
26/09/08
25/09/08
A QUARTA PRESENÇA DE GONÇALO NAS "QUINTAS". ESTA NOITE.
Hoje é dia de Gonçalo M. Tavares nas "Quintas".
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
24/09/08
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".
Publicamos hoje mais um poema de José Tolentino Mendonça, o poeta convidado das "Quintas de Leitura" em 23 de Outubro.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
23/09/08
O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
22/09/08
ESTE POEMA DEU NOME À SESSÃO
José Tolentino Mendonça estreia-se nas "Quintas de Leitura" no dia 23 de Outubro. Publicamos hoje o poema que deu nome à sessão.
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
18/09/08
OS MORTOS
Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
PALAVRAS, ACTOS
A ironia ensina a sabotar uma frase
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
17/09/08
CONSTRUÇÃO
A construção metódica de ruínas:
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
16/09/08
PINTURA
O arco-íris cai não interferindo
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
JÁ RESTAM POUCOS BILHETES
Aguarda-se com expectativa o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Uma sessão que se adivinha cheia de momentos mágicos.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
15/09/08
O TREINO (OBSERVAÇÃO LIGEIRAMENTE PERVERSA)
Claro que o atleta treinado
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
12/09/08
O ACIDENTE
A pedra cai sobre a cabeça
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
11/09/08
ARQUITECTO
Depois da arquitectura
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
10/09/08
CHÃO
Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
09/09/08
A CAIXA DE FERRAMENTAS (SOBRE A POESIA)
Uma cabeça mais inteligente
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
Performance Líquida - Margarida Mestre
Uma das grandes performers que já passaram este ano pelas Quintas de Leitura. As palavras são de Jorge Sousa Braga.
08/09/08
DESTINO
Ninguém tem tanto azar que caia num buraco inexistente
nem tanta força que seja capaz de subir à montanha plana.
Escavando, levantava a cabeça,
e quando levantava a cabeça dançava.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D'Água Editores)
nem tanta força que seja capaz de subir à montanha plana.
Escavando, levantava a cabeça,
e quando levantava a cabeça dançava.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D'Água Editores)
05/09/08
A próxima aventura de Gonçalo M. Tavares nas Quintas de Leitura
Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Será a sua 4ª presença neste ciclo poético.
A sessão, intitulada "A Literatura e o Reino", realiza-se no dia 25 de Setembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.
Gonçalo fará uma conferência sobre os seus quatro livro pretos (tetralogia "O Reino"): "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser", "Jerusalém" (Prémio Portugal Telecom "de literatura" 2007) e ""Aprender a rezar na Era da Técnica".
O pianista Bernardo Sassetti (piano solo) será o cúmplice primeiro de Gonçalo M. Tavares nesta aventura por terras do "Reino".
Serão lidos fragmentos, escolhidos pelo autor, de cada um dos livros que compõem a tetralogia. As leituras estarão a cargo de Susana Menezes, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Paulo Campos dos Reis.
O guitarrista Alexandre Soares (Ex-GNR) apresentará a peça "Nas mãos de Lenz", inspirada numa das personagens do livro "Aprender a rezar na Era da Técnica".
A imagem da sessão é da responsabilidade de Rachel Caiano, que prossegue assim a sua habitual colaboração com o autor convidado.
Prometemos-lhe uma noite intensa e mágica, onde poderá ouvir tudo o que nunca foi dito sobre os livros pretos de Gonçalo M. Tavares.
A sessão, intitulada "A Literatura e o Reino", realiza-se no dia 25 de Setembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.
Gonçalo fará uma conferência sobre os seus quatro livro pretos (tetralogia "O Reino"): "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser", "Jerusalém" (Prémio Portugal Telecom "de literatura" 2007) e ""Aprender a rezar na Era da Técnica".
O pianista Bernardo Sassetti (piano solo) será o cúmplice primeiro de Gonçalo M. Tavares nesta aventura por terras do "Reino".
Serão lidos fragmentos, escolhidos pelo autor, de cada um dos livros que compõem a tetralogia. As leituras estarão a cargo de Susana Menezes, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Paulo Campos dos Reis.
O guitarrista Alexandre Soares (Ex-GNR) apresentará a peça "Nas mãos de Lenz", inspirada numa das personagens do livro "Aprender a rezar na Era da Técnica".
A imagem da sessão é da responsabilidade de Rachel Caiano, que prossegue assim a sua habitual colaboração com o autor convidado.
Prometemos-lhe uma noite intensa e mágica, onde poderá ouvir tudo o que nunca foi dito sobre os livros pretos de Gonçalo M. Tavares.
Uma noite que se prolongará pelos dias seguintes. Absolutamente a não perder.
(fotografia: Pat)
DOIS MUNDOS
Repara, são dois mundos.
