13/01/09

valter hugo mãe por pat.

a poesia de valter hugo mãe

metamorfose

nós, os rapazes, dizíamos que as
raparigas eram burras e íamos pescar
ou saltar muros à cata de gatos vadios.
lentamente, o nosso corpo foi pedindo
explicações mais complexas sobre os
preconceitos infantis e as raparigas
começaram a chegar mais perto. eu
dizia-lhes que guardava um tronco de
árvore entre as pernas. elas queriam ver e
eu mostrava. a cabeça das raparigas
tornou-se um enorme fruto
a ser colhido

anos mais tarde, eu era o romeo castellucci e
caía em pó dos lugares como se
o movimento bastasse para definir a
felicidade. estar diante das raparigas e
amá-las era só a linha de um braço ou
de uma perna desenhando na luz a
minha tão sensível presença

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

12/01/09

a poesia de valter hugo mãe

a última vez

organizei uma festa para a qual
convidei apenas os meus
amigos suicidas. fazemos tudo como
se fosse a última vez

queres vir ao meu inferno

gostava de te mostrar as pequenas
cabeças falantes guardadas nos lugares mais
escuros da minha casa. gostava que
ouvisses o que dizem

os mortos, encostados às paredes e com
problemas de equilíbrio, disciplinam-se
lentamente. vês a minha casa

vou buscar o meu coração. guardei-o aqui
algures e, por ti, tenho a certeza, vale a
pena voltar a encontrá-lo e correr todos os
riscos de novo

cuidado com o cão, não morde, mas é
pesado e pode tirar-te o fôlego com as
patas no peito e depois vou querer
beijar-te

achas que podes não morrer antes

há champanhe e bolo de chocolate

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

a poesia de valter hugo mãe

a natureza revolucionária da felicidade

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

09/01/09

a poesia de valter hugo mãe

fim

tentei matar-me no dia onze de julho de
dois mil e seis. o sol era intenso mas
os meus olhos perderam de tal modo a luz,
que a própria faca brilhando se tornou
apenas um animal de dentes afiados que
me feriu os dedos mas não se deixou
apanhar. a morte fugiu-me assim. foi o
mais estranho que me aconteceu e pode
só isso ser o mais peculiar que tenho
para deixar dito, deitando por terra qualquer
obra, qualquer outro poema, que soará,
seguramente, uma redundância depois
que a vida se prolonga para lá do fracasso

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

Foi você que pediu uma noite intensa e revolucionária?

Valter hugo mãe e Slimmy como nunca os viu


a natureza revolucionária da felicidade

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca

(valter hugo mãe)


As "Quintas de Leitura" abrem o ano, na noite de 22 de Janeiro, às 22h00, com o Poeta valter hugo mãe, como habitualmente. Esta é a quinta "aparição" neste ciclo poético do escritor que em 2007 foi Prémio Literário José Saramago.

Nesta sessão, intitulada "a natureza revolucionária da felicidade", valter mostrará todas as suas ricas e variadas facetas artísticas. Contará histórias, cantará, mostrará desenhos e fotografias de sua autoria e divulgará textos inéditos escritos para as vozes e alma de Isaque Ferreira e Pedro Lamares. Registe-se ainda a estreia nas "Quintas" da actriz Maria do Céu Ribeiro que lerá cinco poemas do mais recente livro de valter hugo mãe - "folclore íntimo".

Na primeira parte da sessão actuará ainda o pianista Pedro Pereira, um dos mais promissores e laureados pianistas nacionais. Pedro Pereira frequenta actualmente o Conservatório Tchaikovsky de Moscovo. O pianista desloca-se a Portugal para actuar nas "Quintas de leitura" e, oito dias depois, no Theatro Circo de Braga.

O músico Slimmy fechará a noite em beleza. Aliando um visual irreverente com um estilo musical viciante, Slimmy é um dos grandes fenómenos actuais da música portuguesa. Prepare-se para um imperdível concerto acústico, em que Slimmy (voz e guitarra) se fará acompanhar pelos músicos Garcez (bateria), Garim (voz e baixo) e ainda Quico Serrano (piano).

Espectáculo para maiores de 16 anos.

08/01/09

a poesia de valter hugo mãe

mieloma, um

os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós

a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora.

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

07/01/09

a poesia de valter hugo mãe

inês subtil

talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efémeras

talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo

talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome

não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quando te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração

como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti

também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama edições)

06/01/09

SLIMMY NAS QUINTAS


Slimmy vai actuar em concerto acústico na próxima sessão de Quintas de Leitura, dia 22 de Janeiro, num espectáculo dedicado à escrita de valter hugo mãe. Slimmy é um músico português, de nome Paulo Fernandes, que residiu em Londres alguns anos, pelo que faz parte da cena musical internacional, tendo chegado a ter um tema na série CSI Miami. Saiba mais sobre Slimmy clicando aqui.

