22/12/08

DIGA 33 - fotografias da Quinta de Leitura- Primeira parte


Raúl Peixoto da Costa



valter hugo mãe



Nuno Júdice





Maria do Rosário Pedreira



João Rios


Filipa Leal

Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Daniel Jonas

Catarina Nunes de Almeida


Ana Luísa Amaral



Ana Deus e Tó Trips

Mariana e Rita Reis


Adriana Faria


Fotografias de Sara Moutinho.

O espectáculo de lançamento da antologia DIGA 33 - os poetas das Quintas de Leitura foi uma grande Festa de Poesia. Leituras, música, canto, performance.
Aqui estão imagens de todos os que estiveram em palco na primeira parte do espectáculo.
Na plateia, os também antologiados João Habitualmente e Adolfo Luxúria Canibal.
Lotação esgotada no grande auditório do TCA para ver e ouvir a poesia no ar.



19/12/08

30.000 PÁGINAS VISITADAS DO NOSSO BLOGUE

O mais belo poema do mundo para todos aqueles que nos continuam a dar força e a alimentar este ciclo poético.

ode doméstica

tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu
vou pensando em coisas velhas
- sem sombra de desdém! -
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado

e declina, o dia

o pequeno pastor já não vem

(Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Assírio & Alvim)

16/12/08




No on-line da revista Viva já referem o DIGA 33. Para ler clicar aqui.


Amanhã, na RDP, Antena 1 (excluindo emissão online), João Gesta contará tudo sobre esta iniciativa no programa Portugal em Directo, entre as 13h00 e as 14h00. (Emissão Antena 1 em 96.7 fm).

15/12/08

Os retratos dos Poetas

Inaugura já amanhã a exposição dos retratos dos Poetas das Quintas de Leitura. Os 33 retratos da fotógrafa Pat estarão em exposição no Foyer do teatro de 16 de Dezembro até 31 de Janeiro de 2009, das 14h00 às 22h00.

MUITA MÚSICA NAS "QUINTAS"

A sessão da próxima quinta-feira, dia 18, é também uma verdadeira festa da música. Vejam os artistas convidados:

- o jovem pianista Raúl Peixoto da Costa. Interpretará temas de Bach, Chopin e Prokofiev.
- directamente de Madrid, a cantora Marta Bernardes.
- a surpreendente voz de valter hugo mãe.
- a dupla Ana Deus (voz) + Tó Trips (guitarra). Rara oportunidade para os ver actuar juntos.
- na segunda parte, actuará, durante 60 minutos, o grupo O´questrada, depois de uma triunfal digressão a Paris. A banda é composta por Marta Miranda (voz), João Lima (guitarra portuguesa), Zeto (guitarra e voz), Pablo (contra-bacia) e Donatello (acordeão).

Não fique em casa - junte-se às "Quintas", nesta noite cheia de música.

12/12/08

Mário Cesariny


Na próxima quinta-feira, dia 18, queremos oferecer aos Amigos que nos têm seguido desde 2002 uma noite mágica. Cheia de poesia, música e algumas surpresas.

Este poema de Mário Cesariny inspira-nos para prosseguirmos a nossa acção ao serviço do Sonho.

mágica

É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite

São edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância

São velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamento

É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sòzinho
é a veia que é coração

São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar

São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns

É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada

É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer côr de rosa
um ar inocente, ácido

(Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação"/ Assírio & Alvim)

11/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ALDINA DUARTE

PRINCESA PROMETIDA

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços duma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida

(Aldina Duarte, in "Mulheres ao Espelho"/ disco)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ANA DEUS

