09/11/09

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

LUCINDA E MADAME PALMIRA

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu

(Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

06/11/09

JOÃO GESTA - Vizinhos - Parte I

Pedro Nunes visitou João Gesta numa das noites de ensaio do último espectáculo de Quintas de Leitura - Um Poeta no Sapato.

No dia da sessão com Daniel Jonas, A. Pedro Ribeiro, João Rios e Nuno Moura, ou seja 29 de Outubro de 2009, todos ficaram a saber desta visita: João Gesta, o nosso programador, esteve 30 minutos em antena na Porto Canal, no magnífico programa Vizinhos.

Aqui fica a primeira parte do programa.


A POESIA DE ADÍLIA LOPES


A CORRESPONDÊNCIA BIUNÍVOCA


A princesa tem um anel em cada dedo
tem um dedo em cada anel
tem mil anéis
a princesa tem um sapato em cada pé
tem um pé em cada sapato
tem mil sapatos
a princesa tem um chapéu em cada cabeça
tem uma cabeça em cada chapéu
tem mil chapéus

A princesa tem apenas o estritamente necessário
(espera a princesa o seu primeiro e milésimo filho?)

x-x

MICROBIOGRAFIAS


Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Shopia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus dos seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/ Assírio & Alvim.
Fotografia de Graça Sarsfield em Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001. )

04/11/09

MAIS POESIA DE ADÍLIA LOPES

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

x-x

Não se sabe bem como
uma cliente a mexer em algodão
cortou-se
pelo chão alastrou uma mancha de sangue
enorme
e as empregadas do supermercado
para esconder o sangue da cliente
em vez de serradura
usaram açúcar

x-x

DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

x-x

A mais pequena distracção
pode causar a morte do artista
o domador de tigres
tem de prestar muita atenção
ao tigre
se não o tigre come-o
o pintor de jarras com crisântemos
falha uma natureza morta
e em desespero de causa
come a jarra com os crisântemos
que horror engoliu vidro moído
mas não foi bem isso

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

03/11/09

ADÍLIA LOPES


Acaba de ser publicada pela Assírio & Alvim a poesia reunida de Adília Lopes. O livro, soberbo, intitula-se "DOBRA".
Nos próximos dias partilharemos convosco alguns poemas deste livro, que aconselhamos vivamente.

O BEIJO

Beijas-me na boca
e eu acordo
ou adormeço
Branca de Neve no esquife
Bela adormecida no mato
bicho do mato
que sou
anel nó selo leite
em que boiam papoilas
borboletas brancas
pano
em que me embrulho
em que te embrulho
nó górdio
anel Mobius
como-te comes-me

x-x

ADORMECER
(com algumas coisas de Maria Teresa Horta)


Preciso de te tocar
caule
gato
corda
mão
abraço-te
a tua roupa
tu
não te divulgo
o teu nome
os teus olhos azuis
a tua gentileza
espero que os partilhes
com alguém querido
como os partilhaste
comigo
amante querido
que não perco
que não deito fora
os meus amantes
não são Gillettes
(não são de usar
e deitar fora)
gosto de adormecer
a lembrar-me de ti
de como me sorrias
de como me olhavas
se os meus poemas
contribuíram para isso
são excelentes

x-x

Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda

x-x

Fui visitar o Amorinhos
à clínica
e podia não ter ido
agonizava na tenda de oxigénio
tinha sido envenenado
nunca mais o vi
ficava muito perturbado
quando ouvia Debussy

(poemas de Adília Lopes, in "Dobra" / Assírio & Alvim)

30/10/09

Uma noite revolucionária

Performance - The Story of My Life de Mônica Coteriano e Pedro Gonçalves.


Apresentação de Adriana Faria


O poeta João Rios

Aníbal Andrade acompanhou João Rios na leitura de dois dos seus poemas.

Um poeta no sapato - Nuno Moura, Daniel Jonas, João Rios e A. Pedro Ribeiro.


O poeta A. Pedro Ribeiro


João Rios e Aníbal Andrade


O poeta Nuno Moura

O poeta Daniel Jonas











Música - Moliquentos - Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria)
e Zeca Iglésias (baixo eléctrico)

Fotografias de Sara Moutinho.

