SE TUDO ACONTECER COMO PREVISTO
Se tudo acontecer como previsto,
o Senhor Gouveia acordará
um pouco antes do almoço, mesmo a tempo
de descer as escadas e esperar pelo carteiro.
Se acaso receber correspondência,
há-de tirar o chapéu a uma senhora.
Se não lhe chegar nenhuma carta,
fará exactamente a mesma coisa.
Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia
utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos
são alexandrinos medidos ao milímetro,
coisas dificilmente publicáveis
já em meados da década de cinquenta,
quando pela primeira vez tirou o chapéu
a uma senhora
(e nunca mais lho devolveu).
*
VARANDAS
A procissão dividiu a rua a meio,
como é costume fazer-se a uma noz.
Na varanda de Dona Joaquina, a colcha
mais bonita da cidade, peça antiga
de família, que em tempos lhe foi dada
para juntar ao enxoval.
Em meados da década de cinquenta,
o Senhor Gouveia e a Dona Joaquina
estiveram, vai-não-vai, para se entender.
Depois, enfim, aquele jeito de poeta,
aquele modo de tirar o chapéu
a uma senhora...E nunca mais se falaram
desde então, razões certamente ponderosas
que ninguém conhece ao certo.
Mas, no dia em que passa a procissão,
o Senhor Gouveia pode olhar, demorado,
a sua musa. Esperará por si, ainda hoje,
a solteira Joaquina? E até que ponto
era capaz de lhe dizer do seu desejo
(da maneira como o diz em sonetos
desde sempre guardados no armário)?
Entretanto, examina o velho busto
recortado pela colcha que jamais o acolheu.
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
31/03/09
30/03/09
O PRÓXIMO CONVIDADO DAS "QUINTAS"
O próximo convidado do ciclo "Quintas de Leitura" é o poeta Vítor Nogueira.
Ele é unanimemente reconhecido como uma das vozes mais importantes da chamada "novíssima poesia portuguesa".
Publicou cinco livros de poemas. A saber:
A VOLTA AO MUNDO EM 50 POEMAS (Editorial Minerva, 1999)
SENHOR GOUVEIA (Averno, 2006)
BAGAGEM DE MÃO (&etc, 2007)
NOVAS MEMÓRIAS DE ANSIÃES (com A. M. Pires Cabaral, Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral. Averno, 2007)
COMÉRCIO TRADICIONAL (Averno, 2008)
O guião poético da sessão do próximo dia 23 de Abril incluirá poemas de três destes livros.
As leituras ficarão a cargo dos actores Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e ainda de Susana Menezes.
Iniciamos hoje a divulgação de alguns dos poemas que serão lidos na referida sessão.
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
*
ÀS VEZES OS PÁSSAROS
Às vezes os pássaros encaixam voos exóticos
no céu recortado pelos prédios. Deixam-se cair,
sem que alguém os possa acusar de suicídio.
A Rua Alexandre Herculano tem destas coisas,
verdadeiramente indecifráveis. Coisas fundas
a que me venho habituando desde que aluguei quarto
na casa do Senhor Gouveia, que um dia desejou
ser poeta e entretanto simplesmente
aluga quartos.
*
JÁ DEPOIS DA MEIA-NOITE, TRÊS RAPAZES
Já depois da meia-noite, três rapazes
acendem cigarros com palavras,
esquecidos dos vizinhos e do sono
que os retém no interior dos edifícios.
É um sono fácil o que, justos,
os vizinhos cultivam desde sempre.
Em toda a rua, só o Senhor Gouveia
sabe o que é contar carneiros. Lá fora
três rapazes continuam, cigarros acesos
com palavras. A rua dorme, não se importa.
O Senhor Gouveia chega a ponderar
um telefonema para a polícia. Ao invés, escreve
um soneto. Enfim, saiu-lhe
mal (nada que nunca tenha acontecido).
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
Ele é unanimemente reconhecido como uma das vozes mais importantes da chamada "novíssima poesia portuguesa".
