09/09/09
CASTING DAS "QUINTAS DE LEITURA"
AS CONTAS DAS "QUINTAS"
José Luís Peixoto - 6 presenças
valter hugo mãe - 5
Gonçalo M. Tavares - 4
Jorge Sousa Braga - 3
Nuno Júdice - 3
Daniel Maia-Pinto Rodrigues - 3
Filipa Leal - 3
AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"
Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:
20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho
22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
19 de Maio 2005
MORRESTE-ME
18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO
19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira
17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
08/09/09
OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
07/09/09
MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:
Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.
Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.
Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.
A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.
Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.
E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)
04/09/09
PARABÉNS, ZÉ LUÍS!
Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:
"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."
(Raoul Vaneigen)
"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,
como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,
como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.
LAVAR A LOIÇA
E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados
nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.
A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Até ao fim do segundo acto, continuo convencido
de que sou imortal. Os meus dedos são Medeias
feitas de aço, ou são papéis, ou são mesmo dedos,
mas estão embaraçados numa contradição negra.
Com o fim do terceiro acto a aproximar-se, com o fim
a aproximar-se, reparo no pó e nos pormenores da ruína.
O meu estômago desfaz-se dentro de mim. Já não sou
o rapaz que desprezaste durante todo o segundo acto.
Houve qualquer coisa adiada e tudo foi tão breve.
Polvilho a palavra agora pelas conversas, deixo
de saber aquilo que sou, os meus olhos sobrevoam
os objectos e constato que o mundo é assim-assim.
03/09/09
QUEM TE AVISA...
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
02/09/09
O POETA CONVIDADO DE SETEMBRO
Retomamos hoje a publicação de alguns poemas da sua autoria.
CERTIDÃO DE NASCIMENTO
Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.
Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na auto-estrada e
que se despedem com a mesma sílaba.
O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.
Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.
Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.
O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.
(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)
01/09/09
JOAQUIM CASTRO CALDAS
PARÁBOLA DA PEQUENEZ
uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente
ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez
ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez
ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz
(Joaquim Castro Caldas)
30/07/09
FÉRIAS
LIVRE. DIA 24 DE SETEMBRO NO TCA.
Nela, apresentaremos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do novo romance de Peixoto, a publicar ainda este ano.
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
(José Luís Peixoto, in "A criança em ruínas"/ Edições Quasi)
CASTING PARA LEITORES
Gostas de poesia?
Queres ler poesia nas sessões das “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre?
Então, inscreve-te no CASTING que iremos realizar nos dias 1 e 2 de Outubro no TCA (Porto).
Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.
INSCRIÇÕES
Há uma inscrição prévia OBRIGATÓRIA através do e-mail pvaz@tca-porto.pt . Só serão aceites as inscrições realizadas no período de 7 a 29 de Setembro. Todos os candidatos admitidos serão contactados, via e-mail, para confirmação e marcação da hora do respectivo casting.
Da inscrição têm de constar obrigatoriamente os seguintes elementos: nome completo, data de nascimento, naturalidade e contacto telefónico.
Tens de trazer um poema à tua escolha. Irás ler ainda um poema seleccionado por nós.
Para esclarecimento de qualquer dúvida, contactar, a partir de dia 7 de Setembro, Patrícia Vaz através do
22 606 30 17.
Boas Leituras!
A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" de Outubro a Dezembro de 2009
Café-Teatro
22h00
“UM POETA NO SAPATO”
Espectáculo para maiores de 16 anos
As "Quintas de leitura" vão pegar fogo. Eles são quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes, da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura. Durante quarenta minutos, ler-nos-ão os seus poemas
incendiários, eivados de amor e humores de todas as cores.
Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life". Uma imperdível performance baseada na história da violoncelista Guilhermina Suggia.
Foi você que pediu uma noite esquisita?
(Imagem de Mário Vitória)
26 de Novembro de 2009
Auditório
22h00
“LADO B”
Espectáculo para maiores de 16 anos
O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12.ª vez.
Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. Oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.
O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de
volta nesta bem disposta e irreverente visão do mundo.
(Fotografia de Susana Paiva)

17 de Dezembro de 2009
Café-Teatro
22h00
“CERCO VOLUNTÁRIO”
Espectáculo para maiores de 12 anos
Sessão de lançamento do 13.º livro da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. O autor da obra é Vasco Gato, uma das vozes mais importantes da “novíssima” poesia portuguesa. O livro intitula-se “Cerco Voluntário”, tem gravuras de Sandra Filipe e será apresentado por Catarina Nunes de Almeida.
