18/04/09
RODA
Trabalha desde os doze e está com sessenta
e sete. Já foi trolha, motorista, sapateiro.
Na verdade, só tem medo das alturas.
Certo dia preparou a cabeça para poder
andar à roda. E partiu para o Luxemburgo.
«Há terras que a gente nem imagina que existem.»
Regressava quase sempre pela festa de S. Lázaro,
o presente e o passado a uma estrada de distância.
Com os anos percebeu uma coisa curiosa:
«os rapazes que ficaram queriam ter a minha vida
e eu queria ter a vida dos rapazes que ficaram».
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
17/04/09
Para os OCS

Fotografia de Mazgani : Rita Carmo
Vítor Nogueira e Mazgani
“Bagagem de mão”
Depois de Filipa Leal, as “Quintas de Leitura” recebem outro nome incontornável da chamada “novíssima poesia portuguesa”. Referimo-nos ao poeta Vítor Nogueira que encabeça a sessão intitulada “Bagagem de mão” e que se realiza no próximo dia 23 de Abril, às 22h00, no Auditório do TCA, no Porto.
O poeta convidado conversará com o jornalista, crítico literário e (também) poeta José Mário Silva.
As leituras, a cargo de Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e Susana Menezes, incidirão sobre os três mais recentes livros de poemas de Vítor Nogueira: “Senhor Gouveia” (2006), “Bagagem de Mão” (2007) e “Comércio Tradicional” (2008). A imagem da sessão foi concebida pelo artista digital Paulo Araújo que, assim, se estreia nas “Quintas de Leitura”.
De Berlim, chega a bailarina de sapateado Cristina Delius que nos surpreenderá e encantará com a sua performance. Será acompanhada pelos músicos Michel (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão). Momento que não mais esquecerá.
Por fim, trinta minutos de pura magia: regresso às “Quintas” da voz inconfundível de Mazgani, num concerto a solo, onde percorrerá todos os êxitos do álbum “Song of the new heart”. Lembremos que Shahryar Mazgani foi considerado pela prestigiada revista francesa “Les Inrockuptibles” como um dos artistas mais promissores da Europa.
“Quintas de Leitura”: noites com sangue na guelra. Junte-se a nós.
Espectáculo para maiores de 12 anos. Bilhetes a 9 euros (normal) e 6 euros (com desconto).
“Poucas vezes, na mais recente poesia portuguesa, se conseguiu tão sabiamente aliar ironia, contenção e um sóbrio desencanto”. (Manuel de Freitas sobre Bagagem de Mão de Vítor Nogueira, in jornal Expresso)
“Podemos admirar nesta poesia o modo como penetra o mundo dos objectos e acede ao que mais resistência oferece à palavra poética: o quotidiano, o mistério que o habita”. (António Guerreiro sobre Comércio Tradicional de Vítor Nogueira, in jornal Expresso)
16/04/09
A informação na LUSA
Na sessão, que leva o título do livro de 2007 de Vítor Nogueira, "Bagagem de mão", o poeta vai conversar com o jornalista, crítico literário e (também) poeta José Mário Silva.
As leituras, que estão a cargo de Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e Susana Menezes, vão incidir sobre os três mais recentes livros de poemas de Vítor Nogueira: "Senhor Gouveia" (2006), "Bagagem de Mão" (2007) e "Comércio Tradicional" (2008).
"Poucas vezes, na mais recente poesia portuguesa, se conseguiu tão sabiamente aliar ironia, contenção e um sóbrio desencanto", escreveu Manuel de Freitas, no jornal Expresso, sobre "Bagagem de Mão" de Vítor Nogueira.
A imagem da sessão foi concebida pelo artista digital Paulo Araújo que se estreia nas "Quintas de Leitura".
"Podemos admirar nesta poesia o modo como penetra o mundo dos objectos e acede ao que mais resistência oferece à palavra poética: o quotidiano, o mistério que o habita", escreveu António Guerreiro, no mesmo semanário, referindo-se a "Comércio Tradicional", também de Vítor Nogueira.
De Berlim, vem para participar nesta sessão a bailarina de sapateado Cristina Delius, para uma performance em que será acompanhada pelos músicos Michel (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão).
A sessão completa-se com o regresso às "Quintas" da voz de Mazgani, num concerto a solo, onde vai percorre todos os êxitos do álbum "Song of the new heart".
Shahryar Mazgani é um luso-iraniano, radicado desde os cinco anos em Portugal, cujo disco de estreia, "Song of the New Heart", o levou a ser considerado pela prestigiada revista francesa "Les Inrockuptibles" como um dos 20 músicos mais promissores da Europa.
O espectáculo, que começa às 22:00, tem bilhetes à venda entre os seis e os nove euros.
PF.
Lusa/Fim
15/04/09
TAREFA
um conjunto aleatório de interesses pessoais.
Há quem desça aos infernos pelos sítios
mais seguros. Estamos aqui a criar laços,
a aprender a resistir às intempéries.
E mesmo assim toda esta gente acordou
um dia mais perto da morte. Estes detonadores
não são de confiança. Fazem explodir as coisas
antes de darmos por isso. Quer dizer, até que ponto
conhecíamos o rapaz que tomou a overdose?
