30/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/MANUEL ANTÓNIO PINA

AQUELE QUE QUER MORRER

São chegados os tempos escandalosos
da Morte e da Inocência.
Aquele que quer saber e
apodrece de fora para dentro

dança já sobre os destroços do Futuro
com voláteis pés conceituais.
O sentido de tudo faz parte de tudo,
o Mistério não pode ser ocultado nem revelado.

Tudo o que passou
está a ser passado infinitamente
e o Futuro é a eternidade de isto
e tudo é sabido em si próprio.

(Manuel António Pina, in "Poesia Reunida")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ ADÍLIA LOPES

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

(Adília Lopes, in "Quem Quer Casar Com a Poetisa?")

29/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ DANIEL JONAS

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA
Que uma musa metálica redime
E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,
Soldo a métrica, malho p'ra que rime.
Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,
Na homérica bigorna chispa e liça.
Silvam sereias, chamam-me ao regaço,
Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.
Como operário do verso blindo a nave
Que ao leme outro almirante levará;
Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:
Neste solo outro mastro cantará.
E se o cálamo às vezes carpe as bulhas
Das carúnculas saem-me faúlhas.

(Daniel Jonas, in "Sonótono")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ FERNANDO PINTO DO AMARAL

ECO

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.

Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.

Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence -
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.

(Fernando Pinto do Amaral, in "Acédia")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JORGE SOUSA BRAGA

BOLETIM METEREOLÓGICO

Céu muito nublado vento
fraco moderado de sudoeste

soprando forte nas terras
altas aguaceiros em especial

nas regiões do Norte e Centro
e que serão de neve nos

pontos mais altos da Serra
da Estrela e no teu coração.

(Jorge Sousa Braga, in "Porto de Abrigo")

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ PEDRO MEXIA

FADO

De quem eu gosto
as paredes estão fartas de saber.

(Pedro Mexia, in "Avalanche")

28/11/08

OS POETAS DAS "QUINTAS" / DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES


Daniel Maia-Pinto Rodrigues por Pat


HOMEM

Velho
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.

A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.

A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Púrpura 77")

OS POETAS DAS "QUINTAS" / CATARINA NUNES DE ALMEIDA

Catarina Nunes de Almeida por Pat


A PROSTITUTA DA RUA DA GLÓRIA

Tanges a noite sem saber que a noite
é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango -
um ténue resquício de feno escondido na nuca.

Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.

Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes -
ténues resquícios de feno escondido na nuca.

Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.

(Catarina Nunes de Almeida, in "Prefloração)

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ JOÃO RIOS

GULOSA DE META FÍSICA

noviças de são tristão
não mirreis vossas entranhas
não percais vosso quinhão
com bordados e tisanas

sabede novas de luzia
que bem professa
nas naus do grande
gama

nas naus do grande gama
e sem laivos de tormenta
entrega soror as mamas
aos famintos de pimenta

aos famintos de pimenta
e com ares de timoneiro
a que a irmã acrescenta
as graças do seu traseiro

as graças do seu traseiro
o maná da sua fornalha
que neste amor pioneiro
à luzia nada lhe falha

à luzia nada lhe falha
nem a flauta nos beiços
e saltando como gralha
dá-lhes com força nos seixos

(João Rios, in "Livro das Legendas")

26/11/08


A próxima sessão de QUINTAS DE LEITURA será uma festa de Poesia que celebra o lançamento dO 12º livrod a colecção Cadernos do Campo Alegre, a antologia DIGA TRINTA E TRÊS. Para ler o flyer (design de Susana Fernando) clicar sobre a imagem.

OS POETAS DAS "QUINTAS"/ FILIPA LEAL

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.

