03/07/09

AINDA HÁ BILHETES

Faltam seis dias para a sessão das "Quintas de leitura" com o poeta MIGUEL-MANSO.
Divulgamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão.

O TEMPO CIRCULAR

há uma fotografia de ruy belo
e há também aquela praia muito ténue de "não há morte
nem princípio"

ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de moçambique

sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros - a mocidade

- esse outro

o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo

e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão vindoura

como se não existissem
não existíssemos mas que fosse minha
também

aquela praia onde ruy belo
ainda não usava barba e cabelos à ruy belo
à

allen ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)

tudo gente que habitou longamente
em algum momento uma praia

uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também quando eu morri

quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo

de garrafa

a minha imagem
à beira de um verão segurando
desde o peito a vida

(poema de Miguel-Manso)

02/07/09

Anamnesis 2008 b-fachada live Algoso1

B FACHADA estará cá para a semana. Imperdível

MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NAS "QUINTAS DE LEITURA"

BRAÇO DE PRATA

a barba cresceu entre Lisboa
Bruxelas e a sala Visconti imagino
que a não tenha cortado durante todo o tempo
de vida de uma filha que perfazia então
a diminuta idade de três meses

o poeta já não quer escrever tem os pés
dentro de um rio interior recostado na inclinação
arenosa da margem olha o outro flanco
onde um motor de rega arruína
o silêncio dos salgueiros
o inesperado salto das percas
a tarde inteira

o poeta já não quer escrever usa o microfone
olha a plateia faz filhas

depois encostou-se ao balcão da sala Deleuze
pediu a cerveja vítrea fria orvalhada da sala Deleuze
foi quando dentro dele

dentro do intrincado rizoma de dentro dele
se elegeu em silêncio a mulher daquela noite

procurou-a com o olhar entre as mesas
viu-a sentada na mais chegada ao piano
falando de uma fotografia nocturna que tirou no
cemitério de uma cidade inglesa cujo nome

se me lembrasse ficaria bem neste verso

fechou os olhos viu a prateada superfície do mar
entrou no seu elemento primário - a água - deu mais um gole
na cerveja fez as contas

ao difícil enigma do amor

(poema de Miguel-Manso)

01/07/09

A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.

NO NÚMERO DE OUTUBRO DA REVISTA WIRE

frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins

(poema de Miguel-Manso)

30/06/09

MAIS POESIA DE MIGUEL-MANSO

Botânica

Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas

apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa

e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico

apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas

entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros

«É favor não pisar a relva»

(MIGUEL-MANSO)

29/06/09

ANTES DE FÉRIAS


MADRIGAL

gosto quando pões a quinta porque me tocas na perna com o nó dos dedos


Poeta Miguel-Manso e músico B Fachada

As "Quintas de Leitura" estão quase de férias, não sem antes apresentar Miguel-Manso, o Poeta que veio agitar as águas mornas da poesia portuguesa.

A sessão, intitulada "Quando escreve descalça-se", realiza-se no auditório do TCA, no próximo dia 9 de Julho, às 22h00.

Sobre o poeta convidado o crítico literário José Mário Silva escreveu que Miguel-Manso faz dos versos "delicados actos de guerrilha" e da poesia "uma causa revolucionária".

Resta acrescentar que Miguel-Manso publicou em poucos meses dois livros muito aclamados pela crítica - "Contra a manhã burra" e "Quando escreve descalça-se"-, que lhe deram o estatuto de grande revelação da poesia portuguesa.

Na sessão, o Poeta conversará com Helena Vieira, responsável pela editora "Mariposa Azual".

As leituras, nas quais Miguel-Manso também participará, estarão a cargo de Pedro Lamares, Isaque Ferreira e do também poeta Nuno Moura. Serão lidos 20 poemas, escolhidos por Miguel-Manso para o espectáculo.

A imagem, manipulada em tempo real, será da responsabilidade do realizador Tiago Pereira.

Mas não se ficam por aqui os convidados da sessão. Elisabete Magalhães (dança) e Filipa Francisco e Bruno Cochat (performance "Nu Meio", que ironiza a relação de um casal tipicamente português)) assinarão momentos mágicos da sessão.

Refira-se, por fim, B Fachada, o músico convidado que se estreia nas "Quintas de Leitura".

Sobre este músico, escreve Samuel Úria:

"Princesa pop, palhaço pirómano, petrarquista pirata, perfeccionista patibe, porfiado e prolixo poeta - tudo adjectivos começados por "b". Literato até quando cospe, o cascalense Fachada faz canções para todos os desgostos, humor ponta-e-mola para todos os buchos".

B Fachada apresentará ao piano, à guitarra e à viola braguesa, canções do seu último disco "Um Fim-de-semana no Pónei Dourado". Nós cá estaremos para ouvir e incendiar o auditório.

Bilhetes sempre a pensar na crise: 9,00 Euros e 6,00 Euros.

