15/09/09

60.000

Festejamos 60.000 páginas visitadas com um poema de Adília Lopes:

DUAS IRMÃS SOLTEIRONAS
VIVEM JUNTAS
COM UMA GATA
QUE NUNCA DEIXAM SAIR
UMA DAS IRMÃS CASA
A OUTRA PEDE-LHE
UMA CARTA
A RELATAR PORMENORIZADAMENTE
A NOITE DE NÚPCIAS
A OUTRA MANDA-LHE
UM TELEGRAMA
"MANA, SOLTA A GATA"

AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FOTOGRAFIA DO PORTO

O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis" / Edições Quasi)

14/09/09

Jornal de Notícias

Na edição de 12 de Setembro de 2009. Para ler clicar na imagem.

AS CIDADES DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FOTOGRAFIA DE HELSÍNQUIA

O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.


FOTOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO

Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.


FOTOGRAFIA DE BUDAPESTE


Os monumentos de Budapeste e as suas ruas
são o mal que fiz a uma rapariga de olhos grandes.
Às vezes, lembro-me de Budapeste a propósito de
pormenores: ganchos de cabelo, caretas ao espelho.
Quando eu e Budapeste passeávamos de mão dada,
havia uma espécie de justiça na copa das árvores.
Nesse tempo, não existia memória, éramos apenas
as nossas pegadas na neve. Budapeste não tem solução.
Passarão décadas e morreremos cheios de segredos.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

11/09/09

Estudo Op.10 Nº4 - Chopin

Só mais uma. Para que não restem dúvidas.

Sugestão Diabólica - Prokofiev

Raúl Peixoto da Costa de regresso às Quintas de Leitura. De cortar a respiração.

Márcia - A Pele Que Há Em Mim @ Fnac Coimbra 2009

Para ouvir no recital Livre, em 24 de Setembro de 2009.

No site RTP

No site da RTP, clicando aqui.

AS "FOTOGRAFIAS DE CIDADES" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO




FOTOGRAFIA DE SÃO FRANCISCO


São Francisco és tu e são as tardes que passávamos
no sofá, sentados ou deitados de todas as formas,
em todas as direcções. Não guardo ressentimentos
de São Francisco e chegará um tempo em que,
de novo, seremos capazes de passar um fim-de-semana
entre chapéus de sol e sol. A Califórnia não é eterna,
mas há um certo tipo de silêncio que se procura
sempre e que se encontra apenas muito raramente.
Esse é o teu brilho, São Francisco. Vais ver, teremos
camisas de flores coloridas e saberemos rir-nos
de tudo. E, contra todas as expectativas, quando
um de nós estiver a morrer, o outro estará lá.


FOTOGRAFIA DE ABIDJAN


Abidjan tem cicatrizes nas ancas.
Cuidadoso, pouso as mãos noutro lado,
seguro Abidjan pela cintura.
Não porque as cicatrizes sejam dolorosas,
há muito que Abidjan se habituou a elas,
mas porque me fazem impressão a mim.
As cicatrizes de Abijan foram-lhe feitas pela avó
com um ferro em brasa, quando era criança.
Eu e Abijan bebemos garrafas de coca-cola.
Seguramo-las como algo valioso,
somos senhores por um momento.
Abidjan diz: mostra-me o teu quarto,
e eu, não sou capaz de resistir.


FOTOGRAFIA DE MADRID


Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

10/09/09

Música, tango e striptease em tributo a José Luís Peixoto



O escritor regressa às Quintas de Leitura

O dia 24 de Setembro marcará a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". A sessão, intitulada "LIVRE", realiza-se às 22h00 no Auditório do TCA.

José Luís Peixoto irá revelar-nos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano pela Editora Quetzal.

Esta sessão deverá também ser entendida como um tributo das "Quintas de Leitura" ao Poeta. Reconhecemos a fidelidade e a atenção que José Luís Peixoto tem dedicado a este ciclo e queremos agradecer-lhe esse afecto.

Para tal, foi montada uma grande festa da Poesia que incluirá leituras, dança, imagem e muita música. Um espectáculo com a duração de cerca de 150 minutos, cheio de momentos inusitados e muitas surpresas.

Participam nas leituras os actores Pedro Lamares, Sandra Salomé e Margarida Cardeal e também a poeta Catarina Nunes de Almeida. Pedro Nunes será o mestre-de-cerimónias da festa.

Na dança, presença da bailarina Isabel Ariel. Assinale-se ainda um momento de striptease assegurado pela dançarina romena Cindy.

A imagem da sessão será assinada por Augusto Brázio, cúmplice de José Luís Peixoto em muitas aventuras fotográficas.

Por fim, momentos sempre esperados nas "Quintas de Leitura": a música.

O jovem e laureado pianista Raúl Peixoto da Costa vai, como habitualmente, deixar-nos sem respiração. A presença encantatória de Márcia (voz e guitarra), novo talento da música portuguesa. Por fim, o som do novo projecto do Porto "As 3 Marias", grupo constituído por Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (Contrabaixo) e Zagalo (percussão) - tango clássico misturado com flamenco, bolero, bossa, jazz e tango canção.

Mimos para Peixoto, antes da sua partida para a Roménia e para a Argentina, entre muitos outros países. Um espectáculo total, imperdível, para pessoas que gostam de emoções fortes.

Espectáculo para maiores de 18 anos, não vá o diabo tecê-las.


Nota: bilhetes entre 6 e 9 euros.

Fotografia: Augusto Brázio.

MONÓLOGO

Romeu, o teu nome é um pacto e um relógio.
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.

Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.

Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.

Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.

(José Luís Peixoto, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)

09/09/09

09/09/09

O PIANO DO MINISTRO TAMBÉM NÃO ERA VERTICAL

(pensamento, quase normal, de João Gesta)

CASTING DAS "QUINTAS DE LEITURA"


AVISO:

Em virtude do grande número de inscrições recebido até ao momento, iremos alargar o casting das "Quintas de Leitura" a um terceiro dia - DIA 30 DE SETEMBRO. Serão aceites inscrições apenas até ao preenchimento total do horário do casting previsto para este terceiro dia.

Reconhecendo a grande adesão de pessoas a esta iniciativa, esperamos abrir um novo casting no MÊS DE NOVEMBRO para aqueles que não tiveram oportunidade de se apresentar no casting de Setembro/Outubro.

Saudações Poéticas!

AS CONTAS DAS "QUINTAS"

Os Poetas com maior número de presenças nas sessões das "Quintas":

José Luís Peixoto - 6 presenças

valter hugo mãe - 5

Gonçalo M. Tavares - 4

Jorge Sousa Braga - 3

Nuno Júdice - 3

Daniel Maia-Pinto Rodrigues - 3

Filipa Leal - 3

AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"

Teremos no próximo dia 24 de Setembro a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura".

Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:

20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho

22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
apresentação de Fernando Alvim

19 de Maio 2005
MORRESTE-ME

18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO

19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira

17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
conversa com Yolanda Castaño


A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
Compre já o seu bilhete!

08/09/09

Notícia publicada hoje.

OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

07/09/09

MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO


Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:



Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

Fotografia de Augusto Brázio

04/09/09

PARABÉNS, ZÉ LUÍS!

O José Luís Peixoto faz hoje 35 anos. Nasceu em 1974, ano de todas as alegrias.

Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:

"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."

(Raoul Vaneigen)

"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

(fotografia de Augusto Brázio)


LIMPAR O PÓ

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.


LAVAR A LOIÇA

E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados

nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.

A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)