MALHA MORTA

é segunda faço sopa
é terça mudo de roupa
não sei se mudo de pele
quando à quarta vou com ele
se à quinta corto as veias
à sexta estou sem ideias

sábado levanto e calo
domingo acordo e falo, sempre com algum atraso
é tarde no meu buraco
faço de conta que esqueço
aquilo que não mereço

sinto-me tal qual
uma velha canção
sinto-me tal qual
um refrão que odiei

à segunda aperto o laço
do garrote que a mim faço
à terça espero que passe
à quarta uso disfarce
na quinta ponho um vestido
à sexta perco o sentido

a dias me sinto suja
o que lavo vira negro
não sei porque continuo
esta malha em segredo
faço de conta que esqueço
aquilo que não conheço

sinto-me mal qual
uma velha canção
sinto-me mal qual refrão que odiei

(Ana Deus - poema inédito)

10/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PAULO CONDESSA

CADA LÁGRIMA (II)

Cada lágrima é um beijo
e em cada lágrima caio eu Tu o beijo a cascata
são já pétalas somos flores
caímos sempre a subir
esquecemos avisos em cima de avisos
somos galgos brancos alados
subimos nuvens, absortos
insubmissos

(Paulo Condessa, in "o céu dentro da boca")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ANTÓNIO MEGA FERREIRA

DÚVIDA

Kipling conta como Adão, acolhendo-se à sombra da Árvore do Paraíso, pegou num ramo e desenhou «o primeiro desenho que alguém alguma vez pôde ver»; e ficou assim, deslumbrado com a sua destreza, até que, de entre os arbustos que circundavam a clareira, se ouviu a voz do Demónio: «É bonito. Mas será Arte?»

(António Mega Ferreira, in "O que há-de voltar a passar")

09/12/08

Os Maias contados às crianças (fotografias)

Fotografias do espectáculo que nasceu de uma parceria entre as Quintas de Leitura e o Serviço Educativo do TCA clicando aqui.

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JORGE REIS-SÁ

NA MORTE DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Sabes, Jorge, quantos poetas vão escrever versos inúteis
porque morreu um pai e a orfandade é uma coisa que dói?
Então porque o fazes tu sem respeito nenhum pelo sorriso
invertido com que o Eugénio te agraciava as visitas? Da

orfandade sabes tu o que dizer. E disseste-o sem pudor
pela mãe que, viúva, leria os teus versos, pelo irmão que mais
orfão do que tu os sabia também seus. Não que o Eugénio

tivesse sorrisos para outros - que não tinha - mas porque
depois de algum tempo era assim que o querias, zangado
com tudo e com todos, apenas pensando naquele banco
junto ao jacarandá de onde acabou partindo para o seu prado.

(Jorge Reis-Sá, in "Livro de Estimação")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

WHITE LIGHT / WHITE HEAT

como fomos belos esta noite!...

o nosso perfil grego / pássaro / artista / nirvana
atravessou incólume a Babilónia -
a cidade sob o controle da mente.
faiscantes / olhos nos olhos / maravilhados
perdemos as referências;
invulneráveis, prostramos noctívagos bêbados
apenas com a força do plasma.

no prostíbulo, a deusa negra
dançou só para nós a dança da sedução -
em tons de roxo e amarelo
o fascínio do corpo e do sexo
a plástica perfeita do absoluto.

white light / white heat.

a Amália fez-se ouvir nostálgica / lírica / terna
cantando o Fado de Peniche na jukebox do canto -
a saudade, a paixão, a bruma
num ondear suave e indolente.
marinheiros navegámos para lá do nevoeiro
libertos do corpo em integração universal.

as palavras tornadas obsoletas
o poeta não passa dum aprendiz nos mistérios do infinito.

adquirimos um barco de pôr em cima do televisor
ao primeiro Dali que encontramos
e caravelas ou veleiros percorremos os mares
a depositar a nossa bondade longe da acção do tempo.

quando sentimos uma sombra presa a nós abanamo-nos
com os Sex Pistols cáusticos / vertigem / suor / espelhos.
imagem por demais bela / ácida / metálica / ascética.

invocamos S. Manso e o manso cordeiro
em feitiços de namorados.
concentrados rompemos as nuvens
e deixamos que a lua cheia nos banhasse a fronte -
as águas revoltas / jubilantes...

ah, como fomos belos esta noite!

