21/07/09

HAL SIROWITZ, TRADUZIDO POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO


CORPO ESTROPIADO

Não nades no mar quando estiver a chover,
disse a mãe. Um relâmpago pode cair na água,
& tu ficarás paralisado. Tu não gostas
de comer vegetais. Imagina teres de
passar o resto da vida a ser um deles.
Alguém irá ter de dar-te banho, levar-te
à casa-de-banho, & alimentar-te.
As crianças vão meter-se contigo. Mas
podes ter sorte, & ser atingido apenas
por uma baixa voltagem. Então serás
um vegetal esperto, como um espargo.
Conseguirás fazer a cama sozinho -
o que não fazes agora - mas as pessoas
vão sentir pena de ti e conversarão contigo.
Podes pensar que é divertido ficar
todo o dia a vegetar em casa. Mas,
de cada vez que pensares em ti próprio,
como a vontade de comer um gelado de chocolate,
o pensamento tornar-se-à vago, & desaparecerá.


A SEPARAÇÃO É DIFÍCIL

"Não temos nada em comum",
disse eu. "Somos duas pessoas completamente diferentes.
Não faz sentido nenhum que fiquemos juntos."
Mas ela começou a esfregar-me o pénis
através das calças, & lembrei-me de repente
que ambos gostamos de comida indiana.

(poemas de HAL SIROWITZ)

20/07/09

JOSÉ LUÍS PEIXOTO TRADUZ HAL SIROWITZ

Em 2005, José Luís Peixoto deu-me a conhecer um extraordinário poeta. Trata-se de HAL SIROWITZ, poeta judeu americano. Publicaremos nos próximos dias algumas refinadas traduções de José Luís Peixoto dos desconcertantes poemas de Sirowitz. Regalem-se.

BRAÇO DECEPADO

Não ponhas o braço fora da janela,
disse a mãe. Outro carro pode aparecer
por detrás, & cortá-lo. Então o teu pai
terá de parar, pôr o braço decepado
no porta-bagagens, & levar-te para o hospital.
Não é como as peças do teu telescópio
que voltas a arranjar. Um médico vai ter de cosê-lo.
Não poderás voltar a usar mangas curtas.
Não quererás que ninguém veja os pontos.

CAUSAR BOA IMPRESSÃO

Masturbei-me duas vezes
antes de sairmos juntos,
para que não parecesse demasiado esfomesdo.

O CAMINHO

A distância mais curta entre
os ombros dela & a sua cintura
era pelos seios, por isso
fiquei lá parado no caminho de
descobrir se passava a noite
na casa dela ou se era mandado para casa.

17/07/09

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NAS "QUINTAS" EM SETEMBRO

AMOR

quando os instantes de amanhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz.

(José Luís Peixoto, in " A Casa, a Escuridão"/Temas e Debates)

16/07/09

A POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Fotografia : Augusto Brázio


Ele será o próximo poeta convidado das "Quintas de Leitura". Publicamos hoje um poema seu do livro "A Casa, a Escuridão".

O ESCRITOR

ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.

ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeeiro
sobre as palavras escritas.

ele disse amo-te.

ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.

ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?

(José Luís Peixoto in "A Casa, a Escuridão" / Temas e Debates)

15/07/09

PRIMEIRO BALANÇO DE 2009

Fazemos hoje, aqui, aquilo que ninguém faz. Apresentar números, sem cosméticas contabilísticas.
Registe-se:

8 espectáculos
11 sessões (das quais 9 esgotadas)
1.188 espectadores
67 artistas convidados
98% taxa de ocupação de salas

Quintas de Leitura: 91 meses ao serviço da Palavra.

14/07/09

A PROGRAMAÇÃO DAS "QUINTAS DE LEITURA" NOS PRÓXIMOS MESES

24 DE SETEMBRO
Auditório
"LIVRE"
A 7ª presença do poeta José Luís Peixoto nas "Quintas de Leitura". Revelará fragmentos do seu novo romance, a publicar ainda este ano.

29 DE OUTUBRO
Café-Teatro
"UM POETA NO SAPATO"
Presença de 4 vozes irreverentes e alucipantes da poesia portuguesa contemporânea: António Pedro Ribeiro, Daniel Jonas, João Rios e Nuno Moura.

26 DE NOVEMBRO
Auditório
"LADO B"
O regresso do comediante Pedro Tochas às "Quintas de Leitura" para apresentar o seu mais emblemático espectáculo. Sessão única.

