26/03/09

















Notícias da imprensa de hoje (a última é do Jornal de Notícias).
Para ler clicar sobre as imagens.


HAVEMOS DE IR A VIANA

A viagem começa às 22h00. Aperte o cinto, desate o coração, ofereça-nos a sua veia mais assanhada. Deixe a Palavra invadir-lhe as entranhas.
As próximas duas horas ficam por conta da nossa tripulação espacial:

FILIPA LEAL
LULA PENA
CARLA MIRANDA
GERMANO'NUNES
PAULO CAMPOS DOS REIS
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
JOANA RÊGO
BRUNA CARVALHO
RICARDO VIDAL

Não saia do seu lugar. Chegaremos ou não chegaremos a Viana por volta da meia-noite.

25/03/09

MAIS UM POEMA DE FILIPA LEAL

Este poema não será lido na sessão de amanhã:


Na fágil timidez de aves de papel,
balouçando, morrendo a cada queda,
porque houve asas enrugadas,
e um desespero de salitre e ervas aromáticas.
E rasgámos as palavras,
arquivámos o voo como se crescêssemos,
ou tivesse amanhecido devagar.


(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

24/03/09

FALTAM 2 DIAS. A NÃO PERDER.

Sessão das "Quintas" com a "novíssima" FILIPA LEAL.
Registamos um dos mais belos poemas da sua obra:

NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

Poemas e Poetas

Quintas de Leitura do TCA em parceria com RDP - Antena 1

Dia Mundial da Poesia

Para ouvir um compacto clicando aqui.

23/03/09

É JÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA A SESSÃO COM A POETA FILIPA LEAL

Vénus de Milo

Rendi-me
quando a falta de tempo
lambeu o meu suor
numa insónia eterna

Desisti da linguagem
quando mergulhei
no amplo sufoco das palavras
com os minutos contados

Cortei ambos os braços
quando não pude esticá-los
para vos abraçar

*

Quero coleccionar os teus passos,
os teus gestos, os teus traços...
Guardá-los em páginas de seda...
Suaves, como tu...
E oferecer-te uma larga medalha,
espelhar o profundo clarão
que rodeia a tua face...
Adorar-te como quem adora um deus,
com a placidez crente dos fiéis...
Acreditar como quem é eterno
e crê e vive a eternidade...
Reconheço a flauta muda
enterrada nas salas que pisaste...
Herdei os cânticos sagrados
e hoje sonho com as tuas mãos
levantadas para agarrar o divino.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/Cadernos do Campo Alegre)

20/03/09

As Quintas de Leitura no DIA MUNDIAL DA POESIA


Celebre com as “Quintas de Leitura” o Dia Mundial da Poesia, no próximo Sábado, 21 de Março, acompanhando as vozes dos nossos poetas na
Antena 1.

PORTO – 96.7
LISBOA – 95.7


Neste dia, pode também adquirir, no Teatro do Campo Alegre, entre as 15h00 e as 22h30, a antologia poética “DIGA TRINTA E TRÊS”, a um preço especial.

Recordamos ainda que pode visitar a exposição “OS RETRATOS DOS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA” que se encontra em exibição no foyer do Teatro do Campo Alegre.

Saudações Poéticas
TCA

ALGUNS POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA


O AMOR

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

(Eugénio de Andrade)

*

A MEU FAVOR

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

(Alexandre O'Neill)

*

POEMA DE AMOR

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo

(Jorge Sousa Braga)

*

POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

(Nuno Júdice)

*

MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(Maria Teresa Horta)

*

ASSIM O AMOR

Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

(Sophia de Mello Breyner)

*

DESINFERNO II

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse4
Que eu de amor apenas ressuscitaria

(Luiza Neto Jorge)

*

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

(Casimiro de Brito)

OS POETAS CONVIDADOS DE 2009

ALGUNS DOS POETAS QUE ESTARÃO CONNOSCO NAS PRÓXIMAS SESSÕES DE 2009:

FILIPA LEAL
VÍTOR NOGUEIRA
NUNO MOURA E PAULO CONDESSA
(colectivo "O COPO")
INÊS PEDROSA
MIGUEL-MANSO
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
NUNO JÚDICE
GONÇALO M. TAVARES
VASCO GATO

JÁ POR CÁ PASSARAM ESTE ANO:

valter hugo mãe
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES

"QUINTAS DE LEITURA": poesia ao canto da noite

19/03/09

Pergunta a revista Visão

Edição de hoje. Para ler clicar sobre a imagem.

AS "QUINTAS" DÃO-NOS (BOA) MÚSICA

Adivinham-se bons concertos no âmbito das sessões das "Quintas de Leitura".

Tome nota:

26 de Março
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
LULA PENA


23 de Abril
MAZGANI

14 e 15 de Maio
SAMUEL ÚRIA
LUCÍA ALDAO
(Galiza)

18 de Junho
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
ALDINA DUARTE


9 de Julho
B FACHADA

Uma programação a pensar em si. Junte-se a nós.