Uma performance por Sónia Baptista e um concerto por Tó Trips (“Guitarra 66”, o novo projecto a solo) completam o espectáculo.
(Imagem: Sandra Filipe)
29/07/09
O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"
como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão,
como um instante único da vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,
assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,
assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)
28/07/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
em cada página, o teu olhar. em cada montanha,
a tua voz. deixa-me falar contigo. lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.
as palavras existem. eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.
em cada página, os campos. em cada montanha,
tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.
passam anos sobre as palavras. os dias existem.
seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)
27/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO
PRÍNCIPE
amigo, não tenho perguntas para fazer-te. quantas
pessoas entendem aquilo que não entendo? quem
descobriu o segredo mais inútil?
amigo, não tenho perguntas para fazer-te. basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.
entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.
o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.
(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)
24/07/09
MAIS DOIS POEMAS DE HAL SIROWITZ
MIGALHAS
Não leves comida para o quarto,
disse a mãe. Vais ter mais bichos.
Eles dependem de pessoas como tu.
De outra forma, morreriam à fome.
Mas quem é que queres fazer feliz,
a tua mãe ou um monte de formigas?
O que é que elas fizeram por ti?
Nada. Elas não têm sentimentos.
Elas vão comer os teus doces. Mesmo assim
tráta-las melhor do que me tratas a mim.
Estás sempre a alimentá-las.
Mas nunca me ofereces nada a mim.
DECLARAÇÃO
Se o John F. Kennedy consegue levar a sua mãe
à inauguração, disse a mãe, & não se sente
envergonhado quando ela põe o braço à sua volta,
então porque é que tu não queres ser visto
comigo na rua? Ele é o Chefe Máximo
de todo o país, & tu nem sequer mandas
no teu quarto. Tenho de ser eu a limpá-lo por ti.
Nunca ouvi ninguém a chamar-lhe maricas
por andar com a mãe, & mesmo se
alguém chamasse, isso não o incomodava, porque
ele sabe que não é verdade. Nunca me mandaste
embora quando eu te estava a mudar as fraldas.
As mães são o grupo mais injustiçado do país.
Assim que os filhos se tornam suficientemente crescidos,
fingem que já não nos conhecem.
(poemas de Hal Sirowitz)
23/07/09
POEMAS DE HAL SIROWITZ
Depois de fazermos amor, saímos
para jantar. Tentei não comer
o meu linguado mais depressa do que ela.
Uma vez que não conseguimos ter
um orgasmo simultâneo, poderíamos
pelo menos acabar de comer ao mesmo tempo.
PERDA DE TEMPO
Se eu soubesse que não estavas interessada em mim,
não teria desperdiçado todas aquelas noites a
masturbar-me sobre ti. Teria fantasiado
sobre alguém muito menos acessível,
como a Madonna. Uma semana depois, ao ver-me ainda sozinho
na cama, não teria ficado tão decepcionado.
ESTA NOITE NÃO
Ela disse que eu não podia ir com ela
para o seu apartamento, porque
tinha de estudar para um teste. E
que eu não conseguia ajudá-la,
porque eu não era bom a matemática.
A única coisa que eu era bom era
a tirar-lhe as roupas, mas
isso ela já sabia fazer.
(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)
22/07/09
MAIS POESIA DE HAL SIROWITZ
Não agites o guarda-chuva na loja,
disse a mãe. Estão muitos frascos de
molho de tomate sobre a tua cabeça
que podem cair-te em cima, & podes morrer.
Depois, não poderás ir à festa de hoje à noite,
ou ir ao salão de bowling amanhã.
E, em vez de celebrar o teu aniversário
com gasosa & bolo, teremos
aniversários da tua morte com chá
& bolachas. E o teu pai & eu não
poderemos voltar a comer esparguete, porque
o molho marinara irá lembrar-nos de ti.
O CÉREBRO DE UMA CADELA
Apenas porque a minha cadela salta para beijar-te,
disse ela, de cada vez que entras em casa,
não significa que ela saiba o que está a fazer.
Provavelmente, ela aprendeu isso comigo, viu-me
a beijar-te, & pensa que essa é a coisa certa
para fazer, mas ela viu-me a fazê-lo antes de eu saber
que eras um idiota, & ela não consegue distinguir.
