23/02/09
20/02/09
A nossa cidade


Hoje na edição de Março da revista Rotas & Destinos, por Miguel Somsen, o que pensam João Gesta, programador da Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre e valter hugo mãe, um dos nossos escritores de estimação, sobre «O Porto da Noite para o dia».
São 16 páginas para descobrir tudo o que viu, ouviu e experimentou um Lisboeta em visita à nossa cidade.
19/02/09
PARABÉNS Raúl Peixoto da Costa
Raúl Peixoto da Costa, o jovem pianista que participou na sessão de Quintas de Leitura de Dezembro passado ( sessão de lançamento da antologia Diga 33 - os poetas das Quintas de Leitura), acaba de vencer o primeiro prémio do concurso Alexander Scriabin, no conservatório russo em Paris.
Entre candidatos de todo o mundo, Raúl foi classificado em primeiro lugar e é o único entre os premiados que não é de nacionalidade russa.
Os prémios ainda não foram anunciados porque este concurso (9th INTERNATIONAL PIANO COMPETITION - February 16-19, 2009, Paris) termina hoje.
Na nossa sessão, em 18 de Dezembro, o jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretou ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev, no grande auditório do TCA, deixando mais de 300 pessoas encantadas com a sua actuação.
Parabéns Raúl.
Fotografia de Sara Moutinho captada durante a actuação de Raúl nas Quintas de Leitura.Conheça o conservatório clicando aqui.
O ACERVO DA QUIETUDE. HOJE, NUM TEATRO PERTO DO SEU CORAÇÃO
OS HERÓIS DESTA NOITE:
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
ANA FREE
ÁLVARO TEIXEIRA LOPES
ISAQUE FERREIRA
MAFALDA CAPELA
ADRIANA FARIA
DANIELA DIAS
RUTE PIMENTA
«Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.»
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
ANA FREE
ÁLVARO TEIXEIRA LOPES
ISAQUE FERREIRA
MAFALDA CAPELA
ADRIANA FARIA
DANIELA DIAS
RUTE PIMENTA
«Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.»
18/02/09
"OS NOVÍSSIMOS" NAS "QUINTAS DE LEITURA"
As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às vozes da "novíssima poesia portuguesa". Estão agendadas sessões com quatro importantes poetas desta geração: Filipa Leal, Miguel-Manso, Vasco Gato e Vítor Nogueira.

Publicamos hoje mais dois poemas de Vítor Nogueira, retirados do seu livro "Bagagem de mão" (editora &etc):
É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS
É aqui que passamos os dias, encarcerados
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.
Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.
Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.
À NOSSA
Três pessoas encostadas ao balcão,
tentando enviar uma mensagem de
socorro. Todos queremos estar aqui,
para quando formos salvos.
Do outro lado, há um tipo que se instala
numa mesa, espalhando amendoins,
descobrindo a sua vocação.
Um homem deve ter talento nos dedos,
saber fazer alguma coisa.
E, nisto, melhoramos a nossa visão
nocturna, mijamos na mesma latrina,
fazemos com que este lugar funcione.
Juntem-se mais, para cabermos todos
na fotografia.
17/02/09
Vítor Nogueira nas "Quintas" a 23 de Abril.
Outro grande poeta que marcará presença nas "Quintas de Leitura".
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão" e este poema abrirá a sessão:
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
(Vítor Nogueira, in "O Senhor Gouveia"/ Averno )
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão" e este poema abrirá a sessão:
A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE
O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua
Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.
(Vítor Nogueira, in "O Senhor Gouveia"/ Averno )
16/02/09
MIGUEL-MANSO NO TCA A 9 DE JULHO. TOME NOTA NA SUA AGENDA:
O PREC EM 2008
o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que
nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores
agora um amigo diz-me: "esta
revolução não dá um passo!"
concedo, mas não desisto
incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa
revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
(Miguel-Manso, "Quando Escreve Descalça-se"/ Trama Livraria)
o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que
nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores
agora um amigo diz-me: "esta
revolução não dá um passo!"
concedo, mas não desisto
incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa
revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
(Miguel-Manso, "Quando Escreve Descalça-se"/ Trama Livraria)
15/02/09
MIGUEL-MANSO. Um poeta a descobrir, já!
