Publicamos hoje mais um poema de Joaquim Castro Caldas.
PRECE
um dia hei-de
ser um escritor
se tu meu amor
estupor de mundo
quando perder
a falsa linha
que une e separa
o homem do poeta
o rosto da máscara
o sémen da seiva
farei da palavra
profecia e alma
promessa e arma
o tiro será teu
mas a bala minha
(in "Só cá vim ver o sol", Quasi Edições)
18/11/08
17/11/08


Aproximem-se de José Luís Peixoto através do blogue que o escritor mantém no site da revista brasileira BRAVO.
Para acompanhar AQUI ou através da barra de blogues de poetas aqui ao lado esquerdo.
A Poesia de Joaquim Castro Caldas
O actor Pedro Lamares lerá no recital da próxima quinta-feira alguns poemas de Joaquim Castro Caldas. É a nossa forma singela e sentida de lembrar o Poeta, recentemente falecido.
DEVOLUÇÃO DOS CRAVOS
um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de uma G-3
hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país
PARÁBOLA DA PEQUENEZ
uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente
ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez
ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez
ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz
MATANÇA DO TEMPO
já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado
(in "Convém Avisar os Ingleses", Quasi Edições)
DEVOLUÇÃO DOS CRAVOS
um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de uma G-3
hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país
PARÁBOLA DA PEQUENEZ
uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente
ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez
ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez
ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz
MATANÇA DO TEMPO
já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado
(in "Convém Avisar os Ingleses", Quasi Edições)
14/11/08
HOMEM

Velho
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.
A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.
A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.
A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.
A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)
13/11/08
O programador em acção
João Gesta, o programador das QUINTAS DE LEITURA e alguns dos elementos assíduos nos nossos recitais vão participar num conjunto de performances que têm a particularidade de acontecerem às escuras. Programa na imagem - clicar para ler.
O Daniel

O Daniel Maia-Pinto Rodrigues tem um blogue criado e alimentado por alguém que tem um apreço especial pela sua escrita. A ligação do blogue O DANIEL - http://odanielmaia.blogspot.com/ - ao blogue das Quintas de Leitura é permanente. Vão lá dar uma espreitadela. Para um ser tão afastado das realidades "cibernáuticas" como o Daniel, o blogue em sua honra foi uma grande surpresa.
O LAGARTO DE GILA
Adquiri numa loja o sui generis lagarto de Gila.
Em casa observava amiúde o bicho.
Um dia lembrei-me de convidar amigos impressionáveis
para se boquiabrirem e assustarem o lagarto.
Já com os convidados a chegar
pareceu-me sentir nos olhos do animal
o querer dizer-me que não pretendia ver ninguém.
Correspondendo, escondi-o à pressa
no quarto de banho de serviço.
Os convidados, que suspeitavam ir haver uma surpresa
surpreenderam-se por não ter havido surpresa nenhuma.
Creio, porém, que consideraram o serão animado.
Eu, apesar de não o deixar transparecer
achei o convívio aborrecido.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)
Em casa observava amiúde o bicho.
Um dia lembrei-me de convidar amigos impressionáveis
para se boquiabrirem e assustarem o lagarto.
Já com os convidados a chegar
pareceu-me sentir nos olhos do animal
o querer dizer-me que não pretendia ver ninguém.
Correspondendo, escondi-o à pressa
no quarto de banho de serviço.
Os convidados, que suspeitavam ir haver uma surpresa
surpreenderam-se por não ter havido surpresa nenhuma.
Creio, porém, que consideraram o serão animado.
Eu, apesar de não o deixar transparecer
achei o convívio aborrecido.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)
12/11/08
DANIEL, O GRANDE DESAFIADOR
Alguns momentos mais com a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
MARRECO
Ainda hoje me recordo
olha que foi mesmo engraçado
quando tu, Lagardère, naquela festa de arromba
de rompante me mostras a lomba.
x
De certo modo também eu, em tempos
fui infiel ao príncipe Charles.
x
Papagaia loira
de bico doirado
leva-me este corno
ao teu namorado.
x
VISITA DA CASA
"Afinal, o que é que vem cá fazer a Gabriela?!"
"Ó querida, não te virá mostrar as mamas dela?"
x
Houve uma coisa que veio do céu e disse:
- Sou a Celeste. Não te lembras!? A Celeste!
