28/10/08
- IRENE! IRENE! SIRVA O LEITE-CREME!
Estes versos de Alexandre O´Neill dão nome à próxima sessão das "Quintas de Leitura".
Realiza-se no dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA. Os bilhetes para este espectáculo serão postos à venda a partir das 13h00 de hoje.
Participam nesta mega-festa da poesia os seguintes artistas:
Leituras
O COPO (Nuno Moura e Paulo Condessa)
CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Isaque Ferreira e Pedro Lamares)
Textos
Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas
Imagem
Manuela Pimentel
Performance
Mariana Rocha (apresenta a peça "Curta-mixagem)
Música
Carlos Maza (pianista e compositor) / projecto "Trotamundo"
Concepção e coordenação
João Gesta e Mafalda Capela
Um recital que apetece levar para casa...
Realiza-se no dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA. Os bilhetes para este espectáculo serão postos à venda a partir das 13h00 de hoje.
Participam nesta mega-festa da poesia os seguintes artistas:
Leituras
O COPO (Nuno Moura e Paulo Condessa)
CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Isaque Ferreira e Pedro Lamares)
Textos
Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas
Imagem
Manuela Pimentel
Performance
Mariana Rocha (apresenta a peça "Curta-mixagem)
Música
Carlos Maza (pianista e compositor) / projecto "Trotamundo"
Concepção e coordenação
João Gesta e Mafalda Capela
Um recital que apetece levar para casa...
23/10/08
Podemos encontrar referência ao recital de hoje - A noite abre meus olhos -na internet, entre outros, nestes sítios (clicar):
PnetLiteratura
SNPC
Educare
PnetLiteratura
SNPC
Educare
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA HOJE NAS "QUINTAS DE LEITURA"
Em jeito de despedida, publicamos hoje o poema que fecha o recital. Será lido pela actriz Sofia Grillo.
Endzeit
Atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca
José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Endzeit
Atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca
José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
22/10/08
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Filipa Leal lerá na sessão de amanhã "A rapariga de Providence", um poema de José Tolentino Mendonça:
A rapariga de Providence
Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil
a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
A rapariga de Providence
Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil
a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
OLD JERUSALEM

O songwriter Francisco Silva regressa às Quintas de Leitura amanhã à noite, na sessão dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça.
Tudo sobre o projecto OLD JERUSALEM de Francisco Silva clicando aqui.
Fotografia de Leonel Sousa
21/10/08
Atenção ! Alteração ao espectáculo

Por motivos de saúde a fadista Aldina Duarte não poderá participar na sessão dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça, na próxima Quinta-feira, dia 23 Outubro, às 22h00. Em seu lugar actuará o songwriter Francisco Silva (Old Jerusalem).
José Tolentino Mendonça
nas Quintas de Leitura
"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)
A noite de 23 de Outubro marca a estreia do Poeta e teólogo José Tolentino Mendonça nas "Quintas de Leitura" do TCA.
Intitulada "A noite abre meus olhos", a sessão dedicada a Tolentino contará com a presença do songwriter Francisco Silva – OLD JERUSALEM – música alternativa, pop e folk. Francisco Silva interpretará alguns dos seus maiores êxitos dos seus três álbuns já editados por uma das actuais editoras de referência Borland.
As leituras perpassam toda a obra poética de Tolentino e estarão, desta feita, a cargo dos actores Sofia Grillo, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis e da poeta Filipa Leal.
A performer Sónia Baptista, presença habitual nas "Quintas de Leitura", apresentará, em estreia absoluta, a peça "Da Anatomia do Caracol", inspirada nos versos de Tolentino Mendonça.
Refira-se, por fim, a estreia da conhecida artista plástica Ilda David' neste ciclo poético. Ficaremos a dever-lhe as inolvidáveis imagens da sessão.
Uma noite de estreias e de estrelas fulgentes que darão Luz à sua existência.
