13/07/09
09/07/09
120 MINUTOS DE PURO GOZO
Aqui ficam os nomes dos heróis desta noite:
MIGUEL-MANSO
HELENA VIEIRA
ISAQUE FERREIRA
NUNO MOURA
PEDRO LAMARES
TIAGO PEREIRA
FILIPA FRANCISCO
BRUNO COCHAT
ELISABETE MAGALHÃES
B FACHADA
A tripulação está preparada para o fazer feliz esta noite. Junte-se a nós. À boleia das "Quintas" nunca mais será o mesmo.
08/07/09
O POETA MIGUEL-MANSO NAS "QUINTAS DE LEITURA". É JÁ AMANHÃ.
pela concha da orelha
pela membrana do tímpano
a melodia negra invade
o meu coração ímpio
não sei o nome da flor
que orna o cabelo dela
um distinto perfume flutua
no estio que o seu corpo exala
mas sejamos honestos isto não é
uma loa de al-Mu´tamid no séc. XI
em Silves num palácio de varandas
são talvez demasiadas cervejas
em copo de plástico
na Travessa da Espera
(poema de Miguel-Manso, que será lido na sessão de amanhã pelo actor Pedro Lamares)
07/07/09
CASAMENTO DE BANGKOK
aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo
mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê
por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza
seguimos o perfume
ela sabe
x - x
Mais um poema de Miguel-Manso. Será lido na sessão do dia 9 de Julho pelo actor Pedro Lamares.
O JN e as Quintas de Leitura
06/07/09
2 POEMAS DE MIGUEL-MANSO
o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores de Junho
x - x
POEMETO
o paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem
um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía
ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta
tão exacto como a morte
(Estes poemas serão lidos por Miguel-Manso na sessão do dia 9 de Julho)
03/07/09
AINDA HÁ BILHETES
Divulgamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão.
O TEMPO CIRCULAR
há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"
ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique
sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade
- esse outro
o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo
e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura
como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também
aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à
allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)
tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia
uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri
quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo
de garrafa
a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida
(poema de Miguel-Manso)
02/07/09
MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NAS "QUINTAS DE LEITURA"
a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses
o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira
o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia faz filhas
depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele
dentro do intrincado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite
procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome
se me lembrasse ficaria bem neste verso
fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário - a água - deu mais um gole
na cerveja fez as contas
ao difícil enigma do amor
(poema de Miguel-Manso)
01/07/09
A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.
frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos
noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua
sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã
e depois durante a noite
assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa
não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações
essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins
(poema de Miguel-Manso)
30/06/09
MAIS POESIA DE MIGUEL-MANSO
Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas
apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa
e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico
apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas
entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros
«É favor não pisar a relva»
(MIGUEL-MANSO)
29/06/09
ANTES DE FÉRIAS

MADRIGAL
gosto quando pões a quinta porque me tocas na perna com o nó dos dedos
Poeta Miguel-Manso e músico B Fachada
As "Quintas de Leitura" estão quase de férias, não sem antes apresentar Miguel-Manso, o Poeta que veio agitar as águas mornas da poesia portuguesa.
A sessão, intitulada "Quando escreve descalça-se", realiza-se no auditório do TCA, no próximo dia 9 de Julho, às 22h00.
Sobre o poeta convidado o crítico literário José Mário Silva escreveu que Miguel-Manso faz dos versos "delicados actos de guerrilha" e da poesia "uma causa revolucionária".
Resta acrescentar que Miguel-Manso publicou em poucos meses dois livros muito aclamados pela crítica - "Contra a manhã burra" e "Quando escreve descalça-se"-, que lhe deram o estatuto de grande revelação da poesia portuguesa.
Na sessão, o Poeta conversará com Helena Vieira, responsável pela editora "Mariposa Azual".
As leituras, nas quais Miguel-Manso também participará, estarão a cargo de Pedro Lamares, Isaque Ferreira e do também poeta Nuno Moura. Serão lidos 20 poemas, escolhidos por Miguel-Manso para o espectáculo.
A imagem, manipulada em tempo real, será da responsabilidade do realizador Tiago Pereira.
Mas não se ficam por aqui os convidados da sessão. Elisabete Magalhães (dança) e Filipa Francisco e Bruno Cochat (performance "Nu Meio", que ironiza a relação de um casal tipicamente português)) assinarão momentos mágicos da sessão.