A PUTA DA LÍNGUA

HERBERTO HELDER

a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso

*

espaço que o corpo soma quando se move,
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa

(Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo"/ Assírio & Alvim)

18/03/09

AOS NOSSOS QUERIDOS VISITANTES

Estamos quase a chegar às 40.000 páginas visitadas.
A todos os que alimentam com fulgor e sabedoria este blogue, dedicamos este poema de
Miguel-Manso, um dos nossos próximos convidados:

PROVISÃO DE HÁFIZ

os nomes
os navios
as águas

estão a sentir?

(Miguel-Manso, in "Quando Escreve Descalça-se"/Trama Livraria)

AINDA A POESIA DE FILIPA LEAL

Poema dedicado por Filipa Leal a Jorge Sousa Braga:

HÁ UM GIRASSOL
QUE SÓ SE VIRA DE FRENTE
SE DISSERMOS O SEU NOME.


(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

17/03/09

LULA PENA - Rua do Capelão

DOURO

Não sei se prefiro o rio
ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

De um lado
os barcos ancorados,
do outro lado:
barcos - na imediata memória das âncoras.
Deste lado, o porto, ou o cais,
contracenando com a sua própria inexistência
daquele lado.

Existirá aquele rio nos espelhos?
Poderá este subsistir sem as janelas?

Sou dourada como os peixes que te
desabitaram. E, do outro lado, sou
desabitada.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

16/03/09

OS MÚSICOS DAS "QUINTAS"

A música é uma componente importante do ciclo "Quintas de Leitura".
Lembramos hoje muitos dos músicos que participaram nas nossas sessões e deixaram a sua marca de talento:

Ana Deus
Fernando Rodrigues
Quico Serrano
Miguel Azguime
António Olaio & João Taborda
Ricardo Serrano
Jorge Salgado
João Pedro Coimbra
Khora Emsemble
Margarida Reis
Rogério Pinto
Melissa Fontoura
Pedro Tudela
O Projecto é Grave!
Caetano Veloso
Pedro Abrunhosa
@c
Fátima Santos
Mesa
Pedro Moura, Paulo das Cavernas e João Ricardo
X-Wife
Mário Laginha
Adolfo Luxúria Canibal & António Rafael
Bernardo Sassetti
Luísa Cruz e Jeff Cohen
Alexandre Soares
J.P. Simões
Sílvia Mateus
Álvaro Teixeira Lopes
Plaza
Rui Reininho e Armando Teixeira
Vera Mantero, Vítor Rua e Nuno Rebelo
Old Jerusalem
Henrique Fernandes
João Lima
Mário Teixeira
Aldina Duarte
Lula Pena
Mécanosphère
Paulo Vaz de Carvalho
Domingos António
Dead Combo
Mônica Coteriano & The Take-Away Boys
Tânia Carvalho
The Legendary Tiger Man
Jorge Palma
O'questrada
Bulllet
Paulo Praça e Os Bons Rapazes
Thollem McDonas
Agnes Heginger e Georg Breinschmid
Meme
Eldbjorg Raknes
Amanalupa
Projecto "João Peludo"
Marta Bernardes
Chat
valter hugo mãe
Bruno Pereira
Pedro Pereira
Carlos Bica
João Esteves da Silva
Lucía Aldao
Couple Coffee
Ela não é francesa ele não é espanhol
Mazgani
Tiago Bettencourt
Carlos Maza
Raúl Peixoto da Costa
Slimmy
Ana Free



FALTAM 10 DIAS PARA A SESSÃO COM FILIPA LEAL

Ela é uma das vozes mais importantes da novíssima poesia portuguesa. Vai estar nas "Quintas de Leitura" no próximo dia 26 de Março.

No Princípio Era

Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.

(Filipa Leal, Janeiro de 2007)

13/03/09

HAVEMOS DE IR A VIANA

Uma sessão cheia de estrelas fulgentes.
Com sorte, seremos projectados muito para lá de Viana.
Participações, sem peias, sem rede:

FILIPA LEAL (poeta convidada)
CARLA MIRANDA, GERMANO'NUNES e PAULO CAMPOS DOS REIS (leituras)
BRUNA CARVALHO e RICARDO VIDAL (dança)
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA (violoncelista)
LULA PENA (concerto acústico)
JOANA RÊGO (pintura)

Cento e vinte minutos de pura magia...

OS NOSSOS ENTREVISTADORES

Eles, muitas vezes, "obrigaram" os poetas a falar. São os entrevistadores das "Quintas de Leitura". Aqui ficam os seus nomes, por ordem de entrada em cena:

valter hugo mãe
António M. Feijó
Manuel António Pina
Rui Reininho
Anabela Mota Ribeiro
Jorge Reis-Sá
Eucanaã Ferraz
Pedro Abrunhosa
Pedro Eiras
Fernando Alvim
António Mega ferreira
Manuela Veloso
Rosa Maria Martelo
Fernando Pinto do Amaral
Filipa Leal
Fátima Pombo
Alberto Serra
Gabriela Moita
Luís Miguel Queirós
Adolfo Luxúria Canibal
Fernando Galrito
Isabel Lopes Gomes
Miguel Cadilhe
João Pereira Coutinho
Rui Moreira
Ana Salomé
Maria João Seixas
Inês Pedrosa
Dinis Cayolla
Mariana Rocha
Nuno Artur Silva