José Tolentino Mendonça
nas Quintas de Leitura
"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)
A noite de 23 de Outubro marca a estreia do Poeta e teólogo José Tolentino Mendonça nas "Quintas de Leitura" do TCA.
Intitulada "A noite abre meus olhos", a sessão dedicada a Tolentino contará com a presença do songwriter Francisco Silva – OLD JERUSALEM – música alternativa, pop e folk. Francisco Silva interpretará alguns dos seus maiores êxitos dos seus três álbuns já editados por uma das actuais editoras de referência Borland.
As leituras perpassam toda a obra poética de Tolentino e estarão, desta feita, a cargo dos actores Sofia Grillo, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis e da poeta Filipa Leal.
A performer Sónia Baptista, presença habitual nas "Quintas de Leitura", apresentará, em estreia absoluta, a peça "Da Anatomia do Caracol", inspirada nos versos de Tolentino Mendonça.
Refira-se, por fim, a estreia da conhecida artista plástica Ilda David' neste ciclo poético. Ficaremos a dever-lhe as inolvidáveis imagens da sessão.
Uma noite de estreias e de estrelas fulgentes que darão Luz à sua existência.
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".
O actor Pedro Lamares lerá na sessão da próxima quinta-feira este poema de José Tolentino Mendonça:
Sobre um improviso de John Coltrane
Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Sobre um improviso de John Coltrane
Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
20/10/08
MAIS UM POEMA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Uma coisa a menos para adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
( in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
( in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
17/10/08
É JÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA A SESSÃO COM O POETA JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Um dos poemas que será lido na sessão:
Plumas
Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes
O amor vive na ponta dos cabelos
O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma
Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite
Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio
José Tolentino Mendonça
Plumas
Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes
O amor vive na ponta dos cabelos
O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma
Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite
Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio
José Tolentino Mendonça
16/10/08
A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Um poema de José Tolentino Mendonça, que será lido por Filipa Leal na sessão do próximo dia 23 de Outubro:
Diálogo para um personagem
de Andrei Tarkovskii
dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio
faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Diálogo para um personagem
de Andrei Tarkovskii
dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio
faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
15/10/08
HERBERTO HELDER, OUTRA VEZ
14/10/08
UMA PAUSA NA CRISE

O mais recente livro de Herberto Helder - "A faca não conta o fogo", 3.000 exemplares, Assírio & Alvim"- esgotou em poucas horas.
Para quem não teve a felicidade de o conseguir adquirir, aqui vos deixo um dos poemas que mais me fascinou:
(na morte de Mário Cesariny)
corpos visíveis,
nobilíssimos,
inseparável luz que move as coisas,
ter um inferno à mão seja qual for a língua,
toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas,
à porta do forno crematório alguém lhe toca,
vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não
possas, brilha acima,
faz brilhar a mão que melhor redemoinha,
a mão mais inundada,
e ele entra sem esperança nenhuma,
só na última linha quando o coração rebenta,
reconhece quem o olha
Herberto Helder
Para quem não teve a felicidade de o conseguir adquirir, aqui vos deixo um dos poemas que mais me fascinou:
(na morte de Mário Cesariny)
corpos visíveis,
nobilíssimos,
inseparável luz que move as coisas,
ter um inferno à mão seja qual for a língua,
toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas,
à porta do forno crematório alguém lhe toca,
vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não
possas, brilha acima,
faz brilhar a mão que melhor redemoinha,
a mão mais inundada,
e ele entra sem esperança nenhuma,
só na última linha quando o coração rebenta,
reconhece quem o olha
Herberto Helder
13/10/08
AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Começar a semana a publicar um poema de José Tolentino Mendonça dá saúde e faz crescer.
