23/09/09
CARTA DE CONDUÇÃO
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.
Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.
A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.
Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.
Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
22/09/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de põr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Criança em Ruínas"/ Edições Quasi)
21/09/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
Estes serão os heróis da próxima quinta-feira:
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
AUGUSTO BRÁZIO
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
MARGARIDA CARDEAL
SANDRA SALOMÉ
PEDRO LAMARES
PEDRO NUNES
ISABEL ARIEL
CINDY
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
MÁRCIA
CRISTINA BACELAR
FÁTIMA SANTOS
SARA BARBOSA
ZAGALO
MAIS OS 300 ESPECTADORES QUE JÁ COMPRARAM BILHETE PARA A SESSÃO...
OBRIGADO A TODOS! - NESTA NOITE, A POESIA TOMARÁ CONTA DAS NOSSAS VIDAS.
18/09/09
POSTAIS
que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou
de ser solene.
Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças,
e rimo-nos. A história escreveu-se escreveu-se longe
das nossas mãos.
Não sabemos mais verdades do que a nossa.
Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos.
Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e
insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo
de creme.
X-X
E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos
às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro
de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.
X-X
Sozinho, chego a uma cidade saqueada
e caminho com vagar, os braços quase
parados, olho para as portas abertas,
o que sobrou está espalhado nas ruas,
o ar é limpo porque ninguém o respira,
esta cidade, este silêncio, esta cidade,
tenho na pele do rosto o contrário
do choro de uma criança, esse tempo
já passou, tenho tranquilidade séria
e erosão porque esta é a nossa cidade
e porque sei que não te vou encontrar
quando chegar a casa, minha mãe.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
17/09/09
Literatura Portuguesa no seu melhor
Quatro autores portugueses entre os 10 finalistas do Prémio PT
José Luís Peixoto é um deles.
São Paulo, 16 Set (Lusa) -- Quatro escritores portugueses e seis brasileiros estão entre os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom em Língua Portuguesa 2009, informaram hoje os organizadores.
Entre os finalistas portugueses estão "A eternidade e o desejo", de Inês Pedrosa, "Aprender a rezar na era da técnica", de Gonçalo M. Tavares, "Cemitério de pianos", de José Luís Peixoto, e "Ontem não te vi em Babilónia", de António Lobo Antunes.
As obras "A viagem do elefante", de José Saramago, e "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares, estavam entre os 50 finalistas mas não foram indicados para a disputa final, cujo resultado será conhecido a 10 de Novembro, em São Paulo.
RECORTES DE JORNAL
A situação é esta: os campos eram puros e limpos,
eu ateei muitos fogos, tinha fósforos e gasolina,
agora estou no exacto centro de todos eles,
cercam-me por todos os lados que não existem
para fugir, e espero pelo incêndio, apenas espero.
QUARTO
Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)
16/09/09
SIC Notícias | 20.02.2009 | Cartaz - As 3 Marias
Estarão na sessão de Quintas de Leitura de tributo a José Luís Peixoto, na noite de 24 de Setembro.
POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
15/09/09
60.000
DUAS IRMÃS SOLTEIRONAS
VIVEM JUNTAS
COM UMA GATA
QUE NUNCA DEIXAM SAIR
UMA DAS IRMÃS CASA
A OUTRA PEDE-LHE
UMA CARTA
A RELATAR PORMENORIZADAMENTE
A NOITE DE NÚPCIAS
A OUTRA MANDA-LHE
UM TELEGRAMA
"MANA, SOLTA A GATA"
AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)
14/09/09
AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.
FOTOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO
Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.
FOTOGRAFIA DE BUDAPESTE
Os monumentos de Budapeste e as suas ruas
são o mal que fiz a uma rapariga de olhos grandes.
Às vezes, lembro-me de Budapeste a propósito de
pormenores: ganchos de cabelo, caretas ao espelho.
Quando eu e Budapeste passeávamos de mão dada,
havia uma espécie de justiça na copa das árvores.