12/03/09

ESTE POEMA NÃO VAI SER LIDO NA SESSÃO DE FILIPA LEAL

Confesso. Este é o meu poema preferido de toda a obra de Filipa Leal. Não resisto a divulgá-lo:



Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

11/03/09

O POETA CONVIDADO DE ABRIL

Vítor Nogueira estará nas "Quintas de Leitura" a 23 de Abril.
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão".
Revelamos hoje o poema que encerrará a sessão:

ESPLANADA

Por vezes os danos apanham-nos de surpresa.
Por vezes pensamos que podemos reparar
os danos. Se soubéssemos cantar, era uma ajuda.
Há pessoas a espreitar pela janela, no seu modo
de tornar as casas um pouco mais habitáveis.

Que importantes nos tornámos, de repente.
Discutimos o mundo com base em
pequenas coisas, pequenas queixas
do glorioso mecanismo do corpo humano.
(O corpo, claro, tem as suas exigências.)

Aquiles, por exemplo, tem passado melhor
do calcanhar. Haverá sempre um lugar para ele
à mesa do Olimpo. Bem-vindo à unidade
de cuidados intensivos, onde as cervejas se querem
frescas e a dividir por todos.

(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)

10/03/09

LULA PENA - ROSA

OS LIVROS DE FILIPA LEAL

Para quem quiser conhecer melhor a obra de Filipa Leal:

2003
«Lua-Polaroid», Corpos Editora
2004
«Talvez os Lírios Compreendam», Cadernos do Campo Alegre
2006
«A Cidade Líquida e Outras Texturas», Deriva Editores
2008
«O problema de Ser Norte», Deriva Editores
2009
«A Inexistência de Eva», Deriva Editores

FAZ BEM À ALMA LER HERBERTO HELDER PELA MANHÃ.

*
quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua
que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo,
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado

(HERBERTO HELDER, in "A faca não corta o fogo"/ Assírio & Alvim)

09/03/09

UM POEMA INÉDITO DE FILIPA LEAL

Este poema, dedicado a Adilia Lopes, foi escrito por Filipa Leal no dia 23 de Outubro de 2008. É o poema da folha de sala da sessão "Havemos de ir a Viana". Será lido por germanO´nunes.

APOCALYPSE NOW

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

(Filipa Leal)



lula pena, caramba, vá lá. estás a deixar-nos mesmo à espera. não é justo. mete na tua cabeça: o mundo precisa de mais discos teus. precisa, caramba, precisa.
valter hugo mãe (mensagem publicada no Myspace de Lula Pena em 17 Nov 2008, às 23:45 )
As Quintas de Leitura estão felizes. Para a semana a Lula está cá.

UMA CURIOSIDADE

(fotografia de Guilhermina Suggia - George Eastman House Still Photograph - Archive. Aqui.)




Na próxima sessão das "Quintas de Leitura" (dia 26 de Março), o violoncelista José Pereira de Sousa vai tocar com o Montagnana que pertenceu a Guilhermina Suggia (1885-1950).


O Montagnana (que tem inscrita uma data que pode ser lida como 1700 ou 1710) é um violoncelo construído pelo italiano Domenico Montagnana (1686-1750).
O instrumento foi avaliado em três milhões de euros e é propriedade da Câmara Municipal do Porto. José Pereira de Sousa, primeiro-violoncelo da ONP, é o actual depositário do instrumento, na sequência de um acordo estabelecido com a Câmara do Porto. Desde há dois anos, o Montagnana é utilizado com regularidade por Pereira de Sousa,
que cuida da sua manutenção e o mantém em actividade.


"Tocar nele é não só dá-lo a ouvir mas também mostrá-lo às pessoas, que assim usufruem deste património único", revelou o músico ao jornal "Público".


Na sessão, José Pereira de Sousa interpretará a Suite nº 1 de Bach.

06/03/09

ALGUÉM ME REPETIA

A voz é grave e rouca.
Na mesa ao lado, chora uma criança que não conhece a memória.
Há uma voz quente que um dia me falou ao ouvido.
Dizia-me.
Tentava explicar-me os ventos, as marés,
o terno refúgio dos dias que estão longe.
Eu julgo que dormia aninhada, com os olhos brilhantes e o coração atento.
Talvez tenha sentido uma mão leve a percorrer-me as costas. Talvez devagar.
Fazia movimentos circulares. Talvez tentasse mostrar-me o caminho.
Dizia-me.
Eu não compreendi porque vivia como se recordasse já.
Não há tempo para o presente quando se está fechado na memória.
Disse.
Não vivia do passado. Não era isso que tentava dizer: Havia em mim a certeza
da recordação futura - como a espiral de onde não se sai.
A voz começou a delirar em círculos. Ofendidos talvez, os círculos.
Eu estava no centro desse som que baixava como se a qualquer momento
pudesse abater-se sobre mim. Sem me sufocar talvez.
Dizia. Dizia.
A linguagem tornava-se cada vez mais estranha e imprópria.
Como nos sonhos em que se procura gritar
talvez agitasse os braços levemente.
Mas nenhuma voz nos cabe nas mãos, nem nas palavras.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Alguém repetia.
Mas a voz era cada vez mais líquida e talvez não coubesse no poema.
As mãos arrastavam o corpo para o lugar onde a minha solidão
talvez recordasse a voz. Dizia-me. Para que mais rápido se interrompesse
o dia, para que mais rápido se recordasse
a vida. Eu ia rolando sobre a cama como uma criança em direcção ao abismo.
As mãos voltavam a trazer-me para o centro do círculo.
No silêncio, perderia a consciência. São sempre as vozes que nos trazem
de volta. Talvez.
Era o dia em que me encostei à parede para olhar o círculo, a voz, as mãos.
Como se observasse aquela solidão.
E não houve nada que me pudesse dizer: Talvez.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