Assim sendo, não hesitei:
Avisos
Explosões ouviam-se cada vez mais perto na baía
mas dizia-se são pescadores furtivos
amanhã veremos centenas de pequenos peixes
mortos pela praia.
um vento ríspido trazia do deserto
nuvens de areia
depositava às portas e nos telhados
uma muda ameaça
(in "A noite abre meus olhos/ poesia reunida", Assírio & Alvim)
Assim sendo, não hesitei:
Avisos
Explosões ouviam-se cada vez mais perto na baía
mas dizia-se são pescadores furtivos
amanhã veremos centenas de pequenos peixes
mortos pela praia.
um vento ríspido trazia do deserto
nuvens de areia
depositava às portas e nos telhados
uma muda ameaça
(in "A noite abre meus olhos/ poesia reunida", Assírio & Alvim)
10/10/08
Mudamos de cara!
Um belo dia para mudar.
Após 25 mil páginas visitadas neste blogue resolvemos
mudar de cara, ou pelo menos de cabeçalho.
Fica aqui o mote que encabeçou este blogue desde a sua nascença até hoje.

NOVALIS, por nós:
A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia.
Quanto mais poético, mais verdadeiro.
Após 25 mil páginas visitadas neste blogue resolvemos
mudar de cara, ou pelo menos de cabeçalho.
Fica aqui o mote que encabeçou este blogue desde a sua nascença até hoje.

NOVALIS, por nós:
A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia.
Quanto mais poético, mais verdadeiro.
AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Publicamos hoje o poema que abre a sessão de 23 de Outubro. Será lido pelo actor Pedro Lamares.
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi antes
de aprender a álgebra
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi antes
de aprender a álgebra
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
09/10/08
A MULHER DESCONHECIDA

Mais um poema de José Tolentino Mendonça. Será lido, na sessão de 23 de Outubro, pelo actor Pedro Lamares.
A mulher desconhecida
É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome
eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida, Assírio & Alvim)
A mulher desconhecida
É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome
eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida, Assírio & Alvim)
Fotografia de Pat
08/10/08
"Os dias contados" de José Tolentino Mendonça

A actriz Sofia Grillo lerá, na sessão de 23 de Outubro, este belo poema de José Tolentino Mendonça:
Travessa da infância
Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas
lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo
não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias
só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo
mas isso foi
muito depois
repito
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Travessa da infância
Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas
lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo
não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias
só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo
mas isso foi
muito depois
repito
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Fotografia de Mafalda Capela
07/10/08
A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Publicamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão do dia 23 de Outubro.
Revelação
Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo
Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância
Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas
Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Revelação
Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo
Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância
Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas
Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
06/10/08
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
23 de Outubro no TCA: uma noite cheia de estrelas fulgentes.
Poesia
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Música
ALDINA DUARTE
acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado)
Leituras
FILIPA LEAL, SOFIA GRILLO, PAULO CAMPOS DOS REIS e PEDRO LAMARES
Performance
SÓNIA BAPTISTA
Imagem
ILDA DAVID'
"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)
Poesia
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Música
ALDINA DUARTE
acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado)
Leituras
FILIPA LEAL, SOFIA GRILLO, PAULO CAMPOS DOS REIS e PEDRO LAMARES
Performance
SÓNIA BAPTISTA
Imagem
ILDA DAVID'
"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)
25.000 PÁGINAS VISITADAS DO NOSSO BLOGUE
Obrigado a todos os que, dia a dia, nos ajudam a crescer. Juntos, virados para o Futuro e de mãos dadas com o Sonho, construiremos um mundo com mais Amor e mais Liberdade.
Este poema é para si, que ainda acredita que a Poesia pode ajudar a transformar o mundo.
SOCORROS MÚTUOS
Códigos indecifráveis, demasiados
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.
Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.
De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.
Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.
(poema de Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão", &etc)
Este poema é para si, que ainda acredita que a Poesia pode ajudar a transformar o mundo.
SOCORROS MÚTUOS
Códigos indecifráveis, demasiados
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.
Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.
De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.
Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.
