11/11/09
ADÍLIA LOPES
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras
(Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim)
10/11/09
SÓ MAIS UM
Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo
(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)
09/11/09
Lado B - Espectáculo emblemático
Pedro Tochas nas “Quintas de Leitura”
O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12ª vez. Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. A 26 de Novembro, às 22h00, no auditório do TCA, oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.
O posto de vacinação é o Teatro do Campo Alegre e o enfermeiro de serviço é o comediante Pedro Tochas. A vacina é recomendável a maiores de 16 anos.”
O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de volta nesta bem-disposta e irreverente visão do mundo. Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.
Espectáculo único, para maiores de 16 anos.
Venha curar-se dessa maldita depressão que não o larga, pela módica quantia de 9,00 Euros ou 6,00 (com desconto).
ADÍLIA LOPES, SEMPRE!
Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu
(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)
06/11/09
JOÃO GESTA - Vizinhos - Parte I
A POESIA DE ADÍLIA LOPES

A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA
A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus
A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)
x-x
MICROBIOGRAFIAS
Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz
*
Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva
*
Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke
*
Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas
*
Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola
(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
04/11/09
MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra
x-x
Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar
x-x
DOCE AVENTURA EM SAN SABINA
Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel
x-x
A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso
(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)
03/11/09
ADÍLIA LOPES

Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.
O BEIJO
Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me
x-x
ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)
Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes
x-x
Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda
x-x
Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy
(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)
30/10/09
Uma noite revolucionária
29/10/09
Pedro Tochas - Lado B - BILHETES À VENDA
27/10/09
UM POETA NO SAPATO
A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)
26/10/09
A. PEDRO RIBEIRO
A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada
É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.
x-x
SALOON
Todos os loucos desaguam à minha mesa.
O revisor da CP com dúvidas metafísicas
- sabe, estive a pensar como seria o mundo de pernas para o
ar-
o bisneto do escultor
- você é jornalista, faça-me uma entrevista.
As amigas acariciam-se nas bochechas
o filme recua dez anos
matilha que reconhece o totem
Bombos da corte
barbas pontiagudas
rússia imperial
Bazar do czar
Saloon
cavalos à porta
cowboys punks urinóis
chuta, chavalo
x-x
COLT 45
A pele a lata
O poema que se oferece
Em flor
A pose do assassino
Que controla
E o saloon é teu
A cidade é tua
Gingando de pistola
No coldre
Colt 45
x-x
LIKE A ROLLING STONE
Controlada
Abandonada à beira rádio
Perdes o controle e falas
Perdes o controle e calas
E o mundo vira lá fora
E o amigo é inimigo
E já não somos crianças
E meio mundo fode outro meio
E já não há pontos de apoio
Já não há palavras fáceis
E nenhuma das fórmulas gastas serve
E tu corres gemes choras
e eu observo
e amo-te
Quando tudo desaba
E o cigarro morre na boca.
(poemas de A. Pedro Ribeiro)
23/10/09
JOÃO RIOS
A LEI DA EVIDÊNCIA
Você vai a lisboa e não pensa
você vem de lisboa e não estuda
você passa a vida e não lembra
que só a morte o chumba
x - x
IMPRÓPRIOS BURGUESES
Os deste burgo às vezes impróprios burgueses
declaram inquisição ao queque embebedam o polvo
amnistiam o feijão frade
assediam em oratória de canino dourado
o romantismo subalimentado da pequena
do Serafim um seu humilde criado
puro-sague latino que sem pundonor
eleva em belicismo de bagaço
o arroto à condição de colunável
x - x
BIG BANG
Pede café e os últimos crimes bem sucedidos
um valete de viciado tamanho ergue a prata
do punhal e
e perseguem a solidão no friso nocturno da cidade
enquanto um buda de reputada faiança converte
umas suecas
e às tantas big bang um enforcado decide doar a corda
aos comissários mais capazes do paraíso
porque cândidos só os anjos e a alma não seca
por alcançar o céu
(poemas de João Rios. Fotografia de Sara Moutinho)
22/10/09
CASTING "QUINTAS DE LEITURA"
Para os candidatos não seleccionados, outros desafios se seguirão, para os quais contaremos sempre com a vossa energia e o vosso talento.
Iremos, à medida das nossas necessidades, trabalhar num futuro próximo, com os seguintes elementos apurados:
Ana Catarina Barbosa
Ana Paiva
Constança Carvalho Homem
David Costa Figueiredo
Gina Macedo
Isabel Fernandes Pinto
Luísa Kotsev
Manuel Tur
Margarida Carvalho
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Rita Machado
Susana Guimarães
Susana Madeira
Valdemar Santos
Saudações Poéticas,
João Gesta
(Programador)
e
Patrícia Vaz
(Produtora)
NUNO MOURA
que aquece debaixo da saia
um cavalo
vem da cor directa da fuça
o triciclo da dor
o cavalo vai pela mão
do príncipe
x - x
Um espaço e duas laranjeiras:
porque estava louco cortei
uns meses para a frente
e matei-me ontem entre as mimosas
antes de virem regar o jardim.
andaram da terra dois braços depressa
que me espetaram na cavalita do seu rosto.
com o tronco de fora
dominei o míssel horta toda.
foi a minha melhor cava de sempre.
x - x
Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.
mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.
mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.
mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.
(poemas de Nuno Moura)
21/10/09
DANIEL JONAS
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.
x-x
AEROFÁGICAS
Anafada
aquela fada
tem o condão
de não gostar nada
de varinhas mágicas
x-x
COMÉDIA
Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.
x-x
ELEMENTÁRIO
O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
(poemas de Daniel Jonas)




