Nesse tempo, não existia memória, éramos apenas
as nossas pegadas na neve. Budapeste não tem solução.
Passarão décadas e morreremos cheios de segredos.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
11/09/09
Sugestão Diabólica - Prokofiev
Raúl Peixoto da Costa de regresso às Quintas de Leitura. De cortar a respiração.
Márcia - A Pele Que Há Em Mim @ Fnac Coimbra 2009
Para ouvir no recital Livre, em 24 de Setembro de 2009.
AS "FOTOGRAFIAS DE CIDADES" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

São Francisco és tu e são as tardes que passávamos
no sofá, sentados ou deitados de todas as formas,
em todas as direcções. Não guardo ressentimentos
de São Francisco e chegará um tempo em que,
de novo, seremos capazes de passar um fim-de-semana
entre chapéus de sol e sol. A Califórnia não é eterna,
mas há um certo tipo de silêncio que se procura
sempre e que se encontra apenas muito raramente.
Esse é o teu brilho, São Francisco. Vais ver, teremos
camisas de flores coloridas e saberemos rir-nos
de tudo. E, contra todas as expectativas, quando
um de nós estiver a morrer, o outro estará lá.
FOTOGRAFIA DE ABIDJAN
Abidjan tem cicatrizes nas ancas.
Cuidadoso, pouso as mãos noutro lado,
seguro Abidjan pela cintura.
Não porque as cicatrizes sejam dolorosas,
há muito que Abidjan se habituou a elas,
mas porque me fazem impressão a mim.
As cicatrizes de Abijan foram-lhe feitas pela avó
com um ferro em brasa, quando era criança.
Eu e Abijan bebemos garrafas de coca-cola.
Seguramo-las como algo valioso,
somos senhores por um momento.
Abidjan diz: mostra-me o teu quarto,
e eu, não sou capaz de resistir.
FOTOGRAFIA DE MADRID
Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
10/09/09
Música, tango e striptease em tributo a José Luís Peixoto

O escritor regressa às Quintas de Leitura
O dia 24 de Setembro marcará a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". A sessão, intitulada "LIVRE", realiza-se às 22h00 no Auditório do TCA.
José Luís Peixoto irá revelar-nos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano pela Editora Quetzal.
Esta sessão deverá também ser entendida como um tributo das "Quintas de Leitura" ao Poeta. Reconhecemos a fidelidade e a atenção que José Luís Peixoto tem dedicado a este ciclo e queremos agradecer-lhe esse afecto.
Para tal, foi montada uma grande festa da Poesia que incluirá leituras, dança, imagem e muita música. Um espectáculo com a duração de cerca de 150 minutos, cheio de momentos inusitados e muitas surpresas.
Participam nas leituras os actores Pedro Lamares, Sandra Salomé e Margarida Cardeal e também a poeta Catarina Nunes de Almeida. Pedro Nunes será o mestre-de-cerimónias da festa.
Na dança, presença da bailarina Isabel Ariel. Assinale-se ainda um momento de striptease assegurado pela dançarina romena Cindy.
A imagem da sessão será assinada por Augusto Brázio, cúmplice de José Luís Peixoto em muitas aventuras fotográficas.
Por fim, momentos sempre esperados nas "Quintas de Leitura": a música.
O jovem e laureado pianista Raúl Peixoto da Costa vai, como habitualmente, deixar-nos sem respiração. A presença encantatória de Márcia (voz e guitarra), novo talento da música portuguesa. Por fim, o som do novo projecto do Porto "As 3 Marias", grupo constituído por Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (Contrabaixo) e Zagalo (percussão) - tango clássico misturado com flamenco, bolero, bossa, jazz e tango canção.
Mimos para Peixoto, antes da sua partida para a Roménia e para a Argentina, entre muitos outros países. Um espectáculo total, imperdível, para pessoas que gostam de emoções fortes.
Espectáculo para maiores de 18 anos, não vá o diabo tecê-las.
Nota: bilhetes entre 6 e 9 euros.
