09/12/08
Os Maias contados às crianças (fotografias)
Fotografias do espectáculo que nasceu de uma parceria entre as Quintas de Leitura e o Serviço Educativo do TCA clicando aqui.
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JORGE REIS-SÁ
NA MORTE DE EUGÉNIO DE ANDRADE
Sabes, Jorge, quantos poetas vão escrever versos inúteis
porque morreu um pai e a orfandade é uma coisa que dói?
Então porque o fazes tu sem respeito nenhum pelo sorriso
invertido com que o Eugénio te agraciava as visitas? Da
orfandade sabes tu o que dizer. E disseste-o sem pudor
pela mãe que, viúva, leria os teus versos, pelo irmão que mais
orfão do que tu os sabia também seus. Não que o Eugénio
tivesse sorrisos para outros - que não tinha - mas porque
depois de algum tempo era assim que o querias, zangado
com tudo e com todos, apenas pensando naquele banco
junto ao jacarandá de onde acabou partindo para o seu prado.
(Jorge Reis-Sá, in "Livro de Estimação")
Sabes, Jorge, quantos poetas vão escrever versos inúteis
porque morreu um pai e a orfandade é uma coisa que dói?
Então porque o fazes tu sem respeito nenhum pelo sorriso
invertido com que o Eugénio te agraciava as visitas? Da
orfandade sabes tu o que dizer. E disseste-o sem pudor
pela mãe que, viúva, leria os teus versos, pelo irmão que mais
orfão do que tu os sabia também seus. Não que o Eugénio
tivesse sorrisos para outros - que não tinha - mas porque
depois de algum tempo era assim que o querias, zangado
com tudo e com todos, apenas pensando naquele banco
junto ao jacarandá de onde acabou partindo para o seu prado.
(Jorge Reis-Sá, in "Livro de Estimação")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL
WHITE LIGHT / WHITE HEAT
como fomos belos esta noite!...
o nosso perfil grego / pássaro / artista / nirvana
atravessou incólume a Babilónia -
a cidade sob o controle da mente.
faiscantes / olhos nos olhos / maravilhados
perdemos as referências;
invulneráveis, prostramos noctívagos bêbados
apenas com a força do plasma.
no prostíbulo, a deusa negra
dançou só para nós a dança da sedução -
em tons de roxo e amarelo
o fascínio do corpo e do sexo
a plástica perfeita do absoluto.
white light / white heat.
a Amália fez-se ouvir nostálgica / lírica / terna
cantando o Fado de Peniche na jukebox do canto -
a saudade, a paixão, a bruma
num ondear suave e indolente.
marinheiros navegámos para lá do nevoeiro
libertos do corpo em integração universal.
as palavras tornadas obsoletas
o poeta não passa dum aprendiz nos mistérios do infinito.
adquirimos um barco de pôr em cima do televisor
ao primeiro Dali que encontramos
e caravelas ou veleiros percorremos os mares
a depositar a nossa bondade longe da acção do tempo.
quando sentimos uma sombra presa a nós abanamo-nos
com os Sex Pistols cáusticos / vertigem / suor / espelhos.
imagem por demais bela / ácida / metálica / ascética.
invocamos S. Manso e o manso cordeiro
em feitiços de namorados.
concentrados rompemos as nuvens
e deixamos que a lua cheia nos banhasse a fronte -
as águas revoltas / jubilantes...
ah, como fomos belos esta noite!
(Adolfo Luxúria Canibal, in "Estilhaços")
como fomos belos esta noite!...
o nosso perfil grego / pássaro / artista / nirvana
atravessou incólume a Babilónia -
a cidade sob o controle da mente.
faiscantes / olhos nos olhos / maravilhados
perdemos as referências;
invulneráveis, prostramos noctívagos bêbados
apenas com a força do plasma.
no prostíbulo, a deusa negra
dançou só para nós a dança da sedução -
em tons de roxo e amarelo
o fascínio do corpo e do sexo
a plástica perfeita do absoluto.
white light / white heat.
a Amália fez-se ouvir nostálgica / lírica / terna
cantando o Fado de Peniche na jukebox do canto -
a saudade, a paixão, a bruma
num ondear suave e indolente.
