09/10/09

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã.
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

António Pedro Ribeiro

Ribeiro na Pulga.

NUNO MOURA

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luís pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecel pêtê cêpê
renô náique e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(poema de Nuno Moura)

08/10/09

DANIEL JONAS

OS DEUSES NÃO FUNCIONAM.
Dizer meu Zeus não os engana.
Sobre um muro de cal demorada

nenhuma lamentação se torna mais branca,
nem percorrendo bosques no enleio
de ramosa dor Diana
tu não me apareces.

Como um veado inábil
enleio os próprios galhos
em galhos de frondoso alheio
ou o cálice prefixa a cal
como aviso.

Não sei por que procuro assim um deus:
ando à procura de um deus pelos bosques
como de bagas.

(poema de Daniel Jonas)

JOÃO RIOS

havia
árvores e inclinações de bichos
machos e fêmeas
minúsculas pegadas a digitalizar
a lua na terra

havia
as aparas do Cristo dos domingos
levadas à boca mais que as meninas
ancoradas na geografia inexpugnável
do braço das mães

havia
cigarros colados na varanda do rosto
uma colmeia para guardar afagos
antes do uivo e da intriga de duas sílabas
sem fôlego
emudeceram o galope absoluto de um irmão

x - x

o sol é um câncer sem barcos a coreografar
nas mansardas da cidade a impaciência de um rosto
sitiado pelo espólio de uma gramática de angústia

nenhuma voz o resgata nenhuma lágrima o ostraciza
nas amplas galerias do seu nome esquece a rebentação
de outros nomes e que o tempo é uma fábrica de doenças
a contabilizar os seus dias

(dois poemas de João Rios)

07/10/09

CASTING “QUINTAS DE LEITURA”


Queríamos, antes de tudo, agradecer e salientar o empenho e o profissionalismo demonstrado por todos os candidatos que connosco se cruzaram neste casting.

Os vossos testemunhos e experiências enriqueceram-nos e tornaram-nos mais fortes nesta maratona poética de 3 dias.

Apenas alguns passarão à derradeira fase deste processo. Todos os demais, contudo, poderão contar connosco para mais desafios no futuro.

Assim sendo, a próxima viagem será partilhada ao lado dos seguintes candidatos:


Dia 30 de Setembro

Filomena Gigante
Isabel Fernandes Pinto
Joana Teixeira
José Miguel Vitorino
Manuel Tur
Rita Machado
Valdemar Santos


Dia 1 de Outubro

Catarina Barbosa
Constança Carvalho Homem
David Figueiredo
David Pontes
Gina Macedo
Luísa Kotsev
Miguel Ramos
Olga Cardoso Dias
Patrícia Adão Marques
Sílvia Silva


Dia 2 de Outubro

Ana Paiva
Andreia Serrão de Lima
Fábio Alves
Isabel Castiajo
Margarida Carvalho
Susana Guimarães
Susana Madeira
Tiago Correia
Xana Miranda

Os nomes estão indicados pelo dia de casting e por ordem alfabética, sem qualquer outra ordem.

Os seleccionados serão brevemente contactados, via e-mail, para a etapa derradeira deste processo.

Saudações Poéticas,

João Gesta e Patrícia Vaz

06/10/09

NUNO MOURA

UMA TORRE EM VÃO


Eu vou muito suave nesta obra dos sóis
com o forno dos passos e a uretra
desmantelar a engonha dos salineiros
e a contabilidade do tacto.

De empreitada, arremessar-me fúria toira.

Eu vou muito deitado nesta voz roxa
que solta em pontilha então esbagaçe a pilha
das divisas e este tráfego do progresso
com a maleabilidade de um tira-olhos.

Pegar no soldo deste sismo e levar a impressão dos afagos.

Eu vou muito calmo neste corpo
que tu dizes ser melhor que a minha
cabeça porque um tu sentes e a outra
hás-de tomar, eu vou num grande andar.