Publicou cinco livros de poemas. A saber:
A VOLTA AO MUNDO EM 50 POEMAS (Editorial Minerva, 1999)
SENHOR GOUVEIA (Averno, 2006)
BAGAGEM DE MÃO (&etc, 2007)
NOVAS MEMÓRIAS DE ANSIÃES (com A. M. Pires Cabaral, Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral. Averno, 2007)
COMÉRCIO TRADICIONAL (Averno, 2008)
O guião poético da sessão do próximo dia 23 de Abril incluirá poemas de três destes livros.
As leituras ficarão a cargo dos actores Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e ainda de Susana Menezes.
Iniciamos hoje a divulgação de alguns dos poemas que serão lidos na referida sessão.
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
*
ÀS VEZES OS PÁSSAROS
Às vezes os pássaros encaixam voos exóticos
no céu recortado pelos prédios. Deixam-se cair,
sem que alguém os possa acusar de suicídio.
A Rua Alexandre Herculano tem destas coisas,
verdadeiramente indecifráveis. Coisas fundas
a que me venho habituando desde que aluguei quarto
na casa do Senhor Gouveia, que um dia desejou
ser poeta e entretanto simplesmente
aluga quartos.
*
JÁ DEPOIS DA MEIA-NOITE, TRÊS RAPAZES
Já depois da meia-noite, três rapazes
acendem cigarros com palavras,
esquecidos dos vizinhos e do sono
que os retém no interior dos edifícios.
É um sono fácil o que, justos,
os vizinhos cultivam desde sempre.
Em toda a rua, só o Senhor Gouveia
sabe o que é contar carneiros. Lá fora
três rapazes continuam, cigarros acesos
com palavras. A rua dorme, não se importa.
O Senhor Gouveia chega a ponderar
um telefonema para a polícia. Ao invés, escreve
um soneto. Enfim, saiu-lhe
mal (nada que nunca tenha acontecido).
(Vítor Nogueira, in "Senhor Gouveia"/Averno)
27/03/09
CASA CHEIA PARA OUVIR FILIPA LEAL E LULA PENA
A TODOS OS NOSSOS SEGUIDORES, CÚMPLICES, AMIGOS, INIMIGOS, INDIFERENTES, QUE ONTEM ENCHERAM O GRANDE AUDITÓRIO DO TCA PARA PARTICIPAREM EM MAIS UMA "QUINTA DE LEITURA", AGRADECEMOS DO FUNDO DO NOSSO CORAÇÃO DESARRUMADO.
FIQUEM, PARA MATAR SAUDADES DESSA NOITE MÁGICA, COM UM DERRADEIRO POEMA DE FILIPA LEAL:
NO FUNDO DOS RELÓGIOS
Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.
(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e outras Texturas"/ Deriva Editores)
FIQUEM, PARA MATAR SAUDADES DESSA NOITE MÁGICA, COM UM DERRADEIRO POEMA DE FILIPA LEAL:
NO FUNDO DOS RELÓGIOS
Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.
(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e outras Texturas"/ Deriva Editores)
26/03/09
HAVEMOS DE IR A VIANA
A viagem começa às 22h00. Aperte o cinto, desate o coração, ofereça-nos a sua veia mais assanhada. Deixe a Palavra invadir-lhe as entranhas.
As próximas duas horas ficam por conta da nossa tripulação espacial:
FILIPA LEAL
LULA PENA
CARLA MIRANDA
GERMANO'NUNES
PAULO CAMPOS DOS REIS
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
JOANA RÊGO
BRUNA CARVALHO
RICARDO VIDAL
Não saia do seu lugar. Chegaremos ou não chegaremos a Viana por volta da meia-noite.
As próximas duas horas ficam por conta da nossa tripulação espacial:
FILIPA LEAL
LULA PENA
CARLA MIRANDA
GERMANO'NUNES
PAULO CAMPOS DOS REIS
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
JOANA RÊGO
BRUNA CARVALHO
RICARDO VIDAL
Não saia do seu lugar. Chegaremos ou não chegaremos a Viana por volta da meia-noite.
Filipa Leal e Lula Pena nas «Quintas de Leitura» do TCA
MAISACTUAL.PT - O Seu Site de Informação - 26-Mar-2009
MAISACTUAL.PT - O Seu Site de Informação - 26-Mar-2009
25/03/09
MAIS UM POEMA DE FILIPA LEAL
Este poema não será lido na sessão de amanhã:
Na fágil timidez de aves de papel,
balouçando, morrendo a cada queda,
porque houve asas enrugadas,
e um desespero de salitre e ervas aromáticas.