As "Quintas de Leitura" receberão no dia 9 de Julho o poeta Miguel-Manso numa sessão intitulada "Quando Escreve Descalça-se".
Em estreia absoluta neste blogue, alguns poemas deste jovem e genial poeta:
MEDITAÇÃO
o amor é como o trigo
a alguns já lhes chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão
esses sabem-no pela televisão
x - x
PROVISÃO DE HÁFIZ
os nomes
os navios
as águas
estão a sentir?
x - x
FOTO DE BREVE EXPOSIÇÃO
repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe
x - x
CADERNO DA BIBLIOTECA
ser poeta sei agora
é mais do que usar amiúde
a palavra fímbria
x - x
Tudo isto e muito mais, num livro fascinante de Miguel-Manso ("Quando Escreve Descalça-se"), editado pela editora TRAMA.
Em estreia absoluta neste blogue, alguns poemas deste jovem e genial poeta:
MEDITAÇÃO
o amor é como o trigo
a alguns já lhes chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão
esses sabem-no pela televisão
x - x
PROVISÃO DE HÁFIZ
os nomes
os navios
as águas
estão a sentir?
x - x
FOTO DE BREVE EXPOSIÇÃO
repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe
x - x
CADERNO DA BIBLIOTECA
ser poeta sei agora
é mais do que usar amiúde
a palavra fímbria
x - x
Tudo isto e muito mais, num livro fascinante de Miguel-Manso ("Quando Escreve Descalça-se"), editado pela editora TRAMA.
11/02/09
O POEMA QUE FECHA A SESSÃO
Concluimos hoje a publicação dos poemas que serão lidos na sessão do dia 19 de Fevereiro, dedicada à poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
AZUL E VERDE
Há ondas a quebrar nas praias
nas paisagens que guardas de memória -
pequenas ondas das manhãs claras,
pequenas memórias das paisagens largas.
Haverá ainda nos remansos dos quintais
a tua corrida de criança no final das tardes,
e no verão que há por detrás das árvores
haverá a luz dourada dessas tardes longas.
Já pouco te lembras de ti nessas corridas,
da alegria que sentias nos jardins;
vagamente te vês a nadar nas ondas sossegadas -
brancura tremeluzente dos remotos areais.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)
AZUL E VERDE
Há ondas a quebrar nas praias
nas paisagens que guardas de memória -
pequenas ondas das manhãs claras,
pequenas memórias das paisagens largas.
Haverá ainda nos remansos dos quintais
a tua corrida de criança no final das tardes,
e no verão que há por detrás das árvores
haverá a luz dourada dessas tardes longas.
Já pouco te lembras de ti nessas corridas,
da alegria que sentias nos jardins;
vagamente te vês a nadar nas ondas sossegadas -
brancura tremeluzente dos remotos areais.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)
10/02/09
OS CONCERTOS NAS "QUINTAS DE LEITURA"
Tome nota na sua agenda. Sim, tem razão, alguns são imperdíveis:
Dia 19 de Fevereiro
ANA FREE
Dia 26 de Março
LULA PENA
Dia 23 de Abril
MAZGANI
Dias 14 e 15 Maio
LUCÍA ALDAO (Galiza)
Dia 18 de Junho
ALDINA DUARTE
Dia 9 de Julho
B FACHADA
Proibido ficar em casa!
Dia 19 de Fevereiro
ANA FREE
Dia 26 de Março
LULA PENA
Dia 23 de Abril
MAZGANI
Dias 14 e 15 Maio
LUCÍA ALDAO (Galiza)
Dia 18 de Junho
ALDINA DUARTE
Dia 9 de Julho
B FACHADA
Proibido ficar em casa!
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"
Falo-te de chuva
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito.
Falo-te de sol
como excesso de brilho entre nós.
Revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde.
Falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Editores)
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito.
Falo-te de sol
como excesso de brilho entre nós.
Revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde.
Falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Editores)
09/02/09
De que mais argumentos precisa para se juntar a nós?
Daniel Maia- Pinto Rodrigues fotografado por PatAna Free na próxima sessão de Quintas de Leitura
Piano e performance em honra
de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
A próxima sessão das "Quintas de Leitura" realiza-se no dia 19 de Fevereiro, no Café-Teatro do TCA, às 22h00, com um espectáculo, intitulado "O Acervo da Quietude", que marca a 3ª presença do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues neste ciclo.