(poema de Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão", &etc)
03/10/08
O ESTERCO DO MUNDO
Tenho amigos que rezam a Simone Weil
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor
Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros
Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre
São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»,
citação que Flannery trazia à cabeceira
José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor
Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros
Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre
São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»,
citação que Flannery trazia à cabeceira
José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
02/10/08
A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
A tua mão
Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
uma linha de fogo em enormes proporções
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto
tanto se parece a uma despedida
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
uma linha de fogo em enormes proporções
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto
tanto se parece a uma despedida
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
01/10/08
ALDINA DUARTE NAS "QUINTAS DE LEITURA"
É a terceira presença da fadista Aldina Duarte nas "Quintas de Leitura".
Aldina actuará, durante trinta minutos, na segunda parte da sessão "A noite abre meus olhos", dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça.
A fadista, acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado), cantará alguns temas do seu novo disco "Mulheres ao espelho".
No dia 23 de Outubro todos os caminhos vão dar ao TCA.
30/09/08
A QUE DISTÂNCIA DEIXASTE O CORAÇÃO
Este poema de José Tolentino Mendonça também será lido na próxima sessão das "Quintas":
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
29/09/08
A ESTREIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS"
É já no próximo dia 23 de Outubro que o Poeta José Tolentino Mendonça se estreará nas "Quintas de Leitura" do TCA.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de amanhã (13h00).
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão.
Do amor
À luz trazemos este paciente limite
não está em nós guiá-lo
ficará o amor
na sua grande maioria desconhecido
ensurdece a terra esta verdade
Assim se entende a inércia do mundo
pântanos torres e os recentes desertos
Assim se compreende por exemplo
que guardadores zelosos por nós pagos
cerrem a entrada nos jardins
ao princípio da noite
mas Lídia pede o poeta
«vem sentar-te comigo
à beira-rio»
à beira, à beira de quê?
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de amanhã (13h00).
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão.
Do amor
À luz trazemos este paciente limite
não está em nós guiá-lo
ficará o amor
na sua grande maioria desconhecido
ensurdece a terra esta verdade
Assim se entende a inércia do mundo
pântanos torres e os recentes desertos
Assim se compreende por exemplo
que guardadores zelosos por nós pagos
cerrem a entrada nos jardins
ao princípio da noite
mas Lídia pede o poeta
«vem sentar-te comigo
à beira-rio»
à beira, à beira de quê?
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
26/09/08
25/09/08
A QUARTA PRESENÇA DE GONÇALO NAS "QUINTAS". ESTA NOITE.
Hoje é dia de Gonçalo M. Tavares nas "Quintas".
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
24/09/08
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".
Publicamos hoje mais um poema de José Tolentino Mendonça, o poeta convidado das "Quintas de Leitura" em 23 de Outubro.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
23/09/08
O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
22/09/08
ESTE POEMA DEU NOME À SESSÃO
José Tolentino Mendonça estreia-se nas "Quintas de Leitura" no dia 23 de Outubro. Publicamos hoje o poema que deu nome à sessão.
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
18/09/08
OS MORTOS
Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
PALAVRAS, ACTOS
A ironia ensina a sabotar uma frase
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
17/09/08
CONSTRUÇÃO
A construção metódica de ruínas:
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
16/09/08
PINTURA
O arco-íris cai não interferindo
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
JÁ RESTAM POUCOS BILHETES
Aguarda-se com expectativa o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Uma sessão que se adivinha cheia de momentos mágicos.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
15/09/08
O TREINO (OBSERVAÇÃO LIGEIRAMENTE PERVERSA)
Claro que o atleta treinado
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
12/09/08
O ACIDENTE
A pedra cai sobre a cabeça
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
11/09/08
ARQUITECTO
Depois da arquitectura
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
10/09/08
CHÃO
Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
09/09/08
A CAIXA DE FERRAMENTAS (SOBRE A POESIA)
Uma cabeça mais inteligente
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
Performance Líquida - Margarida Mestre
Uma das grandes performers que já passaram este ano pelas Quintas de Leitura. As palavras são de Jorge Sousa Braga.
