃS SOLTEIRONAS
VIVEM JUNTAS
COM UMA GATA
QUE NUNCA DEIXAM SAIR
UMA DAS IRMÃS CASA
A OUTRA PEDE-LHE
UMA CARTA
A RELATAR PORMENORIZADAMENTE
A NOITE DE NÚPCIAS
A OUTRA MANDA-LHE
UM TELEGRAMA
"MANA, SOLTA A GATA"

AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FOTOGRAFIA DO PORTO

O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)

14/09/09

Jornal de Notícias

Na edição de 12 de Setembro de 2009. Para ler clicar na imagem.

AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FOTOGRAFIA DE HELSÍNQUIA

O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.


FOTOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO

Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.


FOTOGRAFIA DE BUDAPESTE


Os monumentos de Budapeste e as suas ruas
são o mal que fiz a uma rapariga de olhos grandes.
Às vezes, lembro-me de Budapeste a propósito de
pormenores: ganchos de cabelo, caretas ao espelho.
Quando eu e Budapeste passeávamos de mão dada,
havia uma espécie de justiça na copa das árvores.
Nesse tempo, não existia memória, éramos apenas
as nossas pegadas na neve. Budapeste não tem solução.
Passarão décadas e morreremos cheios de segredos.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

11/09/09

Estudo Op.10 Nº4 - Chopin

Só mais uma. Para que não restem dúvidas.

Sugestão Diabólica - Prokofiev

Raúl Peixoto da Costa de regresso às Quintas de Leitura. De cortar a respiração.

Márcia - A Pele Que Há Em Mim @ Fnac Coimbra 2009

Para ouvir no recital Livre, em 24 de Setembro de 2009.

No site RTP

No site da RTP, clicando aqui.

AS "FOTOGRAFIAS DE CIDADES" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO




FOTOGRAFIA DE SÃO FRANCISCO


São Francisco és tu e são as tardes que passávamos
no sofá, sentados ou deitados de todas as formas,
em todas as direcções. Não guardo ressentimentos
de São Francisco e chegará um tempo em que,
de novo, seremos capazes de passar um fim-de-semana
entre chapéus de sol e sol. A Califórnia não é eterna,
mas há um certo tipo de silêncio que se procura
sempre e que se encontra apenas muito raramente.
Esse é o teu brilho, São Francisco. Vais ver, teremos
camisas de flores coloridas e saberemos rir-nos
de tudo. E, contra todas as expectativas, quando
um de nós estiver a morrer, o outro estará lá.


FOTOGRAFIA DE ABIDJAN


Abidjan tem cicatrizes nas ancas.
Cuidadoso, pouso as mãos noutro lado,
seguro Abidjan pela cintura.
Não porque as cicatrizes sejam dolorosas,
há muito que Abidjan se habituou a elas,
mas porque me fazem impressão a mim.
As cicatrizes de Abijan foram-lhe feitas pela avó
com um ferro em brasa, quando era criança.
Eu e Abijan bebemos garrafas de coca-cola.
Seguramo-las como algo valioso,
somos senhores por um momento.
Abidjan diz: mostra-me o teu quarto,
e eu, não sou capaz de resistir.


FOTOGRAFIA DE MADRID


Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

10/09/09

Música, tango e striptease em tributo a José Luís Peixoto



O escritor regressa às Quintas de Leitura

O dia 24 de Setembro marcará a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". A sessão, intitulada "LIVRE", realiza-se às 22h00 no Auditório do TCA.

José Luís Peixoto irá revelar-nos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano pela Editora Quetzal.

Esta sessão deverá também ser entendida como um tributo das "Quintas de Leitura" ao Poeta. Reconhecemos a fidelidade e a atenção que José Luís Peixoto tem dedicado a este ciclo e queremos agradecer-lhe esse afecto.

Para tal, foi montada uma grande festa da Poesia que incluirá leituras, dança, imagem e muita música. Um espectáculo com a duração de cerca de 150 minutos, cheio de momentos inusitados e muitas surpresas.

Participam nas leituras os actores Pedro Lamares, Sandra Salomé e Margarida Cardeal e também a poeta Catarina Nunes de Almeida. Pedro Nunes será o mestre-de-cerimónias da festa.

Na dança, presença da bailarina Isabel Ariel. Assinale-se ainda um momento de striptease assegurado pela dançarina romena Cindy.

A imagem da sessão será assinada por Augusto Brázio, cúmplice de José Luís Peixoto em muitas aventuras fotográficas.

Por fim, momentos sempre esperados nas "Quintas de Leitura": a música.

O jovem e laureado pianista Raúl Peixoto da Costa vai, como habitualmente, deixar-nos sem respiração. A presença encantatória de Márcia (voz e guitarra), novo talento da música portuguesa. Por fim, o som do novo projecto do Porto "As 3 Marias", grupo constituído por Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (Contrabaixo) e Zagalo (percussão) - tango clássico misturado com flamenco, bolero, bossa, jazz e tango canção.

