16/03/09

OS MÚSICOS DAS "QUINTAS"

A música é uma componente importante do ciclo "Quintas de Leitura".
Lembramos hoje muitos dos músicos que participaram nas nossas sessões e deixaram a sua marca de talento:

Ana Deus
Fernando Rodrigues
Quico Serrano
Miguel Azguime
António Olaio & João Taborda
Ricardo Serrano
Jorge Salgado
João Pedro Coimbra
Khora Emsemble
Margarida Reis
Rogério Pinto
Melissa Fontoura
Pedro Tudela
O Projecto é Grave!
Caetano Veloso
Pedro Abrunhosa
@c
Fátima Santos
Mesa
Pedro Moura, Paulo das Cavernas e João Ricardo
X-Wife
Mário Laginha
Adolfo Luxúria Canibal & António Rafael
Bernardo Sassetti
Luísa Cruz e Jeff Cohen
Alexandre Soares
J.P. Simões
Sílvia Mateus
Álvaro Teixeira Lopes
Plaza
Rui Reininho e Armando Teixeira
Vera Mantero, Vítor Rua e Nuno Rebelo
Old Jerusalem
Henrique Fernandes
João Lima
Mário Teixeira
Aldina Duarte
Lula Pena
Mécanosphère
Paulo Vaz de Carvalho
Domingos António
Dead Combo
Mônica Coteriano & The Take-Away Boys
Tânia Carvalho
The Legendary Tiger Man
Jorge Palma
O'questrada
Bulllet
Paulo Praça e Os Bons Rapazes
Thollem McDonas
Agnes Heginger e Georg Breinschmid
Meme
Eldbjorg Raknes
Amanalupa
Projecto "João Peludo"
Marta Bernardes
Chat
valter hugo mãe
Bruno Pereira
Pedro Pereira
Carlos Bica
João Esteves da Silva
Lucía Aldao
Couple Coffee
Ela não é francesa ele não é espanhol
Mazgani
Tiago Bettencourt
Carlos Maza
Raúl Peixoto da Costa
Slimmy
Ana Free



FALTAM 10 DIAS PARA A SESSÃO COM FILIPA LEAL

Ela é uma das vozes mais importantes da novíssima poesia portuguesa. Vai estar nas "Quintas de Leitura" no próximo dia 26 de Março.

No Princípio Era

Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.

(Filipa Leal, Janeiro de 2007)

13/03/09

HAVEMOS DE IR A VIANA

Uma sessão cheia de estrelas fulgentes.
Com sorte, seremos projectados muito para lá de Viana.
Participações, sem peias, sem rede:

FILIPA LEAL (poeta convidada)
CARLA MIRANDA, GERMANO'NUNES e PAULO CAMPOS DOS REIS (leituras)
BRUNA CARVALHO e RICARDO VIDAL (dança)
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA (violoncelista)
LULA PENA (concerto acústico)
JOANA RÊGO (pintura)

Cento e vinte minutos de pura magia...

OS NOSSOS ENTREVISTADORES

Eles, muitas vezes, "obrigaram" os poetas a falar. São os entrevistadores das "Quintas de Leitura". Aqui ficam os seus nomes, por ordem de entrada em cena:

valter hugo mãe
António M. Feijó
Manuel António Pina
Rui Reininho
Anabela Mota Ribeiro
Jorge Reis-Sá
Eucanaã Ferraz
Pedro Abrunhosa
Pedro Eiras
Fernando Alvim
António Mega ferreira
Manuela Veloso
Rosa Maria Martelo
Fernando Pinto do Amaral
Filipa Leal
Fátima Pombo
Alberto Serra
Gabriela Moita
Luís Miguel Queirós
Adolfo Luxúria Canibal
Fernando Galrito
Isabel Lopes Gomes
Miguel Cadilhe
João Pereira Coutinho
Rui Moreira
Ana Salomé
Maria João Seixas
Inês Pedrosa
Dinis Cayolla
Mariana Rocha
Nuno Artur Silva