05/01/09

O PRIMEIRO POEMA DO ANO

O Poeta Vítor Nogueira será, em Abril de 2009, um dos convidados do ciclo.
Abrimos o ano com um dos seus poemas.

À NOSSA

Três pessoas encostadas ao balcão,
tentando enviar uma mensagem de
socorro. Todos queremos estar aqui,
para quando formos salvos.

Do outro lado, há um tipo que se instala
numa mesa, espalhando amendoins,
descobrindo a sua vocação.
Um homem deve ter talento nos dedos,
saber fazer alguma coisa.

E, nisto, melhoramos a nossa visão
nocturna, mijamos na mesma latrina,
fazemos com que este lugar funcione.

Juntem-se mais, para cabermos todos
na fotografia.

(Vítor Nogueira, in "Bagagem de mão", &etc)

Público





Notícia publicada no jornal Público dia 4 de Janeiro. Para ler clicar sobre as imagens.




Em cima: notícia publicada no jornal O Primeiro de Janeiro
e no jornal Notícias da Manhã, dia 5 de Janeiro.
Ao meio: notícia publicada no jornal gratuito Meia-Hora, dia 5 de Janeiro.
Em baixo: notícia publicada no Jornal de Notícias, dia 4 de Janeiro.
(para ler clicar sobre as imagens)




Notícia Publicada no Jornal de Notícias dia 2 de Janeiro de 2009.



Revista 100 % Jovem (1 de Janeiro de 2008): referência à actuação de Slimmy no espectáculo de Quintas de Leitura do mês de Janeiro, dedicado a valter hugo mãe.

GLOBOS AO VENTO

O programador pensou, pensou, (exercício, diga-se, que já só raramente é capaz de fazer), puxou dos seus apontamentos, consultou e não consultou o Prof. Marcelo, fez alguns telefonemas e está pronto para se despir à vossa frente, isto é, está pronto para vos revelar os momentos mais marcantes das "Quintas" em 2008:

Os melhores espectáculos do ano:

um instantinho de beleza (Março de 2008)
bife picado (Junho de 2008)
sessão de apresentação da antologia "diga33" (Dezembro de 2008)

A leitura mais marcante:

Isaque Ferreira a ler "o que é o neo-abjeccionismo" de Luiz Pacheco (sessão "um instantinho de beleza")

Melhor performance do ano:

"Ícones" de Victor Hugo Pontes

Melhor flyer do ano:

"A noite abre meus olhos", com imagem de Ilda David' (sessão dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça).

Os melhores concertos do ano:

O´questrada
Tiago Bettencourt
Carlos Bica + João Paulo Esteves da Silva
Dead Combo + Ana Deus + Alexandre Soares
Carlos Maza

As revelações do ano:

Marta Bernardes (performance)
Raúl Peixoto da Costa (música)
Pat (fotografia)
Adriana Faria (mestre de cerimónias)

A minha opinião, que tanto vos faz rir, é a minha opinião.
Avante, marche!

NÚMEROS SÃO NÚMEROS

As contas das "Quintas" em 2008, sem orçamentos rectificativos, sem rede, com alma:

14 espectáculos (dos quais 10 esgotados)

20 sessões (das quais 14 esgotadas)

2.558 espectadores

136 artistas convidados

95,8% (taxa de ocupação de salas)


Obrigado a todos os que vieram, obrigado aos que tencionam vir. Este ano, prometemos, faremos melhor, faremos diferente. Ouse juntar-se a nós.

31/12/08

As Quintas ao serviço da sua mente.
Bom 2009 de coração.

(fotografia: mind por Pat)

Notícia publicada hoje no jornal O Primeiro de Janeiro.

O AMOR MAIOR

por ti eu fazia tudo meu amor
eu candidatava-me às autárquicas
eu via um filme do zefirelli
eu até corria a
filha da puta da meia
maratona da nazaré
a pé coxinho

(José Carlos Barros)

30/12/08

Marcar na agenda

Hoje propomos uma visita ao foyer do Teatro do Campo Alegre para ver de perto os 33 retratos dos poetas das Quintas de Leitura. Os 33 retratos da fotógrafa Pat estarão em exposição no Foyer do teatro, de 16 de Dezembro até 31 de Janeiro de 2009, das 14h00 às 22h00 (excluindo dia 1 de Janeiro).