14/11/08

HOMEM


Velho
à porta de sua casa
o pescador.
À sua frente grande
o mar.

A vida. A mulher. Os sonhos.
Subitamente a consciência toda
daquele momento carregado de frio
e de distância.
Mas o vinho ganha no copo
assim como o complicado sabor do cigarro
nos seus dedos.

A tranquilidade desce ao velho.
A imensa companhia da mulher.
Oceanos à viola outonos de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)

13/11/08

O programador em acção



João Gesta, o programador das QUINTAS DE LEITURA e alguns dos elementos assíduos nos nossos recitais vão participar num conjunto de performances que têm a particularidade de acontecerem às escuras. Programa na imagem - clicar para ler.

O Daniel


O Daniel Maia-Pinto Rodrigues tem um blogue criado e alimentado por alguém que tem um apreço especial pela sua escrita. A ligação do blogue O DANIEL - http://odanielmaia.blogspot.com/ - ao blogue das Quintas de Leitura é permanente. Vão lá dar uma espreitadela. Para um ser tão afastado das realidades "cibernáuticas" como o Daniel, o blogue em sua honra foi uma grande surpresa.

O LAGARTO DE GILA

Adquiri numa loja o sui generis lagarto de Gila.
Em casa observava amiúde o bicho.
Um dia lembrei-me de convidar amigos impressionáveis
para se boquiabrirem e assustarem o lagarto.
Já com os convidados a chegar
pareceu-me sentir nos olhos do animal
o querer dizer-me que não pretendia ver ninguém.
Correspondendo, escondi-o à pressa
no quarto de banho de serviço.
Os convidados, que suspeitavam ir haver uma surpresa
surpreenderam-se por não ter havido surpresa nenhuma.
Creio, porém, que consideraram o serão animado.
Eu, apesar de não o deixar transparecer
achei o convívio aborrecido.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro", Quasi Edições)

12/11/08

DANIEL, O GRANDE DESAFIADOR

Alguns momentos mais com a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

MARRECO

Ainda hoje me recordo
olha que foi mesmo engraçado
quando tu, Lagardère, naquela festa de arromba
de rompante me mostras a lomba.

x

De certo modo também eu, em tempos
fui infiel ao príncipe Charles.

x

Papagaia loira
de bico doirado
leva-me este corno
ao teu namorado.

x

VISITA DA CASA

"Afinal, o que é que vem cá fazer a Gabriela?!"
"Ó querida, não te virá mostrar as mamas dela?"

x

Houve uma coisa que veio do céu e disse:
- Sou a Celeste. Não te lembras!? A Celeste!
- Ah, sim! Olá, Celeste. Assim de repente
não estava a contar contigo.

x

LA NATURE AU PIMBA

Foram vistas duas palomas in the sky.
Uma era a filha, a outra era o pai.

(in "Dióspiro", Quasi Edições)

11/11/08

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

Fotografia : Daniel Maia-Pinto Rodrigues por Pat


A sessão "Irene! Irene! Sirva o leite-creme!" servirá também para marcar o regresso do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues às "Quintas de Leitura". Lerá, na companhia de Isaque Ferreira, alguns poemas de sua autoria e também de Alberto Pimenta.
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão:

ENQUADRADINHOS MÉTODOS DE TRABALHO

Ultimamente têm-me maçado
com enjoativos trechos de lamúrias.

Ele são cinco mil mulheres mal tratadas
não sei quantas raparigas mal amanhadas
sete mil e quinhentas gaivotas assassinadas
um sem número de situações assaz desesperadas.

Eu tenho os meus próprios problemas:
ir à missa das doze, adiantar os estudos,
levar o cão à rua, assim não dá, não dá.

Desisto deste vilancete. É uma pena
eu não ter método de trabalho na escrita.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in "Dióspiro/poesia reunida 1977-2007", Quasi Edições)

10/11/08

Miami Vice

A mansão foi encontrada
junto à piscina da mansão
a piscina não se encontrou
a si própria

(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)

07/11/08


Notícia publicada hoje no site da revista VIVA - o Porto em revista on-line - sobre a próxima Quinta de Leitura. Para ler clicar aqui.

SETE RIOS ENTRE CAMPOS de ADÍLIA LOPES

O Chão optimista

Cair do cavalo
cair da escada
cair em mim
o rés-do-chão é tão bonito
o chão é tão bom
as violetas são macias
e não têm picos
ao contrário das rosas
o chão está cheio de ouro
por dentro
por fora um besouro
Dale Carnegie tem razão
o meu cavalo lambe-me a cara
não parti nada
não é o alcatrão
ou o passeio
do defenestrado
nem o útero da mãe
agora morta
é a libertação da queda
de Adão e Eva
é Adão que me estende a mão

x

O chão pessimista

Escuro
como breu
o chão
me comeu

(in "Obra", Mariposa Azual)

06/11/08

Quem vem tocar?



Carlos Mazza vai apresentar na próxima Quinta de Leitura o seu projecto
TROTAMUNDO. Para saber mais deste músico chileno a viver em Cuba, clicar aqui.

Mais poesia de Adília Lopes

A mala da senhora cai ao chão.
O cavalheiro apanha-a.

- Merci beaucoup.
- Pas de quoi.

Mete-a no cu.
Não cabe cá.

(anedota contada pela tia Paulina)

x

O grilo come
a gaiola de plástico
e volta
para o campo
onde está
o pirilampo

x

Na estufa
a planta carnívora
abocanha as chaves
da minha mãe
uma barreira de água
impede as formigas
de entrar

(in "Obra", Mariposa Azual)

05/11/08

Sirva-se o leite-creme !!!

Copo e Caixa Geral de Despojos no mesmo prato.