(poema de Nuno Moura)

MAIS UM SONÓTONO DE DANIEL JONAS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p´ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

(Daniel Jonas)

02/10/09

JOÃO RIOS

ONZE MANDAMENTOS SEM A MÃO DE DEUS

1-não faças caixinhas à mãe
2-não desiludas a virilidade do pai
3-não micro-ondes o noivo da irmã
4-não alcatifes a oceânica língua da avó
5-não degeneres o cofre maçónico do avô
6-não sociabilizes as patinhas do cão
7-não aplaudas a acrobacia elíptica do gato
8-não enroles o falsete vegetariano do canário
9-não alimentes a neuro solidão do peixinho
10-não suavizes a liberdade geométrica do pombal
11-não aconteças por acaso neste circo domado país

(poema de João Rios)

NUNO MOURA

Desemprego

Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.

(poema de Nuno Moura)

01/10/09

DANIEL JONAS

É OUTONO E CHOVE NO MEU SONETO.

Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.

(Sonótono de Daniel Jonas)

NUNO MOURA

Quem nunca pecou que
atire a primeira pedra.

todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.

alguém disse: é o perdão
de deus.

alguém reparou: mas o mar
vem aí.

(poema de Nuno Moura)

30/09/09

JOÃO RIOS

FREE NATION

Perseguido por um cão
um sorriso de Gioconda
pela boca de um cego
acende o fole do acordeão
e a cambalhota do ego

latin-lover´s histéricos
anti-cristos profissionais
do coração
sequestram liberdades enviuvadas
e castidades sobrenaturais

entusiasmadas com a precedência
três bailarinas estrábicas e um filme
de smoking vestido
entraram em greve de fome em favor
das vítimas profissionais do segundo balcão

(poema de João Rios)

29/09/09

A. PEDRO RIBEIRO.

POEMA À GAJA DA MESA DO FUNDO

Está-me a bater aquela gaja da mesa do fundo
Estás-me a bater, gaja da mesa do fundo!
Olha! Vais lá para fora,
Que pena!
Agora que te ia oferecer o poema
Sabes que às vezes escrevo umas coisas fora do comum
Sabes que às vezes escrevo o que ninguém espera
Mas, olha, paciência
Já estou a olhar para outra
Sabes que me deixei de apaixonar facilmente
Por isso é-me difícil mudar de gaja
Mesmo que esteja sozinho
Vou tendo uma gaja
Sabes, assim para as emergências
A verdade, gaja,
É que fiquei vidrado em ti
Aquelas paixões que vêm de vez em quando
Ah! Afinal ainda sou capaz de me apaixonar
Estás-me a bater, gaja que já não estás
Na mesa do fundo
E venha a cerveja, ó Adriano!
Que isto de criar não é para todos
O poeta está com sede
O mundo assim não avança.

( poema de A. Pedro Ribeiro)

Casting para leitores de poesia começa amanhã



O ciclo poético Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre pretende descobrir novos talentos na leitura de poemas que possam vir a integrar o conjunto de recitadores associados a esta iniciativa, pelo que preparou um casting que começa amanhã e se prolonga, numa primeira fase, por três dias (de 30 de Setembro a 2 de Outubro).

Devido ao sucesso desta iniciativa, cujo número de inscrições ultrapassou todas as expectativas, nesta primeira fase estão já marcados três dias de casting intensivo, no qual serão ouvidas mais de 80 pessoas.

Cada candidato trará um poema à sua escolha e será convidado ainda a ler um outro poema, seleccionado pelo programador das Quintas de Leitura, João Gesta.

Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.

Uma outra oportunidade ocorrerá numa segunda fase, a realizar até final de Novembro, para a qual estão previstos outros tantos inscritos.

Fotografia de Mafalda Capela.

28/09/09

Em Outubro 4 Poetas

Para ler clicar sobre a imagem.

Uma noite de tributo a José Luís Peixoto


Catarina Nunes de Almeida e Margarida Cardeal ( leituras)



Sandra Salomé e Pedro Lamares ( leituras)




José Luís Peixoto



Raúl Peixoto da Costa (piano)



Pedro Nunes (apresentação)



Isabel Ariel ( dança)



Márcia (voz e guitarra)



Cindy ( striptease)



As 3 Marias (tango fusão. Cristina Bacelar- guitarra e voz; Fátima Santos - acordeão; Sara Barbosa - contrabaixo; e Zagalo - percussão; Ianina Khmelik - violinista convidada).



Fotografias de Sara Moutinho.