Sábado sem sol, quartel-general, dez da manhã:
um conjunto aleatório de interesses pessoais.
Há quem desça aos infernos pelos sítios
mais seguros. Estamos aqui a criar laços,
a aprender a resistir às intempéries.
E mesmo assim toda esta gente acordou
um dia mais perto da morte. Estes detonadores
não são de confiança. Fazem explodir as coisas
antes de darmos por isso. Quer dizer, até que ponto
conhecíamos o rapaz que tomou a overdose?
Bem sei: a nossa tarefa é tornar a vida suportável.
Esqueço tudo o resto excepto aquilo que sou
neste momento. É preciso ir pôr moedas no parquímetro.
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
15/04/09
14/04/09
CRUZES
Faltam-lhe três ou quatro anos
para morrer. Mas quem pode adivinhá-lo,
de tão novo? O engraxador do largo
passa em direcção ao Excelsior.
É sexta-feira, dia de cruzes
no totobola. O café dos anos vinte
morrerá um pouco antes.
A Drogaria da Praça, quartel-general
aos sábados, morrerá pouco depois.
Mas ninguém o sabe ainda,
nesta manhã de Setembro. Só por isso
vale a pena arriscar um pouco a sorte,
preencher devagar o boletim.
Diz-se que há sempre uma hipótese.
É assim que o sistema funciona. Mas
para onde foge o tempo?
Para onde vai tanta força?
Restos de grandes fogueiras.
É para isso que as pessoas vivem.
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
para morrer. Mas quem pode adivinhá-lo,
de tão novo? O engraxador do largo
passa em direcção ao Excelsior.
É sexta-feira, dia de cruzes
no totobola. O café dos anos vinte
morrerá um pouco antes.
A Drogaria da Praça, quartel-general
aos sábados, morrerá pouco depois.
Mas ninguém o sabe ainda,
nesta manhã de Setembro. Só por isso
vale a pena arriscar um pouco a sorte,
preencher devagar o boletim.
Diz-se que há sempre uma hipótese.
É assim que o sistema funciona. Mas
para onde foge o tempo?
Para onde vai tanta força?
Restos de grandes fogueiras.
É para isso que as pessoas vivem.
(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)
13/04/09
09/04/09
MARIA TERESA HORTA
As "Quintas de Leitura" desejam-lhe uma Santa Páscoa, na companhia luminosa de Maria Teresa Horta. Dois poemas de Amor:
SEGREDO
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
*
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(poemas de Maria Teresa Horta)
SEGREDO
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
*
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(poemas de Maria Teresa Horta)
CAROS CIDADÃOS
Passa da meia-noite, claro. Chegámos
ao lugar dos amigos anónimos, sozinhos
em ruas apinhadas de gente. Fazemos
todos parte da mesma estatística.
Há bairros inteiros que se esvaziam
na hora de a solidão sair à rua,
escudos humanos estabelecendo uma aliança
condigna, sem depender de ninguém.
Caros cidadãos, o tempo escasseia
e os erros são comuns hoje em dia.
Convencido da nossa inocência, custa-me a crer
que todo o mal que fizemos já tenha sido feito.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
ao lugar dos amigos anónimos, sozinhos
em ruas apinhadas de gente. Fazemos
todos parte da mesma estatística.
Há bairros inteiros que se esvaziam
na hora de a solidão sair à rua,
escudos humanos estabelecendo uma aliança
condigna, sem depender de ninguém.
Caros cidadãos, o tempo escasseia
e os erros são comuns hoje em dia.
Convencido da nossa inocência, custa-me a crer
que todo o mal que fizemos já tenha sido feito.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
08/04/09
ESTE É O POEMA DA FOLHA DE SALA
CORTINA
Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS
É aqui que passamos os dias, encarcerados
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.
Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.
Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.
Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.
Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
07/04/09
FEIRA DA LADRA
Acho que as conversas são iguais
em qualquer feira. Há muita gente
que passa a vida a não escutar
os outros, a razão deve ser essa.
Contudo, uma pessoa não pode
viver só, rodeada de fantasmas.
Talvez por isso volta e meia
dê comigo neste sítio,
onde por vezes chego a pensar
que a minha vida não é feita
de outra coisa: curiosidades,
folhas soltas, postais ilustrados,
livros, pequenos agasalhos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
em qualquer feira. Há muita gente
que passa a vida a não escutar
os outros, a razão deve ser essa.