JÁ RESTAM POUCOS BILHETES PARA A PRÓXIMA SESSÃO DAS "QUINTAS".

A sessão "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" está quase a esgotar. Anuncia-se um recital de poesia cheio de emoção, com as presenças imaculadas dos colectivos "Caixa Geral de Despojos" e
"O Copo".

Hoje continuamos a divulgar poemas da grande Adília Lopes, que serão e não serão lidos na sessão por Nuno Moura e Paulo Condessa.

HARDCORE

Dez para as duas
Sapatos a mais para Cinderela
Não há orquídeas para Miss Blandish

x

Ela era boa rapariga - Sãozinha
ela era uma rapariga boa - Samantha
ela não era uma rapariga - Lassie

x

Saiu das suas tamanquinhas
para calçar escarpins de verniz
mas ficou descalça
depois tiveram de lhe cortar os pés
podres de ricos

(in "Obra", Mariposa Azual)

04/11/08

AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES 2


Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.

(in "Obra", Mariposa Azual)
Fotografia: Europa Sugar por Pat

03/11/08

PROGRAMADOR "MAGALHÃES" ÀS VOSSAS ORDENS

O Teatro do Campo Alegre do Porto é o primeiro espaço cultural do mundo a ter um programador "Magalhães". Sou eu. João MAGALHÃES Coutinho Gesta. 55 anos, careca reluzente, quase solteiro, próteses a brilhar.
O TCA e a sua programação editorial e de leituras está, portanto, na moda, está na vanguarda, está virada para o futuro, em suma, está muito à frente. Em breve, exportaremos programação para o Brasil, Venezuela, Mali e, quem sabe, para lá de Marraquexe.
A todos os que acreditam no programador "Magalhães", dedico, do fundo do coração, um poema quase normal de Adília Lopes, uma das nossas próximas convidadas:

Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

(in "Obra", Mariposa Azual)

31/10/08

ADÍLIA LOPES

Mais um desconcertante poema de Adília Lopes, poeta pop e nem por isso:

D. Sebastião e Mariana Alcoforado

A minha prisão
está cheia
de nevoeiro

O meu convento
está cheio
de vento

No nevoeiro
não tenho
paradeiro

No vento
não tenho
contento

Passo os dias
com as minhas tias

Eu também

Estou farto
do meu parto

Estou farta
de Esparta

Um bispo
não resolve isto

(in "Obra", Mariposa Azual)

30/10/08

UM RECITAL QUE APETECE LEVAR PARA CASA




Um verso de Alexandre O'Neill, que por acaso são dois, dão nome à próxima sessão das "Quintas de Leitura". "Irene!Irene!Sirva o leite-creme!" realiza-se no próximo dia 20 de Novembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.

Uma verdadeira festa da poesia que marca o encontro histórico entre dois colectivos poéticos acima de todas as suspeitas: O COPO, poesia de entretenimento científico pela boca e pelos cotovelos de Paulo Condessa e Nuno Moura, e a Caixa Geral de Despojos, que alinha, desta feita, com três avançados bons de cabeça: Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

O prato da noite é irresistível: textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Joaquim Castro Caldas.

Prometemos: um recital com jantes alargadas, um recital com as vacinas em dia, um recital com curvas francesas, um recital com o futuro a tiracolo, um recital a pensar noutra coisa, um recital que parece dois. Por fim: um recital com o cunho da flamejante parelha João Gesta - Mafalda Capela. Ele, futuro preparador físico da selecção do Mali, ela, futura Ministra das Pescas e arredores. Gente sem jeito para o negócio, diga-se.

Registam-se, nesta noite, as estreias nas "Quintas de Leitura" da artista plástica Manuela Pimentel , responsável pela imagem da sessão (a imagem acima é dela), e ainda da performer Mariana Rocha que apresentará a peça "Curta-mixagem".

E no fim disto tudo, chega de Cuba, a tempo e horas, o pianista e compositor Carlos Maza. Dar-nos-á a conhecer o projecto "Trotamundo".

Um recital que apetece levar para casa.

Espectáculo para maiores de 16 anos, exactamente porque sim.

ADÍLIA LOPES, SEMPRE!

Mais alguns imarcescíveis momentos com Adília Lopes:

Amo-te

1
A serpente do Paraíso
era de plástico
biodegradável

2
Não sou
uma poetisa obscura
a literatura
não me fez
bizarra
e não é uma parra

3
Sem caridade
a literatura
não vale

4
Conheço o pão
que o Diabo
amassou
e o maná

5
Não me basta
este jacarandá

(in "Obra", Mariposa Azual)

29/10/08

-Irene!Irene!Sirva o leite-creme!

(Paulo Condessa e Nuno Moura - o COPO por Pat)

O COPO, distinto colectivo poético da Lísbia, apresentará uma intervenção composta exclusivamente por poemas de Adília Lopes.

Publicaremos, a partir de hoje, para aguçar o apetite aos seguidores das "Quintas", alguns poemas dessa inefável poeta.

Dois casos citados por Christian Lacroix

Uma freira
passou a vida
a passajar
tom sobre tom
o mesmo avental
azul escuro

Um funcionário público
coleccionou
a vida inteira
a publicidade
que lhe metiam
na caixa do correio

x

Andou
pelas casas
de Deus
a pedir Deus
às pedras
e as pedras
deram-lhe Deus

x

A tua carta
é palpável
cheirável
e beijável
tu não
porque estás
muito longe
de mim
(tenho pena
que seja
assim)

x

Ela fodeu
mas não
como eu

x

No cacilheiro
o namorado beija
a namorada
mas por cima
do ombro dela
olha-me
com muita curiosidade

(Adília Lopes in "Obra", Mariposa Azual)

A Quinta de Leitura de Novembro


(para ler clicar sobre a imagem)