12/03/09

ESTE POEMA NÃO VAI SER LIDO NA SESSÃO DE FILIPA LEAL

Confesso. Este é o meu poema preferido de toda a obra de Filipa Leal. Não resisto a divulgá-lo:



Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

11/03/09

O POETA CONVIDADO DE ABRIL

Vítor Nogueira estará nas "Quintas de Leitura" a 23 de Abril.
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão".
Revelamos hoje o poema que encerrará a sessão:

ESPLANADA

Por vezes os danos apanham-nos de surpresa.
Por vezes pensamos que podemos reparar
os danos. Se soubéssemos cantar, era uma ajuda.
Há pessoas a espreitar pela janela, no seu modo
de tornar as casas um pouco mais habitáveis.

Que importantes nos tornámos, de repente.
Discutimos o mundo com base em
pequenas coisas, pequenas queixas
do glorioso mecanismo do corpo humano.
(O corpo, claro, tem as suas exigências.)

Aquiles, por exemplo, tem passado melhor
do calcanhar. Haverá sempre um lugar para ele
à mesa do Olimpo. Bem-vindo à unidade
de cuidados intensivos, onde as cervejas se querem
frescas e a dividir por todos.

(Vítor Nogueira, in "Comércio Tradicional"/Averno)

10/03/09

LULA PENA - ROSA

OS LIVROS DE FILIPA LEAL

Para quem quiser conhecer melhor a obra de Filipa Leal:

2003
«Lua-Polaroid», Corpos Editora
2004
«Talvez os Lírios Compreendam», Cadernos do Campo Alegre
2006
«A Cidade Líquida e Outras Texturas», Deriva Editores
2008
«O problema de Ser Norte», Deriva Editores
2009
«A Inexistência de Eva», Deriva Editores

FAZ BEM À ALMA LER HERBERTO HELDER PELA MANHÃ.

*
quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua
que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo,
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado

(HERBERTO HELDER, in "A faca não corta o fogo"/ Assírio & Alvim)

09/03/09

UM POEMA INÉDITO DE FILIPA LEAL

Este poema, dedicado a Adilia Lopes, foi escrito por Filipa Leal no dia 23 de Outubro de 2008. É o poema da folha de sala da sessão "Havemos de ir a Viana". Será lido por germanO´nunes.

APOCALYPSE NOW

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

(Filipa Leal)



lula pena, caramba, vá lá. estás a deixar-nos mesmo à espera. não é justo. mete na tua cabeça: o mundo precisa de mais discos teus. precisa, caramba, precisa.
valter hugo mãe (mensagem publicada no Myspace de Lula Pena em 17 Nov 2008, às 23:45 )
As Quintas de Leitura estão felizes. Para a semana a Lula está cá.

UMA CURIOSIDADE

(fotografia de Guilhermina Suggia - George Eastman House Still Photograph - Archive. Aqui.)




Na próxima sessão das "Quintas de Leitura" (dia 26 de Março), o violoncelista José Pereira de Sousa vai tocar com o Montagnana que pertenceu a Guilhermina Suggia (1885-1950).


O Montagnana (que tem inscrita uma data que pode ser lida como 1700 ou 1710) é um violoncelo construído pelo italiano Domenico Montagnana (1686-1750).
O instrumento foi avaliado em três milhões de euros e é propriedade da Câmara Municipal do Porto. José Pereira de Sousa, primeiro-violoncelo da ONP, é o actual depositário do instrumento, na sequência de um acordo estabelecido com a Câmara do Porto. Desde há dois anos, o Montagnana é utilizado com regularidade por Pereira de Sousa,
que cuida da sua manutenção e o mantém em actividade.


"Tocar nele é não só dá-lo a ouvir mas também mostrá-lo às pessoas, que assim usufruem deste património único", revelou o músico ao jornal "Público".


Na sessão, José Pereira de Sousa interpretará a Suite nº 1 de Bach.