Contudo, uma pessoa não pode
viver só, rodeada de fantasmas.
Talvez por isso volta e meia
dê comigo neste sítio,
onde por vezes chego a pensar
que a minha vida não é feita
de outra coisa: curiosidades,
folhas soltas, postais ilustrados,
livros, pequenos agasalhos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
SOCORROS MÚTUOS
Códigos indecifráveis, demasiados
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.
Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.
De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.
Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.
Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.
De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.
Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/&etc)
06/04/09
"Quintas de Leitura": noites com sangue na guelra
No próximo dia 23 de Abril, as "Quintas" estão de novo em festa.
Um elenco insuperável:
Vítor Nogueira - poeta convidado
José Mário Silva - apresentação
Maria do Céu Ribeiro, Susana Menezes, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - recitadores
Paulo Araújo - imagem
Cristina Delius (bailarina de sapateado), Michel Roubaix (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão) - performance
Shahryar Mazgani - concerto acústico
Quer mais argumentos para não ficar em casa? Seja feliz - junte-se às "Quintas".
Um elenco insuperável:
Vítor Nogueira - poeta convidado
José Mário Silva - apresentação
Maria do Céu Ribeiro, Susana Menezes, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - recitadores
Paulo Araújo - imagem
Cristina Delius (bailarina de sapateado), Michel Roubaix (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão) - performance
Shahryar Mazgani - concerto acústico
Quer mais argumentos para não ficar em casa? Seja feliz - junte-se às "Quintas".
ÀS VEZES AS CIDADES SÃO ASSIM
O que nos induz efectivamente?
Uma hospitalidade sem limites?
Por essa altura, apesar de atormentados
pela névoa, descobríamos missões
na caixa do correio. Talvez por hábito,
procurávamos uma rua cheia
e contudo inacabada: vidas
que por instantes corriam paralelas,
coisas em que só tínhamos de pensar
por pouco tempo.
Com isto, ao fim da noite perdíamos
a noção dos factos - era esse o punhal
que Lisboa costumava espetar
nas nossas costas. Às vezes as cidades
são assim, abrem buracos em tudo.
Gosto de pensar que Lisboa
nunca nos faria tal coisa
se achasse que não aguentávamos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão" / &etc)
Uma hospitalidade sem limites?
Por essa altura, apesar de atormentados
pela névoa, descobríamos missões
na caixa do correio. Talvez por hábito,
procurávamos uma rua cheia
e contudo inacabada: vidas
que por instantes corriam paralelas,
coisas em que só tínhamos de pensar
por pouco tempo.
Com isto, ao fim da noite perdíamos
a noção dos factos - era esse o punhal
que Lisboa costumava espetar
nas nossas costas. Às vezes as cidades
são assim, abrem buracos em tudo.
Gosto de pensar que Lisboa
nunca nos faria tal coisa
se achasse que não aguentávamos.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão" / &etc)
03/04/09
BAGAGEM DE MÃO. A POESIA DE VÍTOR NOGUEIRA.
OS FORASTEIROS NUNCA TÊM RAZÃO
É um sonho como outro qualquer:
Estamos a ler o jornal, Lisboa
bate à porta das traseiras.
O trajecto de fuga parece ser de confiança.
Por mera precaução,
levamos as palavras connosco.
Peças perdidas do puzzle,
tratamos dos mais pequenos pormenores
e caímos quase sempre em emboscadas.
Enfim, os forasteiros nunca têm razão.
Mas de que adianta resistir,
se em parte já perdemos o que somos?
*
TESEU SEM MINOTAURO
para o Manuel de Freitas
Como em qualquer labirinto, estas esquinas
apenas garantem que não há certezas
na direcção do futuro. Lisboa
nunca foi como em tempos a sonhei.
E contudo venho aqui em peregrinação
habitual, sem tão-pouco saber que lhe pedir.
Indecisões da fé e da sua alavanca diminuta,
à qual desmesuradamente chamamos coração.
*
INTERMITÊNCIAS
para o Rui Pires Cabral
Sou talvez aquele a quem não doeu tanto
a mesma terra. Perguntas se admitiria trocá-la por
Lisboa, a cidade onde as montanhas se não vêem.
Mas que diferença faz? Bem o sabemos,
ninguém se entrega a uma cidade em absoluto.
Um e outro, cá e lá, estamos apenas de passagem.
A auto-estrada é um sorriso cem à hora
que segura pelas pontas amizades como a nossa.