(Adolfo Luxúria Canibal, in "Estilhaços")

06/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ GONÇALO M. TAVARES

Um dentista

Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher , e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.

(Gonçalo M. Tavares, in "1")

05/12/08

33 poemas e 33 retratos


Lançamento de antologia com os Poetas das “Quintas de Leitura”

Aproxima-se a data do lançamento do livro “DIGA 33 – os poetas das Quintas de Leitura”, obra integrada na Colecção Cadernos do Campo Alegre, editados pela Fundação Ciência e Desenvolvimento.

Desta feita, procurando perpetuar a passagem de importantes poetas da poesia portuguesa contemporânea pelo ciclo “Quintas de Leitura”, decidimos publicar uma antologia com 33 textos, muitos deles inéditos, e 33 retratos captados propositadamente para a antologia. 33 corresponde ao número de Poetas, outros tantos Amigos, que, entre 2002 e 2008, alimentaram com o seu talento e a sua presença as sessões do ciclo “Quintas de Leitura”.

O lançamento deste 12º livro dos Cadernos do Campo Alegre realizar-se-á no decorrer de um espectáculo de Quintas de Leitura, no dia 18 de Dezembro, às 22h00, no TCA. Adivinha-se uma verdadeira festa da Poesia que contará com a presença de muitos dos autores participantes e outros artistas convidados.

A antologia é organizada pelo programador do ciclo, João Gesta, os retratos, captados entre Abril e Outubro deste ano, são da autoria da Pat. Susana Fernando assina o design gráfico da obra.
Os 33 retratos da fotógrafa Pat estarão em exposição no Foyer do teatro a partir de 16 de Dezembro, podendo a exposição ser visitada das 14h00 às 22h00.

Preparamos para a sessão de lançamento uma “Quinta de Leitura” especial com muita música e poesia no ar.

Como mestre-de-cerimónias, participa no espectáculo a actriz Adriana Faria. Mariana Reis e Rita Reis lerão alguns dos textos publicados. Ana Deus e Tó Trips juntam-se para nos dar alguns momentos de música. O jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretará ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev. O poeta valter hugo mãe promete surpreender-nos com uma performance inesperada e Daniel Maia-Pinto Rodrigues fechará a primeira parte lendo um poema alusivo às “Quintas de Leitura”.

Depois de dois anos de interregno, a segunda parte da sessão trará de volta ao TCA o grupo O’questrada, recém-chegado de uma digressão a Paris. A banda é composta por Marta Miranda (voz), João Lima (guitarra portuguesa), Zeto (guitarra e voz), Pablo (contra-bacia) e Donatello (acordeão) e actuarão durante 45 minutos, percorrendo o seu vasto repertório.
Refira-se por fim a presença de muitos dos Poetas antologiados que não deixarão de ler os seus textos. Aqui fica a lista dos 33 Magníficos:

Adília Lopes, Daniel Jonas, Regina Guimarães, Ana Deus, Yolanda Castaño, Aldina Duarte, Paulo Condessa, Nuno Moura, João Rios, José Luís Peixoto, Jorge Sousa Braga, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, Filipa Leal, Adolfo Luxúria Canibal, Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Paulo Campos dos Reis, Pedro Mexia, Rui Reininho, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Ana Luísa Amaral, António Mega Ferreira, Pedro Abrunhosa, Manuel António Pina, João Habitualmente, Jorge Reis-Sá, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Gato, Maria Andresen, Marta Bernardes, Catarina Nunes de Almeida e José Tolentino Mendonça.

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PEDRO ABRUNHOSA

BEIJO

Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

(Pedro Abrunhosa, in "Canções")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ VASCO GATO

SEGREDO

segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.

segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.

(Vasco Gato, in "Um mover de mão)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOSÉ LUÍS PEIXOTO

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

(José Luís Peixoto, in "A Criança em Ruínas")

04/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ REGINA GUIMARÃES

o do amor

Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes
é serem velhos amantes.
E começarem assim
o amor pelo fim.