27/10/09

UM POETA NO SAPATO

Registamos hoje o nome de todos os artistas envolvidos nesta incendiária sessão. 120 minutos de poesia, música, performance, moda e imagem. A não perder, para quem gosta de emoções fortes.

A. PEDRO RIBEIRO (poesia)
DANIEL JONAS (poesia)
NUNO MOURA (poesia)
JOÃO RIOS e ANÍBAL ANDRADE poesia/guitarra)
ADRIANA FARIA (apresentação)
MÁRIO VITÓRIA (imagem)
MÓNICA COTERIANO e PEDRO GONÇALVES (performance)
TÂNIA CARVALHO, BRUNA CARVALHO e ZECA IGLÉSIAS (música)

Jornal de Notícias

Sugestão publicada dia 25 de Outubro de 2009. Para ler clicar sobre a imagem.

26/10/09

RTP ONLINE

As Quintas de Leitura no site da RTP: para ler clicando aqui.

A. PEDRO RIBEIRO

RUA

A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada

É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.

x-x

SALOON

Todos os loucos desaguam à minha mesa.

O revisor da CP com dúvidas metafísicas
- sabe, estive a pensar como seria o mundo de pernas para o
ar-
o bisneto do escultor
- você é jornalista, faça-me uma entrevista.

As amigas acariciam-se nas bochechas
o filme recua dez anos
matilha que reconhece o totem

Bombos da corte
barbas pontiagudas
rússia imperial

Bazar do czar

Saloon
cavalos à porta
cowboys punks urinóis

chuta, chavalo

x-x

COLT 45

A pele a lata
O poema que se oferece
Em flor
A pose do assassino
Que controla
E o saloon é teu
A cidade é tua
Gingando de pistola
No coldre
Colt 45

x-x

LIKE A ROLLING STONE

Controlada
Abandonada à beira rádio
Perdes o controle e falas
Perdes o controle e calas
E o mundo vira lá fora
E o amigo é inimigo
E já não somos crianças
E meio mundo fode outro meio
E já não há pontos de apoio
Já não há palavras fáceis
E nenhuma das fórmulas gastas serve
E tu corres gemes choras
e eu observo
e amo-te
Quando tudo desaba
E o cigarro morre na boca.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

23/10/09

JOÃO RIOS


A LEI DA EVIDÊNCIA


Você vai a lisboa e não pensa
você vem de lisboa e não estuda
você passa a vida e não lembra
que só a morte o chumba

x - x

IMPRÓPRIOS BURGUESES


Os deste burgo às vezes impróprios burgueses
declaram inquisição ao queque embebedam o polvo
amnistiam o feijão frade
assediam em oratória de canino dourado
o romantismo subalimentado da pequena
do Serafim um seu humilde criado
puro-sague latino que sem pundonor
eleva em belicismo de bagaço
o arroto à condição de colunável

x - x

BIG BANG


Pede café e os últimos crimes bem sucedidos
um valete de viciado tamanho ergue a prata
do punhal e
e perseguem a solidão no friso nocturno da cidade
enquanto um buda de reputada faiança converte
umas suecas
e às tantas big bang um enforcado decide doar a corda
aos comissários mais capazes do paraíso
porque cândidos só os anjos e a alma não seca
por alcançar o céu

(poemas de João Rios. Fotografia de Sara Moutinho)

22/10/09

CASTING "QUINTAS DE LEITURA"


Queríamos, antes de tudo, referir o nível elevado das prestações efectuadas por todos os candidatos. Gostaríamos, ainda, de agradecer o empenho e a cumplicidade manifestada pelos participantes nesta derradeira fase do casting.

Para os candidatos não seleccionados, outros desafios se seguirão, para os quais contaremos sempre com a vossa energia e o vosso talento.

Iremos, à medida das nossas necessidades, trabalhar num futuro próximo, com os seguintes elementos apurados:

Ana Catarina Barbosa
Ana Paiva
Constança Carvalho Homem
David Costa Figueiredo
Gina Macedo
Isabel Fernandes Pinto
Luísa Kotsev
Manuel Tur
Margarida Carvalho
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Rita Machado
Susana Guimarães
Susana Madeira
Valdemar Santos


Saudações Poéticas,

João Gesta
(Programador)

e

Patrícia Vaz
(Produtora)

NUNO MOURA

é mais para a menina
que aquece debaixo da saia
um cavalo

vem da cor directa da fuça
o triciclo da dor

o cavalo vai pela mão
do príncipe

x - x

Um espaço e duas laranjeiras:

porque estava louco cortei
uns meses para a frente
e matei-me ontem entre as mimosas
antes de virem regar o jardim.

andaram da terra dois braços depressa
que me espetaram na cavalita do seu rosto.

com o tronco de fora
dominei o míssel horta toda.

foi a minha melhor cava de sempre.

x - x

Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.

mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.

