09/09/09

AS PRESENÇAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS"

Teremos no próximo dia 24 de Setembro a 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura".

Recordamos hoje as suas anteriores aparições no ciclo:

20 Março 2003
NÃO ME PERGUNTES QUEM SOU
apresentação de Rui Reininho

22 de Abril 2004
DANÇA DO PÓ
apresentação de Fernando Alvim

19 de Maio 2005
MORRESTE-ME

18 de Maio 2006
CAIR ATRAVÉS DO CÉU DENTRO DE UM SONHO

19 de Abril 2007
UNICÓRNIOS E FARMÁCIAS ABANDONADAS
apresentação de Rui Moreira

17 de Abril 2008
DESMANTELAMENTO DE UM RIO
conversa com Yolanda Castaño


A NÃO PERDER:
24 Setembro 2009
LIVRE
Compre já o seu bilhete!

08/09/09

Notícia publicada hoje.

OUTRO POSTAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos teus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

07/09/09

MAIS POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO


Um postal de José Luís Peixoto, o nosso próximo convidado:



Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

Fotografia de Augusto Brázio

04/09/09

PARABÉNS, ZÉ LUÍS!

O José Luís Peixoto faz hoje 35 anos. Nasceu em 1974, ano de todas as alegrias.

Dedico-lhe, teclado à altura do coração, um pensamento perfeito, que me tem acompanhado pela vida fora:

"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."

(Raoul Vaneigen)

"LISTA DE TAREFAS" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

(fotografia de Augusto Brázio)


LIMPAR O PÓ

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.


LAVAR A LOIÇA

E destruir todas as provas de uma noite:
dois copos, dois corpos, garfos espetados

nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.

A circunferência certa dos pratos, a cor
absoluta do branco. E esquecer outra vez.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gavetas de Papéis"/ Edições Quasi)

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

SUBTEXTO

Até ao fim do segundo acto, continuo convencido
de que sou imortal. Os meus dedos são Medeias
feitas de aço, ou são papéis, ou são mesmo dedos,
mas estão embaraçados numa contradição negra.

Com o fim do terceiro acto a aproximar-se, com o fim
a aproximar-se, reparo no pó e nos pormenores da ruína.
O meu estômago desfaz-se dentro de mim. Já não sou
o rapaz que desprezaste durante todo o segundo acto.

Houve qualquer coisa adiada e tudo foi tão breve.
Polvilho a palavra agora pelas conversas, deixo
de saber aquilo que sou, os meus olhos sobrevoam
os objectos e constato que o mundo é assim-assim.

03/09/09

QUEM TE AVISA...

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

02/09/09

O POETA CONVIDADO DE SETEMBRO

José Luís Peixoto vai estar de novo connosco (dia 24 de Setembro), numa sessão imperdível intitulada "LIVRE".
Retomamos hoje a publicação de alguns poemas da sua autoria.

CERTIDÃO DE NASCIMENTO


Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.

Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na auto-estrada e
que se despedem com a mesma sílaba.

O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.

Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.

Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.

O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/Edições Quasi)

01/09/09

JOAQUIM CASTRO CALDAS

O Poeta deixou-nos há exactamente um ano. Ficou a sua obra.

PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz

(Joaquim Castro Caldas)

30/07/09

FÉRIAS

(Para ler clicar sobre a imagem)


O BLOGUE DAS QUINTAS DE LEITURA DO TCA VAI DE FÉRIAS
ATÉ 31 DE AGOSTO.

FICA AQUI O FLYER DA NOSSA PRÓXIMA SESSÃO PARA AGUÇAR O APETITE.

BOAS FÉRIAS

LIVRE. DIA 24 DE SETEMBRO NO TCA.

Publicamos hoje o último poema, antes de férias, de José Luís Peixoto. O Poeta será o convidado das "Quintas" no dia 24 de Setembro, numa mega-sessão intitulada "LIVRE".
Nela, apresentaremos, em primeiríssima mão, alguns fragmentos do novo romance de Peixoto, a publicar ainda este ano.

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


(José Luís Peixoto, in "A criança em ruínas"/ Edições Quasi)

CASTING PARA LEITORES

(para ler clicar sobre a imagem)

Gostas de poesia?

Queres ler poesia nas sessões das “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre?