(Filipa Leal, in " A cidade líquida e outras texturas")

OS POETAS DAS "QUINTAS" / NUNO JÚDICE

VARIAÇÃO SOBRE ROSAS

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

(Nuno Júdice, in "Pedro, Lembrando Inês")

25/11/08

OS NOSSOS "33 MAGNÍFICOS" POETAS DAS QUINTAS


No próximo dia 18 de Dezembro as "Quintas de Leitura" organizarão a sessão de lançamento da antologia "DIGA 33 - OS POETAS DAS QUINTAS DE LEITURA".
Lembramos hoje o nome dos Poetas que participam na antologia e que alimentaram com o seu talento e a sua disponibilidade este ciclo poético (Janeiro de 2002 até Dezembro de 2008):

Adília Lopes
Adolfo Luxúria Canibal
Aldina Duarte
Ana Deus
Ana Luísa Amaral
António Mega Ferreira
Catarina Nunes de Almeida
Daniel Jonas
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Fernando Pinto do Amaral
Filipa Leal
Gonçalo M. Tavares
João Habitualmente
João Rios
Jorge Reis-Sá
Jorge Sousa Braga
José Luís Peixoto
José Tolentino Mendonça
Manuel António Pina
Maria Andresen
Maria do Rosário Pedreira
Marta Bernardes
Nuno Júdice
Nuno Moura
Paulo Campos dos Reis
Paulo Condessa
Pedro Abrunhosa
Pedro Mexia
Regina Guimarães
Rui Reininho
valter hugo mãe
Vasco Gato
Yolanda Castaño

Participam ainda na antologia:

João Gesta - organização
Pat - retratos dos 33 poetas convidados
Susana Fernando - design gráfico


No dia 18, leve-nos para casa e guarde-nos, para sempre, no seu coração do meio.

24/11/08

Irene! Irene! Sirva o leite-creme!















Nós tínhamos prometido: um recital com jantes alargadas. Assim foi. Começou às 22h10 e terminou à 01h20. Aqui ficam alguns registos desta noite memorável. As fotografias são da Mafalda Capela. Se cá estiveram comentem. Gostamos sempre de partilhar opiniões.

Os heróis da noite (de cima para baixo)

Carlos Maza
A família Maza
Ana Carla Maza
Mariana Rocha ( performance «Curta-Mixagem»)
Pedro Lamares (membro da CGD em sentida homenagem ao poeta Joaquim Castro Caldas)
Isabel Nunes ( A «Irene» que trouxe o leite-creme)
O COPO (Paulo Condessa e Nuno Moura, festejam 10 anos de acção poética no TCA)
Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Isaque Ferreira ( dupla exótica da CGD)
Nos agradecimentos: também Manuela Pimentel a artista plástica que deu «imagem» ao recital.

20/11/08

HOJE É DIA DE "QUINTAS"

Mais um poema de Joaquim Castro Caldas:

AO LADO

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o abismo

de te perder num afago
de te ter do outro lado
do medo à minha beira

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o amor

que há noites ao teu lado
em que me dói não sei
onde é que a distância ai

havia tantas coisas
se não fosse este fuçar
de nem fugir nem amar

19/11/08

HOJE NA TV


Hoje, entre as 16:00h e as 18:00h, no programa ZONA INTERDITA da Porto Canal, a Caixa Geral de Despojos estará em estúdio, em directo na TV, convidada a propósito da sessão de Quintas de Leitura de amanhã.

Tudo por culpa do RECITAL COM JANTES ALARGADAS: "Irene!Irene! Sirva o leite-creme!"

Participem também através do blogue do programa. Basta clicar aqui.

(fotografia: pat)

18/11/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Publicamos hoje mais um poema de Joaquim Castro Caldas.

PRECE

um dia hei-de
ser um escritor
se tu meu amor
estupor de mundo
quando perder
a falsa linha
que une e separa
o homem do poeta
o rosto da máscara
o sémen da seiva
farei da palavra
profecia e alma
promessa e arma
o tiro será teu
mas a bala minha

(in "Só cá vim ver o sol", Quasi Edições)

17/11/08




Aproximem-se de José Luís Peixoto através do blogue que o escritor mantém no site da revista brasileira BRAVO.

Para acompanhar AQUI ou através da barra de blogues de poetas aqui ao lado esquerdo.



A Poesia de Joaquim Castro Caldas

O actor Pedro Lamares lerá no recital da próxima quinta-feira alguns poemas de Joaquim Castro Caldas. É a nossa forma singela e sentida de lembrar o Poeta, recentemente falecido.

DEVOLUÇÃO DOS CRAVOS

um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de uma G-3

hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país


PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz


MATANÇA DO TEMPO

já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado

(in "Convém Avisar os Ingleses", Quasi Edições)