O MEU PEIXE MORTO
Eu queria um jacaré para animal de estimação,
mas os meus pais deram-me um peixe dourado.
Quando morreu, a minha mãe atirou-o na sanita
e escorreu o autoclismo. Ela disse que se o enterrássemos
no pátio, um gato poderia desenterrá-lo e comê-lo.
Fiquei zangado com o meu pai por ter usado a casa-de-banho
dez minutos depois do enterro.
Ele não tem respeito pelos mortos.
(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)
21/07/09
HAL SIROWITZ, TRADUZIDO POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO

CORPO ESTROPIADO
Não nades no mar quando estiver a chover,
disse a mãe. Um relâmpago pode cair na água,
& tu ficarás paralisado. Tu não gostas
de comer vegetais. Imagina teres de
passar o resto da vida a ser um deles.
Alguém irá ter de dar-te banho, levar-te
à casa-de-banho, & alimentar-te.
As crianças vão meter-se contigo. Mas
podes ter sorte, & ser atingido apenas
por uma baixa voltagem. Então serás
um vegetal esperto, como um espargo.
Conseguirás fazer a cama sozinho -
o que não fazes agora - mas as pessoas
vão sentir pena de ti e conversarão contigo.
Podes pensar que é divertido ficar
todo o dia a vegetar em casa. Mas,
de cada vez que pensares em ti próprio,
como a vontade de comer um gelado de chocolate,
o pensamento tornar-se-à vago, & desaparecerá.
A SEPARAÇÃO É DIFÍCIL
"Não temos nada em comum",
disse eu. "Somos duas pessoas completamente diferentes.
Não faz sentido nenhum que fiquemos juntos."
Mas ela começou a esfregar-me o pénis
através das calças, & lembrei-me de repente
que ambos gostamos de comida indiana.
(poemas de HAL SIROWITZ)
20/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO TRADUZ HAL SIROWITZ
BRAÇO DECEPADO
Não ponhas o braço fora da janela,
disse a mãe. Outro carro pode aparecer
por detrás, & cortá-lo. Então o teu pai
terá de parar, pôr o braço decepado
no porta-bagagens, & levar-te para o hospital.
Não é como as peças do teu telescópio
que voltas a arranjar. Um médico vai ter de cosê-lo.
Não poderás voltar a usar mangas curtas.
Não quererás que ninguém veja os pontos.
CAUSAR BOA IMPRESSÃO
Masturbei-me duas vezes
antes de sairmos juntos,
para que não parecesse demasiado esfomesdo.
O CAMINHO
A distância mais curta entre
os ombros dela & a sua cintura
era pelos seios, por isso
fiquei lá parado no caminho de
descobrir se passava a noite
na casa dela ou se era mandado para casa.
17/07/09
JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO
quando os instantes de amanhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,
com tanta força,
quero que sejas feliz.
(José Luís Peixoto, in " A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)
16/07/09
A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Ele será o próximo poeta convidado das "Quintas de Leitura". Publicamos hoje um poema seu do livro "A Casa, a Escuridão".
O ESCRITOR
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeeiro
sobre as palavras escritas.
ele disse amo-te.
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
(José Luís Peixoto in "A Casa, a Escuridão" / Temas e Debates)
15/07/09
PRIMEIRO BALANÇO DE 2009
Registe-se:
8 espectáculos
11 sessões (das quais 9 esgotadas)
1.188 espectadores
67 artistas convidados
98% taxa de ocupação de salas
Quintas de Leitura: 91 meses ao serviço da Palavra.
14/07/09
A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" NOS PRÓXIMOS MESES
Auditório
"LIVRE"
A 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". Revelará fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano.
29 DE OUTUBRO
Café-Teatro
"UM POETA NO SAPATO"
Presença de 4 vozes irreverentes e alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura.
26 DE NOVEMBRO
Auditório
"LADO B"
O regresso do comediante Pedro Tochas às "Quintas de Leitura" para apresentar o seu mais emblemático espectáculo. Sessão única.
17 DE DEZEMBRO
Café-Teatro
"CERCO VOLUNTÁRIO"
Sessão de lançamento do 13º livro da colecção "Cadernos do Campo Alegre". Um livro da autoria do poeta Vasco Gato, com gravuras de Sandra Filipe.
E, claro, dezenas de outros artistas convidados...