Refira-se, por fim, B Fachada, o músico convidado que se estreia nas "Quintas de Leitura".
Sobre este músico, escreve Samuel Úria:
"Princesa pop, palhaço pirómano, petrarquista pirata, perfeccionista patibe, porfiado e prolixo poeta - tudo adjectivos começados por "b". Literato até quando cospe, o cascalense Fachada faz canções para todos os desgostos, humor ponta-e-mola para todos os buchos".
B Fachada apresentará ao piano, à guitarra e à viola braguesa, canções do seu último disco "Um Fim-de-semana no Pónei Dourado". Nós cá estaremos para ouvir e incendiar o auditório.
Bilhetes sempre a pensar na crise: 9,00 Euros e 6,00 Euros.
AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO
ALDEIA DO CADAFAZ
de ano para ano o primo Albertino tem menos dentes
e neste Agosto não haverá baile nem matraquilhos
sentei-me no coreto da Junta olhei as casas da aldeia
enquanto que atrás de mim o Ivo e os outros miúdos
alheios e ainda bem a contemplações menores
me atiram sábias merecidas pedras que só por
azar e algum desprazer me não acertam
X-X
ALDEIA DE CASTELO RODRIGO
queria recuperar o leão gravado por cima da porta
onde ninguém via mais que uma imperfeição na pedra
vender a casa estava fora de questão o amor pode ruir
mais depressa que algumas honradas edificações
para mim bastaria uma cadeira uma prancha apoiada
em dois cavaletes e tempo para anotar a aproximação dos
insectos a custosa mas precisa promoção do Inverno
X-X
ALDEIA DE CASTELO MENDO
flores de papel azuis cor-de-rosa esfiapadas contra a pedra
um vestígio de festa a que se chega sempre tarde o largo
do pelourinho austero a ponta acesa de um cigarro na ladeira
viemos dar a um belver ervado onde lembro um túmulo e
talvez uma capela num conjunto de gaélica aparência
X-X
ALDEIA DE DRAVE
excluamos a praga sazonal de escuteiros o mau vinho
maggaio comprado num lugar vizinho e temos o dom
da noite sentados na erva seca no alqueive dos socalcos
num silêncio medieval duro ingente que nos cai no vale
dos olhos abertos à progressiva combustão dos astros
(poemas de Miguel-Manso)
26/06/09
AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO
são joão da ribeira
- queria pôr aqui este nome -
mãos que trazem a fruta ao fim da tarde
clero adro cal entusiasmo distrital
escolhe tu o país a mesa de café
contra este absurdo cósmico
eu pago um copo
lembrar-me-ei hoje de um verso pequeno?
x - x
ALDEIA DA AZINHAGA
adro campanário desolação librina
no paul da manhã dormem gatos líquen
nenhum dos velhos se alevanta da entrada da
taberna em direcção à sua Lanzarote
x - x
ALDEIA DA PALHOTA
o nomadismo é uma sucessão de sedentarismos
até se chegar ao cão voltando à margem à mulher
que dorme negra na luz de uma árvore de abismos
vê o que vai sobrando das artes dos barcos da noite
"Avieiros" 1942 e o mais grave é que nem com a escrita
ou o cinema se pode voltar ao que já está perdido
x - x
ALDEIA DO PATACÃO
podia falar dos tomatais do areal e do rio largos do renque
decrépito das casas em palafitas mas o que me ocorre mostrar
é a fotografia amarelada de dois amantes junto à morte
(Poemas de Miguel-Manso)
25/06/09
A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.
à memória de Jean Nicot que trouxe
tabaco para França no século dezasseis
só para eu amenizar a espera
no Le Carillon à esquina da Rue Bichat
com a Alibert
onde Véronique não entrará este século
X-X
QUATRO CIGARROS NO CAFÉ DES ANGES
de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo
o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho
junto à janela
(poemas de Miguel-Manso)
23/06/09
QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE
CAFÉ CASTRO
com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira - são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste
permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café
mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos
evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham
mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo
espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo - haverá outro sítio? -
para o poema seguinte
Miguel-Manso
20/06/09
Quando escreve descalça-se
19/06/09
A noite mais longa
ELISABETE MAGALHÃES
RUTE PIMENTA
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
ANTÓNIO JORGE GONÇALVES
ALDINA DUARTE
DN Artes
DN artes online explica:| valter hugo mãe: o escritor também canta no Governo Pois é ... foi assim... (leiam no link) |
18/06/09
Destak e Jornal de Notícias
HOJE HÁ SESSÃO DAS "QUINTAS" NO TCA. CASA CHEIA.