Vai-te embora, se assim tiver de ser, mas continua
a enviar-me os teus poemas por e-mail.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/ &etc.)
É um sonho como outro qualquer:
Estamos a ler o jornal, Lisboa
bate à porta das traseiras.
O trajecto de fuga parece ser de confiança.
Por mera precaução,
levamos as palavras connosco.
Peças perdidas do puzzle,
tratamos dos mais pequenos pormenores
e caímos quase sempre em emboscadas.
Enfim, os forasteiros nunca têm razão.
Mas de que adianta resistir,
se em parte já perdemos o que somos?
*
TESEU SEM MINOTAURO
para o Manuel de Freitas
Como em qualquer labirinto, estas esquinas
apenas garantem que não há certezas
na direcção do futuro. Lisboa
nunca foi como em tempos a sonhei.
E contudo venho aqui em peregrinação
habitual, sem tão-pouco saber que lhe pedir.
Indecisões da fé e da sua alavanca diminuta,
à qual desmesuradamente chamamos coração.
*
INTERMITÊNCIAS
para o Rui Pires Cabral
Sou talvez aquele a quem não doeu tanto
a mesma terra. Perguntas se admitiria trocá-la por
Lisboa, a cidade onde as montanhas se não vêem.
Mas que diferença faz? Bem o sabemos,
ninguém se entrega a uma cidade em absoluto.
Um e outro, cá e lá, estamos apenas de passagem.
A auto-estrada é um sorriso cem à hora
que segura pelas pontas amizades como a nossa.
Vai-te embora, se assim tiver de ser, mas continua
a enviar-me os teus poemas por e-mail.
(Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão"/ &etc.)
02/04/09
ÉBANO E MARFIM
Durante o dia, a multidão em magotes estaciona
nos lugares do costume, o tempo passando
entre a ponta do cigarro e a anedota do vizinho.
O Senhor Gouveia também ama a solidão.
Estima ver-se só, para à-vontade largar o voo
das ideias, quer para o quadro cintilante
do passado, quer para a tela sombria do futuro.
A desoras, vagueando pelas ruas, vive
recordações e alimenta certas fés. Ainda hoje
aconteceu, após uma ceia moderada,
como o sono uma vez mais não resolvesse visitá-lo.
Nuvens negras, avalanches de carvão impelidas
de sudeste, rolam pelo espaço em desenhos espantosos.
A noite é de Outono adiantado. Ruas desertas,
onde ao acaso passeia o seu spleen provinciano.
Há um som habitual na janela ainda acesa
de uma casa despida de vizinhos: notas de piano
colidindo pelas raias da loucura, o compasso
sem expressão, como quem despeja um saco.
De pouco serve um aprendiz de pianista a martelar
àquela hora. O Senhor Gouveia muda de passeio.
O vento, afinado, assobia nas esquinas.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
nos lugares do costume, o tempo passando
entre a ponta do cigarro e a anedota do vizinho.
O Senhor Gouveia também ama a solidão.
Estima ver-se só, para à-vontade largar o voo
das ideias, quer para o quadro cintilante
do passado, quer para a tela sombria do futuro.
A desoras, vagueando pelas ruas, vive
recordações e alimenta certas fés. Ainda hoje
aconteceu, após uma ceia moderada,
como o sono uma vez mais não resolvesse visitá-lo.
Nuvens negras, avalanches de carvão impelidas
de sudeste, rolam pelo espaço em desenhos espantosos.
A noite é de Outono adiantado. Ruas desertas,
onde ao acaso passeia o seu spleen provinciano.
Há um som habitual na janela ainda acesa
de uma casa despida de vizinhos: notas de piano
colidindo pelas raias da loucura, o compasso
sem expressão, como quem despeja um saco.
De pouco serve um aprendiz de pianista a martelar
àquela hora. O Senhor Gouveia muda de passeio.
O vento, afinado, assobia nas esquinas.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
01/04/09
"SENHOR GOUVEIA" de Vítor Nogueira
JOHN PARKER
John Parker, nacionalidade americana
e pronúncia a condizer, alugou quarto
na casa do Senhor Gouveia, apresentando-se
como secretário do arcebispo de Washington.
A pedido, assinou o livro de honra.
Pela mão do poeta, visitou estabelecimentos
na Rua Alexandre Herculano, onde pediu
socorros para certas obras pias, prosseguindo
depois noutras artérias da cidade. E assim
conseguiu reunir soma elevada.