E rasgámos as palavras,
arquivámos o voo como se crescêssemos,
ou tivesse amanhecido devagar.
(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)
Na fágil timidez de aves de papel,
balouçando, morrendo a cada queda,
porque houve asas enrugadas,
e um desespero de salitre e ervas aromáticas.
E rasgámos as palavras,
arquivámos o voo como se crescêssemos,
ou tivesse amanhecido devagar.
(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)
24/03/09
FALTAM 2 DIAS. A NÃO PERDER.
Sessão das "Quintas" com a "novíssima" FILIPA LEAL.
Registamos um dos mais belos poemas da sua obra:
NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES
Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)
Registamos um dos mais belos poemas da sua obra:
NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES
Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)
23/03/09
É JÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA A SESSÃO COM A POETA FILIPA LEAL
Vénus de Milo
Rendi-me
quando a falta de tempo
lambeu o meu suor
numa insónia eterna
Desisti da linguagem
quando mergulhei
no amplo sufoco das palavras
com os minutos contados
Cortei ambos os braços
quando não pude esticá-los
para vos abraçar
*
Quero coleccionar os teus passos,
os teus gestos, os teus traços...
Guardá-los em páginas de seda...
Suaves, como tu...
E oferecer-te uma larga medalha,
espelhar o profundo clarão
que rodeia a tua face...
Adorar-te como quem adora um deus,
com a placidez crente dos fiéis...
Acreditar como quem é eterno
e crê e vive a eternidade...
Reconheço a flauta muda
enterrada nas salas que pisaste...
Herdei os cânticos sagrados
e hoje sonho com as tuas mãos
levantadas para agarrar o divino.
(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/Cadernos do Campo Alegre)
Rendi-me
quando a falta de tempo
lambeu o meu suor
numa insónia eterna
Desisti da linguagem
quando mergulhei
no amplo sufoco das palavras
com os minutos contados
Cortei ambos os braços
quando não pude esticá-los
para vos abraçar
*
Quero coleccionar os teus passos,
os teus gestos, os teus traços...
Guardá-los em páginas de seda...
Suaves, como tu...
E oferecer-te uma larga medalha,
espelhar o profundo clarão
que rodeia a tua face...
Adorar-te como quem adora um deus,
com a placidez crente dos fiéis...
Acreditar como quem é eterno
e crê e vive a eternidade...
Reconheço a flauta muda
enterrada nas salas que pisaste...
Herdei os cânticos sagrados
e hoje sonho com as tuas mãos
levantadas para agarrar o divino.
(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/Cadernos do Campo Alegre)
21/03/09
DIA MUNDIAL DA POESIA ESTAMOS AQUI

PARA VER E OUVIR EM www.rtp.pt/antena1
e na emissão nacional da RDP - Antena 1
OBRIGADO AOS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA
20/03/09
As Quintas de Leitura no DIA MUNDIAL DA POESIA
Celebre com as “Quintas de Leitura” o Dia Mundial da Poesia, no próximo Sábado, 21 de Março, acompanhando as vozes dos nossos poetas na
Antena 1.
PORTO – 96.7
LISBOA – 95.7
Neste dia, pode também adquirir, no Teatro do Campo Alegre, entre as 15h00 e as 22h30, a antologia poética “DIGA TRINTA E TRÊS”, a um preço especial.
Recordamos ainda que pode visitar a exposição “OS RETRATOS DOS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA” que se encontra em exibição no foyer do Teatro do Campo Alegre.
Saudações Poéticas
TCA
PORTO – 96.7
LISBOA – 95.7
Neste dia, pode também adquirir, no Teatro do Campo Alegre, entre as 15h00 e as 22h30, a antologia poética “DIGA TRINTA E TRÊS”, a um preço especial.
Recordamos ainda que pode visitar a exposição “OS RETRATOS DOS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA” que se encontra em exibição no foyer do Teatro do Campo Alegre.