Então, inscreve-te no CASTING que iremos realizar nos dias 1 e 2 de Outubro no TCA (Porto).

Os candidatos seleccionados serão convidados a participar em algumas das sessões regulares da programação das “Quintas de Leitura” em 2010.

INSCRIÇÕES

Há uma inscrição prévia OBRIGATÓRIA através do e-mail pvaz@tca-porto.pt . Só serão aceites as inscrições realizadas no período de 7 a 29 de Setembro. Todos os candidatos admitidos serão contactados, via e-mail, para confirmação e marcação da hora do respectivo casting.

Da inscrição têm de constar obrigatoriamente os seguintes elementos: nome completo, data de nascimento, naturalidade e contacto telefónico.

Tens de trazer um poema à tua escolha. Irás ler ainda um poema seleccionado por nós.

Para esclarecimento de qualquer dúvida, contactar, a partir de dia 7 de Setembro, Patrícia Vaz através do

22 606 30 17.

Boas Leituras!

A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" de Outubro a Dezembro de 2009

29 de Outubro de 2009

Café-Teatro

22h00

“UM POETA NO SAPATO”

Espectáculo para maiores de 16 anos

As "Quintas de leitura" vão pegar fogo. Eles são quatro vozes fulgentes, irreverentes, alucipantes, da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura. Durante quarenta minutos, ler-nos-ão os seus poemas

incendiários, eivados de amor e humores de todas as cores.

A actriz Adriana Faria ajuda à festa e o artista plástico Mário Vitória dá imagem à sessão.

Mônica Coteriano & Pedro Gonçalves (Dead Combo) contam-nos "The Story of My Life". Uma imperdível performance baseada na história da violoncelista Guilhermina Suggia.

Fecham a noite os "Moliquentos". Concerto com Tânia Carvalho (voz e piano), Bruna Carvalho (bateria) e Zeca Iglésias (baixo eléctrico).

Foi você que pediu uma noite esquisita?

(Imagem de Mário Vitória)



26 de Novembro de 2009

Auditório

22h00

“LADO B”

Espectáculo para maiores de 16 anos

O comediante Pedro Tochas apresenta-se nas “Quintas de Leitura” pela 12.ª vez.

Desta feita, a pedido de muitas famílias, traz-nos um dos seus espectáculos mais emblemáticos e aclamados: “Lado B”. Oportunidade única para rever o mais pessoal e autobiográfico espectáculo de Pedro Tochas.

O amor, o sexo, a dicotomia homem/mulher são temas que estão de

volta nesta bem disposta e irreverente visão do mundo.

Mas, desta vez, a sua vida académica, as suas vivências como artista de rua e as experiências em vários anos de digressão, vão também estar na mira da análise desconcertante de Pedro Tochas.

(Fotografia de Susana Paiva)


17 de Dezembro de 2009

Café-Teatro

22h00

“CERCO VOLUNTÁRIO”

Espectáculo para maiores de 12 anos

Sessão de lançamento do 13.º livro da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. O autor da obra é Vasco Gato, uma das vozes mais importantes da “novíssima” poesia portuguesa. O livro intitula-se “Cerco Voluntário”, tem gravuras de Sandra Filipe e será apresentado por Catarina Nunes de Almeida.

A sessão contará ainda com leituras de Vasco Gato, Catarina Nunes de Almeida e Pedro Lamares e com imagem de Sandra Filipe.

Uma performance por Sónia Baptista e um concerto por Tó Trips (“Guitarra 66”, o novo projecto a solo) completam o espectáculo.

Uma noite mágica de poesia, música e o que mais se verá.

(Imagem: Sandra Filipe)

29/07/09

O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"

MÚSICA

como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão,

como um instante único da vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,

assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,

assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)

28/07/09

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

OS LIVROS

em cada página, o teu olhar. em cada montanha,
a tua voz. deixa-me falar contigo. lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.

as palavras existem. eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.

em cada página, os campos. em cada montanha,
tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.

passam anos sobre as palavras. os dias existem.
seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)

27/07/09

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO

Voltamos hoje à poesia de José Luís Peixoto, o convidado da próxima sessão das "Quintas de Leitura". A sessão intitula-se "LIVRE" e realizar-se-á no dia 24 de Setembro.