Mimos para Peixoto, antes da sua partida para a Roménia e para a Argentina, entre muitos outros países. Um espectáculo total, imperdível, para pessoas que gostam de emoções fortes.

Espectáculo para maiores de 18 anos, não vá o diabo tecê-las.


Nota: bilhetes entre 6 e 9 euros.

Fotografia: Augusto Brázio.

MONÓLOGO

Romeu, o teu nome é um pacto e um relógio.
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.

Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.

Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.

Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.

(José Luís Peixoto, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)

09/09/09

09/09/09

O PIANO DO MINISTRO TAMBÉM NÃO ERA VERTICAL

(pensamento, quase normal, de João Gesta)

CASTING DAS "QUINTAS DE LEITURA"


AVISO:

Em virtude do grande número de inscrições recebido até ao momento, iremos alargar o casting das "Quintas de Leitura" a um terceiro dia - DIA 30 DE SETEMBRO. Serão aceites inscrições apenas até ao preenchimento total do horário do casting previsto para este terceiro dia.

Reconhecendo a grande adesão de pessoas a esta iniciativa, esperamos abrir um novo casting no MÊS DE NOVEMBRO para aqueles que não tiveram oportunidade de se apresentar no casting de Setembro/Outubro.

Saudações Poéticas!

AS CONTAS DAS "QUINTAS"

Os Poetas com maior número de presenças nas sessões das "Quintas":

José Luís Peixoto - 6 presenças

valter hugo mãe - 5

Gonçalo M. Tavares - 4

Jorge Sousa Braga - 3

Nuno Júdice - 3

Daniel Maia-Pinto Rodrigues - 3

Filipa Leal - 3

AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"

Teremos no próximo dia 24 de Setembro a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura".

Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:

20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho

22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
apresentação de Fernando Alvim

19 de Maio 2005
MORRESTE-ME

18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO

19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira

17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
conversa com Yolanda Castaño


A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
Compre já o seu bilhete!

08/09/09

Notícia publicada hoje.

OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

07/09/09

MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO


Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:



Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

Fotografia de Augusto Brázio

04/09/09

PARABÉNS, ZÉ LUÍS!

O José Luís Peixoto faz hoje 35 anos. Nasceu em 1974, ano de todas as alegrias.

Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:

"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."

(Raoul Vaneigen)

"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

(fotografia de Augusto Brázio)


LIMPAR O PÓ

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.


LAVAR A LOIÇA

E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados

nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.

A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

SUBTEXTO

Até ao fim do segundo acto, continuo convencido
de que sou imortal. Os meus dedos são Medeias
feitas de aço, ou são papéis, ou são mesmo dedos,
mas estão embaraçados numa contradição negra.

Com o fim do terceiro acto a aproximar-se, com o fim
a aproximar-se, reparo no pó e nos pormenores da ruína.
O meu estômago desfaz-se dentro de mim. Já não sou
o rapaz que desprezaste durante todo o segundo acto.

Houve qualquer coisa adiada e tudo foi tão breve.
Polvilho a palavra agora pelas conversas, deixo
de saber aquilo que sou, os meus olhos sobrevoam
os objectos e constato que o mundo é assim-assim.

03/09/09

QUEM TE AVISA...

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

02/09/09

O POETA CONVIDADO DE SETEMBRO

José Luís Peixoto vai estar de novo connosco (dia 24 de Setembro), numa sessão imperdível intitulada "LIVRE".
Retomamos hoje a publicação de alguns poemas da sua autoria.

CERTIDÃO DE NASCIMENTO


Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.

Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na auto-estrada e
que se despedem com a mesma sílaba.

O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.

Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.

Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.

O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

01/09/09

JOAQUIM CASTRO CALDAS

O Poeta deixou-nos há exactamente um ano. Ficou a sua obra.

PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz

(Joaquim Castro Caldas)

30/07/09

FÉRIAS

(Para ler clicar sobre a imagem)


O BLOGUE DAS QUINTAS DE LEITURA DO TCA VAI DE FÉRIAS
ATÉ 31 DE AGOSTO.

FICA AQUI O FLYER DA NOSSA PRÓXIMA SESSÃO PARA AGUÇAR O APETITE.

BOAS FÉRIAS

LIVRE. DIA 24 DE SETEMBRO NO TCA.

Publicamos hoje o último poema, antes de férias, de José Luís Peixoto. O Poeta será o convidado das "Quintas" no dia 24 de Setembro, numa mega-sessão intitulada "LIVRE".
Nela, apresentaremos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do novo romance de Peixoto, a publicar ainda este ano.

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


(José Luís Peixoto, in "A criança em ruínas"/ Edições Quasi)

CASTING PARA LEITORES

(para ler clicar sobre a imagem)

Gostas de poesia?

Queres ler poesia nas sessões das “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre?