INÊS PEDROSA
ALDINA DUARTE
FILIPA LEAL
ISAQUE FERREIRA
PEDRO LAMARES
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
RUTE PIMENTA
VICTOR HUGO PONTES
ELISABETE MAGALHÃES
ANTÓNIO JORGE GONÇALVES
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
MAFALDA CAPELA
VENHA VÊ-LOS BRILHAR NA RUA DAS ESTRELAS...
17/06/09
16/06/09
valter hugo mãe - a voz do novo governo
POEMA DE AMOR
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo
por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
Poema escolhido por Inês Pedrosa para a voz de Filipa Leal.
15/06/09
Pedro Lamares
SEXO ORAL
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.
INÊS PEDROSA
(Este poema será lido por Filipa Leal na próxima sessão do dia 18 de Junho)
12/06/09
AS ESCOLHAS DE INÊS PEDROSA
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo
JORGE SOUSA BRAGA
09/06/09
AS ESCOLHAS DE INÊS PEDROSA
MÁRIO CESARINY
ANTÓNIO BOTTO
ÁLVARO DE CAMPOS
EUGÉNIO DE ANDRADE
ARMANDO SILVA CARVALHO
ANA HATHERLY
NATÁLIA CORREIA
ALEXANDRE O'NEILL (2 poemas)
FERNANDO ASSIS PACHECO
PEDRO TÁMEN
AL BERTO
MARIA TERESA HORTA (2 poemas)
NUNO JÚDICE
LUÍS MIGUEL NAVA
LUIZA NETO JORGE
MANUEL ANTÓNIO PINA
JORGE SOUSA BRAGA
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
FERNANDO PINTO DO AMARAL
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
HERBERTO HELDER
INÊS PEDROSA
As leituras estarão a cargo de Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Rute Pimenta.
O LENTO E INCENDIÁRIO CAMINHO DO AMOR: DIA 18, NAS "QUINTAS".
DA VERDADE DO AMOR
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Este poema será lido por Rute Pimenta.
08/06/09
POEMAS DE AMOR. DIA 18 de JUNHO, NAS "QUINTAS DE LEITURA".
A BELA DO BAIRRO
Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque
ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor
FERNANDO ASSIS PACHECO
Este poema será lido por Isaque Ferreira.
05/06/09
"FAZES-ME FALTA". DIA 18, INÊS PEDROSA NAS "QUINTAS DE LEITURA".
UM FADO: PALAVRAS MINHAS
Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
PEDRO TÁMEN
Este poema será lido por Rute Pimenta.
04/06/09
50.000 PÁGINA VISITADAS

Obrigado a todos os que continuam a passar os olhos e a alma pelo blogue das "Quintas".
Para comemorar condignamente as 50.000 páginas visitadas, convidamos a Ana Malhoa a posar e a pousar nua para o nosso blogue. Com um livro de Éluard tapando-lhe timidamente o seio maior. Ela não aceitou. Trocou-nos miseravelmente pela PLAYBOY...
Já refeito do desgosto, o programador do ciclo, homem prático e de fortes convicções, compensa-vos, agora, com um pensamento, (que afinal são dois), único e inédito:
versão I
Sócrates está sempre a dizer aos seus discípulos: - uma mão lava a ostra.
versão II
Sócrates está sempre a dizer aos seus discípulos: - uma mão lava a ota.
MAIS POEMAS DE AMOR
A MEU FAVOR
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
ALEXANDRE O'NEILL
*
SEGREDO
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
MARIA TERESA HORTA
03/06/09
ESTE POEMA VAI SER LIDO PELA FILIPA LEAL NO RECITAL DO DIA 18.
POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
NUNO JÚDICE
02/06/09
Vitor Baía com antologia dos poetas das Quintas
AS ESCOLHAS DE INÊS. POEMAS DE AMOR. DIA 18, NUM TEATRO PERTO DO SEU CORAÇÃO.
Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor
O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria
LUIZA NETO JORGE
Este poema será lido por Catarina Nunes de Almeida.