Bem sei: a nossa tarefa é tornar a vida suportável.
Esqueço tudo o resto excepto aquilo que sou
neste momento. É preciso ir pôr moedas no parquímetro.
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
14/04/09
CRUZES
para morrer. Mas quem pode adivinhá-lo,
de tão novo? O engraxador do largo
passa em direcção ao Excelsior.
É sexta-feira, dia de cruzes
no totobola. O café dos anos vinte
morrerá um pouco antes.
A Drogaria da Praça, quartel-general
aos sábados, morrerá pouco depois.
Mas ninguém o sabe ainda,
nesta manhã de Setembro. Só por isso
vale a pena arriscar um pouco a sorte,
preencher devagar o boletim.
Diz-se que há sempre uma hipótese.
É assim que o sistema funciona. Mas
para onde foge o tempo?
Para onde vai tanta força?
Restos de grandes fogueiras.
É para isso que as pessoas vivem.
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
13/04/09
09/04/09
MARIA TERESA HORTA
SEGREDO
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
*
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(poemas de Maria Teresa Horta)
CAROS CIDADÃOS
ao lugar dos amigos anónimos, sozinhos
em ruas apinhadas de gente. Fazemos
todos parte da mesma estatística.
Há bairros inteiros que se esvaziam
na hora de a solidão sair à rua,
escudos humanos estabelecendo uma aliança
condigna, sem depender de ninguém.
Caros cidadãos, o tempo escasseia
e os erros são comuns hoje em dia.
Convencido da nossa inocência, custa-me a crer
que todo o mal que fizemos já tenha sido feito.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
08/04/09
ESTE É O POEMA DA FOLHA DE SALA
Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.
Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.
Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
07/04/09
FEIRA DA LADRA
em qualquer feira. Há muita gente
que passa a vida a não escutar
os outros, a razão deve ser essa.
Contudo, uma pessoa não pode
viver só, rodeada de fantasmas.
Talvez por isso volta e meia
dê comigo neste sítio,
onde por vezes chego a pensar
que a minha vida não é feita
de outra coisa: curiosidades,
folhas soltas, postais ilustrados,
livros, pequenos agasalhos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
SOCORROS MÚTUOS
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.
Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.
De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.
Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
06/04/09
"Quintas de Leitura": noites com sangue na guelra
Um elenco insuperável:
Vítor Nogueira - poeta convidado
José Mário Silva - apresentação
Maria do Céu Ribeiro, Susana Menezes, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - recitadores
Paulo Araújo - imagem
Cristina Delius (bailarina de sapateado), Michel Roubaix (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão) - performance
Shahryar Mazgani - concerto acústico
Quer mais argumentos para não ficar em casa? Seja feliz - junte-se às "Quintas".
ÀS VEZES AS CIDADES SÃO ASSIM
Uma hospitalidade sem limites?
Por essa altura, apesar de atormentados
pela névoa, descobríamos missões
na caixa do correio. Talvez por hábito,
procurávamos uma rua cheia
e contudo inacabada: vidas
que por instantes corriam paralelas,
coisas em que só tínhamos de pensar
por pouco tempo.
Com isto, ao fim da noite perdíamos
a noção dos factos - era esse o punhal
que Lisboa costumava espetar
nas nossas costas. Às vezes as cidades
são assim, abrem buracos em tudo.
Gosto de pensar que Lisboa
nunca nos faria tal coisa
se achasse que não aguentávamos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão" / &etc)
03/04/09
BAGAGEM DE MÃO. A POESIA DE VÍTOR NOGUEIRA.
É um sonho como outro qualquer:
Estamos a ler o jornal, Lisboa
bate à porta das traseiras.
O trajecto de fuga parece ser de confiança.
Por mera precaução,
levamos as palavras connosco.
Peças perdidas do puzzle,
tratamos dos mais pequenos pormenores
e caímos quase sempre em emboscadas.
Enfim, os forasteiros nunca têm razão.
Mas de que adianta resistir,
se em parte já perdemos o que somos?
*
TESEU SEM MINOTAURO
para o Manuel de Freitas
Como em qualquer labirinto, estas esquinas
apenas garantem que não há certezas
na direcção do futuro. Lisboa
nunca foi como em tempos a sonhei.
E contudo venho aqui em peregrinação
habitual, sem tão-pouco saber que lhe pedir.
Indecisões da fé e da sua alavanca diminuta,
à qual desmesuradamente chamamos coração.
*
INTERMITÊNCIAS
para o Rui Pires Cabral
Sou talvez aquele a quem não doeu tanto
a mesma terra. Perguntas se admitiria trocá-la por
Lisboa, a cidade onde as montanhas se não vêem.
Mas que diferença faz? Bem o sabemos,
ninguém se entrega a uma cidade em absoluto.
Um e outro, cá e lá, estamos apenas de passagem.
A auto-estrada é um sorriso cem à hora
que segura pelas pontas amizades como a nossa.
Vai-te embora, se assim tiver de ser, mas continua
a enviar-me os teus poemas por e-mail.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/ &etc.)