(Regina Guimarães, in "Tutta")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PAULO CAMPOS DOR REIS

Eu acredito no meu pai
nascido em 1941
quando vem, de manhã, todo nu
tapar-me com um cobertor

(Paulo Campos dos Reis, in "Autógrafo seguido de Autocolantes")

03/12/08


Os Maias contados às crianças
Espectáculo multidisciplinar para miúdos e graúdos


Numa acção conjunta entre as Quintas de Leitura e o Serviço Educativo, o Teatro do Campo Alegre leva a cena a obra “Os Maias”, adaptada para crianças pelo poeta José Luís Peixoto.


O espectáculo, destinado a público dos 8 aos 80 anos, será apresentado nos dias 6, às 16h00 e às 21h30, e 7 de Dezembro às 16h00.


Um trabalho multidisciplinar, inovador e arrojado que junta em palco, ao vivo, o músico Alexandre Soares (ex - GNR e Três Tristes Tigre), o conhecido ilustrador António Jorge Gonçalves e o actor Alberto Magassela.


O projecto agora apresentado foi concebido pelos programadores do TCA Rute Pimenta e João Gesta e desenvolvido pelos artistas convidados.

Preço: 7.50 euros (adultos) – 5.00 euros (crianças)


Informações e reservas: bilheteira do TCA – 226063000 (a partir das 15h00)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ RUI REININHO

PENA DE MORTE

Que pena as árvores morrerem de pé
Que pena ser massa comida às colheres

Que pena o meu humor ser negro
Que pena ser mouro ter só quatro mulheres

Que pena este grito não chegar a Marte
Que pena pequena a pena de morte

Que pena a tinta não ser permanente
(Que penas que tinhas índia à minha frente)

Que pena a maçã já não ser pecado
Que pena a bomba ter rebentado

A pena que eu tenho deu-te sorte

A pena pequena é pena de morte

Que pena este grito não chegar a Marte

(Rui Reininho, in "líricas come on & anas)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/valter hugo mãe

a máquina de fazer espanhóis

uma máquina que transformasse portugueses em
espanhóis, impecável, infalível, perfeita, eles
entrando por um lado pálidos e mirrados, saindo
do outro corados, estendidos de narizes proeminentes e
orgulho. uma máquina que fosse tão esperta que,
no momento de decidir cada coisa, preterisse sempre
portugal e trouxesse ao de cima o esplendor do país
vizinho. era pegar nessa máquina, saber quem a inventou
e fazer-lhe amor pelo cu até que desfalecesse extenuado.
enviar relatório detalhado para todo o mundo, alardiar
entusiasticamente a satisfação de quem, nem que seja
por casmurrice, espera por sebastião

(valter hugo mãe, in "pornografia erudita")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARTA BERNARDES

No. X

Marta não deixes cair o r.

(Marta Bernardes, in "Arquivo de nuvens")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARIA ANDRESEN

AINDA a ALEGRIA

Que ficassem a uma distância
em que não visse
os dentes quando riem
esse riso: a pele que gera o germe
e sua multiplicação:
- eu sei que o tempo avança
a contaminação ramificada
de corpo-a-corpo
pouco já serei gente, apenas
o medo e seus cercados
apenas aquela crueza
como só na infância
apenas não quero ver, de outrora
o azul já comido pelas traças -

no avesso do «branco», do «exacto»:
a avidez
um obstinado nojo que preserva
das Fúrias a alegria

(Maria Andresen, in "Lugares")

02/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda. não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

(Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOÃO HABITUALMENTE

NEM TANTO AO MAR

Amo o mar
porque não tem fim

e os vagabundos que não têm pilim

Mas pelo meio das formas
e das aparências sem fundo
parecendo que amo o mundo
amo-me sobretudo a mim

Talvez venha a querer ao mar
ou vagamente a um vagabundo

talvez os ame no fundo

Mas no rodar infindo
daquilo que não tem fim
quero-me principalmente a mim

Ao resto das formas
e das aparências do mundo
amo só assim-assim

(João Habitualmente, in "Os Animais Antigos")

01/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
o ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra

(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ NUNO MOURA

DESEMPREGO

Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.