Na livraria dos herdeiros do Senhor António Silva,
Sua Excelência proferiu uma palestra, atraindo
considerável número de pessoas, que fizeram
a fineza de o escutar no meio do maior silêncio.
Foi aí que o secretário do arcebispo de Washington
contou como evangelizara nas Montanhas
Rochosas e como, nessa árida região, alcançara
converter ao cristianismo numerosos esquimós.
Eis como um bom cristão se perde
por não saber geografia.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
John Parker, nacionalidade americana
e pronúncia a condizer, alugou quarto
na casa do Senhor Gouveia, apresentando-se
como secretário do arcebispo de Washington.
A pedido, assinou o livro de honra.
Pela mão do poeta, visitou estabelecimentos
na Rua Alexandre Herculano, onde pediu
socorros para certas obras pias, prosseguindo
depois noutras artérias da cidade. E assim
conseguiu reunir soma elevada.
Na livraria dos herdeiros do Senhor António Silva,
Sua Excelência proferiu uma palestra, atraindo
considerável número de pessoas, que fizeram
a fineza de o escutar no meio do maior silêncio.
Foi aí que o secretário do arcebispo de Washington
contou como evangelizara nas Montanhas
Rochosas e como, nessa árida região, alcançara
converter ao cristianismo numerosos esquimós.
Eis como um bom cristão se perde
por não saber geografia.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
31/03/09
A POESIA DE VÍTOR NOGUEIRA
SE TUDO ACONTECER COMO PREVISTO
Se tudo acontecer como previsto,
o Senhor Gouveia acordará
um pouco antes do almoço, mesmo a tempo
de descer as escadas e esperar pelo carteiro.
Se acaso receber correspondência,
há-de tirar o chapéu a uma senhora.
Se não lhe chegar nenhuma carta,
fará exactamente a mesma coisa.
Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia
utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos
são alexandrinos medidos ao milímetro,
coisas dificilmente publicáveis
já em meados da década de cinquenta,
quando pela primeira vez tirou o chapéu
a uma senhora
(e nunca mais lho devolveu).
*
VARANDAS
A procissão dividiu a rua a meio,
como é costume fazer-se a uma noz.
Na varanda de Dona Joaquina, a colcha
mais bonita da cidade, peça antiga
de família, que em tempos lhe foi dada
para juntar ao enxoval.
Em meados da década de cinquenta,
o Senhor Gouveia e a Dona Joaquina
estiveram, vai-não-vai, para se entender.
Depois, enfim, aquele jeito de poeta,
aquele modo de tirar o chapéu
a uma senhora...E nunca mais se falaram
desde então, razões certamente ponderosas
que ninguém conhece ao certo.
Mas, no dia em que passa a procissão,
o Senhor Gouveia pode olhar, demorado,
a sua musa. Esperará por si, ainda hoje,
a solteira Joaquina? E até que ponto
era capaz de lhe dizer do seu desejo
(da maneira como o diz em sonetos
desde sempre guardados no armário)?
Entretanto, examina o velho busto
recortado pela colcha que jamais o acolheu.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
Se tudo acontecer como previsto,
o Senhor Gouveia acordará
um pouco antes do almoço, mesmo a tempo
de descer as escadas e esperar pelo carteiro.
Se acaso receber correspondência,
há-de tirar o chapéu a uma senhora.
Se não lhe chegar nenhuma carta,
fará exactamente a mesma coisa.
Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia
utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos
são alexandrinos medidos ao milímetro,
coisas dificilmente publicáveis
já em meados da década de cinquenta,
quando pela primeira vez tirou o chapéu
a uma senhora
(e nunca mais lho devolveu).
*
VARANDAS
A procissão dividiu a rua a meio,
como é costume fazer-se a uma noz.
Na varanda de Dona Joaquina, a colcha
mais bonita da cidade, peça antiga
de família, que em tempos lhe foi dada
para juntar ao enxoval.
Em meados da década de cinquenta,
o Senhor Gouveia e a Dona Joaquina
estiveram, vai-não-vai, para se entender.
Depois, enfim, aquele jeito de poeta,
aquele modo de tirar o chapéu
a uma senhora...E nunca mais se falaram
desde então, razões certamente ponderosas
que ninguém conhece ao certo.