Daniel, justamente reconhecido como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa dos anos 80, preparou para este espectáculo um guião com 20 poemas que incidem sobre a vertente mais lírica, mais nostálgica, mais serena, da sua obra.
As leituras estarão a cargo do próprio autor e ainda dos actores Pedro Lamares, Adriana Faria e Daniela Dias. O franco-atirador Isaque Ferreira apresentará uma performance líquida intitulada "Cortar a fogo".
Presença ainda do pianista Álvaro Teixeira Lopes que interpretará temas inspirados no obra do poeta convidado. O talento fotográfico de Mafalda Capela andará à solta nesta sessão, que se adivinha mágica.
E por falar em magia... o espectáculo fecha com um imperdível concerto acústico de Ana Free, numa das suas raras aparições no Porto.
Piano e performance em honra
de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
A próxima sessão das "Quintas de Leitura" realiza-se no dia 19 de Fevereiro, no Café-Teatro do TCA, às 22h00, com um espectáculo, intitulado "O Acervo da Quietude", que marca a 3ª presença do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues neste ciclo.
Daniel, justamente reconhecido como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa dos anos 80, preparou para este espectáculo um guião com 20 poemas que incidem sobre a vertente mais lírica, mais nostálgica, mais serena, da sua obra.
As leituras estarão a cargo do próprio autor e ainda dos actores Pedro Lamares, Adriana Faria e Daniela Dias. O franco-atirador Isaque Ferreira apresentará uma performance líquida intitulada "Cortar a fogo".
Presença ainda do pianista Álvaro Teixeira Lopes que interpretará temas inspirados no obra do poeta convidado. O talento fotográfico de Mafalda Capela andará à solta nesta sessão, que se adivinha mágica.
E por falar em magia... o espectáculo fecha com um imperdível concerto acústico de Ana Free, numa das suas raras aparições no Porto.
Dia 19 de Fevereiro no TCA: uma noite cheia de estrelas.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues - poeta convidado
Álvaro Teixeira Lopes - piano
Adriana Faria, Daniela Dias e Pedro Lamares - leituras
Isaque Ferreira - performance
Mafalda Capela - fotografia
Ana Free - concerto acústico
Duas horas de pura magia. Nas "Quintas", pois claro...
Álvaro Teixeira Lopes - piano
Adriana Faria, Daniela Dias e Pedro Lamares - leituras
Isaque Ferreira - performance
Mafalda Capela - fotografia
Ana Free - concerto acústico
Duas horas de pura magia. Nas "Quintas", pois claro...
UM DOS MAISW BELOS POEMAS DA OBRA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
Enquanto tarda o incêndio
No inverno em séculos passados
falava-se de animais.
Junto à lareira comentavam os mais velhos
paisagens de sol
e o vento como sendo a distância
entre a noite e o bosque.
Nas manhãs frias olhava-se
com calma
a neve.
À volta dos sobreiros as crianças brincavam
agasalhadas
de azul.
Hoje, enquanto o incêndio tarda
vou sendo feliz
entre os sobreiros.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues,"Dióspiro"/ Quasi Edições)
No inverno em séculos passados
falava-se de animais.
Junto à lareira comentavam os mais velhos
paisagens de sol
e o vento como sendo a distância
entre a noite e o bosque.
Nas manhãs frias olhava-se
com calma
a neve.
À volta dos sobreiros as crianças brincavam
agasalhadas
de azul.
Hoje, enquanto o incêndio tarda
vou sendo feliz
entre os sobreiros.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues,"Dióspiro"/ Quasi Edições)
06/02/09
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"
ASSIM VOASSEM
Dizemos às vezes
devagar sobre as pedras
enquanto o musgo alastra
rápido pelos troncos.
Assim voassem aves
quando por fim março
abrisse suas portas ao vento.
Assim às nuvens
árvores erguessem o verde -
grandes ramos sorvendo o sol.
x
DESFOCADO
As madressilvas alongam-se pálidas
nas manhãs sem nuvens
e as libélulas passam
lentas de luz
sobre os cedros.