08/09/08
DESTINO
Ninguém tem tanto azar que caia num buraco inexistente
nem tanta força que seja capaz de subir à montanha plana.
Escavando, levantava a cabeça,
e quando levantava a cabeça dançava.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D'Água Editores)
nem tanta força que seja capaz de subir à montanha plana.
Escavando, levantava a cabeça,
e quando levantava a cabeça dançava.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D'Água Editores)
05/09/08
A próxima aventura de Gonçalo M. Tavares nas Quintas de Leitura
Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Será a sua 4ª presença neste ciclo poético.
A sessão, intitulada "A Literatura e o Reino", realiza-se no dia 25 de Setembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.
Gonçalo fará uma conferência sobre os seus quatro livro pretos (tetralogia "O Reino"): "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser", "Jerusalém" (Prémio Portugal Telecom "de literatura" 2007) e ""Aprender a rezar na Era da Técnica".
O pianista Bernardo Sassetti (piano solo) será o cúmplice primeiro de Gonçalo M. Tavares nesta aventura por terras do "Reino".
Serão lidos fragmentos, escolhidos pelo autor, de cada um dos livros que compõem a tetralogia. As leituras estarão a cargo de Susana Menezes, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Paulo Campos dos Reis.
O guitarrista Alexandre Soares (Ex-GNR) apresentará a peça "Nas mãos de Lenz", inspirada numa das personagens do livro "Aprender a rezar na Era da Técnica".
A imagem da sessão é da responsabilidade de Rachel Caiano, que prossegue assim a sua habitual colaboração com o autor convidado.
Prometemos-lhe uma noite intensa e mágica, onde poderá ouvir tudo o que nunca foi dito sobre os livros pretos de Gonçalo M. Tavares.
A sessão, intitulada "A Literatura e o Reino", realiza-se no dia 25 de Setembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.
Gonçalo fará uma conferência sobre os seus quatro livro pretos (tetralogia "O Reino"): "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser", "Jerusalém" (Prémio Portugal Telecom "de literatura" 2007) e ""Aprender a rezar na Era da Técnica".
O pianista Bernardo Sassetti (piano solo) será o cúmplice primeiro de Gonçalo M. Tavares nesta aventura por terras do "Reino".
Serão lidos fragmentos, escolhidos pelo autor, de cada um dos livros que compõem a tetralogia. As leituras estarão a cargo de Susana Menezes, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Paulo Campos dos Reis.
O guitarrista Alexandre Soares (Ex-GNR) apresentará a peça "Nas mãos de Lenz", inspirada numa das personagens do livro "Aprender a rezar na Era da Técnica".
A imagem da sessão é da responsabilidade de Rachel Caiano, que prossegue assim a sua habitual colaboração com o autor convidado.
Prometemos-lhe uma noite intensa e mágica, onde poderá ouvir tudo o que nunca foi dito sobre os livros pretos de Gonçalo M. Tavares.
Uma noite que se prolongará pelos dias seguintes. Absolutamente a não perder.
(fotografia: Pat)
DOIS MUNDOS
Repara, são dois mundos.
Não é possível atirar água
à matemática.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Não é possível atirar água
à matemática.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
04/09/08
SOBRE O AMOR
No intervalo entre duas garrafas, ele colocou uma terceira
Garrafa, e assim sucessivamente
Até fazer uma garrafeira. O espaço entre duas partículas
Da Física não é tão entusiasmante como o espaço
Que existe algures no teu decote;
daí que a parte da cidade interessada no erotismo
tenha abandonado todos os estudos
Que se referem a partículas mínimas e outras
Preciosidades. Medidas discretas tem o ar,
Que não se vê, e o Nada, que não existe. Robustez, é preciso;
Em cima da semente minúscula que se construa um edifício
Alto ou pelo menos uma laranjeira.