Fotografia: Augusto Brázio.
MONÓLOGO
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.
Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.
Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.
Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.
(José Luís Peixoto, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)
09/09/09
CASTING DAS "QUINTAS DE LEITURA"
AS CONTAS DAS "QUINTAS"
José Luís Peixoto - 6 presenças
valter hugo mãe - 5
Gonçalo M. Tavares - 4
Jorge Sousa Braga - 3
Nuno Júdice - 3
Daniel Maia-Pinto Rodrigues - 3
Filipa Leal - 3
AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"
Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:
20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho
22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
19 de Maio 2005
MORRESTE-ME
18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO
19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira
17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
08/09/09
OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
07/09/09
MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:
Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.
Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.
Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.
A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.
Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.
E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
04/09/09
PARABÉNS, ZÉ LUÍS!
Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:
"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."
(Raoul Vaneigen)
"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,
como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,
como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.
LAVAR A LOIÇA
E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados
nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.
A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Até ao fim do segundo acto, continuo convencido
de que sou imortal. Os meus dedos são Medeias
feitas de aço, ou são papéis, ou são mesmo dedos,
mas estão embaraçados numa contradição negra.
Com o fim do terceiro acto a aproximar-se, com o fim
a aproximar-se, reparo no pó e nos pormenores da ruína.
O meu estômago desfaz-se dentro de mim. Já não sou
o rapaz que desprezaste durante todo o segundo acto.
Houve qualquer coisa adiada e tudo foi tão breve.
Polvilho a palavra agora pelas conversas, deixo
de saber aquilo que sou, os meus olhos sobrevoam
os objectos e constato que o mundo é assim-assim.
03/09/09
QUEM TE AVISA...
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
02/09/09
O POETA CONVIDADO DE SETEMBRO
Retomamos hoje a publicação de alguns poemas da sua autoria.
CERTIDÃO DE NASCIMENTO
Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.
Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na auto-estrada e
que se despedem com a mesma sílaba.
O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.
Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.
Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.
O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
01/09/09
JOAQUIM CASTRO CALDAS
PARÁBOLA DA PEQUENEZ
uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente
ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez
ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez
ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz
(Joaquim Castro Caldas)
30/07/09
FÉRIAS
LIVRE. DIA 24 DE SETEMBRO NO TCA.
Nela, apresentaremos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do novo romance de Peixoto, a publicar ainda este ano.
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
(José Luís Peixoto, in "A criança em ruínas"/ Edições Quasi)
CASTING PARA LEITORES
Gostas de poesia?
Queres ler poesia nas sessões das “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre?
Então, inscreve-te no CASTING que iremos realizar nos dias 1 e 2 de Outubro no TCA (Porto).
Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.
INSCRIÇÕES
Há uma inscrição prévia OBRIGATÓRIA através do e-mail pvaz@tca-porto.pt . Só serão aceites as inscrições realizadas no período de 7 a 29 de Setembro. Todos os candidatos admitidos serão contactados, via e-mail, para confirmação e marcação da hora do respectivo casting.
Da inscrição têm de constar obrigatoriamente os seguintes elementos: nome completo, data de nascimento, naturalidade e contacto telefónico.
Tens de trazer um poema à tua escolha. Irás ler ainda um poema seleccionado por nós.
Para esclarecimento de qualquer dúvida, contactar, a partir de dia 7 de Setembro, Patrícia Vaz através do
22 606 30 17.
Boas Leituras!
A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" de Outubro a Dezembro de 2009
Café-Teatro
22h00
“UM POETA NO SAPATO”
Espectáculo para maiores de 16 anos
As "Quintas de leitura" vão pegar fogo. Eles são quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes, da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura. Durante quarenta minutos, ler-nos-ão os seus poemas
incendiários, eivados de amor e humores de todas as cores.
Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life". Uma imperdível performance baseada na história da violoncelista Guilhermina Suggia.
Foi você que pediu uma noite esquisita?