- Ah, sim! Olá, Celeste. Assim de repente
não estava a contar contigo.
x
LA NATURE AU PIMBA
Foram vistas duas palomas in the sky.
Uma era a filha, a outra era o pai.
(in "Dióspiro", Quasi Edições)
MARRECO
Ainda hoje me recordo
olha que foi mesmo engraçado
quando tu, Lagardère, naquela festa de arromba
de rompante me mostras a lomba.
x
De certo modo também eu, em tempos
fui infiel ao príncipe Charles.
x
Papagaia loira
de bico doirado
leva-me este corno
ao teu namorado.
x
VISITA DA CASA
"Afinal, o que é que vem cá fazer a Gabriela?!"
"Ó querida, não te virá mostrar as mamas dela?"
x
Houve uma coisa que veio do céu e disse:
- Sou a Celeste. Não te lembras!? A Celeste!
- Ah, sim! Olá, Celeste. Assim de repente
não estava a contar contigo.
x
LA NATURE AU PIMBA
Foram vistas duas palomas in the sky.
Uma era a filha, a outra era o pai.
(in "Dióspiro", Quasi Edições)
11/11/08
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"
A sessão "Irene! Irene! Sirva o leite-creme!" servirá também para marcar o regresso do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues às "Quintas de Leitura". Lerá, na companhia de Isaque Ferreira, alguns poemas de sua autoria e também de Alberto Pimenta.
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão:
ENQUADRADINHOS MÉTODOS DE TRABALHO
Ultimamente têm-me maçado
com enjoativos trechos de lamúrias.
Ele são cinco mil mulheres mal tratadas
não sei quantas raparigas mal amanhadas
sete mil e quinhentas gaivotas assassinadas
um sem número de situações assaz desesperadas.
Eu tenho os meus próprios problemas:
ir à missa das doze, adiantar os estudos,
levar o cão à rua, assim não dá, não dá.
Desisto deste vilancete. É uma pena
eu não ter método de trabalho na escrita.
(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro/poesia reunida 1977-2007", Quasi Edições)
10/11/08
Miami Vice
A mansão foi encontrada
junto à piscina da mansão
a piscina não se encontrou
a si própria
(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)
junto à piscina da mansão
a piscina não se encontrou
a si própria
(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)
07/11/08

Notícia publicada hoje no site da revista VIVA - o Porto em revista on-line - sobre a próxima Quinta de Leitura. Para ler clicar aqui.
SETE RIOS ENTRE CAMPOS de ADÍLIA LOPES
O Chão optimista
Cair do cavalo
cair da escada
cair em mim
o rés-do-chão é tão bonito
o chão é tão bom
as violetas são macias
e não têm picos
ao contrário das rosas
o chão está cheio de ouro
por dentro
por fora um besouro
Dale Carnegie tem razão
o meu cavalo lambe-me a cara
não parti nada
não é o alcatrão
ou o passeio
do defenestrado
nem o útero da mãe
agora morta
é a libertação da queda
de Adão e Eva
é Adão que me estende a mão
x
O chão pessimista
Escuro
como breu
o chão
me comeu
(in "Obra", Mariposa Azual)
Cair do cavalo
cair da escada
cair em mim
o rés-do-chão é tão bonito
o chão é tão bom
as violetas são macias
e não têm picos
ao contrário das rosas
o chão está cheio de ouro
por dentro
por fora um besouro
Dale Carnegie tem razão
o meu cavalo lambe-me a cara
não parti nada
não é o alcatrão
ou o passeio
do defenestrado
nem o útero da mãe
agora morta
é a libertação da queda
de Adão e Eva
é Adão que me estende a mão
x
O chão pessimista
Escuro
como breu
o chão
me comeu
(in "Obra", Mariposa Azual)
06/11/08
Quem vem tocar?
Carlos Mazza vai apresentar na próxima Quinta de Leitura o seu projecto
TROTAMUNDO. Para saber mais deste músico chileno a viver em Cuba, clicar aqui.
Mais poesia de Adília Lopes
A mala da senhora cai ao chão.
O cavalheiro apanha-a.
- Merci beaucoup.
- Pas de quoi.
Mete-a no cu.
Não cabe cá.
(anedota contada pela tia Paulina)
x
O grilo come
a gaiola de plástico
e volta
para o campo
onde está
o pirilampo
x
Na estufa
a planta carnívora
abocanha as chaves
da minha mãe
uma barreira de água
impede as formigas
de entrar
(in "Obra", Mariposa Azual)
O cavalheiro apanha-a.