Mas, no dia em que passa a procissão,
o Senhor Gouveia pode olhar, demorado,
a sua musa. Esperará por si, ainda hoje,
a solteira Joaquina? E até que ponto
era capaz de lhe dizer do seu desejo
(da maneira como o diz em sonetos
desde sempre guardados no armário)?
Entretanto, examina o velho busto
recortado pela colcha que jamais o acolheu.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
30/03/09
O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"
O próximo convidado do ciclo "Quintas de Leitura" é o poeta Vítor Nogueira.
Ele é unanimemente reconhecido como uma das vozes mais importantes da chamada "novíssima poesia portuguesa".
Publicou cinco livros de poemas. A saber:
A VOLTA AO MUNDO EM 50 POEMAS (Editorial Minerva, 1999)
SENHOR GOUVEIA (Averno, 2006)
BAGAGEM DE MÃO (&etc, 2007)
NOVAS MEMÓRIAS DE ANSIÃES (com A. M. Pires Cabaral, Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral. Averno, 2007)
COMÉRCIO TRADICIONAL (Averno, 2008)
O guião poético da sessão do próximo dia 23 de Abril incluirá poemas de três destes livros.
As leituras ficarão a cargo dos actores Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e ainda de Susana Menezes.
Iniciamos hoje a divulgação de alguns dos poemas que serão lidos na referida sessão.
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
*
ÀS VEZES OS PÁSSAROS
Às vezes os pássaros encaixam voos exóticos
no céu recortado pelos prédios. Deixam-se cair,
sem que alguém os possa acusar de suicídio.
A Rua Alexandre Herculano tem destas coisas,
verdadeiramente indecifráveis. Coisas fundas
a que me venho habituando desde que aluguei quarto
na casa do Senhor Gouveia, que um dia desejou
ser poeta e entretanto simplesmente
aluga quartos.
*
JÁ DEPOIS DA MEIA-NOITE, TRÊS RAPAZES
Já depois da meia-noite, três rapazes
acendem cigarros com palavras,
esquecidos dos vizinhos e do sono
que os retém no interior dos edifícios.
É um sono fácil o que, justos,
os vizinhos cultivam desde sempre.
Em toda a rua, só o Senhor Gouveia
sabe o que é contar carneiros. Lá fora
três rapazes continuam, cigarros acesos
com palavras. A rua dorme, não se importa.
O Senhor Gouveia chega a ponderar
um telefonema para a polícia. Ao invés, escreve
um soneto. Enfim, saiu-lhe
mal (nada que nunca tenha acontecido).
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
Ele é unanimemente reconhecido como uma das vozes mais importantes da chamada "novíssima poesia portuguesa".
Publicou cinco livros de poemas. A saber:
A VOLTA AO MUNDO EM 50 POEMAS (Editorial Minerva, 1999)
SENHOR GOUVEIA (Averno, 2006)
BAGAGEM DE MÃO (&etc, 2007)
NOVAS MEMÓRIAS DE ANSIÃES (com A. M. Pires Cabaral, Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral. Averno, 2007)
COMÉRCIO TRADICIONAL (Averno, 2008)
O guião poético da sessão do próximo dia 23 de Abril incluirá poemas de três destes livros.
As leituras ficarão a cargo dos actores Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e ainda de Susana Menezes.
Iniciamos hoje a divulgação de alguns dos poemas que serão lidos na referida sessão.
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
*
ÀS VEZES OS PÁSSAROS
Às vezes os pássaros encaixam voos exóticos
no céu recortado pelos prédios. Deixam-se cair,
sem que alguém os possa acusar de suicídio.
A Rua Alexandre Herculano tem destas coisas,
verdadeiramente indecifráveis. Coisas fundas
a que me venho habituando desde que aluguei quarto
na casa do Senhor Gouveia, que um dia desejou
ser poeta e entretanto simplesmente
aluga quartos.
*
JÁ DEPOIS DA MEIA-NOITE, TRÊS RAPAZES
Já depois da meia-noite, três rapazes
acendem cigarros com palavras,
esquecidos dos vizinhos e do sono
que os retém no interior dos edifícios.
É um sono fácil o que, justos,
os vizinhos cultivam desde sempre.
Em toda a rua, só o Senhor Gouveia
sabe o que é contar carneiros. Lá fora
três rapazes continuam, cigarros acesos
com palavras. A rua dorme, não se importa.
O Senhor Gouveia chega a ponderar
um telefonema para a polícia. Ao invés, escreve
um soneto. Enfim, saiu-lhe
mal (nada que nunca tenha acontecido).
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
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