(Fotografia em cima: B Fachada por Vera Marmelo)

AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO


ALDEIA DO CADAFAZ

de ano para ano o primo Albertino tem menos dentes
e neste Agosto não haverá baile nem matraquilhos
sentei-me no coreto da Junta olhei as casas da aldeia
enquanto que atrás de mim o Ivo e os outros miúdos
alheios e ainda bem a contemplações menores
me atiram sábias merecidas pedras que só por
azar e algum desprazer me não acertam

X-X

ALDEIA DE CASTELO RODRIGO

queria recuperar o leão gravado por cima da porta
onde ninguém via mais que uma imperfeição na pedra
vender a casa estava fora de questão o amor pode ruir
mais depressa que algumas honradas edificações
para mim bastaria uma cadeira uma prancha apoiada
em dois cavaletes e tempo para anotar a aproximação dos
insectos a custosa mas precisa promoção do Inverno

X-X

ALDEIA DE CASTELO MENDO

flores de papel azuis cor-de-rosa esfiapadas contra a pedra
um vestígio de festa a que se chega sempre tarde o largo
do pelourinho austero a ponta acesa de um cigarro na ladeira
viemos dar a um belver ervado onde lembro um túmulo e
talvez uma capela num conjunto de gaélica aparência

X-X

ALDEIA DE DRAVE

excluamos a praga sazonal de escuteiros o mau vinho
maggaio comprado num lugar vizinho e temos o dom
da noite sentados na erva seca no alqueive dos socalcos
num silêncio medieval duro ingente que nos cai no vale
dos olhos abertos à progressiva combustão dos astros

(poemas de Miguel-Manso)

Fotografia de Miguel-Manso por Filipe Bonito.

26/06/09

Michael Jackson Beat It

sem palavras

AS ALDEIAS DE MIGUEL-MANSO

ALDEIA REFLECTIDA

são joão da ribeira
- queria pôr aqui este nome -
mãos que trazem a fruta ao fim da tarde
clero adro cal entusiasmo distrital

escolhe tu o país a mesa de café
contra este absurdo cósmico
eu pago um copo

lembrar-me-ei hoje de um verso pequeno?

x - x

ALDEIA DA AZINHAGA

adro campanário desolação librina
no paul da manhã dormem gatos líquen
nenhum dos velhos se alevanta da entrada da
taberna em direcção à sua Lanzarote

x - x

ALDEIA DA PALHOTA

o nomadismo é uma sucessão de sedentarismos
até se chegar ao cão voltando à margem à mulher
que dorme negra na luz de uma árvore de abismos
vê o que vai sobrando das artes dos barcos da noite
"Avieiros" 1942 e o mais grave é que nem com a escrita
ou o cinema se pode voltar ao que já está perdido

x - x

ALDEIA DO PATACÃO

podia falar dos tomatais do areal e do rio largos do renque
decrépito das casas em palafitas mas o que me ocorre mostrar
é a fotografia amarelada de dois amantes junto à morte


(Poemas de Miguel-Manso)

25/06/09

A POESIA DE MIGUEL-MANSO. DIA 9 DE JULHO NO TCA.

POEMA

à memória de Jean Nicot que trouxe
tabaco para França no século dezasseis

só para eu amenizar a espera
no Le Carillon à esquina da Rue Bichat
com a Alibert

onde Véronique não entrará este século

X-X

QUATRO CIGARROS NO CAFÉ DES ANGES

de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo

o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho

junto à janela


(poemas de Miguel-Manso)

23/06/09

QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE

Miguel-Manso é o poeta convidado da próxima sessão das "Quintas de Leitura". Iniciamos hoje a divulgação de alguns poemas que serão lidos no espectáculo de 9 de Julho.

CAFÉ CASTRO

com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira - são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste

permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café

mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos

evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham

mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo

espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo - haverá outro sítio? -
para o poema seguinte

Miguel-Manso

20/06/09

Quando escreve descalça-se

A próxima sessão de Quintas de Leitura - a 9 de Julho - apresenta em estreia a palavra poética de Miguel-Manso. Para saber tudo clicando na imagem. Bilhetes já à venda. Depois não digam que não avisamos.

19/06/09

A noite mais longa


















FAZES-ME FALTA - POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA
Fotografias de Sara Moutinho numa noite mágica de Quintas de Leitura, apresentadas pela Caixa Geral de Despojos, sob o lema do Amor.

Por ordem:
VICTOR HUGO PONTES
ELISABETE MAGALHÃES

RAÚL PEIXOTO DA COSTA
INÊS PEDROSA

PEDRO LAMARES
FILIPA LEAL

RUTE PIMENTA
ISAQUE FERREIRA

CATARINA NUNES DE ALMEIDA

ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

ALDINA DUARTE


DN Artes

DN artes online explica:


valter hugo mãe: o escritor também canta no Governo
Diário de Notícias
No ano passado, a convite do
Teatro do Campo Alegre, fizeram uma primeira apresentação do projecto e, agora, prepararam o lançamento do primeiro EP, ...

Pois é ... foi assim...

(leiam no link)

18/06/09

JN de hoje

Notícia do Jornal de Notícias de hoje.

Destak e Jornal de Notícias


Notícias publicadas ontem, dia 17, no Jornal de Notícias e no Destak.
Para ler clicar sobre as imagens.

HOJE HÁ SESSÃO DAS "QUINTAS" NO TCA. CASA CHEIA.

Os heróis da noite:

INÊS PEDROSA
ALDINA DUARTE
FILIPA LEAL
ISAQUE FERREIRA
PEDRO LAMARES
CATARINA NUNES DE ALMEIDA
RUTE PIMENTA
VICTOR HUGO PONTES
ELISABETE MAGALHÃES
ANTÓNIO JORGE GONÇALVES
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
MAFALDA CAPELA

VENHA VÊ-LOS BRILHAR NA RUA DAS ESTRELAS...

16/06/09

valter hugo mãe - a voz do novo governo

Mesmo aqui no post abaixo: estreia em jeito de video-clip do poeta, artista plástico e agora cantor valter hugo mãe. valter já mostrou este seu lado, ao vivo, nos palcos das Quintas de Leitura.
Saiba mais deste governo clicando aqui.