- Merci beaucoup.
- Pas de quoi.
Mete-a no cu.
Não cabe cá.
(anedota contada pela tia Paulina)
x
O grilo come
a gaiola de plástico
e volta
para o campo
onde está
o pirilampo
x
Na estufa
a planta carnívora
abocanha as chaves
da minha mãe
uma barreira de água
impede as formigas
de entrar
(in "Obra", Mariposa Azual)
05/11/08
JÁ RESTAM POUCOS BILHETES PARA A PRÓXIMA SESSÃO DAS "QUINTAS".
A sessão "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" está quase a esgotar. Anuncia-se um recital de poesia cheio de emoção, com as presenças imaculadas dos colectivos "Caixa Geral de Despojos" e
"O Copo".
Hoje continuamos a divulgar poemas da grande Adília Lopes, que serão e não serão lidos na sessão por Nuno Moura e Paulo Condessa.
HARDCORE
Dez para as duas
Sapatos a mais para Cinderela
Não há orquídeas para Miss Blandish
x
Ela era boa rapariga - Sãozinha
ela era uma rapariga boa - Samantha
ela não era uma rapariga - Lassie
x
Saiu das suas tamanquinhas
para calçar escarpins de verniz
mas ficou descalça
depois tiveram de lhe cortar os pés
podres de ricos
(in "Obra", Mariposa Azual)
"O Copo".
Hoje continuamos a divulgar poemas da grande Adília Lopes, que serão e não serão lidos na sessão por Nuno Moura e Paulo Condessa.
HARDCORE
Dez para as duas
Sapatos a mais para Cinderela
Não há orquídeas para Miss Blandish
x
Ela era boa rapariga - Sãozinha
ela era uma rapariga boa - Samantha
ela não era uma rapariga - Lassie
x
Saiu das suas tamanquinhas
para calçar escarpins de verniz
mas ficou descalça
depois tiveram de lhe cortar os pés
podres de ricos
(in "Obra", Mariposa Azual)
04/11/08
AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES 2
03/11/08
PROGRAMADOR "MAGALHÃES" ÀS VOSSAS ORDENS
O Teatro do Campo Alegre do Porto é o primeiro espaço cultural do mundo a ter um programador "Magalhães". Sou eu. João MAGALHÃES Coutinho Gesta. 55 anos, careca reluzente, quase solteiro, próteses a brilhar.
O TCA e a sua programação editorial e de leituras está, portanto, na moda, está na vanguarda, está virada para o futuro, em suma, está muito à frente. Em breve, exportaremos programação para o Brasil, Venezuela, Mali e, quem sabe, para lá de Marraquexe.
A todos os que acreditam no programador "Magalhães", dedico, do fundo do coração, um poema quase normal de Adília Lopes, uma das nossas próximas convidadas:
Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos
(in "Obra", Mariposa Azual)
O TCA e a sua programação editorial e de leituras está, portanto, na moda, está na vanguarda, está virada para o futuro, em suma, está muito à frente. Em breve, exportaremos programação para o Brasil, Venezuela, Mali e, quem sabe, para lá de Marraquexe.
A todos os que acreditam no programador "Magalhães", dedico, do fundo do coração, um poema quase normal de Adília Lopes, uma das nossas próximas convidadas:
Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos
(in "Obra", Mariposa Azual)
31/10/08
ADÍLIA LOPES
Mais um desconcertante poema de Adília Lopes, poeta pop e nem por isso:
D. Sebastião e Mariana Alcoforado
A minha prisão
está cheia
de nevoeiro
O meu convento
está cheio
de vento
No nevoeiro
não tenho
paradeiro
No vento
não tenho
contento
Passo os dias
com as minhas tias
Eu também
Estou farto
do meu parto
Estou farta
de Esparta
Um bispo
não resolve isto
(in "Obra", Mariposa Azual)
D. Sebastião e Mariana Alcoforado
A minha prisão
está cheia
de nevoeiro
O meu convento
está cheio
de vento
No nevoeiro
não tenho
paradeiro
No vento
não tenho
contento
Passo os dias
com as minhas tias
Eu também
Estou farto
do meu parto
Estou farta
de Esparta
Um bispo
não resolve isto
(in "Obra", Mariposa Azual)
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