Saudações Poéticas
TCA
ALGUNS POEMAS DE AMOR ESCOLHIDOS POR INÊS PEDROSA

O AMOR
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
(Eugénio de Andrade)
*
A MEU FAVOR
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
(Alexandre O'Neill)
*
POEMA DE AMOR
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo
(Jorge Sousa Braga)
*
POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
(Nuno Júdice)
*
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(Maria Teresa Horta)
*
ASSIM O AMOR
Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
(Sophia de Mello Breyner)
*
DESINFERNO II
Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor
O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse4
Que eu de amor apenas ressuscitaria
(Luiza Neto Jorge)
*
Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
(Casimiro de Brito)
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
(Eugénio de Andrade)
*
A MEU FAVOR
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
(Alexandre O'Neill)
*
POEMA DE AMOR
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo
(Jorge Sousa Braga)
*
POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
(Nuno Júdice)
*
MORRER DE AMOR
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(Maria Teresa Horta)
*
ASSIM O AMOR
Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
(Sophia de Mello Breyner)
*
DESINFERNO II
Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor
O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse4
Que eu de amor apenas ressuscitaria
(Luiza Neto Jorge)
*
Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
(Casimiro de Brito)
OS POETAS CONVIDADOS DE 2009
ALGUNS DOS POETAS QUE ESTARÃO CONNOSCO NAS PRÓXIMAS SESSÕES DE 2009:
FILIPA LEAL
VÍTOR NOGUEIRA
NUNO MOURA E PAULO CONDESSA (colectivo "O COPO")
INÊS PEDROSA
MIGUEL-MANSO
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
NUNO JÚDICE
GONÇALO M. TAVARES
VASCO GATO
JÁ POR CÁ PASSARAM ESTE ANO:
valter hugo mãe
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
"QUINTAS DE LEITURA": poesia ao canto da noite
FILIPA LEAL
VÍTOR NOGUEIRA
NUNO MOURA E PAULO CONDESSA (colectivo "O COPO")
INÊS PEDROSA
MIGUEL-MANSO
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
NUNO JÚDICE
GONÇALO M. TAVARES
VASCO GATO
JÁ POR CÁ PASSARAM ESTE ANO:
valter hugo mãe
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
"QUINTAS DE LEITURA": poesia ao canto da noite
19/03/09
AS "QUINTAS" DÃO-NOS (BOA) MÚSICA
Adivinham-se bons concertos no âmbito das sessões das "Quintas de Leitura".
Tome nota:
26 de Março
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
LULA PENA
23 de Abril
MAZGANI
14 e 15 de Maio
SAMUEL ÚRIA
LUCÍA ALDAO (Galiza)
18 de Junho
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
ALDINA DUARTE
9 de Julho
B FACHADA
Uma programação a pensar em si. Junte-se a nós.
Tome nota:
26 de Março
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
LULA PENA
23 de Abril
MAZGANI
14 e 15 de Maio
SAMUEL ÚRIA
LUCÍA ALDAO (Galiza)
18 de Junho
RAÚL PEIXOTO DA COSTA
ALDINA DUARTE
9 de Julho
B FACHADA
Uma programação a pensar em si. Junte-se a nós.
HERBERTO HELDER
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
*
espaço que o corpo soma quando se move,
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa
(Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo"/ Assírio & Alvim)
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
*
espaço que o corpo soma quando se move,
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa
(Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo"/ Assírio & Alvim)
18/03/09
AOS NOSSOS QUERIDOS VISITANTES
Estamos quase a chegar às 40.000 páginas visitadas.
A todos os que alimentam com fulgor e sabedoria este blogue, dedicamos este poema de
Miguel-Manso, um dos nossos próximos convidados:
PROVISÃO DE HÁFIZ
os nomes
os navios
as águas
estão a sentir?
(Miguel-Manso, in "Quando Escreve Descalça-se"/Trama Livraria)
A todos os que alimentam com fulgor e sabedoria este blogue, dedicamos este poema de
Miguel-Manso, um dos nossos próximos convidados:
PROVISÃO DE HÁFIZ
os nomes
os navios
as águas
estão a sentir?
(Miguel-Manso, in "Quando Escreve Descalça-se"/Trama Livraria)
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