(Nuno Moura, in "Soluções do problema anterior")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ANA LUÍSA AMARAL

AS PEQUENAS GAVETAS DO AMOR

Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores

Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -

(Ana Luísa Amaral, in "Imagias")

30/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/MANUEL ANTÓNIO PINA

AQUELE QUE QUER MORRER

São chegados os tempos escandalosos
da Morte e da Inocência.
Aquele que quer saber e
apodrece de fora para dentro

dança já sobre os destroços do Futuro
com voláteis pés conceituais.
O sentido de tudo faz parte de tudo,
o Mistério não pode ser ocultado nem revelado.

Tudo o que passou
está a ser passado infinitamente
e o Futuro é a eternidade de isto
e tudo é sabido em si próprio.

(Manuel António Pina, in "Poesia Reunida")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ADÍLIA LOPES

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

(Adília Lopes, in "Quem Quer Casar Com a Poetisa?")

29/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ DANIEL JONAS

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA
Que uma musa metálica redime
E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,
Soldo a métrica, malho p'ra que rime.
Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,
Na homérica bigorna chispa e liça.
Silvam sereias, chamam-me ao regaço,
Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.
Como operário do verso blindo a nave
Que ao leme outro almirante levará;
Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:
Neste solo outro mastro cantará.
E se o cálamo às vezes carpe as bulhas
Das carúnculas saem-me faúlhas.

(Daniel Jonas, in "Sonótono")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ FERNANDO PINTO DO AMARAL

ECO

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.

Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.

Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence -
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.

(Fernando Pinto do Amaral, in "Acédia")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JORGE SOUSA BRAGA

BOLETIM METEREOLÓGICO

Céu muito nublado vento
fraco moderado de sudoeste

soprando forte nas terras
altas aguaceiros em especial

nas regiões do Norte e Centro
e que serão de neve nos

pontos mais altos da Serra
da Estrela e no teu coração.

(Jorge Sousa Braga, in "Porto de Abrigo")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PEDRO MEXIA

FADO

De quem eu gosto
as paredes estão fartas de saber.

(Pedro Mexia, in "Avalanche")

28/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS" / DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES


Daniel Maia-Pinto Rodrigues por Pat


HOMEM

Velho
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.

A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.

A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Púrpura 77")

OS POETAS DAS "QUINTAS" / CATARINA NUNES DE ALMEIDA

Catarina Nunes de Almeida por Pat


A PROSTITUTA DA RUA DA GLÓRIA

Tanges a noite sem saber que a noite
é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango -
um ténue resquício de feno escondido na nuca.

Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.

Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes -
ténues resquícios de feno escondido na nuca.

Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.

(Catarina Nunes de Almeida, in "Prefloração)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOÃO RIOS

GULOSA DE META FÍSICA

noviças de são tristão
não mirreis vossas entranhas
não percais vosso quinhão
com bordados e tisanas

sabede novas de luzia
que bem professa
nas naus do grande
gama

nas naus do grande gama
e sem laivos de tormenta
entrega soror as mamas
aos famintos de pimenta

aos famintos de pimenta
e com ares de timoneiro
a que a irmã acrescenta
as graças do seu traseiro

as graças do seu traseiro
o maná da sua fornalha
que neste amor pioneiro
à luzia nada lhe falha

à luzia nada lhe falha
nem a flauta nos beiços
e saltando como gralha
dá-lhes com força nos seixos

(João Rios, in "Livro das Legendas")

26/11/08


A próxima sessão de QUINTAS DE LEITURA será uma festa de Poesia que celebra o lançamento dO 12º livrod a colecção Cadernos do Campo Alegre, a antologia DIGA TRINTA E TRÊS. Para ler o flyer (design de Susana Fernando) clicar sobre a imagem.

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ FILIPA LEAL

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.