Em intercepções do movimento
no silêncio do quintal
os gatos fogem
cinzentos, verdes, rápidos
desfocados pelo vento.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)
Dizemos às vezes
devagar sobre as pedras
enquanto o musgo alastra
rápido pelos troncos.
Assim voassem aves
quando por fim março
abrisse suas portas ao vento.
Assim às nuvens
árvores erguessem o verde -
grandes ramos sorvendo o sol.
x
DESFOCADO
As madressilvas alongam-se pálidas
nas manhãs sem nuvens
e as libélulas passam
lentas de luz
sobre os cedros.
Em intercepções do movimento
no silêncio do quintal
os gatos fogem
cinzentos, verdes, rápidos
desfocados pelo vento.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)
05/02/09
Elogio
O LADO MAIS NOSTÁLGICO DA POESIA DE DANIEL
O silêncio na lezíria.
O sossego claro
das tardes de setembro.
Ouve-se
entre os álamos
o espanto dos cavalos.
Célere azul das aves.
Garços olhos de cisne
repousando na distância.
Da luz diáfana oiço o filho
"aqui, pai, neste laranjal"
oferecendo grandes gomos
à parada claridade.
x
Entendem as folhas
a rapidez
com que se desprendem dos ramos.
Entendem as asas
a debilidade dos pássaros.
Acima de tudo
o que interessa a novembro
é as crianças poderem dizer
está vento
é sentirem-no arrebatar-lhes os cabelos
engolfar-se nos gorros
misturar-se na roupa quente.
Há uma criança na escola
que através dos vidros vê novembro -
e a meia-distância
ao lado do novembro
vê o anjo da guarda
a atirar pedras
lentamente contra a luz.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
O sossego claro
das tardes de setembro.
Ouve-se
entre os álamos
o espanto dos cavalos.
Célere azul das aves.
Garços olhos de cisne
repousando na distância.
Da luz diáfana oiço o filho
"aqui, pai, neste laranjal"
oferecendo grandes gomos
à parada claridade.
x
Entendem as folhas
a rapidez
com que se desprendem dos ramos.
Entendem as asas
a debilidade dos pássaros.
Acima de tudo
o que interessa a novembro
é as crianças poderem dizer
está vento
é sentirem-no arrebatar-lhes os cabelos
engolfar-se nos gorros
misturar-se na roupa quente.
Há uma criança na escola
que através dos vidros vê novembro -
e a meia-distância
ao lado do novembro
vê o anjo da guarda
a atirar pedras
lentamente contra a luz.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
04/02/09
Dia 19 de Fevereiro. Nas "Quintas de Leitura", pois claro!
Continuamos hoje a divulgar os poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues que serão lidos na sessão "O Acervo da Quietude".
Descanso ao longe próximo das lagoas.
O vento passando assim
dos eucaliptos próximo.
Escurece. Que horas serão na aldeia?
Mergulho os braços nas águas.
As aves entrecruzam-se. Afastam-se
e o silêncio poisa escuro
nas águas.
Oiço por instantes o vento. Revejo
a lua nas lagoas.
Alguém neste momento encara a noite
sente o frio
acende num gesto branco
a tocha antiga.
x
À noite
à ilharga do tempo
de mãos separadas
olhamos as estrelas.
Perdeste o isqueiro
e estás perturbada.
Tens razão:
deixaste para trás
um qualquer pertence
da realidade.
Hesitas se hás-de regressar
ao seu encontro
mas talvez te percas
exactamente aí
ao regressares.
Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
Descanso ao longe próximo das lagoas.
O vento passando assim
dos eucaliptos próximo.
Escurece. Que horas serão na aldeia?
Mergulho os braços nas águas.
As aves entrecruzam-se. Afastam-se
e o silêncio poisa escuro
nas águas.
Oiço por instantes o vento. Revejo
a lua nas lagoas.
Alguém neste momento encara a noite
sente o frio
acende num gesto branco
a tocha antiga.
x
À noite
à ilharga do tempo
de mãos separadas
olhamos as estrelas.
Perdeste o isqueiro
e estás perturbada.
Tens razão:
deixaste para trás
um qualquer pertence
da realidade.
Hesitas se hás-de regressar
ao seu encontro
mas talvez te percas
exactamente aí
ao regressares.
Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
03/02/09
"O ACERVO DA QUIETUDE". A TERCEIRA PRESENÇA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES NAS "QUINTAS".