PRÍNCIPE

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. quantas
pessoas entendem aquilo que não entendo? quem
descobriu o segredo mais inútil?

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.

entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.

o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.

(JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "A Casa, a Escuridão"/ Temas e Debates)

24/07/09

MAIS DOIS POEMAS DE HAL SIROWITZ

Publicamos hoje os últimos poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto.

MIGALHAS

Não leves comida para o quarto,
disse a mãe. Vais ter mais bichos.
Eles dependem de pessoas como tu.
De outra forma, morreriam à fome.
Mas quem é que queres fazer feliz,
a tua mãe ou um monte de formigas?
O que é que elas fizeram por ti?
Nada. Elas não têm sentimentos.
Elas vão comer os teus doces. Mesmo assim
tráta-las melhor do que me tratas a mim.
Estás sempre a alimentá-las.
Mas nunca me ofereces nada a mim.

DECLARAÇÃO

Se o John F. Kennedy consegue levar a sua mãe
à inauguração, disse a mãe, & não se sente
envergonhado quando ela põe o braço à sua volta,
então porque é que tu não queres ser visto
comigo na rua? Ele é o Chefe Máximo
de todo o país, & tu nem sequer mandas
no teu quarto. Tenho de ser eu a limpá-lo por ti.
Nunca ouvi ninguém a chamar-lhe maricas
por andar com a mãe, & mesmo se
alguém chamasse, isso não o incomodava, porque
ele sabe que não é verdade. Nunca me mandaste
embora quando eu te estava a mudar as fraldas.
As mães são o grupo mais injustiçado do país.
Assim que os filhos se tornam suficientemente crescidos,
fingem que já não nos conhecem.

(poemas de Hal Sirowitz)

23/07/09

POEMAS DE HAL SIROWITZ

TIMING

Depois de fazermos amor, saímos
para jantar. Tentei não comer
o meu linguado mais depressa do que ela.
Uma vez que não conseguimos ter
um orgasmo simultâneo, poderíamos
pelo menos acabar de comer ao mesmo tempo.

PERDA DE TEMPO

Se eu soubesse que não estavas interessada em mim,
não teria desperdiçado todas aquelas noites a
masturbar-me sobre ti. Teria fantasiado
sobre alguém muito menos acessível,
como a Madonna. Uma semana depois, ao ver-me ainda sozinho
na cama, não teria ficado tão decepcionado.

ESTA NOITE NÃO

Ela disse que eu não podia ir com ela
para o seu apartamento, porque
tinha de estudar para um teste. E
que eu não conseguia ajudá-la,
porque eu não era bom a matemática.
A única coisa que eu era bom era
a tirar-lhe as roupas, mas
isso ela já sabia fazer.

(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)

22/07/09

MAIS POESIA DE HAL SIROWITZ

ANIVERSÁRIOS

Não agites o guarda-chuva na loja,
disse a mãe. Estão muitos frascos de
molho de tomate sobre a tua cabeça
que podem cair-te em cima, & podes morrer.
Depois, não poderás ir à festa de hoje à noite,
ou ir ao salão de bowling amanhã.
E, em vez de celebrar o teu aniversário
com gasosa & bolo, teremos
aniversários da tua morte com chá
& bolachas. E o teu pai & eu não
poderemos voltar a comer esparguete, porque
o molho marinara irá lembrar-nos de ti.

O CÉREBRO DE UMA CADELA

Apenas porque a minha cadela salta para beijar-te,
disse ela, de cada vez que entras em casa,
não significa que ela saiba o que está a fazer.
Provavelmente, ela aprendeu isso comigo, viu-me
a beijar-te, & pensa que essa é a coisa certa
para fazer, mas ela viu-me a fazê-lo antes de eu saber
que eras um idiota, & ela não consegue distinguir.

O MEU PEIXE MORTO

Eu queria um jacaré para animal de estimação,
mas os meus pais deram-me um peixe dourado.
Quando morreu, a minha mãe atirou-o na sanita
e escorreu o autoclismo. Ela disse que se o enterrássemos
no pátio, um gato poderia desenterrá-lo e comê-lo.
Fiquei zangado com o meu pai por ter usado a casa-de-banho
dez minutos depois do enterro.
Ele não tem respeito pelos mortos.

(Poemas de Hal Sirowitz, traduzidos por José Luís Peixoto)