05/03/09

SE AO MENOS A CHUVA

Andava às voltas
no topo de si mesmo
e do monte.
Trepara a encosta
como em pequeno
trepava às árvores:
para ver melhor.

Vivia tão longe da água
que tinha a boca seca.

Agora andava às voltas
cheio de sede
a esgotar-se, a suar:

Porque não paras?,
perguntar-lhe-ia, se pudesse
entrar neste poema.

Não havia nada no cimo de si
nem do monte
- apenas o azul e algumas aves
que respiram mais alto.

A cidade ficava a meio caminho
entre o céu e a terra
(o céu lá para cima, ainda depois do monte,
a terra cá para baixo, um pouco antes da sede).

Ele andava às voltas com a vida:
atirava-lhe pedras, gritava
(se ao menos a chuva! se ao menos a chuva!)
como quem não encontra.

Só mais tarde entendi o que procurava:
um mar.

( Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

04/03/09

"Havemos de ir a Viana"



Filipa Leal e Lula Pena
de regresso às Quintas de Leitura


"Preferia que o ego baixasse como as taxas de juro." (Filipa Leal)

A próxima sessão do ciclo “Quintas de Leitura”, a realizar no Auditório do Teatro Campo Alegre, às 22h00 do próximo dia 26 de Março, marca o regresso a este ciclo poético de duas vozes importantes da cultura portuguesa.

Filipa Leal, a poeta convidada, regressa dezoito meses depois de um espectáculo dedicado ao seu livro “A Cidade Líquida e Outras Texturas”. Lula Pena estreou-se nas “Quintas de Leitura” em Novembro de 2005, num espectáculo dedicado à obra de António Mega Ferreira.

Desta feita, a sessão que junta não apenas Filipa Leal e Lula Pena, mas uma série de outros convidados, intitula-se "Havemos de ir a Viana" e será momento para Filipa nos revelar alguns textos inéditos, juntamente com outros retirados dos seus livros de poemas "O Problema de Ser Norte" (2008) e “A Cidade Líquida e Outras Texturas" (2006).

Palavra, dança, pintura e música são os ingredientes mágicos desta sessão inesquecível.

Nas leituras, a Poeta será acompanhada por germanO' nunes e pelos actores Paulo Campos dos Reis e Carla Miranda. Presença ainda do violoncelista José Pereira de Sousa que interpretará obras de Bach.

No que toca à imagem do espectáculo, a artista plástica Joana Rêgo mostrará dezoito pinturas inéditas, produzidas de raiz para este evento e inspiradas no universo poético de Filipa Leal.

Lula Pena apresentará um concerto de cerca de trinta minutos. Uma das raras oportunidades de ver esta artista a actuar no Porto.

Por fim, refira-se ainda a actuação de Bruna Carvalho e Ricardo Vidal em "Movimentos diferentes, para pessoas diferentes", pequenos solos de dança coreografados por Tânia Carvalho.

As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às "novíssimas" vozes da poesia portuguesa. Estão já agendadas sessões com os poetas Filipa Leal, Vítor Nogueira, Miguel-Manso e Vasco Gato, alguns dos nomes mais importantes da nova geração de poetas.

Uma noite plena de Poesia, que o obriga a juntar-se a nós.

OS QUE NÃO VIAM

Na cidade, os que não viam
perguntavam: "Estás aí?"
mesmo quando não falavam
ao telefone.

E tudo era pausa
sem a nítida respiração
das coisas.
Tudo era ainda
à espera da voz, do som
natural ou improvável.
Tudo era antes de ser.

Havia também os que viam.
Mas esses, tragicamente,
perguntavam menos.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

03/03/09

REPARTIÇÃO

As pessoas perdiam-se
às vezes no branco
às vezes no traço imperfeito.
Algumas cortavam-se na margem,
rasgavam os dias;
outras queimavam arquivos
com saudades de casa,
cheiravam a mofo.