marinheiros navegámos para lá do nevoeiro
libertos do corpo em integração universal.
as palavras tornadas obsoletas
o poeta não passa dum aprendiz nos mistérios do infinito.
adquirimos um barco de pôr em cima do televisor
ao primeiro Dali que encontramos
e caravelas ou veleiros percorremos os mares
a depositar a nossa bondade longe da acção do tempo.
quando sentimos uma sombra presa a nós abanamo-nos
com os Sex Pistols cáusticos / vertigem / suor / espelhos.
imagem por demais bela / ácida / metálica / ascética.
invocamos S. Manso e o manso cordeiro
em feitiços de namorados.
concentrados rompemos as nuvens
e deixamos que a lua cheia nos banhasse a fronte -
as águas revoltas / jubilantes...
ah, como fomos belos esta noite!
(Adolfo Luxúria Canibal, in "Estilhaços")
06/12/08
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ GONÇALO M. TAVARES
Um dentista
Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher , e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.
(Gonçalo M. Tavares, in "1")
Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher , e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.
(Gonçalo M. Tavares, in "1")
05/12/08
33 poemas e 33 retratos

Lançamento de antologia com os Poetas das “Quintas de Leitura”
Aproxima-se a data do lançamento do livro “DIGA 33 – os poetas das Quintas de Leitura”, obra integrada na Colecção Cadernos do Campo Alegre, editados pela Fundação Ciência e Desenvolvimento.
Desta feita, procurando perpetuar a passagem de importantes poetas da poesia portuguesa contemporânea pelo ciclo “Quintas de Leitura”, decidimos publicar uma antologia com 33 textos, muitos deles inéditos, e 33 retratos captados propositadamente para a antologia. 33 corresponde ao número de Poetas, outros tantos Amigos, que, entre 2002 e 2008, alimentaram com o seu talento e a sua presença as sessões do ciclo “Quintas de Leitura”.
O lançamento deste 12º livro dos Cadernos do Campo Alegre realizar-se-á no decorrer de um espectáculo de Quintas de Leitura, no dia 18 de Dezembro, às 22h00, no TCA. Adivinha-se uma verdadeira festa da Poesia que contará com a presença de muitos dos autores participantes e outros artistas convidados.
A antologia é organizada pelo programador do ciclo, João Gesta, os retratos, captados entre Abril e Outubro deste ano, são da autoria da Pat. Susana Fernando assina o design gráfico da obra.
Os 33 retratos da fotógrafa Pat estarão em exposição no Foyer do teatro a partir de 16 de Dezembro, podendo a exposição ser visitada das 14h00 às 22h00.
Preparamos para a sessão de lançamento uma “Quinta de Leitura” especial com muita música e poesia no ar.
Como mestre-de-cerimónias, participa no espectáculo a actriz Adriana Faria. Mariana Reis e Rita Reis lerão alguns dos textos publicados. Ana Deus e Tó Trips juntam-se para nos dar alguns momentos de música. O jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretará ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev. O poeta valter hugo mãe promete surpreender-nos com uma performance inesperada e Daniel Maia-Pinto Rodrigues fechará a primeira parte lendo um poema alusivo às “Quintas de Leitura”.
Depois de dois anos de interregno, a segunda parte da sessão trará de volta ao TCA o grupo O’questrada, recém-chegado de uma digressão a Paris. A banda é composta por Marta Miranda (voz), João Lima (guitarra portuguesa), Zeto (guitarra e voz), Pablo (contra-bacia) e Donatello (acordeão) e actuarão durante 45 minutos, percorrendo o seu vasto repertório.
Refira-se por fim a presença de muitos dos Poetas antologiados que não deixarão de ler os seus textos. Aqui fica a lista dos 33 Magníficos:
Adília Lopes, Daniel Jonas, Regina Guimarães, Ana Deus, Yolanda Castaño, Aldina Duarte, Paulo Condessa, Nuno Moura, João Rios, José Luís Peixoto, Jorge Sousa Braga, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, Filipa Leal, Adolfo Luxúria Canibal, Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Paulo Campos dos Reis, Pedro Mexia, Rui Reininho, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Ana Luísa Amaral, António Mega Ferreira, Pedro Abrunhosa, Manuel António Pina, João Habitualmente, Jorge Reis-Sá, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Gato, Maria Andresen, Marta Bernardes, Catarina Nunes de Almeida e José Tolentino Mendonça.