06/03/09

ALGUÉM ME REPETIA

A voz é grave e rouca.
Na mesa ao lado, chora uma criança que não conhece a memória.
Há uma voz quente que um dia me falou ao ouvido.
Dizia-me.
Tentava explicar-me os ventos, as marés,
o terno refúgio dos dias que estão longe.
Eu julgo que dormia aninhada, com os olhos brilhantes e o coração atento.
Talvez tenha sentido uma mão leve a percorrer-me as costas. Talvez devagar.
Fazia movimentos circulares. Talvez tentasse mostrar-me o caminho.
Dizia-me.
Eu não compreendi porque vivia como se recordasse já.
Não há tempo para o presente quando se está fechado na memória.
Disse.
Não vivia do passado. Não era isso que tentava dizer: Havia em mim a certeza
da recordação futura - como a espiral de onde não se sai.
A voz começou a delirar em círculos. Ofendidos talvez, os círculos.
Eu estava no centro desse som que baixava como se a qualquer momento
pudesse abater-se sobre mim. Sem me sufocar talvez.
Dizia. Dizia.
A linguagem tornava-se cada vez mais estranha e imprópria.
Como nos sonhos em que se procura gritar
talvez agitasse os braços levemente.
Mas nenhuma voz nos cabe nas mãos, nem nas palavras.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Alguém repetia.
Mas a voz era cada vez mais líquida e talvez não coubesse no poema.
As mãos arrastavam o corpo para o lugar onde a minha solidão
talvez recordasse a voz. Dizia-me. Para que mais rápido se interrompesse
o dia, para que mais rápido se recordasse
a vida. Eu ia rolando sobre a cama como uma criança em direcção ao abismo.
As mãos voltavam a trazer-me para o centro do círculo.
No silêncio, perderia a consciência. São sempre as vozes que nos trazem
de volta. Talvez.
Era o dia em que me encostei à parede para olhar o círculo, a voz, as mãos.
Como se observasse aquela solidão.
E não houve nada que me pudesse dizer: Talvez.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

05/03/09

SE AO MENOS A CHUVA

Andava às voltas
no topo de si mesmo
e do monte.
Trepara a encosta
como em pequeno
trepava às árvores:
para ver melhor.

Vivia tão longe da água
que tinha a boca seca.

Agora andava às voltas
cheio de sede
a esgotar-se, a suar:

Porque não paras?,
perguntar-lhe-ia, se pudesse
entrar neste poema.

Não havia nada no cimo de si
nem do monte
- apenas o azul e algumas aves
que respiram mais alto.

A cidade ficava a meio caminho
entre o céu e a terra
(o céu lá para cima, ainda depois do monte,
a terra cá para baixo, um pouco antes da sede).

Ele andava às voltas com a vida:
atirava-lhe pedras, gritava
(se ao menos a chuva! se ao menos a chuva!)
como quem não encontra.

Só mais tarde entendi o que procurava:
um mar.

( Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

04/03/09

"Havemos de ir a Viana"



Filipa Leal e Lula Pena
de regresso às Quintas de Leitura


"Preferia que o ego baixasse como as taxas de juro." (Filipa Leal)

A próxima sessão do ciclo “Quintas de Leitura”, a realizar no Auditório do Teatro Campo Alegre, às 22h00 do próximo dia 26 de Março, marca o regresso a este ciclo poético de duas vozes importantes da cultura portuguesa.

Filipa Leal, a poeta convidada, regressa dezoito meses depois de um espectáculo dedicado ao seu livro “A Cidade Líquida e Outras Texturas”. Lula Pena estreou-se nas “Quintas de Leitura” em Novembro de 2005, num espectáculo dedicado à obra de António Mega Ferreira.

Desta feita, a sessão que junta não apenas Filipa Leal e Lula Pena, mas uma série de outros convidados, intitula-se "Havemos de ir a Viana" e será momento para Filipa nos revelar alguns textos inéditos, juntamente com outros retirados dos seus livros de poemas "O Problema de Ser Norte" (2008) e “A Cidade Líquida e Outras Texturas" (2006).