Garanto-lhe: havia centros
da cidade só para recolher
esses restos de caule.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

NO FUNDO DOS RELÓGIOS

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

02/03/09

Raul volta e vence


Notícia publicada no jornal Diário do Minho, dia 28 de Fevereiro de 2008.
(para ler clciar sobre a imagem)
Raúl Peixoto da Costa, que se estreou nas Quintas de Leitura em Dezembro de 2008,
regressará às nossas sessões em Junho neste espectáculo:
FAZES-ME FALTA
Quintas de Leitura
18 de Junho de 2009
Auditório
Maiores de 16 anos
Uma "Quinta de Leitura" construída sob o signo do Amor.
Um recital de poesia com todas as letras, concebido por João Gesta e Mafalda Capela.
Belos e inesperados poemas de amor escolhidos pela escritora Inês Pedrosa.
A fadista Aldina Duarte junta-se à festa. António Jorge Gonçalves (imagem da sessão)
e Victor Hugo Pontes (performance) dão mais força à Liberdade.
Presença ainda do jovem pianista Raúl Peixoto da Costa, recentemente premiado em Paris.

A NOSSA ALDEIA

Era uma aldeia sem luz
directa. Uma aldeia de paredes
amarelas cujos habitantes reagiam
à sombra das palavras e as mediam
(de que tamanho o verbo?),
lavavam, preparavam para os outros.
Era uma aldeia onde se decidia a palavra
do dia seguinte, a ideia do dia seguinte,
a vida e a morte do dia seguinte.
Era uma aldeia com um plano:
o plano era simples: o plano era concreto:
o plano era difícil como a luz.
Era uma aldeia interdita na possibilidade
do sol mas tão plena de esforço na linguagem.
Era uma aldeia cujos habitantes só poderiam
comprar uma aldeia com janelas, uma aldeia
cor de mundo, se os outros habitantes,
os que estavam lá fora, lessem realmente
as palavras que eles para eles preparavam.
Era, apesar de tudo, uma velha aldeia
sem ressentimentos.

Porque a nossa aldeia era única.
Era a única aldeia no centro
da cidade.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte" / Deriva Editores)

27/02/09

Já por cá passaram os melhores pianistas do planeta. Faltava o GATO BENEVIDES. Assunto resolvido: ele estará nas "Quintas" em Agosto, abrilhantando a sessão dedicada à obra de Joaquim Carapau, uma das vozes mais líquidas da poesia portuguesa contemporânea.


Bilhetes à venda no bar da praia dos Alteirinhos, Zambujeira do Mar.

João Gesta.

HÁ UM LAGO NA INFÂNCIA

Há sempre uma casa antiga na infância
lá para cima
um passo de desarmonia
um vestígio de escadas retiradas
na primeira oportunidade
um lago, há também um lago
na infância sem barco que o possa
atravessar e uma pedreira branca
ambos sem utilidade
e algumas crianças
que pintam a vaga pocilga de pedra
e riem e apanham rãs em vez de fruta
e apanham uvas, também apanham uvas
de outra nacionalidade
e antes de se escrever durante a noite
contra o sono
havia um caminho de terra
incerto apenas nas suas pedras
na útil ambiguidade do solo

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

26/02/09

MAIS POESIA DE FILIPA LEAL

LINHA FONÉTICA

Era uma linha fonética no vidro.
Linha como árvore obsessiva deste livro,
como linha verdadeira, como página
que se organiza por causa dela.
Linha que não era de comboio, linha sem agulhas
penduradas, sem linha da mão, sem linha
de gente do outro lado da linha, de gente
que quer manter a linha. Linha fria de transparência,
fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema.
Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó
da noite nos outros. Assim era a minha linha:
linha realmente fonética, absolutamente inalterável.


AFINAL, A MEMÓRIA

Afinal eram iguais os homens
as mulheres
vistos de cima
quando abanavam ligeiramente a cabeça
para a frente e para trás
ao mesmo tempo,
ou se inclinavam nas horas da infância, da minha infância,
ou quando mexiam no cabelo uns dos outros
para eu adormecer.
Afinal a memória era um lugar parecido
com a memória, e o sonho era um lugar parecido
com a memória, e nós talvez fôssemos todos, na verdade,
parecidos
uns com os outros.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

MISSA

Crónica de Cesaltina Pinto publicada hoje na revista VISÃO
a respeita do ciclo Quintas de Leitura.
PARA LER CLICAR SOBRE A IMAGEM

25/02/09

A POESIA DE FILIPA LEAL

TEVE NESSA TARDE UMA CRIANÇA

Teve nessa tarde uma criança
desconhecida a segurar-lhe na mão.
Uma criança agarrada com força, uma criança
que apanhou em flagrante a sua mão vazia
e a ocupou como território de criança.
O dia começara assim: primeiro o rio, depois o verde
no terreno da família, agora o mar.
Foi na terceira tentativa que encontrou a criança,
criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo
o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia
rimado: criança rima com esperança, criança rima.
E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis,
tão sem a criança anterior. Foi na terceira caminhada,
quando a incerteza parecia cada vez maior, quando
o pensamento não acompanhava o passo decidido
junto à marginal, quando o pai da criança lhe falou
no perigo de dar a mão a estranhos, sem entender que
o verdadeiro perigo
era a mão outra vez vazia de criança.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

Comentário


O programador João Gesta recebeu por email este comentário a respeito da última sessão de Quintas de Leitura - O Acervo da Quietude - espectáculo dedicado a Daniel Mia-Pinto Rodrigues, no passado dia 19 de Fevereiro. Obrigada. São estas palavras que nos movem.