Mergulho nas profundidades do sono
e no escuro oiço as aves na claridade -
são tranças, tropéis de sonoridades a gotejar em leque
na amplitude de recônditos espelhos
da obscuridade guardiã dos aposentos,
reflectindo na minha face as cores novas do arco-íris.
E não são sonhos, cornucópias de fantasia,
nem o vento a norte da imaginação;
são sim envidraçadas portas abertas
quais projecções lilás na melodia do jardim
onde por vezes pela mão do fim da tarde,
difuso, potente berlinde, me encontro a mim.
x
Anoitece na aldeia
e numa animação de fábula
as pessoas recolhem às casas.
Das chaminés, pelos telhados
o fumo já faz parte da noite.
O amarelo das janelas
pontilha o preto.
O vento perdeu-se no bosque
e as crianças, nos cobertores
usufruem do medo.
Pelas imediações da aldeia
os lobos aproximam-se da realidade.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
e no escuro oiço as aves na claridade -
são tranças, tropéis de sonoridades a gotejar em leque
na amplitude de recônditos espelhos
da obscuridade guardiã dos aposentos,
reflectindo na minha face as cores novas do arco-íris.
E não são sonhos, cornucópias de fantasia,
nem o vento a norte da imaginação;
são sim envidraçadas portas abertas
quais projecções lilás na melodia do jardim
onde por vezes pela mão do fim da tarde,
difuso, potente berlinde, me encontro a mim.
x
Anoitece na aldeia
e numa animação de fábula
as pessoas recolhem às casas.
Das chaminés, pelos telhados
o fumo já faz parte da noite.
O amarelo das janelas
pontilha o preto.
O vento perdeu-se no bosque
e as crianças, nos cobertores
usufruem do medo.
Pelas imediações da aldeia
os lobos aproximam-se da realidade.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
02/02/09
A poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Passavas os dedos de leve
pelos espinhos dos cactos
depois pela suavidade das faces,
a blandícia descias aos braços
ao beiral da janela
aquecido pelas tardes de março.
Havia certamente borboletas azuis
esvoaçando o castanho das planícies,
ágeis animais percorrendo a luz
desdobrada dos olhos da tua janela.
Havia sobretudo tempo
para olhares as borboletas,
havia sobretudo espaço
para se estenderem as planícies.
x
Descem pelas colinas os animais que sonhas.
São grandes ruminantes fulvos
e descem cheios de sol
sobre as relvas.
Ao vento erguem e à claridade as cabeças.
Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem
o céu pintado de azul e água.
Depois seguem. Descem mais.
Devagar chegam aos charcos
bebem
saboreiam uvas
deitam-se
certos de que os vais achar belos
e perfeitamente integrados na paisagem.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
pelos espinhos dos cactos
depois pela suavidade das faces,
a blandícia descias aos braços
ao beiral da janela
aquecido pelas tardes de março.
Havia certamente borboletas azuis
esvoaçando o castanho das planícies,
ágeis animais percorrendo a luz
desdobrada dos olhos da tua janela.
Havia sobretudo tempo
para olhares as borboletas,
havia sobretudo espaço
para se estenderem as planícies.
x
Descem pelas colinas os animais que sonhas.
São grandes ruminantes fulvos
e descem cheios de sol
sobre as relvas.
Ao vento erguem e à claridade as cabeças.
Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem
o céu pintado de azul e água.
Depois seguem. Descem mais.
Devagar chegam aos charcos
bebem
saboreiam uvas
deitam-se
certos de que os vais achar belos
e perfeitamente integrados na paisagem.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
30/01/09
Ana Free - The Rain
www.myspace.com/anafreemusic for more info and free downloads!!
Ana Free estará no TCA na sessão O Acervo da Quietude.
O GRANDE SABOTADOR NO TCA. DIA 19 DE FEVEREIRO
DISTÂNCIA
Hoje sinto-me bem disposto
vou aguardar que o sol
ressurja por detrás das nuvens.
Cães ruivos de pêlo longo
correm
e a cada passada
aproximam-se do voo.
Plátanos esperam
e os pardais preparam bem
a luz.
Talvez sejam horas de regressar
talvez sejam horas de ficar aqui.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi edições)
Hoje sinto-me bem disposto
vou aguardar que o sol
ressurja por detrás das nuvens.