(Imagem de Mário Vitória)
26 de Novembro de 2009
Auditório
22h00
“LADO B”
Espectáculo para maiores de 16 anos
O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12.ª vez.
Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. Oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.
O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de
volta nesta bem disposta e irreverente visão do mundo.
(Fotografia de Susana Paiva)

17 de Dezembro de 2009
Café-Teatro
22h00
“CERCO VOLUNTÁRIO”
Espectáculo para maiores de 12 anos
Sessão de lançamento do 13.º livro da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. O autor da obra é Vasco Gato, uma das vozes mais importantes da “novíssima” poesia portuguesa. O livro intitula-se “Cerco Voluntário”, tem gravuras de Sandra Filipe e será apresentado por Catarina Nunes de Almeida.
Uma performance por Sónia Baptista e um concerto por Tó Trips (“Guitarra 66”, o novo projecto a solo) completam o espectáculo.
(Imagem: Sandra Filipe)
29/07/09
O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"
como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão,
como um instante único da vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,
assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,
assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)
28/07/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
em cada página, o teu olhar. em cada montanha,
a tua voz. deixa-me falar contigo. lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.
as palavras existem. eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.
em cada página, os campos. em cada montanha,
tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.
passam anos sobre as palavras. os dias existem.
seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)
27/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO
PRÍNCIPE
amigo, não tenho perguntas para fazer-te. quantas
pessoas entendem aquilo que não entendo? quem
descobriu o segredo mais inútil?
amigo, não tenho perguntas para fazer-te. basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.
entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.
o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)
24/07/09
MAIS DOIS POEMAS DE HAL SIROWITZ
MIGALHAS
Não leves comida para o quarto,
disse a mãe. Vais ter mais bichos.
Eles dependem de pessoas como tu.
De outra forma, morreriam à fome.
Mas quem é que queres fazer feliz,
a tua mãe ou um monte de formigas?
O que é que elas fizeram por ti?
Nada. Elas não têm sentimentos.
Elas vão comer os teus doces. Mesmo assim
tráta-las melhor do que me tratas a mim.
Estás sempre a alimentá-las.
Mas nunca me ofereces nada a mim.
DECLARAÇÃO
Se o John F. Kennedy consegue levar a sua mãe
à inauguração, disse a mãe, & não se sente
envergonhado quando ela põe o braço à sua volta,
então porque é que tu não queres ser visto
comigo na rua? Ele é o Chefe Máximo
de todo o país, & tu nem sequer mandas
no teu quarto. Tenho de ser eu a limpá-lo por ti.
Nunca ouvi ninguém a chamar-lhe maricas
por andar com a mãe, & mesmo se
alguém chamasse, isso não o incomodava, porque
ele sabe que não é verdade. Nunca me mandaste
embora quando eu te estava a mudar as fraldas.
As mães são o grupo mais injustiçado do país.
Assim que os filhos se tornam suficientemente crescidos,
fingem que já não nos conhecem.
(poemas de Hal Sirowitz)
23/07/09
POEMAS DE HAL SIROWITZ
Depois de fazermos amor, saímos
para jantar. Tentei não comer
o meu linguado mais depressa do que ela.
Uma vez que não conseguimos ter
um orgasmo simultâneo, poderíamos
pelo menos acabar de comer ao mesmo tempo.
PERDA DE TEMPO
Se eu soubesse que não estavas interessada em mim,
não teria desperdiçado todas aquelas noites a
masturbar-me sobre ti. Teria fantasiado
sobre alguém muito menos acessível,
como a Madonna. Uma semana depois, ao ver-me ainda sozinho
na cama, não teria ficado tão decepcionado.
ESTA NOITE NÃO
Ela disse que eu não podia ir com ela
para o seu apartamento, porque
tinha de estudar para um teste. E
que eu não conseguia ajudá-la,
porque eu não era bom a matemática.
A única coisa que eu era bom era
a tirar-lhe as roupas, mas
isso ela já sabia fazer.