Aproxima-se a data do lançamento do livro “DIGA 33 – os poetas das Quintas de Leitura”, obra integrada na Colecção Cadernos do Campo Alegre, editados pela Fundação Ciência e Desenvolvimento.
Desta feita, procurando perpetuar a passagem de importantes poetas da poesia portuguesa contemporânea pelo ciclo “Quintas de Leitura”, decidimos publicar uma antologia com 33 textos, muitos deles inéditos, e 33 retratos captados propositadamente para a antologia. 33 corresponde ao número de Poetas, outros tantos Amigos, que, entre 2002 e 2008, alimentaram com o seu talento e a sua presença as sessões do ciclo “Quintas de Leitura”.
O lançamento deste 12º livro dos Cadernos do Campo Alegre realizar-se-á no decorrer de um espectáculo de Quintas de Leitura, no dia 18 de Dezembro, às 22h00, no TCA. Adivinha-se uma verdadeira festa da Poesia que contará com a presença de muitos dos autores participantes e outros artistas convidados.
A antologia é organizada pelo programador do ciclo, João Gesta, os retratos, captados entre Abril e Outubro deste ano, são da autoria da Pat. Susana Fernando assina o design gráfico da obra.
Os 33 retratos da fotógrafa Pat estarão em exposição no Foyer do teatro a partir de 16 de Dezembro, podendo a exposição ser visitada das 14h00 às 22h00.
Preparamos para a sessão de lançamento uma “Quinta de Leitura” especial com muita música e poesia no ar.
Como mestre-de-cerimónias, participa no espectáculo a actriz Adriana Faria. Mariana Reis e Rita Reis lerão alguns dos textos publicados. Ana Deus e Tó Trips juntam-se para nos dar alguns momentos de música. O jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretará ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev. O poeta valter hugo mãe promete surpreender-nos com uma performance inesperada e Daniel Maia-Pinto Rodrigues fechará a primeira parte lendo um poema alusivo às “Quintas de Leitura”.
Depois de dois anos de interregno, a segunda parte da sessão trará de volta ao TCA o grupo O’questrada, recém-chegado de uma digressão a Paris. A banda é composta por Marta Miranda (voz), João Lima (guitarra portuguesa), Zeto (guitarra e voz), Pablo (contra-bacia) e Donatello (acordeão) e actuarão durante 45 minutos, percorrendo o seu vasto repertório.
Refira-se por fim a presença de muitos dos Poetas antologiados que não deixarão de ler os seus textos. Aqui fica a lista dos 33 Magníficos:
Adília Lopes, Daniel Jonas, Regina Guimarães, Ana Deus, Yolanda Castaño, Aldina Duarte, Paulo Condessa, Nuno Moura, João Rios, José Luís Peixoto, Jorge Sousa Braga, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, Filipa Leal, Adolfo Luxúria Canibal, Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Paulo Campos dos Reis, Pedro Mexia, Rui Reininho, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Ana Luísa Amaral, António Mega Ferreira, Pedro Abrunhosa, Manuel António Pina, João Habitualmente, Jorge Reis-Sá, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Gato, Maria Andresen, Marta Bernardes, Catarina Nunes de Almeida e José Tolentino Mendonça.
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PEDRO ABRUNHOSA
BEIJO
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
(Pedro Abrunhosa, in "Canções")
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
(Pedro Abrunhosa, in "Canções")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ VASCO GATO
SEGREDO
segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.
segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.
(Vasco Gato, in "Um mover de mão)
segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.
segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.
(Vasco Gato, in "Um mover de mão)
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOSÉ LUÍS PEIXOTO
fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
(José Luís Peixoto, in "A Criança em Ruínas")
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
(José Luís Peixoto, in "A Criança em Ruínas")
04/12/08
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ REGINA GUIMARÃES
o do amor
Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes
é serem velhos amantes.