Então, inscreve-te no CASTING que iremos realizar nos dias 1 e 2 de Outubro no TCA (Porto).

Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.

INSCRIÇÕES

Há uma inscrição prévia OBRIGATÓRIA através do e-mail pvaz@tca-porto.pt . Só serão aceites as inscrições realizadas no período de 7 a 29 de Setembro. Todos os candidatos admitidos serão contactados, via e-mail, para confirmação e marcação da hora do respectivo casting.

Da inscrição têm de constar obrigatoriamente os seguintes elementos: nome completo, data de nascimento, naturalidade e contacto telefónico.

Tens de trazer um poema à tua escolha. Irás ler ainda um poema seleccionado por nós.

Para esclarecimento de qualquer dúvida, contactar, a partir de dia 7 de Setembro, Patrícia Vaz através do

22 606 30 17.

Boas Leituras!

A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" de Outubro a Dezembro de 2009

29 de Outubro de 2009

Café-Teatro

22h00

“UM POETA NO SAPATO”

Espectáculo para maiores de 16 anos

As "Quintas de leitura" vão pegar fogo. Eles são quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes, da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura. Durante quarenta minutos, ler-nos-ão os seus poemas

incendiários, eivados de amor e humores de todas as cores.

A actriz Adriana Faria ajuda à festa e o artista plástico Mário Vitória dá imagem à sessão.

Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life". Uma imperdível performance baseada na história da violoncelista Guilhermina Suggia.

Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico).

Foi você que pediu uma noite esquisita?

(Imagem de Mário Vitória)



26 de Novembro de 2009

Auditório

22h00

“LADO B”

Espectáculo para maiores de 16 anos

O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12.ª vez.

Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. Oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.

O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de

volta nesta bem disposta e irreverente visão do mundo.

Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.

(Fotografia de Susana Paiva)


17 de Dezembro de 2009

Café-Teatro

22h00

“CERCO VOLUNTÁRIO”

Espectáculo para maiores de 12 anos

Sessão de lançamento do 13.º livro da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. O autor da obra é Vasco Gato, uma das vozes mais importantes da “novíssima” poesia portuguesa. O livro intitula-se “Cerco Voluntário”, tem gravuras de Sandra Filipe e será apresentado por Catarina Nunes de Almeida.

A sessão contará ainda com leituras de Vasco Gato, Catarina Nunes de Almeida e Pedro Lamares e com imagem de Sandra Filipe.

Uma performance por Sónia Baptista e um concerto por Tó Trips (“Guitarra 66”, o novo projecto a solo) completam o espectáculo.

Uma noite mágica de poesia, música e o que mais se verá.

(Imagem: Sandra Filipe)

29/07/09

O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"

MÚSICA

como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão,

como um instante único da vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,

assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,

assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)

28/07/09

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

OS LIVROS

em cada página, o teu olhar. em cada montanha,
a tua voz. deixa-me falar contigo. lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.

as palavras existem. eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.

em cada página, os campos. em cada montanha,
tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.

passam anos sobre as palavras. os dias existem.
seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)

27/07/09

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO

Voltamos hoje à poesia de José Luís Peixoto, o convidado da próxima sessão das "Quintas de Leitura". A sessão intitula-se "LIVRE" e realizar-se-á no dia 24 de Setembro.

PRÍNCIPE

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. quantas
pessoas entendem aquilo que não entendo? quem
descobriu o segredo mais inútil?

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.

entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.

o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)

24/07/09

MAIS DOIS POEMAS DE HAL SIROWITZ

Publicamos hoje os últimos poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto.

MIGALHAS

Não leves comida para o quarto,
disse a mãe. Vais ter mais bichos.
Eles dependem de pessoas como tu.
De outra forma, morreriam à fome.
Mas quem é que queres fazer feliz,
a tua mãe ou um monte de formigas?
O que é que elas fizeram por ti?
Nada. Elas não têm sentimentos.
Elas vão comer os teus doces. Mesmo assim
tráta-las melhor do que me tratas a mim.
Estás sempre a alimentá-las.
Mas nunca me ofereces nada a mim.

DECLARAÇÃO

Se o John F. Kennedy consegue levar a sua mãe
à inauguração, disse a mãe, & não se sente
envergonhado quando ela põe o braço à sua volta,
então porque é que tu não queres ser visto
comigo na rua? Ele é o Chefe Máximo
de todo o país, & tu nem sequer mandas
no teu quarto. Tenho de ser eu a limpá-lo por ti.
Nunca ouvi ninguém a chamar-lhe maricas
por andar com a mãe, & mesmo se
alguém chamasse, isso não o incomodava, porque
ele sabe que não é verdade. Nunca me mandaste
embora quando eu te estava a mudar as fraldas.
As mães são o grupo mais injustiçado do país.
Assim que os filhos se tornam suficientemente crescidos,
fingem que já não nos conhecem.

(poemas de Hal Sirowitz)