01/06/09
AS ESCOLHAS DE INÊS PEDROSA. DIA 18 DE JUNHO. POEMAS DE AMOR
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor; e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
MANUEL ANTÓNIO PINA
29/05/09
MAIS UM POEMA DE AMOR ESCOLHIDO POR INÊS PEDROSA
Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.
Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longuínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.
Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.
Luís Miguel Nava
Este poema será lido por Isaque Ferreira.
28/05/09
Samuel Úria falado na Galiza


POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Natália Correia
Este poema será dito por Rute Pimenta.
27/05/09
DIA 18 DE JUNHO. POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
Este poema será lido por Isaque Ferreira.
26/05/09
FAZES-ME FALTA.

Quanto, quanto me queres? - perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.
Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...
Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...
Não perguntes, não sei - não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.
António Botto (1900-1959)
Este poema será lido por Catarina Nunes de Almeida.
(fotografia retirada da revista brasileira online Bravo).
25/05/09
O Amor segundo Inês Pedrosa e Aldina Duarte

"Fazes-me falta" é o título da próxima sessão do ciclo poético "Quintas de Leitura", que se realiza a 18 de Junho, às 22h00, no Auditório do TCA, com a participação do colectivo poético Caixa Geral de Despojos.
Esta sessão é marcada pela presença de duas mulheres insubmissas e brilhantes da cultura portuguesa: a escritora Inês Pedrosa e a fadista Aldina Duarte.
Inês Pedrosa escolheu e apresentará 25 belos e surpreendentes Poemas de Amor, todos de autores portugueses: Mário Cesariny, António Botto, Álvaro de Campos, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Ana Hatherly, Natália Correia, Alexandre O'Neill, Fernando Assis Pacheco, Pedro Támen, Al Berto, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Luís Miguel Nava, Luiza Neto Jorge, Manuel António Pina, Jorge Sousa Braga, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, José Tolentino Mendonça, Herberto Helder e Inês Pedrosa.
Os poemas foram escolhidos para as vozes de Catarina Nunes de Almeida, Rute Pimenta e de três elementos do colectivo poético Caixa Geral de Despojos (Filipa Leal, Isaque Ferreira e Pedro Lamares).
A imagem da sessão, produzida em tempo real, é da responsabilidade do ilustrador António Jorge Gonçalves.
O momento de performance é assegurado por Victor Hugo Pontes e Elisabete Magalhães. Apresentarão a peça "Dupla em Fotomontagem".
O espectáculo contará ainda com o regresso aos palcos das “Quintas de Leitura” do jovem, talentoso e laureado pianista Raúl Peixoto da Costa, que interpretará temas de Chopin e Liszt.
Aldina Duarte dará um concerto com cerca de 45 minutos, a fechar a sessão, onde cantará temas do seu último disco " Mulheres ao Espelho".
Refira-se, por fim, que o espectáculo é assinado pela dupla João Gesta e Mafalda Capela, também elementos do colectivo Caixa Geral de Despojos, e igualmente responsáveis por espectáculos de sucesso como "Bife Picado", “Irene! Irene! Sirva o Leite-creme!”, “Fio Mental” e “Nunca mais é sável”, todos apresentados no âmbito das “Quintas de Leitura”.
Adivinha-se uma noite intensa, arrebatadora, cheia de tensão poética, construída à medida do seu coração.
Bilhetes a pensar na crise: 9,00 Euros e 6,00 Euros (c/ desconto).
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(MARIA TERESA HORTA)
22/05/09
AINDA MIGUEL-MANSO, O POETA DO DIA 9 DE JULHO
gosto quando pões a quinta porque me tocas na perna com o nó dos dedos
(Miguel-Manso, in "Contra a Manhã Burra"/ Mariposa Azual)
21/05/09
Tochas para sentir


Pedro Tochas durante uma pausa no estágio de preparação para a viagem espacial das próximas noites, nas Quintas de Leitura do TCA, é chamado à mesa de Ricardo Couto, talk-show da Porto Canal, para um tempo de balanço e mímica. A não perder , já que os bilhetes para os 3 serões interactivos com o comediante estão esgotados há mais de duas semanas. "Vai ser uma experiência. Mais do que para ver serão noites para sentir"- Pedro Tochas.
MIGUEL-MANSO NO TCA A 9 DE JULHO
o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência
é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos
mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras
gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras
escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite
a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na
nitidez esquecida da telefonia
(Miguel-Manso, in "Contra a Manhã Burra", reeditado por Mariposa Azual)