Palavra, dança, pintura e música são os ingredientes mágicos desta sessão inesquecível.

Nas leituras, a Poeta será acompanhada por germanO' nunes e pelos actores Paulo Campos dos Reis e Carla Miranda. Presença ainda do violoncelista José Pereira de Sousa que interpretará obras de Bach.

No que toca à imagem do espectáculo, a artista plástica Joana Rêgo mostrará dezoito pinturas inéditas, produzidas de raiz para este evento e inspiradas no universo poético de Filipa Leal.

Lula Pena apresentará um concerto de cerca de trinta minutos. Uma das raras oportunidades de ver esta artista a actuar no Porto.

Por fim, refira-se ainda a actuação de Bruna Carvalho e Ricardo Vidal em "Movimentos diferentes, para pessoas diferentes", pequenos solos de dança coreografados por Tânia Carvalho.

As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às "novíssimas" vozes da poesia portuguesa. Estão já agendadas sessões com os poetas Filipa Leal, Vítor Nogueira, Miguel-Manso e Vasco Gato, alguns dos nomes mais importantes da nova geração de poetas.

Uma noite plena de Poesia, que o obriga a juntar-se a nós.

OS QUE NÃO VIAM

Na cidade, os que não viam
perguntavam: "Estás aí?"
mesmo quando não falavam
ao telefone.

E tudo era pausa
sem a nítida respiração
das coisas.
Tudo era ainda
à espera da voz, do som
natural ou improvável.
Tudo era antes de ser.

Havia também os que viam.
Mas esses, tragicamente,
perguntavam menos.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

03/03/09

REPARTIÇÃO

As pessoas perdiam-se
às vezes no branco
às vezes no traço imperfeito.
Algumas cortavam-se na margem,
rasgavam os dias;
outras queimavam arquivos
com saudades de casa,
cheiravam a mofo.

Garanto-lhe: havia centros
da cidade só para recolher
esses restos de caule.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

NO FUNDO DOS RELÓGIOS

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

02/03/09

Raul volta e vence


Notícia publicada no jornal Diário do Minho, dia 28 de Fevereiro de 2008.
(para ler clciar sobre a imagem)
Raúl Peixoto da Costa, que se estreou nas Quintas de Leitura em Dezembro de 2008,
regressará às nossas sessões em Junho neste espectáculo:
FAZES-ME FALTA
Quintas de Leitura
18 de Junho de 2009
Auditório
Maiores de 16 anos
Uma "Quinta de Leitura" construída sob o signo do Amor.
Um recital de poesia com todas as letras, concebido por João Gesta e Mafalda Capela.
Belos e inesperados poemas de amor escolhidos pela escritora Inês Pedrosa.
A fadista Aldina Duarte junta-se à festa. António Jorge Gonçalves (imagem da sessão)
e Victor Hugo Pontes (performance) dão mais força à Liberdade.
Presença ainda do jovem pianista Raúl Peixoto da Costa, recentemente premiado em Paris.

A NOSSA ALDEIA

Era uma aldeia sem luz
directa. Uma aldeia de paredes
amarelas cujos habitantes reagiam
à sombra das palavras e as mediam
(de que tamanho o verbo?),
lavavam, preparavam para os outros.
Era uma aldeia onde se decidia a palavra
do dia seguinte, a ideia do dia seguinte,
a vida e a morte do dia seguinte.
Era uma aldeia com um plano:
o plano era simples: o plano era concreto:
o plano era difícil como a luz.
Era uma aldeia interdita na possibilidade
do sol mas tão plena de esforço na linguagem.
Era uma aldeia cujos habitantes só poderiam
comprar uma aldeia com janelas, uma aldeia
cor de mundo, se os outros habitantes,
os que estavam lá fora, lessem realmente
as palavras que eles para eles preparavam.
Era, apesar de tudo, uma velha aldeia
sem ressentimentos.

Porque a nossa aldeia era única.
Era a única aldeia no centro
da cidade.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte" / Deriva Editores)