E começarem assim
o amor pelo fim.
(Regina Guimarães, in "Tutta")
Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes
é serem velhos amantes.
E começarem assim
o amor pelo fim.
(Regina Guimarães, in "Tutta")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PAULO CAMPOS DOR REIS
Eu acredito no meu pai
nascido em 1941
quando vem, de manhã, todo nu
tapar-me com um cobertor
(Paulo Campos dos Reis, in "Autógrafo seguido de Autocolantes")
nascido em 1941
quando vem, de manhã, todo nu
tapar-me com um cobertor
(Paulo Campos dos Reis, in "Autógrafo seguido de Autocolantes")
03/12/08

Os Maias contados às crianças
Espectáculo multidisciplinar para miúdos e graúdos
Numa acção conjunta entre as Quintas de Leitura e o Serviço Educativo, o Teatro do Campo Alegre leva a cena a obra “Os Maias”, adaptada para crianças pelo poeta José Luís Peixoto.
Espectáculo multidisciplinar para miúdos e graúdos
Numa acção conjunta entre as Quintas de Leitura e o Serviço Educativo, o Teatro do Campo Alegre leva a cena a obra “Os Maias”, adaptada para crianças pelo poeta José Luís Peixoto.
O espectáculo, destinado a público dos 8 aos 80 anos, será apresentado nos dias 6, às 16h00 e às 21h30, e 7 de Dezembro às 16h00.
Um trabalho multidisciplinar, inovador e arrojado que junta em palco, ao vivo, o músico Alexandre Soares (ex - GNR e Três Tristes Tigre), o conhecido ilustrador António Jorge Gonçalves e o actor Alberto Magassela.
O projecto agora apresentado foi concebido pelos programadores do TCA Rute Pimenta e João Gesta e desenvolvido pelos artistas convidados.
Preço: 7.50 euros (adultos) – 5.00 euros (crianças)
Informações e reservas: bilheteira do TCA – 226063000 (a partir das 15h00)
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ RUI REININHO
PENA DE MORTE
Que pena as árvores morrerem de pé
Que pena ser massa comida às colheres
Que pena o meu humor ser negro
Que pena ser mouro ter só quatro mulheres
Que pena este grito não chegar a Marte
Que pena pequena a pena de morte
Que pena a tinta não ser permanente
(Que penas que tinhas índia à minha frente)
Que pena a maçã já não ser pecado
Que pena a bomba ter rebentado
A pena que eu tenho deu-te sorte
A pena pequena é pena de morte
Que pena este grito não chegar a Marte
(Rui Reininho, in "líricas come on & anas)
Que pena as árvores morrerem de pé
Que pena ser massa comida às colheres
Que pena o meu humor ser negro
Que pena ser mouro ter só quatro mulheres
Que pena este grito não chegar a Marte
Que pena pequena a pena de morte
Que pena a tinta não ser permanente
(Que penas que tinhas índia à minha frente)
Que pena a maçã já não ser pecado
Que pena a bomba ter rebentado
A pena que eu tenho deu-te sorte
A pena pequena é pena de morte
Que pena este grito não chegar a Marte
(Rui Reininho, in "líricas come on & anas)
OS POETAS DAS "QUINTAS"/valter hugo mãe
a máquina de fazer espanhóis
uma máquina que transformasse portugueses em
espanhóis, impecável, infalível, perfeita, eles
entrando por um lado pálidos e mirrados, saindo
do outro corados, estendidos de narizes proeminentes e
orgulho. uma máquina que fosse tão esperta que,
no momento de decidir cada coisa, preterisse sempre
portugal e trouxesse ao de cima o esplendor do país
vizinho. era pegar nessa máquina, saber quem a inventou
e fazer-lhe amor pelo cu até que desfalecesse extenuado.