Cães ruivos de pêlo longo
correm
e a cada passada
aproximam-se do voo.
Plátanos esperam
e os pardais preparam bem
a luz.
Talvez sejam horas de regressar
talvez sejam horas de ficar aqui.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi edições)
29/01/09
"O ACERVO DA QUIETUDE". DIA 19 DE FEVEREIRO NO TCA.
Prosseguimos hoje a divulgação de poemas que serão lidos na sessão do dia 19 de Fevereiro, dedicada à obra de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas maçãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia.
x
Percorres a visualização entre o pomar
e o pinhal
e surges menina espalhando claridade.
Encetas planuras ao sol
num fascínio pausado
depois penetras a luz
em fantásticas corridas.
Não sei quem te poderá ver
em tão delicado movimento!
Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.
x
Outubro
mês dos figos maduros
da perfeita tranquilidade
mês
em que das eiras
perdigueiros correm para os currais.
Outubro
mês dos patos nos ribeiros
mês das serras, das perdizes
dos ferreiros, das cegonhas
das paisagens, das feiras com queijo
do sr. sebastião e dos alpendres.
Outubro
mês dos meus avós vivos
levando-me a ver os moinhos de água.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas maçãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia.
x
Percorres a visualização entre o pomar
e o pinhal
e surges menina espalhando claridade.
Encetas planuras ao sol
num fascínio pausado
depois penetras a luz
em fantásticas corridas.
Não sei quem te poderá ver
em tão delicado movimento!
Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.
x
Outubro
mês dos figos maduros
da perfeita tranquilidade
mês
em que das eiras
perdigueiros correm para os currais.
Outubro
mês dos patos nos ribeiros
mês das serras, das perdizes
dos ferreiros, das cegonhas
das paisagens, das feiras com queijo
do sr. sebastião e dos alpendres.
Outubro
mês dos meus avós vivos
levando-me a ver os moinhos de água.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
28/01/09
A poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Trilho os bosques do vento
e dos rios colho rosas
na neblina das margens incertas.
Amor que ao longe descansas
no sol perfeito das clareiras
aguarda que já não tarda
a passagem ampla para os sonhos
o galope transbordante
a vertigem dos cavalos luminosos.
Já vejo nítida a candeia no arvoredo
e o vento chamar o dia
e a planície nascer do charco.
Como se o mar e a madrugada
estivessem submersos pelas ondas
havia água nos limites da água
na enchente dos nossos dias.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
e dos rios colho rosas
na neblina das margens incertas.
Amor que ao longe descansas
no sol perfeito das clareiras
aguarda que já não tarda
a passagem ampla para os sonhos
o galope transbordante
a vertigem dos cavalos luminosos.
Já vejo nítida a candeia no arvoredo
e o vento chamar o dia
e a planície nascer do charco.
Como se o mar e a madrugada
estivessem submersos pelas ondas
havia água nos limites da água
na enchente dos nossos dias.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
Fotografia : Daniel Maia-Pinto Rodrigues na Luz por Pat
27/01/09
OS NOSSOS RECITADORES
Em 2009 eles vão dizer muita poesia nas "Quintas de Leitura":
Susana Menezes
Filipa Leal
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Isaque Ferreira
Pedro Lamares
Paulo Campos dos Reis
Maria do Céu Ribeiro
Nuno Moura
Paulo Condessa
Adriana Faria
Daniela Dias
Inês Veiga de Macedo
GermanO'nunes
Miuxa Carvalhal
Eles são a voz das "Quintas".
Susana Menezes
Filipa Leal
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Isaque Ferreira
Pedro Lamares
Paulo Campos dos Reis
Maria do Céu Ribeiro
Nuno Moura
Paulo Condessa
Adriana Faria
Daniela Dias
Inês Veiga de Macedo
GermanO'nunes
Miuxa Carvalhal
Eles são a voz das "Quintas".
A poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Repousam há horas os tordos
nos cedros.
Chego a este lugar verde
lugar de musgo se existissem muros
lugar de ténues cores ou
da luciluzente tranquilidade da erva
e das glaucas folhas dadas ao vento.
Esta ausência de ruído
ausência rútila de silêncio
forma idílica de as borboletas tocarem
o alecrim.
Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
nos cedros.
Chego a este lugar verde
lugar de musgo se existissem muros
lugar de ténues cores ou
da luciluzente tranquilidade da erva
e das glaucas folhas dadas ao vento.
Esta ausência de ruído
ausência rútila de silêncio
forma idílica de as borboletas tocarem
o alecrim.
Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
26/01/09
"O ACERVO DA QUIETUDE". DIA 19 DE FEVEREIRO NO TCA.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues será o poeta convidado da próxima sessão das "Quintas de Leitura". Um espectáculo que contará ainda com outras presenças fulgentes:
Pedro Lamares, Daniela Dias e Adriana Faria (leituras)
Isaque Ferreira (performance líquida)
Álvaro Teixeira Lopes (piano)
Ana Free (concerto acústico)
Mafalda Capela (fotografia)
Os bilhetes serão postos à venda a partir de terça-feira, dia 27 de Janeiro.
Iniciamos hoje a publicação de todos os poemas que serão lidos na sessão. Uma selecção feita pelo próprio poeta convidado.
DEVAGAR
Devagar
setembro
entorna luz na planície.
Devagar
o vento
inventa choupos.
E choupos
devagar
tornam-se rio.
Devagar cavalos surgem galopando
erguem brancas as cabeças
respiram verdes a claridade.
E depois seguem
devagar
pelos túneis de luz.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)
22/01/09
Hoje é dia de super poeta
valter hugo mãe, nas "Quintas de Leitura":
o super homem
vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições
(valter hugo mãe, "folclore íntimo" / Cosmorama Edições)
o super homem
vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições
(valter hugo mãe, "folclore íntimo" / Cosmorama Edições)
21/01/09
o poema que abre a sessão
gordo e careca
onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter
com quem, tão precipitado no vazio do
caminho à procura de quê
porque não ficas em casa, resignadamente só, a
ver como a vida se gasta sem culpa nem glória
és um rapaz estranho, valter hugo mãe, aí metido
num amor nenhum que te magoa e esperas ter
lugar no mundo, com tanto que o mundo tem de distraído
devias morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis, como dizes que
vai acontecer, para que se acabe essa
imprecisa sentença que é a vida
volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça, estás
gordo e careca, não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado menos percorrido pelos banhistas
volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)
onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter
com quem, tão precipitado no vazio do
caminho à procura de quê
porque não ficas em casa, resignadamente só, a
ver como a vida se gasta sem culpa nem glória
és um rapaz estranho, valter hugo mãe, aí metido
num amor nenhum que te magoa e esperas ter
lugar no mundo, com tanto que o mundo tem de distraído
devias morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis, como dizes que
vai acontecer, para que se acabe essa
imprecisa sentença que é a vida
volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça, estás
gordo e careca, não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado menos percorrido pelos banhistas
volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)
A NATUREZA REVOLUCIONÁRIA DA FELICIDADE
Amanhã o céu estará estrelado para os lados do TCA.
Entregaremos a nossa felicidade nas mãos dos seguintes artistas:
valter hugo mãe - o grande responsável
Bruno Pereira - performance musical
Pedro Pereira - piano (directamente de Moscovo para as "Quintas")
Isaque Ferreira - leituras
Pedro Lamares - leituras
Maria do Céu Ribeiro - leituras
Slimmy e a sua banda - concerto acústico
Marco Oliveira - apresentação do novo genérico das "Quintas"
Prometemos: 150 minutos de pura Poesia.
Entregaremos a nossa felicidade nas mãos dos seguintes artistas:
valter hugo mãe - o grande responsável
Bruno Pereira - performance musical
Pedro Pereira - piano (directamente de Moscovo para as "Quintas")
Isaque Ferreira - leituras
Pedro Lamares - leituras
Maria do Céu Ribeiro - leituras
Slimmy e a sua banda - concerto acústico
Marco Oliveira - apresentação do novo genérico das "Quintas"
Prometemos: 150 minutos de pura Poesia.
20/01/09
Um mundo de boas pessoas
Carlos Vaz Marques entrevistou valter hugo mãe para o programa Pessoal e Transmissível da TSF ( emitido a 29 de Setembro de 2008) .