17 DE DEZEMBRO
Café-Teatro
"CERCO VOLUNTÁRIO"
Sessão de lançamento do 13º livro da colecção "Cadernos do Campo Alegre". Um livro da autoria do poeta Vasco Gato, com gravuras de Sandra Filipe.

E, claro, dezenas de outros artistas convidados...

13/07/09

Uma espreitadela à última Quinta de Leitura antes de férias


Dança: Elisabete Magalhães (Living Dead Girl)


Helena Vieira à conversa com Miguel-Manso.

As leituras com Pedro Lamares.

Nuno Moura e Isaque Ferreira.



Pormenor de cena.


A música de B-Fachada.


Video DJ com Tiago Pereira

No palco.




Performance NU MEIO de Filipa Francisco e Bruno Cochat.

Fotografias de Sara Moutinho.
Foi na passada Quinta-feira, no palco do grande Auditório do TCA.

09/07/09

Sábado

Revista Sábado de hoje.

Jornal de Notícias

Notícia de hoje no Jornal de Notícias.

Público


Notícia de hoje no jornal Público. Para ler clicar sobre as imagens.

120 MINUTOS DE PURO GOZO

Serão 120 minutos de espectáculo. Com momentos inolvidáveis, posso garantir-vos. Palavra de programador.
Aqui ficam os nomes dos heróis desta noite:

MIGUEL-MANSO
HELENA VIEIRA
ISAQUE FERREIRA
NUNO MOURA
PEDRO LAMARES
TIAGO PEREIRA
FILIPA FRANCISCO
BRUNO COCHAT
ELISABETE MAGALHÃES
B FACHADA


A tripulação está preparada para o fazer feliz esta noite. Junte-se a nós. À boleia das "Quintas" nunca mais será o mesmo.

08/07/09

O POETA MIGUEL-MANSO NAS "QUINTAS DE LEITURA". É JÁ AMANHÃ.

PASSAGEM DE ABDULLAH IBRAHIM

pela concha da orelha
pela membrana do tímpano
a melodia negra invade
o meu coração ímpio

não sei o nome da flor
que orna o cabelo dela
um distinto perfume flutua
no estio que o seu corpo exala

mas sejamos honestos isto não é
uma loa de al-Mu´tamid no séc. XI
em Silves num palácio de varandas
são talvez demasiadas cervejas

em copo de plástico
na Travessa da Espera

(poema de Miguel-Manso, que será lido na sessão de amanhã pelo actor Pedro Lamares)

07/07/09

CASAMENTO DE BANGKOK

disse-me

aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo

mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê

por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza

seguimos o perfume
ela sabe

x - x

Mais um poema de Miguel-Manso. Será lido na sessão do dia 9 de Julho pelo actor Pedro Lamares.

O JN e as Quintas de Leitura

Notícia na secção CULTURA, hoje no Jornal de Notícias.
Para ler clicar sobre a imagem.
Ainda há bilhetes.

06/07/09

Zé! - b Fachada from Vasco Monteiro on Vimeo.

2 POEMAS DE MIGUEL-MANSO

PROSCÉNIO

o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores de Junho

x - x

POEMETO

o paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem

um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía

ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta

tão exacto como a morte

(Estes poemas serão lidos por Miguel-Manso na sessão do dia 9 de Julho)

03/07/09

AINDA HÁ BILHETES

Faltam seis dias para a sessão das "Quintas de leitura" com o poeta MIGUEL-MANSO.
Divulgamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão.

O TEMPO CIRCULAR

há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"

ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique

sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade

- esse outro

o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo

e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura

como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também

aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à

allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)

tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia

uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri

quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo

de garrafa

a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida

(poema de Miguel-Manso)

02/07/09

Anamnesis 2008 b-fachada live Algoso1

B FACHADA estará cá para a semana. Imperdível

MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

BRAÇO DE PRATA

a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses

o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira

o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia faz filhas

depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele

dentro do intrincado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite

procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome

se me lembrasse ficaria bem neste verso

fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário - a água - deu mais um gole
na cerveja fez as contas

ao difícil enigma do amor

(poema de Miguel-Manso)

01/07/09

A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.

NO NÚMERO DE OUTUBRO DA REVISTA WIRE

frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins

(poema de Miguel-Manso)