Não é possível atirar água
à matemática.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Não é possível atirar água
à matemática.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
04/09/08
SOBRE O AMOR
No intervalo entre duas garrafas, ele colocou uma terceira
Garrafa, e assim sucessivamente
Até fazer uma garrafeira. O espaço entre duas partículas
Da Física não é tão entusiasmante como o espaço
Que existe algures no teu decote;
daí que a parte da cidade interessada no erotismo
tenha abandonado todos os estudos
Que se referem a partículas mínimas e outras
Preciosidades. Medidas discretas tem o ar,
Que não se vê, e o Nada, que não existe. Robustez, é preciso;
Em cima da semente minúscula que se construa um edifício
Alto ou pelo menos uma laranjeira.
Vejamos: o que é o amor? O amor depois de aberto ao meio
É um. E mais não sei sobre essa
Mentira.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Garrafa, e assim sucessivamente
Até fazer uma garrafeira. O espaço entre duas partículas
Da Física não é tão entusiasmante como o espaço
Que existe algures no teu decote;
daí que a parte da cidade interessada no erotismo
tenha abandonado todos os estudos
Que se referem a partículas mínimas e outras
Preciosidades. Medidas discretas tem o ar,
Que não se vê, e o Nada, que não existe. Robustez, é preciso;
Em cima da semente minúscula que se construa um edifício
Alto ou pelo menos uma laranjeira.
Vejamos: o que é o amor? O amor depois de aberto ao meio
É um. E mais não sei sobre essa
Mentira.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
03/09/08
A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES
Retomamos hoje a publicação de mais alguns poemas do próximo convidado das "Quintas de leitura".
Conselhos inúteis
Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.
(in "1" / Relógio D'Água Editores)
Conselhos inúteis
Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.
(in "1" / Relógio D'Água Editores)
O REGRESSO DE GONÇALO M. TAVARES ÀS "QUINTAS DE LEITURA"
25 de Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares a este ciclo poético. Um evento que contará com a presença dos seguintes artistas:
Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.
Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.
02/09/08
ATÉ SEMPRE, POETA!
uma boina
eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara
enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa
(Joaquim Castro Caldas, in "Mágoa Das Pedras"/Deriva Editores)
01/09/08
SÓ CÁ VIM VER O SOL
Morreu ontem Joaquim Castro Caldas. Morreu um grande Poeta e um Homem de uma enorme integridade intelectual.
Publicamos aqui, sem cortes, um belo e comovente depoimento do também grande Poeta António Pedro Ribeiro:
"Foi o Joaquim Castro Caldas que me ensinou a dizer poesia. Foi o Joaquim Castro Caldas que me mostrou aquele jeito rebelde e sarcástico de lidar com as palavras. O Joaquim foi o mentor das noites de poesia no Pinguim quando uma multidão acorria àquele bar no Porto para, simplesmente, ouvir e dizer poesia. O Joaquim foi um dos maiores divulgadores da poesia neste país. E era, também, um excelente poeta. Quando escrevo estas linhas o Joaquim se não está morto deverá estar às portas da morte. Agora é fácil culpar o álcool, as úlceras, a vida que o Joaquim levava. Agora toda a gente vai procurar os escritos que o Joaquim deixou por aí espalhados. O Joaquim Castro Caldas tinha um feitio difícil. Por vezes, parecia arrogante. Mas por detrás dessa aparente arrogância havia uma grande generosidade. A generosidade de quem viu o inferno mas também o céu. A obra do Joaquim não teve o reconhecimento que merecia. Porque o Joaquim era um verdadeiro poeta. Levou uma vida de poeta. Andou pelos bares, procurou a loucura. Não foi um desses versejadores da corte, bem comportadinhos, sempre à cata do prémio. Olha, Joaquim, espero que te safes desta. Senão vai para o céu. Vai para o céu, porque o mereces. "
(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)
(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)
Morreu o Poeta, fica o seu valioso legado poético.
QUE SE FREUD
aos 20 já fodes
ainda não te fodem
aos 30 ainda fodes
mas já te fodem
aos 40 nem odes
nem ais de cima
aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem
aos 60 dizem-te
que sabes da poda
aos 70 não te fodem
porque já se fodem
aos 80 que se Freud
porque a morte
(Joaquim Castro Caldas, in "Convém Avisar os Ingleses / Quasi Edições)
Joaquim, confesso-te, aqui, coração à altura do teclado: com a idade, fui aprendendo a gostar de ti.
16/08/08
Há uma hora há uma hora certa
Video arte sobre poema de Mario Cesariny no contexto do disco "Entre nós e as palavras" da banda "Os Poetas".
31/07/08
A POESIA TAMBÉM VAI A BANHOS
José Tolentino Mendonça será o poeta convidado das "Quintas de Leitura" no mês de Outubro (dia 23).