(Filipa Leal, in " A cidade líquida e outras texturas")

OS POETAS DAS "QUINTAS" / NUNO JÚDICE

VARIAÇÃO SOBRE ROSAS

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

(Nuno Júdice, in "Pedro, Lembrando Inês")

25/11/08

OS NOSSOS "33 MAGNÍFICOS" POETAS DAS QUINTAS


No próximo dia 18 de Dezembro as "Quintas de Leitura" organizarão a sessão de lançamento da antologia "DIGA 33 - OS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA".
Lembramos hoje o nome dos Poetas que participam na antologia e que alimentaram com o seu talento e a sua disponibilidade este ciclo poético (Janeiro de 2002 até Dezembro de 2008):

Adília Lopes
Adolfo Luxúria Canibal
Aldina Duarte
Ana Deus
Ana Luísa Amaral
António Mega Ferreira
Catarina Nunes de Almeida
Daniel Jonas
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Fernando Pinto do Amaral
Filipa Leal
Gonçalo M. Tavares
João Habitualmente
João Rios
Jorge Reis-Sá
Jorge Sousa Braga
José Luís Peixoto
José Tolentino Mendonça
Manuel António Pina
Maria Andresen
Maria do Rosário Pedreira
Marta Bernardes
Nuno Júdice
Nuno Moura
Paulo Campos dos Reis
Paulo Condessa
Pedro Abrunhosa
Pedro Mexia
Regina Guimarães
Rui Reininho
valter hugo mãe
Vasco Gato
Yolanda Castaño

Participam ainda na antologia:

João Gesta - organização
Pat - retratos dos 33 poetas convidados
Susana Fernando - design gráfico


No dia 18, leve-nos para casa e guarde-nos, para sempre, no seu coração do meio.

24/11/08

Irene! Irene! Sirva o leite-creme!















Nós tínhamos prometido: um recital com jantes alargadas. Assim foi. Começou às 22h10 e terminou à 01h20. Aqui ficam alguns registos desta noite memorável. As fotografias são da Mafalda Capela. Se cá estiveram comentem. Gostamos sempre de partilhar opiniões.

Os heróis da noite (de cima para baixo)

Carlos Maza
A família Maza
Ana Carla Maza
Mariana Rocha ( performance «Curta-Mixagem»)
Pedro Lamares (membro da CGD em sentida homenagem ao poeta Joaquim Castro Caldas)
Isabel Nunes ( A «Irene» que trouxe o leite-creme)
O COPO (Paulo Condessa e Nuno Moura, festejam 10 anos de acção poética no TCA)
Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Isaque Ferreira ( dupla exótica da CGD)
Nos agradecimentos: também Manuela Pimentel a artista plástica que deu «imagem» ao recital.

20/11/08

HOJE É DIA DE "QUINTAS"

Mais um poema de Joaquim Castro Caldas:

AO LADO

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o abismo

de te perder num afago
de te ter do outro lado
do medo à minha beira

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o amor

que há noites ao teu lado
em que me dói não sei
onde é que a distância ai

havia tantas coisas
se não fosse este fuçar
de nem fugir nem amar

19/11/08

HOJE NA TV


Hoje, entre as 16:00h e as 18:00h, no programa ZONA INTERDITA da Porto Canal, a Caixa Geral de Despojos estará em estúdio, em directo na TV, convidada a propósito da sessão de Quintas de Leitura de amanhã.

Tudo por culpa do RECITAL COM JANTES ALARGADAS: "Irene!Irene! Sirva o leite-creme!"

Participem também através do blogue do programa. Basta clicar aqui.

(fotografia: pat)

18/11/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Publicamos hoje mais um poema de Joaquim Castro Caldas.

PRECE

um dia hei-de
ser um escritor
se tu meu amor
estupor de mundo
quando perder
a falsa linha
que une e separa
o homem do poeta
o rosto da máscara
o sémen da seiva
farei da palavra
profecia e alma
promessa e arma
o tiro será teu
mas a bala minha

(in "Só cá vim ver o sol", Quasi Edições)

17/11/08




Aproximem-se de José Luís Peixoto através do blogue que o escritor mantém no site da revista brasileira BRAVO.