(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)
22/07/09
MAIS POESIA DE HAL SIROWITZ
Não agites o guarda-chuva na loja,
disse a mãe. Estão muitos frascos de
molho de tomate sobre a tua cabeça
que podem cair-te em cima, & podes morrer.
Depois, não poderás ir à festa de hoje à noite,
ou ir ao salão de bowling amanhã.
E, em vez de celebrar o teu aniversário
com gasosa & bolo, teremos
aniversários da tua morte com chá
& bolachas. E o teu pai & eu não
poderemos voltar a comer esparguete, porque
o molho marinara irá lembrar-nos de ti.
O CÉREBRO DE UMA CADELA
Apenas porque a minha cadela salta para beijar-te,
disse ela, de cada vez que entras em casa,
não significa que ela saiba o que está a fazer.
Provavelmente, ela aprendeu isso comigo, viu-me
a beijar-te, & pensa que essa é a coisa certa
para fazer, mas ela viu-me a fazê-lo antes de eu saber
que eras um idiota, & ela não consegue distinguir.
O MEU PEIXE MORTO
Eu queria um jacaré para animal de estimação,
mas os meus pais deram-me um peixe dourado.
Quando morreu, a minha mãe atirou-o na sanita
e escorreu o autoclismo. Ela disse que se o enterrássemos
no pátio, um gato poderia desenterrá-lo e comê-lo.
Fiquei zangado com o meu pai por ter usado a casa-de-banho
dez minutos depois do enterro.
Ele não tem respeito pelos mortos.
(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)
21/07/09
HAL SIROWITZ, TRADUZIDO POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO

CORPO ESTROPIADO
Não nades no mar quando estiver a chover,
disse a mãe. Um relâmpago pode cair na água,
& tu ficarás paralisado. Tu não gostas
de comer vegetais. Imagina teres de
passar o resto da vida a ser um deles.
Alguém irá ter de dar-te banho, levar-te
à casa-de-banho, & alimentar-te.
As crianças vão meter-se contigo. Mas
podes ter sorte, & ser atingido apenas
por uma baixa voltagem. Então serás
um vegetal esperto, como um espargo.
Conseguirás fazer a cama sozinho -
o que não fazes agora - mas as pessoas
vão sentir pena de ti e conversarão contigo.
Podes pensar que é divertido ficar
todo o dia a vegetar em casa. Mas,
de cada vez que pensares em ti próprio,
como a vontade de comer um gelado de chocolate,
o pensamento tornar-se-à vago, & desaparecerá.
A SEPARAÇÃO É DIFÍCIL
"Não temos nada em comum",
disse eu. "Somos duas pessoas completamente diferentes.
Não faz sentido nenhum que fiquemos juntos."
Mas ela começou a esfregar-me o pénis
através das calças, & lembrei-me de repente
que ambos gostamos de comida indiana.
(poemas de HAL SIROWITZ)
20/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO TRADUZ HAL SIROWITZ
BRAÇO DECEPADO
Não ponhas o braço fora da janela,
disse a mãe. Outro carro pode aparecer
por detrás, & cortá-lo. Então o teu pai
terá de parar, pôr o braço decepado
no porta-bagagens, & levar-te para o hospital.
Não é como as peças do teu telescópio
que voltas a arranjar. Um médico vai ter de cosê-lo.
Não poderás voltar a usar mangas curtas.
Não quererás que ninguém veja os pontos.
CAUSAR BOA IMPRESSÃO
Masturbei-me duas vezes
antes de sairmos juntos,
para que não parecesse demasiado esfomesdo.
O CAMINHO
A distância mais curta entre
os ombros dela & a sua cintura
era pelos seios, por isso
fiquei lá parado no caminho de
descobrir se passava a noite
na casa dela ou se era mandado para casa.
17/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO
quando os instantes de amanhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,
com tanta força,
quero que sejas feliz.
(José Luís Peixoto, in " A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)
16/07/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Ele será o próximo poeta convidado das "Quintas de Leitura". Publicamos hoje um poema seu do livro "A Casa, a Escuridão".