13/07/09
Uma espreitadela à última Quinta de Leitura antes de férias
09/07/09
120 MINUTOS DE PURO GOZO
Aqui ficam os nomes dos heróis desta noite:
MIGUEL-MANSO
HELENA VIEIRA
ISAQUE FERREIRA
NUNO MOURA
PEDRO LAMARES
TIAGO PEREIRA
FILIPA FRANCISCO
BRUNO COCHAT
ELISABETE MAGALHÃES
B FACHADA
A tripulação está preparada para o fazer feliz esta noite. Junte-se a nós. À boleia das "Quintas" nunca mais será o mesmo.
08/07/09
O POETA MIGUEL-MANSO NAS "QUINTAS DE LEITURA". É JÁ AMANHÃ.
pela concha da orelha
pela membrana do tímpano
a melodia negra invade
o meu coração ímpio
não sei o nome da flor
que orna o cabelo dela
um distinto perfume flutua
no estio que o seu corpo exala
mas sejamos honestos isto não é
uma loa de al-Mu´tamid no séc. XI
em Silves num palácio de varandas
são talvez demasiadas cervejas
em copo de plástico
na Travessa da Espera
(poema de Miguel-Manso, que será lido na sessão de amanhã pelo actor Pedro Lamares)
07/07/09
CASAMENTO DE BANGKOK
aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo
mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê
por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza
seguimos o perfume
ela sabe
x - x
Mais um poema de Miguel-Manso. Será lido na sessão do dia 9 de Julho pelo actor Pedro Lamares.
O JN e as Quintas de Leitura
06/07/09
2 POEMAS DE MIGUEL-MANSO
o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores de Junho
x - x
POEMETO
o paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem
um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía
ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta
tão exacto como a morte
(Estes poemas serão lidos por Miguel-Manso na sessão do dia 9 de Julho)
03/07/09
AINDA HÁ BILHETES
Divulgamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão.
O TEMPO CIRCULAR
há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"
ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique
sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade
- esse outro
o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo
e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura
como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também
aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à
allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)
tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia
uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri
quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo
de garrafa
a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida
(poema de Miguel-Manso)
02/07/09
MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses
o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira
o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia faz filhas
depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele
dentro do intrincado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite
procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome
se me lembrasse ficaria bem neste verso
fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário - a água - deu mais um gole
na cerveja fez as contas
ao difícil enigma do amor
(poema de Miguel-Manso)
01/07/09
A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.
frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos
noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua
sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã
e depois durante a noite
assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa
não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações
essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins
(poema de Miguel-Manso)
30/06/09
MAIS POESIA DE MIGUEL-MANSO
Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas
apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa
e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico
apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas
entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros
«É favor não pisar a relva»
(MIGUEL-MANSO)
29/06/09
ANTES DE FÉRIAS

MADRIGAL
gosto quando pões a quinta porque me tocas na perna com o nó dos dedos
Poeta Miguel-Manso e músico B Fachada
As "Quintas de Leitura" estão quase de férias, não sem antes apresentar Miguel-Manso, o Poeta que veio agitar as águas mornas da poesia portuguesa.
A sessão, intitulada "Quando escreve descalça-se", realiza-se no auditório do TCA, no próximo dia 9 de Julho, às 22h00.
Sobre o poeta convidado o crítico literário José Mário Silva escreveu que Miguel-Manso faz dos versos "delicados actos de guerrilha" e da poesia "uma causa revolucionária".
Resta acrescentar que Miguel-Manso publicou em poucos meses dois livros muito aclamados pela crítica - "Contra a manhã burra" e "Quando escreve descalça-se"-, que lhe deram o estatuto de grande revelação da poesia portuguesa.
Na sessão, o Poeta conversará com Helena Vieira, responsável pela editora "Mariposa Azual".
As leituras, nas quais Miguel-Manso também participará, estarão a cargo de Pedro Lamares, Isaque Ferreira e do também poeta Nuno Moura. Serão lidos 20 poemas, escolhidos por Miguel-Manso para o espectáculo.
A imagem, manipulada em tempo real, será da responsabilidade do realizador Tiago Pereira.
Mas não se ficam por aqui os convidados da sessão. Elisabete Magalhães (dança) e Filipa Francisco e Bruno Cochat (performance "Nu Meio", que ironiza a relação de um casal tipicamente português)) assinarão momentos mágicos da sessão.
Refira-se, por fim, B Fachada, o músico convidado que se estreia nas "Quintas de Leitura".