Para acompanhar AQUI ou através da barra de blogues de poetas aqui ao lado esquerdo.



A Poesia de Joaquim Castro Caldas

O actor Pedro Lamares lerá no recital da próxima quinta-feira alguns poemas de Joaquim Castro Caldas. É a nossa forma singela e sentida de lembrar o Poeta, recentemente falecido.

DEVOLUÇÃO DOS CRAVOS

um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de uma G-3

hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país


PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz


MATANÇA DO TEMPO

já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado

(in "Convém Avisar os Ingleses", Quasi Edições)

14/11/08

E os vossos comentários???
Não há nada a dizer???

HOMEM


Velho
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.

A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.

A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)

13/11/08

O programador em acção



João Gesta, o programador das QUINTAS DE LEITURA e alguns dos elementos assíduos nos nossos recitais vão participar num conjunto de performances que têm a particularidade de acontecerem às escuras. Programa na imagem - clicar para ler.

O Daniel


O Daniel Maia-Pinto Rodrigues tem um blogue criado e alimentado por alguém que tem um apreço especial pela sua escrita. A ligação do blogue O DANIEL - http://odanielmaia.blogspot.com/ - ao blogue das Quintas de Leitura é permanente. Vão lá dar uma espreitadela. Para um ser tão afastado das realidades "cibernáuticas" como o Daniel, o blogue em sua honra foi uma grande surpresa.

O LAGARTO DE GILA

Adquiri numa loja o sui generis lagarto de Gila.
Em casa observava amiúde o bicho.
Um dia lembrei-me de convidar amigos impressionáveis
para se boquiabrirem e assustarem o lagarto.
Já com os convidados a chegar
pareceu-me sentir nos olhos do animal
o querer dizer-me que não pretendia ver ninguém.
Correspondendo, escondi-o à pressa
no quarto de banho de serviço.
Os convidados, que suspeitavam ir haver uma surpresa
surpreenderam-se por não ter havido surpresa nenhuma.
Creio, porém, que consideraram o serão animado.
Eu, apesar de não o deixar transparecer
achei o convívio aborrecido.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)

12/11/08

DANIEL, O GRANDE DESAFIADOR

Alguns momentos mais com a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

MARRECO

Ainda hoje me recordo
olha que foi mesmo engraçado
quando tu, Lagardère, naquela festa de arromba
de rompante me mostras a lomba.

x

De certo modo também eu, em tempos
fui infiel ao príncipe Charles.

x

Papagaia loira
de bico doirado
leva-me este corno
ao teu namorado.

x

VISITA DA CASA

"Afinal, o que é que vem cá fazer a Gabriela?!"
"Ó querida, não te virá mostrar as mamas dela?"

x

Houve uma coisa que veio do céu e disse:
- Sou a Celeste. Não te lembras!? A Celeste!
- Ah, sim! Olá, Celeste. Assim de repente
não estava a contar contigo.

x

LA NATURE AU PIMBA

Foram vistas duas palomas in the sky.
Uma era a filha, a outra era o pai.

(in "Dióspiro", Quasi Edições)

11/11/08

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

Fotografia : Daniel Maia-Pinto Rodrigues por Pat


A sessão "Irene! Irene! Sirva o leite-creme!" servirá também para marcar o regresso do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues às "Quintas de Leitura". Lerá, na companhia de Isaque Ferreira, alguns poemas de sua autoria e também de Alberto Pimenta.
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão:

ENQUADRADINHOS MÉTODOS DE TRABALHO

Ultimamente têm-me maçado
com enjoativos trechos de lamúrias.

Ele são cinco mil mulheres mal tratadas
não sei quantas raparigas mal amanhadas
sete mil e quinhentas gaivotas assassinadas
um sem número de situações assaz desesperadas.