Vejamos: o que é o amor? O amor depois de aberto ao meio
É um. E mais não sei sobre essa
Mentira.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Garrafa, e assim sucessivamente
Até fazer uma garrafeira. O espaço entre duas partículas
Da Física não é tão entusiasmante como o espaço
Que existe algures no teu decote;
daí que a parte da cidade interessada no erotismo
tenha abandonado todos os estudos
Que se referem a partículas mínimas e outras
Preciosidades. Medidas discretas tem o ar,
Que não se vê, e o Nada, que não existe. Robustez, é preciso;
Em cima da semente minúscula que se construa um edifício
Alto ou pelo menos uma laranjeira.
Vejamos: o que é o amor? O amor depois de aberto ao meio
É um. E mais não sei sobre essa
Mentira.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
03/09/08
A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES
Retomamos hoje a publicação de mais alguns poemas do próximo convidado das "Quintas de leitura".
Conselhos inúteis
Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.
(in "1" / Relógio D'Água Editores)
Conselhos inúteis
Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.
(in "1" / Relógio D'Água Editores)
O REGRESSO DE GONÇALO M. TAVARES ÀS "QUINTAS DE LEITURA"
25 de Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares a este ciclo poético. Um evento que contará com a presença dos seguintes artistas:
Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.
Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.
02/09/08
ATÉ SEMPRE, POETA!
uma boina
eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara
enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa
(Joaquim Castro Caldas, in "Mágoa Das Pedras"/Deriva Editores)
01/09/08
SÓ CÁ VIM VER O SOL
Morreu ontem Joaquim Castro Caldas. Morreu um grande Poeta e um Homem de uma enorme integridade intelectual.
Publicamos aqui, sem cortes, um belo e comovente depoimento do também grande Poeta António Pedro Ribeiro:
"Foi o Joaquim Castro Caldas que me ensinou a dizer poesia. Foi o Joaquim Castro Caldas que me mostrou aquele jeito rebelde e sarcástico de lidar com as palavras. O Joaquim foi o mentor das noites de poesia no Pinguim quando uma multidão acorria àquele bar no Porto para, simplesmente, ouvir e dizer poesia. O Joaquim foi um dos maiores divulgadores da poesia neste país. E era, também, um excelente poeta. Quando escrevo estas linhas o Joaquim se não está morto deverá estar às portas da morte. Agora é fácil culpar o álcool, as úlceras, a vida que o Joaquim levava. Agora toda a gente vai procurar os escritos que o Joaquim deixou por aí espalhados. O Joaquim Castro Caldas tinha um feitio difícil. Por vezes, parecia arrogante. Mas por detrás dessa aparente arrogância havia uma grande generosidade. A generosidade de quem viu o inferno mas também o céu. A obra do Joaquim não teve o reconhecimento que merecia. Porque o Joaquim era um verdadeiro poeta. Levou uma vida de poeta. Andou pelos bares, procurou a loucura. Não foi um desses versejadores da corte, bem comportadinhos, sempre à cata do prémio. Olha, Joaquim, espero que te safes desta. Senão vai para o céu. Vai para o céu, porque o mereces. "
(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)
(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)
Morreu o Poeta, fica o seu valioso legado poético.
QUE SE FREUD
aos 20 já fodes
ainda não te fodem
aos 30 ainda fodes
mas já te fodem
aos 40 nem odes
nem ais de cima
aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem
aos 60 dizem-te
que sabes da poda
aos 70 não te fodem
porque já se fodem
aos 80 que se Freud
porque a morte
(Joaquim Castro Caldas, in "Convém Avisar os Ingleses / Quasi Edições)
Joaquim, confesso-te, aqui, coração à altura do teclado: com a idade, fui aprendendo a gostar de ti.
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José Tolentino Mendonça e Pedro Lamares (Leituras)
Leituras: Paulo Campos dos Reis
Leituras: Sofia Grillo
Leituras: Filipa Leal 




