Caro Senhor:

Venho por este e-mail dar-lhe os parabéns, extensíveis a toda a equipa, por mais uma sessão das "Quintas de Leitura".

Tendo assistido já a várias sessões, continuo a achar que a mais valia destas duas horas, em que nos desligamos do que se passa lá fora e entramos numa realidade pararela levitando sobre os poemas e notas de música, é o cruzamento entre a literatura, a música, as artes plásticas e as próprias performances.

Como leitor, escrevinhador e apreciador de poesia apenas posso desejar continuação de bom trabalho.

Com os melhores cumprimentos,

Tiago Montenegro

23/02/09

FILIPA LEAL NAS "QUINTAS DE LEITURA"

Iniciamos hoje a publicação de alguns poemas de Filipa Leal que serão lidos na sessão "Havemos de ir a Viana", dedicada à sua obra.

O PESO DOS LIVROS

Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.

Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.

E um hálito branco a querer ser página.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

DEPRESSA


Para ler clicar sobre a imagem.

A quietude


Isaque Ferreira na performance - «Cortar a fogo»

O pianista Álvaro Teixeira Lopes


Álvaro Teixeira Lopes e o poeta da noite Daniel Maia-Pinto Rodrigues



Adriana Faria


Adriana Faria


Rute Pimenta


Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Daniela Dias


Ana Free

Blake Brandes e Ana Free



Ana Free

Fotografias captadas na última sessão de Quintas de Leitura, na noite de 19 de Fevereiro, por Sara Moutinho.

20/02/09

A nossa cidade




Hoje na edição de Março da revista Rotas & Destinos, por Miguel Somsen, o que pensam João Gesta, programador da Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre e valter hugo mãe, um dos nossos escritores de estimação, sobre «O Porto da Noite para o dia».


São 16 páginas para descobrir tudo o que viu, ouviu e experimentou um Lisboeta em visita à nossa cidade.

19/02/09

PARABÉNS Raúl Peixoto da Costa


Raúl Peixoto da Costa, o jovem pianista que participou na sessão de Quintas de Leitura de Dezembro passado ( sessão de lançamento da antologia Diga 33 - os poetas das Quintas de Leitura), acaba de vencer o primeiro prémio do concurso Alexander Scriabin, no conservatório russo em Paris.

Entre candidatos de todo o mundo, Raúl foi classificado em primeiro lugar e é o único entre os premiados que não é de nacionalidade russa.

Os prémios ainda não foram anunciados porque este concurso (9th INTERNATIONAL PIANO COMPETITION - February 16-19, 2009, Paris) termina hoje.

Na nossa sessão, em 18 de Dezembro, o jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretou ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev, no grande auditório do TCA, deixando mais de 300 pessoas encantadas com a sua actuação.

Parabéns Raúl.

Fotografia de Sara Moutinho captada durante a actuação de Raúl nas Quintas de Leitura.

Conheça o conservatório clicando aqui.





Jornal Público - Edição de hoje.




Jornal gratuito DESTAK - edição de hoje.

O ACERVO DA QUIETUDE. HOJE, NUM TEATRO PERTO DO SEU CORAÇÃO

OS HERÓIS DESTA NOITE:

DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
ANA FREE
ÁLVARO TEIXEIRA LOPES
ISAQUE FERREIRA
MAFALDA CAPELA
ADRIANA FARIA
DANIELA DIAS
RUTE PIMENTA

«Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.»

18/02/09

do Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Poesia reunida.
Da Quasi Edições para comprar a aqui.

"OS NOVÍSSIMOS" NAS "QUINTAS DE LEITURA"




As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às vozes da "novíssima poesia portuguesa". Estão agendadas sessões com quatro importantes poetas desta geração: Filipa Leal, Miguel-Manso, Vasco Gato e Vítor Nogueira.






Publicamos hoje mais dois poemas de Vítor Nogueira, retirados do seu livro "Bagagem de mão" (editora &etc):

É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS

É aqui que passamos os dias, encarcerados
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.

Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.

Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.

À NOSSA

Três pessoas encostadas ao balcão,
tentando enviar uma mensagem de
socorro. Todos queremos estar aqui,
para quando formos salvos.

Do outro lado, há um tipo que se instala
numa mesa, espalhando amendoins,
descobrindo a sua vocação.
Um homem deve ter talento nos dedos,
saber fazer alguma coisa.

E, nisto, melhoramos a nossa visão
nocturna, mijamos na mesma latrina,
fazemos com que este lugar funcione.

Juntem-se mais, para cabermos todos
na fotografia.


Jornal de Notícias edição de hoje.

17/02/09

Vítor Nogueira nas "Quintas" a 23 de Abril.

Outro grande poeta que marcará presença nas "Quintas de Leitura".
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão" e este poema abrirá a sessão:

A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE

O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua

Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.