Eu tenho os meus próprios problemas:
ir à missa das doze, adiantar os estudos,
levar o cão à rua, assim não dá, não dá.

Desisto deste vilancete. É uma pena
eu não ter método de trabalho na escrita.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro/poesia reunida 1977-2007", Quasi Edições)

10/11/08

Miami Vice

A mansão foi encontrada
junto à piscina da mansão
a piscina não se encontrou
a si própria

(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)

07/11/08


Notícia publicada hoje no site da revista VIVA - o Porto em revista on-line - sobre a próxima Quinta de Leitura. Para ler clicar aqui.

SETE RIOS ENTRE CAMPOS de ADÍLIA LOPES

O Chão optimista

Cair do cavalo
cair da escada
cair em mim
o rés-do-chão é tão bonito
o chão é tão bom
as violetas são macias
e não têm picos
ao contrário das rosas
o chão está cheio de ouro
por dentro
por fora um besouro
Dale Carnegie tem razão
o meu cavalo lambe-me a cara
não parti nada
não é o alcatrão
ou o passeio
do defenestrado
nem o útero da mãe
agora morta
é a libertação da queda
de Adão e Eva
é Adão que me estende a mão

x

O chão pessimista

Escuro
como breu
o chão
me comeu

(in "Obra", Mariposa Azual)

06/11/08

Quem vem tocar?



Carlos Mazza vai apresentar na próxima Quinta de Leitura o seu projecto
TROTAMUNDO. Para saber mais deste músico chileno a viver em Cuba, clicar aqui.

Mais poesia de Adília Lopes

A mala da senhora cai ao chão.
O cavalheiro apanha-a.

- Merci beaucoup.
- Pas de quoi.

Mete-a no cu.
Não cabe cá.

(anedota contada pela tia Paulina)

x

O grilo come
a gaiola de plástico
e volta
para o campo
onde está
o pirilampo

x

Na estufa
a planta carnívora
abocanha as chaves
da minha mãe
uma barreira de água
impede as formigas
de entrar

(in "Obra", Mariposa Azual)

05/11/08

Sirva-se o leite-creme !!!

Copo e Caixa Geral de Despojos no mesmo prato.

JÁ RESTAM POUCOS BILHETES PARA A PRÓXIMA SESSÃO DAS "QUINTAS".

A sessão "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" está quase a esgotar. Anuncia-se um recital de poesia cheio de emoção, com as presenças imaculadas dos colectivos "Caixa Geral de Despojos" e
"O Copo".

Hoje continuamos a divulgar poemas da grande Adília Lopes, que serão e não serão lidos na sessão por Nuno Moura e Paulo Condessa.

HARDCORE

Dez para as duas
Sapatos a mais para Cinderela
Não há orquídeas para Miss Blandish

x

Ela era boa rapariga - Sãozinha
ela era uma rapariga boa - Samantha
ela não era uma rapariga - Lassie

x

Saiu das suas tamanquinhas
para calçar escarpins de verniz
mas ficou descalça
depois tiveram de lhe cortar os pés
podres de ricos

(in "Obra", Mariposa Azual)

04/11/08

AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES 2


Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.

(in "Obra", Mariposa Azual)
Fotografia: Europa Sugar por Pat

03/11/08

PROGRAMADOR "MAGALHÃES" ÀS VOSSAS ORDENS

O Teatro do Campo Alegre do Porto é o primeiro espaço cultural do mundo a ter um programador "Magalhães". Sou eu. João MAGALHÃES Coutinho Gesta. 55 anos, careca reluzente, quase solteiro, próteses a brilhar.
O TCA e a sua programação editorial e de leituras está, portanto, na moda, está na vanguarda, está virada para o futuro, em suma, está muito à frente. Em breve, exportaremos programação para o Brasil, Venezuela, Mali e, quem sabe, para lá de Marraquexe.
A todos os que acreditam no programador "Magalhães", dedico, do fundo do coração, um poema quase normal de Adília Lopes, uma das nossas próximas convidadas:

Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

(in "Obra", Mariposa Azual)