23/11/09

A POESIA DE VASCO GATO


haverá talvez um poema


haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

x-x

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem


quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

x-x

primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

(poemas de VASCO GATO, in "Um Mover de Mão"/Assírio & Alvim)
Fotografia de Tiago Vieira

João Gesta - Programa Vizinhos - Porto Canal - Segunda Parte




Pedro Nunes, da Porto Canal, visitou João Gesta no Teatro do Campo Alegre numa noite de ensaios para a sessão de Quintas de Leitura «Um Poeta no Sapato» ( A. Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, Nuno Moura e João Rios).


Dia 29 de Outubro o programa Vizinhos foi emitido.


(Peço desculpa pela demora da publicação da segunda-parte deste programa, mas nem sempre a Internet responde da forma que pretendo. Foi demorado mas consegui).

20/11/09

VASCO GATO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

O poeta Vasco Gato será o convidado das "Quintas de Leitura" no próximo dia 17 de Dezembro.
A sessão intitula-se "Cerco Voluntário" e servirá para lançar o seu livro com o mesmo título, integrado na colecção "Cadernos do Campo Alegre".
Iniciamos hoje a publicação de alguns dos mais belos poemas de Vasco Gato, justamente considerado como uma das vozes mais singulares e importantes da "novíssima poesia portuguesa".


um no outro


imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra


na palma da tua mão


e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te


segredo


segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.

segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.


traço comum


descalço-me de sombras para chegar até ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho a criança o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira

(poemas de Vasco Gato, in "Um Mover de Mão"/ Assírio & Alvim)

18/11/09

Fotografia de Pat


IGUAIS AOS DEUSES

António Pedro Ribeiro

Acordo de madrugada. Penso que sou um rei em cima do palco. As mulheres acham-me piada e riem-se para mim. Ontem só bebi cinco cervejas. Tenho bebido muitas mais noutras noites. Pensava que depois de ter ido ao Campo Alegre as mulheres bonitas me viriam dar beijos na boca. Afinal, não. É a mesma rotina de sempre. É como um gajo em frente ao computador a teclar. Terei algo que os outros não têm. Ando na demanda do Graal, procuro os moinhos de Quixote. A anarquia vem ter comigo. Estou mesmo muito bem disposto. Poderia ter conversas espirituosas com muita gente. Fá-los-ia rir. Pelo menos não ando para aí a partir os vidros dos carros. O que até nem era má ideia. Anjo em chamas. Por onde andas? Por aí, atrás da minha loucura. Os meus berros são de louco. Cambaleio pelo palco. Faz-me falta o Henrique. Ando a ouvir as canções todas das Las Tequillas no youtube. Diz a palavra. Quero ir para o palco. O meu reino por um palco. A plateia aborrece-se, entendia-me. Sempre as pessoas normais a fazer as coisas normais. Sempre as pessoas a dizer avé-maria ao chefe, ao Sócrates, ao Cavaco. Sempre atrás do dinheiro e do estatuto social. Sempre fechadas na família. Sempre a fingir que estão bem. Sempre a criticar o parceiro do lado. Não! Não é isso que quero. Afastei-me dessa via. Não sou mesquinho, não sou merceeiro. Estou do lado da liberdade. Do lado do criador. Do bailarino. Vim para aqui de graça para criar. Assim devo continuar. Assim é o Artista. Provoco os outros. Faço-os rir. Para isso vim ao mundo. Nada a fazer. A vida não é só comer, beber e sacar dinheiro. Estamos aqui para algo de muito mais alto, de mais sublime. Estamos aqui para sermos iguais aos deuses.

17/11/09

Em Dezembro novo livro de Vasco Gato

Para ler clicar sobre a imagem.

CASTING "QUINTAS DE LEITURA" EFECTUADO NOS DIAS 12 E 13 DE NOVEMBRO

Queremos, antes de tudo, registar e agradecer a valiosa participação
e o empenhamento de todos os candidatos
ao casting das "Quintas de Leitura".