(Vítor Nogueira, in "O Senhor Gouveia"/ Averno )

16/02/09

MIGUEL-MANSO NO TCA A 9 DE JULHO. TOME NOTA NA SUA AGENDA:

O PREC EM 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: "esta
revolução não dá um passo!"

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

(Miguel-Manso, "Quando Escreve Descalça-se"/ Trama Livraria)

15/02/09

MIGUEL-MANSO. Um poeta a descobrir, já!

As "Quintas de Leitura" receberão no dia 9 de Julho o poeta Miguel-Manso numa sessão intitulada "Quando Escreve Descalça-se".
Em estreia absoluta neste blogue, alguns poemas deste jovem e genial poeta:

MEDITAÇÃO

o amor é como o trigo
a alguns já lhes chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão

esses sabem-no pela televisão

x - x

PROVISÃO DE HÁFIZ

os nomes
os navios
as águas

estão a sentir?

x - x

FOTO DE BREVE EXPOSIÇÃO

repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

x - x

CADERNO DA BIBLIOTECA

ser poeta sei agora
é mais do que usar amiúde
a palavra fímbria

x - x

Tudo isto e muito mais, num livro fascinante de Miguel-Manso ("Quando Escreve Descalça-se"), editado pela editora TRAMA.

11/02/09

O POEMA QUE FECHA A SESSÃO

Concluimos hoje a publicação dos poemas que serão lidos na sessão do dia 19 de Fevereiro, dedicada à poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

AZUL E VERDE

Há ondas a quebrar nas praias
nas paisagens que guardas de memória -
pequenas ondas das manhãs claras,
pequenas memórias das paisagens largas.

Haverá ainda nos remansos dos quintais
a tua corrida de criança no final das tardes,
e no verão que há por detrás das árvores
haverá a luz dourada dessas tardes longas.

Já pouco te lembras de ti nessas corridas,
da alegria que sentias nos jardins;
vagamente te vês a nadar nas ondas sossegadas -
brancura tremeluzente dos remotos areais.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)

Jornal gratuito METRO - edição de hoje.
(para ler clicar sobre a imagem)

10/02/09


O Acervo da Quietude aqui.

OS CONCERTOS NAS "QUINTAS DE LEITURA"

Tome nota na sua agenda. Sim, tem razão, alguns são imperdíveis:

Dia 19 de Fevereiro
ANA FREE

Dia 26 de Março
LULA PENA

Dia 23 de Abril
MAZGANI

Dias 14 e 15 Maio
LUCÍA ALDAO (Galiza)

Dia 18 de Junho
ALDINA DUARTE

Dia 9 de Julho
B FACHADA

Proibido ficar em casa!

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

Falo-te de chuva
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito.

Falo-te de sol
como excesso de brilho entre nós.

Revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde.

Falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Editores)

09/02/09

De que mais argumentos precisa para se juntar a nós?

Daniel Maia- Pinto Rodrigues fotografado por Pat


Ana Free na próxima sessão de Quintas de Leitura
Piano e performance em honra
de Daniel Maia-Pinto Rodrigues




Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues



A próxima sessão das "Quintas de Leitura" realiza-se no dia 19 de Fevereiro, no Café-Teatro do TCA, às 22h00, com um espectáculo, intitulado "O Acervo da Quietude", que marca a 3ª presença do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues neste ciclo.

Daniel, justamente reconhecido como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa dos anos 80, preparou para este espectáculo um guião com 20 poemas que incidem sobre a vertente mais lírica, mais nostálgica, mais serena, da sua obra.

As leituras estarão a cargo do próprio autor e ainda dos actores Pedro Lamares, Adriana Faria e Daniela Dias. O franco-atirador Isaque Ferreira apresentará uma performance líquida intitulada "Cortar a fogo".

Presença ainda do pianista Álvaro Teixeira Lopes que interpretará temas inspirados no obra do poeta convidado. O talento fotográfico de Mafalda Capela andará à solta nesta sessão, que se adivinha mágica.

E por falar em magia... o espectáculo fecha com um imperdível concerto acústico de Ana Free, numa das suas raras aparições no Porto.

Dia 19 de Fevereiro no TCA: uma noite cheia de estrelas.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues - poeta convidado

Álvaro Teixeira Lopes - piano

Adriana Faria, Daniela Dias e Pedro Lamares - leituras

Isaque Ferreira - performance

Mafalda Capela - fotografia

Ana Free - concerto acústico

Duas horas de pura magia. Nas "Quintas", pois claro...

UM DOS MAISW BELOS POEMAS DA OBRA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES

Enquanto tarda o incêndio

No inverno em séculos passados
falava-se de animais.

Junto à lareira comentavam os mais velhos
paisagens de sol
e o vento como sendo a distância
entre a noite e o bosque.

Nas manhãs frias olhava-se
com calma
a neve.

À volta dos sobreiros as crianças brincavam
agasalhadas
de azul.