enviar relatório detalhado para todo o mundo, alardiar
entusiasticamente a satisfação de quem, nem que seja
por casmurrice, espera por sebastião
(valter hugo mãe, in "pornografia erudita")
uma máquina que transformasse portugueses em
espanhóis, impecável, infalível, perfeita, eles
entrando por um lado pálidos e mirrados, saindo
do outro corados, estendidos de narizes proeminentes e
orgulho. uma máquina que fosse tão esperta que,
no momento de decidir cada coisa, preterisse sempre
portugal e trouxesse ao de cima o esplendor do país
vizinho. era pegar nessa máquina, saber quem a inventou
e fazer-lhe amor pelo cu até que desfalecesse extenuado.
enviar relatório detalhado para todo o mundo, alardiar
entusiasticamente a satisfação de quem, nem que seja
por casmurrice, espera por sebastião
(valter hugo mãe, in "pornografia erudita")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARTA BERNARDES
No. X
Marta não deixes cair o r.
(Marta Bernardes, in "Arquivo de nuvens")
Marta não deixes cair o r.
(Marta Bernardes, in "Arquivo de nuvens")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARIA ANDRESEN
AINDA a ALEGRIA
Que ficassem a uma distância
em que não visse
os dentes quando riem
esse riso: a pele que gera o germe
e sua multiplicação:
- eu sei que o tempo avança
a contaminação ramificada
de corpo-a-corpo
pouco já serei gente, apenas
o medo e seus cercados
apenas aquela crueza
como só na infância
apenas não quero ver, de outrora
o azul já comido pelas traças -
no avesso do «branco», do «exacto»:
a avidez
um obstinado nojo que preserva
das Fúrias a alegria
(Maria Andresen, in "Lugares")
Que ficassem a uma distância
em que não visse
os dentes quando riem
esse riso: a pele que gera o germe
e sua multiplicação:
- eu sei que o tempo avança
a contaminação ramificada
de corpo-a-corpo
pouco já serei gente, apenas
o medo e seus cercados
apenas aquela crueza
como só na infância
apenas não quero ver, de outrora
o azul já comido pelas traças -
no avesso do «branco», do «exacto»:
a avidez
um obstinado nojo que preserva
das Fúrias a alegria
(Maria Andresen, in "Lugares")
02/12/08
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda. não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
(Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois")
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda. não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
(Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOÃO HABITUALMENTE
NEM TANTO AO MAR
Amo o mar
porque não tem fim
e os vagabundos que não têm pilim
Mas pelo meio das formas
e das aparências sem fundo
parecendo que amo o mundo
amo-me sobretudo a mim
Talvez venha a querer ao mar
ou vagamente a um vagabundo
talvez os ame no fundo
Mas no rodar infindo
daquilo que não tem fim
quero-me principalmente a mim
Ao resto das formas
e das aparências do mundo
amo só assim-assim
(João Habitualmente, in "Os Animais Antigos")
Amo o mar
porque não tem fim
e os vagabundos que não têm pilim
Mas pelo meio das formas
e das aparências sem fundo
parecendo que amo o mundo
amo-me sobretudo a mim
Talvez venha a querer ao mar
ou vagamente a um vagabundo
talvez os ame no fundo
Mas no rodar infindo
daquilo que não tem fim
quero-me principalmente a mim
Ao resto das formas
e das aparências do mundo
amo só assim-assim
(João Habitualmente, in "Os Animais Antigos")
01/12/08
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
o ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi antes
de aprender a álgebra
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos")
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
o ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi antes
de aprender a álgebra
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ NUNO MOURA
DESEMPREGO
Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.
(Nuno Moura, in "Soluções do problema anterior")
Ele mesmo se fecha a quem mais é,
corre a queimar água na pele.
Acumula alívios nos olhos, com a boca
no trinco espalha correntes na memória e rolos
nas brechas do vento.
Ri ao lado, rasgado como a dívida do céu,
de braços atrelados em cabides, com vigília
de alfinetes no remorso.
Por dentro encera-se, esperando que
o rebentar da porta lhe permita uma nova tarefa.
(Nuno Moura, in "Soluções do problema anterior")
OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ANA LUÍSA AMARAL
AS PEQUENAS GAVETAS DO AMOR
Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz
Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde
Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores
Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -
(Ana Luísa Amaral, in "Imagias")
Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz
Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde
Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores
Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -
(Ana Luísa Amaral, in "Imagias")
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