Comunicamos, ainda, que passam à segunda e derradeira fase os seguintes participantes:

Ana Celeste Ferreira
Ana Melo
Avelina Vieira
Brisa Marques
Carla Marques
Carolina Sousa
Catarina Costa
Fátima Vale
Isabel Carvalho
Laura Gonzalez
Leonor Cabral
Manuela Leitão
Maria Mata
Mariana Reis
Pedro J. Ribeiro
Renato Cardoso
Rita Reis
Rute Miranda
Sónia Costa
Tânia Dinis
Teresa Arcanjo
Teresa Coutinho
Vera Cruz

Saudações Poéticas

"LADO B" DE PEDRO TOCHAS


ESTE ESPECTÁCULO JÁ ESTÁ ESGOTADO.

PARABÉNS, PEDRO TOCHAS!

11/11/09

ADÍLIA LOPES

A acrobata deu mal um salto mortal
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras

(Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim)

10/11/09

SÓ MAIS UM

UM FIGO


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

09/11/09

Lado B - Espectáculo emblemático


Pedro Tochas nas “Quintas de Leitura”

O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12ª vez. Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. A 26 de Novembro, às 22h00, no auditório do TCA, oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.

A propósito deste espectáculo, João Gesta, o programador, explica:

“Num gigantesco esforço patriótico, a que só as gerações vinhodouras darão o devido apreço, as ‘Quintas de Leitura’ propõem-se combater a depressão que assola o país através da administração de uma vacina feita à base de humor seguro e natural.

O posto de vacinação é o Teatro do Campo Alegre e o enfermeiro de serviço é o comediante Pedro Tochas. A vacina é recomendável a maiores de 16 anos.”

O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de volta nesta bem-disposta e irreverente visão do mundo. Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.


Espectáculo único, para maiores de 16 anos.

Venha curar-se dessa maldita depressão que não o larga, pela módica quantia de 9,00 Euros ou 6,00 (com desconto).

Fotografia: Susana Paiva.

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

LUCINDA E MADAME PALMIRA

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

06/11/09

JOÃO GESTA - Vizinhos - Parte I

Pedro Nunes visitou João Gesta numa das noites de ensaio do último espectáculo de Quintas de Leitura - Um Poeta no Sapato.

No dia da sessão com Daniel Jonas, A. Pedro Ribeiro, João Rios e Nuno Moura, ou seja 29 de Outubro de 2009, todos ficaram a saber desta visita: João Gesta, o nosso programador, esteve 30 minutos em antena na Porto Canal, no magnífico programa Vizinhos.

Aqui fica a primeira parte do programa.


A POESIA DE ADÍLIA LOPES


A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA


A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus

A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)

x-x

MICROBIOGRAFIAS


Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
Fotografia de Graça Sarsfield em Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001. )

04/11/09

MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

x-x

Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar

x-x

DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

x-x

A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

03/11/09

ADÍLIA LOPES


Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.

O BEIJO

Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me

x-x

ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)


Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

x-x

Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda

x-x

Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)

30/10/09

Uma noite revolucionária

Performance - The Story of My Life de Mônica Coteriano e Pedro Gonçalves.


Apresentação de Adriana Faria


O poeta João Rios

Aníbal Andrade acompanhou João Rios na leitura de dois dos seus poemas.

Um poeta no sapato - Nuno Moura, Daniel Jonas, João Rios e A. Pedro Ribeiro.


O poeta A. Pedro Ribeiro


João Rios e Aníbal Andrade


O poeta Nuno Moura

O poeta Daniel Jonas











Música - Moliquentos - Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria)
e Zeca Iglésias (baixo eléctrico)

Fotografias de Sara Moutinho.

27/10/09

UM POETA NO SAPATO

Registamos hoje o nome de todos os artistas envolvidos nesta incendiária sessão. 120 minutos de poesia, música, performance, moda e imagem. A não perder, para quem gosta de emoções fortes.

A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)