03/03/09
NO FUNDO DOS RELÓGIOS
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.
(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)
02/03/09
Raul volta e vence

A NOSSA ALDEIA
directa. Uma aldeia de paredes
amarelas cujos habitantes reagiam
à sombra das palavras e as mediam
(de que tamanho o verbo?),
lavavam, preparavam para os outros.
Era uma aldeia onde se decidia a palavra
do dia seguinte, a ideia do dia seguinte,
a vida e a morte do dia seguinte.
Era uma aldeia com um plano:
o plano era simples: o plano era concreto:
o plano era difícil como a luz.
Era uma aldeia interdita na possibilidade
do sol mas tão plena de esforço na linguagem.
Era uma aldeia cujos habitantes só poderiam
comprar uma aldeia com janelas, uma aldeia
cor de mundo, se os outros habitantes,
os que estavam lá fora, lessem realmente
as palavras que eles para eles preparavam.
Era, apesar de tudo, uma velha aldeia
sem ressentimentos.
Porque a nossa aldeia era única.
Era a única aldeia no centro
da cidade.
(Filipa Leal, in "O problema de ser norte" / Deriva Editores)
27/02/09
Já por cá passaram os melhores pianistas do planeta. Faltava o GATO BENEVIDES. Assunto resolvido: ele estará nas "Quintas" em Agosto, abrilhantando a sessão dedicada à obra de Joaquim Carapau, uma das vozes mais líquidas da poesia portuguesa contemporânea.
Bilhetes à venda no bar da praia dos Alteirinhos, Zambujeira do Mar.
João Gesta.
HÁ UM LAGO NA INFÂNCIA
lá para cima
um passo de desarmonia
um vestígio de escadas retiradas
na primeira oportunidade
um lago, há também um lago
na infância sem barco que o possa
atravessar e uma pedreira branca
ambos sem utilidade
e algumas crianças
que pintam a vaga pocilga de pedra
e riem e apanham rãs em vez de fruta
e apanham uvas, também apanham uvas
de outra nacionalidade
e antes de se escrever durante a noite
contra o sono
havia um caminho de terra
incerto apenas nas suas pedras
na útil ambiguidade do solo
(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)
26/02/09
MAIS POESIA DE FILIPA LEAL
Era uma linha fonética no vidro.
Linha como árvore obsessiva deste livro,
como linha verdadeira, como página
que se organiza por causa dela.
Linha que não era de comboio, linha sem agulhas
penduradas, sem linha da mão, sem linha
de gente do outro lado da linha, de gente
que quer manter a linha. Linha fria de transparência,
fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema.
Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó
da noite nos outros. Assim era a minha linha:
linha realmente fonética, absolutamente inalterável.
AFINAL, A MEMÓRIA
Afinal eram iguais os homens
as mulheres
vistos de cima
quando abanavam ligeiramente a cabeça
para a frente e para trás
ao mesmo tempo,
ou se inclinavam nas horas da infância, da minha infância,
ou quando mexiam no cabelo uns dos outros
para eu adormecer.
Afinal a memória era um lugar parecido
com a memória, e o sonho era um lugar parecido
com a memória, e nós talvez fôssemos todos, na verdade,
parecidos
uns com os outros.
(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)
25/02/09
A POESIA DE FILIPA LEAL
Teve nessa tarde uma criança
desconhecida a segurar-lhe na mão.
Uma criança agarrada com força, uma criança
que apanhou em flagrante a sua mão vazia
e a ocupou como território de criança.
O dia começara assim: primeiro o rio, depois o verde
no terreno da família, agora o mar.
Foi na terceira tentativa que encontrou a criança,
criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo
o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia
rimado: criança rima com esperança, criança rima.
E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis,
tão sem a criança anterior. Foi na terceira caminhada,
quando a incerteza parecia cada vez maior, quando
o pensamento não acompanhava o passo decidido
junto à marginal, quando o pai da criança lhe falou
no perigo de dar a mão a estranhos, sem entender que
o verdadeiro perigo
era a mão outra vez vazia de criança.
(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)
Comentário
Caro Senhor:
Venho por este e-mail dar-lhe os parabéns, extensíveis a toda a equipa, por mais uma sessão das "Quintas de Leitura".
Tendo assistido já a várias sessões, continuo a achar que a mais valia destas duas horas, em que nos desligamos do que se passa lá fora e entramos numa realidade pararela levitando sobre os poemas e notas de música, é o cruzamento entre a literatura, a música, as artes plásticas e as próprias performances.
Como leitor, escrevinhador e apreciador de poesia apenas posso desejar continuação de bom trabalho.
Com os melhores cumprimentos,
Tiago Montenegro
23/02/09
FILIPA LEAL NAS "QUINTAS DE LEITURA"
O PESO DOS LIVROS
Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.
Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.
E um hálito branco a querer ser página.
(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)
20/02/09
A nossa cidade


19/02/09
PARABÉNS Raúl Peixoto da Costa
Raúl Peixoto da Costa, o jovem pianista que participou na sessão de Quintas de Leitura de Dezembro passado ( sessão de lançamento da antologia Diga 33 - os poetas das Quintas de Leitura), acaba de vencer o primeiro prémio do concurso Alexander Scriabin, no conservatório russo em Paris.
Entre candidatos de todo o mundo, Raúl foi classificado em primeiro lugar e é o único entre os premiados que não é de nacionalidade russa.
Os prémios ainda não foram anunciados porque este concurso (9th INTERNATIONAL PIANO COMPETITION - February 16-19, 2009, Paris) termina hoje.
Na nossa sessão, em 18 de Dezembro, o jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretou ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev, no grande auditório do TCA, deixando mais de 300 pessoas encantadas com a sua actuação.
Parabéns Raúl.
Fotografia de Sara Moutinho captada durante a actuação de Raúl nas Quintas de Leitura.Conheça o conservatório clicando aqui.
O ACERVO DA QUIETUDE. HOJE, NUM TEATRO PERTO DO SEU CORAÇÃO
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
ANA FREE
ÁLVARO TEIXEIRA LOPES
ISAQUE FERREIRA
MAFALDA CAPELA
ADRIANA FARIA
DANIELA DIAS
RUTE PIMENTA
«Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.»
18/02/09
"OS NOVÍSSIMOS" NAS "QUINTAS DE LEITURA"
As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às vozes da "novíssima poesia portuguesa". Estão agendadas sessões com quatro importantes poetas desta geração: Filipa Leal, Miguel-Manso, Vasco Gato e Vítor Nogueira.

Publicamos hoje mais dois poemas de Vítor Nogueira, retirados do seu livro "Bagagem de mão" (editora &etc):
É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS
É aqui que passamos os dias, encarcerados
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.
Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.
Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.
À NOSSA
Três pessoas encostadas ao balcão,
tentando enviar uma mensagem de
socorro. Todos queremos estar aqui,
para quando formos salvos.
Do outro lado, há um tipo que se instala
numa mesa, espalhando amendoins,
descobrindo a sua vocação.
Um homem deve ter talento nos dedos,
saber fazer alguma coisa.
E, nisto, melhoramos a nossa visão
nocturna, mijamos na mesma latrina,
fazemos com que este lugar funcione.
Juntem-se mais, para cabermos todos
na fotografia.