O ESCRITOR
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeeiro
sobre as palavras escritas.
ele disse amo-te.
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
(José Luís Peixoto in "A Casa, a Escuridão" / Temas e Debates)
15/07/09
PRIMEIRO BALANÇO DE 2009
Registe-se:
8 espectáculos
11 sessões (das quais 9 esgotadas)
1.188 espectadores
67 artistas convidados
98% taxa de ocupação de salas
Quintas de Leitura: 91 meses ao serviço da Palavra.
14/07/09
A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" NOS PRÓXIMOS MESES
Auditório
"LIVRE"
A 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". Revelará fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano.
29 DE OUTUBRO
Café-Teatro
"UM POETA NO SAPATO"
Presença de 4 vozes irreverentes e alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura.
26 DE NOVEMBRO
Auditório
"LADO B"
O regresso do comediante Pedro Tochas às "Quintas de Leitura" para apresentar o seu mais emblemático espectáculo. Sessão única.
17 DE DEZEMBRO
Café-Teatro
"CERCO VOLUNTÁRIO"
Sessão de lançamento do 13º livro da colecção "Cadernos do Campo Alegre". Um livro da autoria do poeta Vasco Gato, com gravuras de Sandra Filipe.
E, claro, dezenas de outros artistas convidados...
13/07/09
Uma espreitadela à última Quinta de Leitura antes de férias
09/07/09
120 MINUTOS DE PURO GOZO
Aqui ficam os nomes dos heróis desta noite:
MIGUEL-MANSO
HELENA VIEIRA
ISAQUE FERREIRA
NUNO MOURA
PEDRO LAMARES
TIAGO PEREIRA
FILIPA FRANCISCO
BRUNO COCHAT
ELISABETE MAGALHÃES
B FACHADA
A tripulação está preparada para o fazer feliz esta noite. Junte-se a nós. À boleia das "Quintas" nunca mais será o mesmo.
08/07/09
O POETA MIGUEL-MANSO NAS "QUINTAS DE LEITURA". É JÁ AMANHÃ.
pela concha da orelha
pela membrana do tímpano
a melodia negra invade
o meu coração ímpio
não sei o nome da flor
que orna o cabelo dela
um distinto perfume flutua
no estio que o seu corpo exala
mas sejamos honestos isto não é
uma loa de al-Mu´tamid no séc. XI
em Silves num palácio de varandas
são talvez demasiadas cervejas
em copo de plástico
na Travessa da Espera
(poema de Miguel-Manso, que será lido na sessão de amanhã pelo actor Pedro Lamares)
07/07/09
CASAMENTO DE BANGKOK
aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo
mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê
por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza
seguimos o perfume
ela sabe
x - x
Mais um poema de Miguel-Manso. Será lido na sessão do dia 9 de Julho pelo actor Pedro Lamares.
O JN e as Quintas de Leitura
06/07/09
2 POEMAS DE MIGUEL-MANSO
o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores de Junho
x - x
POEMETO
o paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem
um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía
ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta
tão exacto como a morte
(Estes poemas serão lidos por Miguel-Manso na sessão do dia 9 de Julho)
03/07/09
AINDA HÁ BILHETES
Divulgamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão.
O TEMPO CIRCULAR
há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"
ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique
sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade
- esse outro
o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo
e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura
como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também
aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à
allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)
tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia
uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri
quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo
de garrafa
a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida
(poema de Miguel-Manso)
02/07/09
MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses
o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira
o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia faz filhas
depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele
dentro do intrincado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite
procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome
se me lembrasse ficaria bem neste verso
fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário - a água - deu mais um gole
na cerveja fez as contas
ao difícil enigma do amor
(poema de Miguel-Manso)
01/07/09
A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.
frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos
noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua
sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã
e depois durante a noite
assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa
não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações
essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins
(poema de Miguel-Manso)