À pergunta: qual é a sua crença mais profunda? valter responde:
"Acredito que este ainda vai ser um mundo de boas pessoas!"
O som desta conversa está online aqui:
http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=1019588
À pergunta: qual é a sua crença mais profunda? valter responde:
"Acredito que este ainda vai ser um mundo de boas pessoas!"
O som desta conversa está online aqui:
http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=1019588
Uma notícia atrasada
a poesia de valter hugo mãe
Este é o poema que escolhemos para a folha de sala da sessão da próxima quinta-feira. Será lido por Maria do Céu Ribeiro.
esplendorosa borboleta de sangue
todos os monstros têm o teu
nome, de mais ou menos bocas, grandes ou
pequenas milhares de patas, sangue jorrando ou
líquenes desfeitos, todos os monstros têm
o teu nome e por ofício perseguem-me. entram
por mim no soalheiro mundo dos
homens, usam a minha incúria
eu sou
uma esplendorosa borboleta de sangue. um
ser que voa no coração
e cada monstro virá dizer que me ama e
saberá convencer-me a suportar os seus
tentáculos, a apreciar até os beijos nos
orifícios mucosos por onde expele a
língua e será capaz de me fazer querer o
esbracejar nocturno dos seus gestos
e eu direi o teu nome e nunca me
enganarei
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)
esplendorosa borboleta de sangue
todos os monstros têm o teu
nome, de mais ou menos bocas, grandes ou
pequenas milhares de patas, sangue jorrando ou
líquenes desfeitos, todos os monstros têm
o teu nome e por ofício perseguem-me. entram
por mim no soalheiro mundo dos
homens, usam a minha incúria
eu sou
uma esplendorosa borboleta de sangue. um
ser que voa no coração
e cada monstro virá dizer que me ama e
saberá convencer-me a suportar os seus
tentáculos, a apreciar até os beijos nos
orifícios mucosos por onde expele a
língua e será capaz de me fazer querer o
esbracejar nocturno dos seus gestos
e eu direi o teu nome e nunca me
enganarei
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)
19/01/09
OS POETAS CONVIDADOS DAS "QUINTAS"
22 de Janeiro
valter hugo mãe
"a natureza revolucionária da felicidade"
19 de Fevereiro
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
"O acervo da quietude"
26 de Março
Filipa Leal
"Havemos de ir a Viana"
23 de Abril
Vítor Nogueira
"Bagagem de mão"
"Quintas de Leitura" - a força da palavra.
valter hugo mãe
"a natureza revolucionária da felicidade"
19 de Fevereiro
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
"O acervo da quietude"
26 de Março
Filipa Leal
"Havemos de ir a Viana"
23 de Abril
Vítor Nogueira
"Bagagem de mão"
"Quintas de Leitura" - a força da palavra.
a poesia de valter hugo mãe
nenhum amor escapa impune
deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que, também eu, sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
(valter hugo mãe, "folclore íntimo", Cosmorama Edições)
deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que, também eu, sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
(valter hugo mãe, "folclore íntimo", Cosmorama Edições)
16/01/09
"QUINTAS" COM MUITA MÚSICA
Anunciamos hoje, em primeira mão, os concertos que nos esperam nos próximos meses no TCA, no âmbito do ciclo "Quintas de Leitura".
22 de Janeiro:
Slimmy
Pedro Pereira (piano)
19 de Fevereiro:
Ana Free
Álvaro Teixeira Lopes (piano)
26 de Março:
Lula Pena
23 de Abril:
Mazgani
14 e 15 de Maio:
Lucía Aldao (Galiza)
Os Garfunkels
18 de Junho:
Aldina Duarte
As "Quintas" dão-lhe boas razões para não ficar em casa. Atreva-se.
22 de Janeiro:
Slimmy
Pedro Pereira (piano)
19 de Fevereiro:
Ana Free
Álvaro Teixeira Lopes (piano)
26 de Março:
Lula Pena
23 de Abril:
Mazgani
14 e 15 de Maio:
Lucía Aldao (Galiza)
Os Garfunkels
18 de Junho:
Aldina Duarte
As "Quintas" dão-lhe boas razões para não ficar em casa. Atreva-se.
a poesia de valter hugo mãe
burocracia do fim de uma longa amizade
serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)
serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)
15/01/09
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