Hoje, enquanto o incêndio tarda
vou sendo feliz
entre os sobreiros.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues,"Dióspiro"/ Quasi Edições)

06/02/09

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

ASSIM VOASSEM

Dizemos às vezes
devagar sobre as pedras
enquanto o musgo alastra
rápido pelos troncos.

Assim voassem aves
quando por fim março
abrisse suas portas ao vento.

Assim às nuvens
árvores erguessem o verde -
grandes ramos sorvendo o sol.

x

DESFOCADO

As madressilvas alongam-se pálidas
nas manhãs sem nuvens
e as libélulas passam
lentas de luz
sobre os cedros.

Em intercepções do movimento
no silêncio do quintal
os gatos fogem
cinzentos, verdes, rápidos
desfocados pelo vento.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)

05/02/09

Elogio



O blogue META DES IGUAIS refere as Quintas de Leitura e elogia a anterior sessãod edicada à escrita de valter hugo mãe.
Para ler:


aqui e aqui.

O LADO MAIS NOSTÁLGICO DA POESIA DE DANIEL

O silêncio na lezíria.
O sossego claro
das tardes de setembro.

Ouve-se
entre os álamos
o espanto dos cavalos.

Célere azul das aves.
Garços olhos de cisne
repousando na distância.

Da luz diáfana oiço o filho
"aqui, pai, neste laranjal"
oferecendo grandes gomos
à parada claridade.

x

Entendem as folhas
a rapidez
com que se desprendem dos ramos.
Entendem as asas
a debilidade dos pássaros.

Acima de tudo
o que interessa a novembro
é as crianças poderem dizer
está vento
é sentirem-no arrebatar-lhes os cabelos
engolfar-se nos gorros
misturar-se na roupa quente.

Há uma criança na escola
que através dos vidros vê novembro -
e a meia-distância
ao lado do novembro
vê o anjo da guarda
a atirar pedras
lentamente contra a luz.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

04/02/09

Dia 19 de Fevereiro. Nas "Quintas de Leitura", pois claro!

Continuamos hoje a divulgar os poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues que serão lidos na sessão "O Acervo da Quietude".

Descanso ao longe próximo das lagoas.
O vento passando assim
dos eucaliptos próximo.

Escurece. Que horas serão na aldeia?

Mergulho os braços nas águas.
As aves entrecruzam-se. Afastam-se
e o silêncio poisa escuro
nas águas.

Oiço por instantes o vento. Revejo
a lua nas lagoas.
Alguém neste momento encara a noite
sente o frio
acende num gesto branco
a tocha antiga.

x

À noite
à ilharga do tempo
de mãos separadas
olhamos as estrelas.

Perdeste o isqueiro
e estás perturbada.
Tens razão:
deixaste para trás
um qualquer pertence
da realidade.

Hesitas se hás-de regressar
ao seu encontro
mas talvez te percas
exactamente aí
ao regressares.

Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

03/02/09

(para ler clicar sobre a imagem)



"O ACERVO DA QUIETUDE". A TERCEIRA PRESENÇA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES NAS "QUINTAS".

Mergulho nas profundidades do sono
e no escuro oiço as aves na claridade -
são tranças, tropéis de sonoridades a gotejar em leque
na amplitude de recônditos espelhos
da obscuridade guardiã dos aposentos,
reflectindo na minha face as cores novas do arco-íris.

E não são sonhos, cornucópias de fantasia,
nem o vento a norte da imaginação;
são sim envidraçadas portas abertas
quais projecções lilás na melodia do jardim
onde por vezes pela mão do fim da tarde,
difuso, potente berlinde, me encontro a mim.

x

Anoitece na aldeia
e numa animação de fábula
as pessoas recolhem às casas.

Das chaminés, pelos telhados
o fumo já faz parte da noite.

O amarelo das janelas
pontilha o preto.

O vento perdeu-se no bosque
e as crianças, nos cobertores
usufruem do medo.

Pelas imediações da aldeia
os lobos aproximam-se da realidade.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

02/02/09

A poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Passavas os dedos de leve
pelos espinhos dos cactos
depois pela suavidade das faces,
a blandícia descias aos braços
ao beiral da janela
aquecido pelas tardes de março.

Havia certamente borboletas azuis
esvoaçando o castanho das planícies,
ágeis animais percorrendo a luz
desdobrada dos olhos da tua janela.

Havia sobretudo tempo
para olhares as borboletas,
havia sobretudo espaço
para se estenderem as planícies.

x

Descem pelas colinas os animais que sonhas.
São grandes ruminantes fulvos
e descem cheios de sol
sobre as relvas.

Ao vento erguem e à claridade as cabeças.
Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem
o céu pintado de azul e água.

Depois seguem. Descem mais.
Devagar chegam aos charcos
bebem
saboreiam uvas
deitam-se
certos de que os vais achar belos
e perfeitamente integrados na paisagem.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

Ana Free à revista LUX












Os leitores da revista Lux elegeram Ana Free Personalidade Feminina 2008 na área da Música. Assim, a Lux publica (com data de hoje) uma extensa entrevista à cantora que regressa a Portugal este mês para actuar nas Quintas de Leitura.