(poemas de Nuno Moura)

21/10/09

DANIEL JONAS

CONFIAVA QUE SENDO MITSUBISHI A MINHA PENA
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.

x-x


AEROFÁGICAS

Anafada
aquela fada
tem o condão
de não gostar nada
de varinhas mágicas

x-x

COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

x-x

ELEMENTÁRIO

O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer

isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.


(poemas de Daniel Jonas)

19/10/09

A próxima sessão é vezes quatro


Uma "Quinta de Leitura" que vale por quatro.

Quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios.

As "Quintas de Leitura" vão pegar fogo. Quarenta minutos de poemas incendiários, eivados de amor e humor de todas as cores. Entre outros, "Declaração de amor ao primeiro-ministro", por A. Pedro Ribeiro:

"Estou apaixonado pelo primeiro-ministro

Quero vê-lo num filme porno."

Daniel Jonas, Nuno Moura, A. Pedro Ribeiro e João Rios são os poetas convidados de um espectáculo único e irrepetível, a acontecer no próximo dia 29 de Outubro, às 22h00, no auditório do TCA.

Pedimos ajuda ao poeta valter hugo mãe e ele descobriu um nome para a sessão: "UM POETA NO SAPATO".

As leituras serão asseguradas pelos Poetas convidados, sendo que a guitarra de Aníbal Andrade acompanhará João Rios em dois poemas.

A bela Adriana Faria, mestre-de-cerimónias, põe água na fervura. O artista plástico Mário Vitória, responsável pela imagem da sessão, deita achas para a fogueira.

No momento dedicado à performance, Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (contrabaixista dos Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life", história baseada na violoncelista Guilhermina Suggia.

Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto de 30 minutos com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico). Bate forte, fortemente...

Concepção de João Gesta, que continua com a pastilha em atraso.

Foi você que pediu uma noite verdadeiramente esquisita?

chichi

sofá

antes

uma volta pelo TCA.


Espectáculo para maiores de 16 anos. Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros.


A. Pedro Ribeiro

MAMAS

As mamas de Cláudia
Trouxeram-me o café e um copo de água
E empurraram-me ao balcão

A brasileira arrefece a coxa
Com cerveja
E olha para mim
Enquanto faço crítica literária
À esplanada do "Xaphariz"
E leio um poema
De Jorge de Sena

Os foguetes estalam no ar
E os UHF soltam os cavalos na Apúlia.


A ARDER


"O poeta embriagado
insultava o universo."

(Rimbaud)



O país a arder
e eu também
o país a chorar
e eu a enlouquecer
aos berros
pelas ruas da aldeia
a insultar Deus e o presidente
e a uivar led zeppelin

o país a arder
e eu a beber
copo sobre copo
sem parar
o país a arder
e eu a discutir
com o estalajadeiro
a exibir o cartão do partido
e a carteira profissional
a oferecer poemas às meninas
e a dar-lhes treta

o país a arder
e eu a sofrer
a cambalear
livre, embriagado
animal de palco
o país em fogo
e eu em chamas
anjo em chamas

o país a arder
e eu a delirar.


MUSA

Gigantes de pedra
majestosos
vastidões verdes
precipícios

Eis os teus cabelos
a raiz
os lugares
onde acasalas
onde és plena.

(poemas de A. Pedro Ribeiro)

15/10/09

10 Anos da Visão 7 - Poesia - Quintas de Leitura

A Revista Visão 7, suplemento da revista semanal Visão, faz 10 anos - PARABÉNS!
Para celebar a data, publica hoje um caderno especial (10 Marcos de Mudança) que dá destaque às 10 coisas que mudaram no Porto e no Norte ao longo destes dez anos.
Aqui fica o que dizem das
Quintas de Leitura do TCA.

Para ler por favor clicar sobre a imagem.