Sobre este músico, escreve Samuel Úria:
"Princesa pop, palhaço pirómano, petrarquista pirata, perfeccionista patibe, porfiado e prolixo poeta - tudo adjectivos começados por "b". Literato até quando cospe, o cascalense Fachada faz canções para todos os desgostos, humor ponta-e-mola para todos os buchos".
B Fachada apresentará ao piano, à guitarra e à viola braguesa, canções do seu último disco "Um Fim-de-semana no Pónei Dourado". Nós cá estaremos para ouvir e incendiar o auditório.
Bilhetes sempre a pensar na crise: 9,00 Euros e 6,00 Euros.
AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO
ALDEIA DO CADAFAZ
de ano para ano o primo Albertino tem menos dentes
e neste Agosto não haverá baile nem matraquilhos
sentei-me no coreto da Junta olhei as casas da aldeia
enquanto que atrás de mim o Ivo e os outros miúdos
alheios e ainda bem a contemplações menores
me atiram sábias merecidas pedras que só por
azar e algum desprazer me não acertam
X-X
ALDEIA DE CASTELO RODRIGO
queria recuperar o leão gravado por cima da porta
onde ninguém via mais que uma imperfeição na pedra
vender a casa estava fora de questão o amor pode ruir
mais depressa que algumas honradas edificações
para mim bastaria uma cadeira uma prancha apoiada
em dois cavaletes e tempo para anotar a aproximação dos
insectos a custosa mas precisa promoção do Inverno
X-X
ALDEIA DE CASTELO MENDO
flores de papel azuis cor-de-rosa esfiapadas contra a pedra
um vestígio de festa a que se chega sempre tarde o largo
do pelourinho austero a ponta acesa de um cigarro na ladeira
viemos dar a um belver ervado onde lembro um túmulo e
talvez uma capela num conjunto de gaélica aparência
X-X
ALDEIA DE DRAVE
excluamos a praga sazonal de escuteiros o mau vinho
maggaio comprado num lugar vizinho e temos o dom
da noite sentados na erva seca no alqueive dos socalcos
num silêncio medieval duro ingente que nos cai no vale
dos olhos abertos à progressiva combustão dos astros
(poemas de Miguel-Manso)
26/06/09
AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO
são joão da ribeira
- queria pôr aqui este nome -
mãos que trazem a fruta ao fim da tarde
clero adro cal entusiasmo distrital
escolhe tu o país a mesa de café
contra este absurdo cósmico
eu pago um copo
lembrar-me-ei hoje de um verso pequeno?
x - x
ALDEIA DA AZINHAGA
adro campanário desolação librina
no paul da manhã dormem gatos líquen
nenhum dos velhos se alevanta da entrada da
taberna em direcção à sua Lanzarote
x - x
ALDEIA DA PALHOTA
o nomadismo é uma sucessão de sedentarismos
até se chegar ao cão voltando à margem à mulher
que dorme negra na luz de uma árvore de abismos
vê o que vai sobrando das artes dos barcos da noite
"Avieiros" 1942 e o mais grave é que nem com a escrita
ou o cinema se pode voltar ao que já está perdido
x - x
ALDEIA DO PATACÃO
podia falar dos tomatais do areal e do rio largos do renque
decrépito das casas em palafitas mas o que me ocorre mostrar
é a fotografia amarelada de dois amantes junto à morte
(Poemas de Miguel-Manso)
25/06/09
A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.
à memória de Jean Nicot que trouxe
tabaco para França no século dezasseis
só para eu amenizar a espera
no Le Carillon à esquina da Rue Bichat
com a Alibert
onde Véronique não entrará este século
X-X
QUATRO CIGARROS NO CAFÉ DES ANGES
de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo
o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho
junto à janela
(poemas de Miguel-Manso)
23/06/09
QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE
CAFÉ CASTRO
com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira - são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste
permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café
mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos
evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham
mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo
espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo - haverá outro sítio? -
para o poema seguinte
Miguel-Manso
20/06/09
Quando escreve descalça-se
19/06/09
A noite mais longa
ELISABETE MAGALHÃES
RUTE PIMENTA
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
ANTÓNIO JORGE GONÇALVES
ALDINA DUARTE
DN Artes
DN artes online explica:| valter hugo mãe: o escritor também canta no Governo Pois é ... foi assim... (leiam no link) |