Recordamos aqui, antes das merecidas férias, o poema que dá nome à sessão.
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(in "A noite abre meus olhos"- poesia reunida / Assírio & Alvim)
Recordamos aqui, antes das merecidas férias, o poema que dá nome à sessão.
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(in "A noite abre meus olhos"- poesia reunida / Assírio & Alvim)
(fotografia de Pat)
30/07/08
MESA
A mesa tem uma qualidade: não deixa cair as coisas.
Não interfere no mundo: a mesa recebe, ampara.
Não julga, não dá instruções excessivas.
Recebe,
ampara,
não deixa cair.
Sobre ela as coisas claras permanecem claras, e não caem.
As escuras permanecem escuras, e não caem.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D' Água)
Não interfere no mundo: a mesa recebe, ampara.
Não julga, não dá instruções excessivas.
Recebe,
ampara,
não deixa cair.
Sobre ela as coisas claras permanecem claras, e não caem.
As escuras permanecem escuras, e não caem.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D' Água)
29/07/08
UM DENTISTA
Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher, e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher, e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
28/07/08
DEPOIS DE FÉRIAS
Relembramos aqui as próximas sessões do ciclo "Quintas de Leitura", todas depois de férias:
25 de Setembro
"A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares"
Participam:
Gonçalo M. Tavares (poeta convidado)
Bernardo Sassetti e Alexandre Soares (músicos convidados)
23 de Outubro
"A noite abre meus olhos"
Participam:
José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)
20 de Novembro
" -Irene! Irene!
Sirva o leite-creme"
Poesia de entretenimento científico.
O encontro histórico entre os dois únicos colectivos poéticos do mundo aprovados, vacinados e carimbados pela Asae: O COPO (Lisboa) e a CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Porto-Nova Iorque-Arraiolos). Um momento poético com sabor a anchovas de Mirandela e endívias à Previdência, onde não faltarão textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
TCA: um teatro ao serviço do SONHO.
25 de Setembro
"A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares"
Participam:
Gonçalo M. Tavares (poeta convidado)
Bernardo Sassetti e Alexandre Soares (músicos convidados)
23 de Outubro
"A noite abre meus olhos"
Participam:
José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)
20 de Novembro
" -Irene! Irene!
Sirva o leite-creme"
Poesia de entretenimento científico.
O encontro histórico entre os dois únicos colectivos poéticos do mundo aprovados, vacinados e carimbados pela Asae: O COPO (Lisboa) e a CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Porto-Nova Iorque-Arraiolos). Um momento poético com sabor a anchovas de Mirandela e endívias à Previdência, onde não faltarão textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
TCA: um teatro ao serviço do SONHO.
O DINHEIRO
Se dois biliões caírem no terraço
de duas crianças estúpidas
serão transformados em papéis pequenos e inúteis,
soldados de uma qualquer batalha infantil. Daí a importância
dos Bancos e do modo exaustivo como desenvolvem
o mapa do comércio e da chantagem. O dinheiro
deve cair sempre nas mãos de quem conhece os seus segredos,
porque não se trata, lá está, de uma brincadeira de crianças.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
de duas crianças estúpidas
serão transformados em papéis pequenos e inúteis,
soldados de uma qualquer batalha infantil. Daí a importância
dos Bancos e do modo exaustivo como desenvolvem
o mapa do comércio e da chantagem. O dinheiro
deve cair sempre nas mãos de quem conhece os seus segredos,
porque não se trata, lá está, de uma brincadeira de crianças.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
25/07/08
O VERÃO
Quanto ao Verão: esse período nefasto e quente
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mudo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo de uma altura
Desagradável,
E falecendo. O Verão, de facto,
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água)
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mudo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo de uma altura
Desagradável,
E falecendo. O Verão, de facto,
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água)
24/07/08
MAR
Não te espantes com máquinas,
com invenções de última hora.
Inacreditável é a quantidade de elementos
que ainda não obedecem aos homens.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
com invenções de última hora.
Inacreditável é a quantidade de elementos
que ainda não obedecem aos homens.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
23/07/08
FÓSFORO
Se acendes um fósforo durante o dia
para ver,
significa que não há janelas nem electricidade,
nem sequer sol.
Ou então significa que és louco.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
para ver,
significa que não há janelas nem electricidade,
nem sequer sol.
Ou então significa que és louco.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
22/07/08
POEMA RARO
Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)
Allegro ainda...
21/07/08
A PROVA NA POESIA
Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)
18/07/08
A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES
O AMOR
A Natureza tem uma entrada por trás
como os clubes clandestinos;
e o coração, mesmo apaixonado, não é tão estúpido
como uma galinha, por exemplo,
que é capaz de seguir durante horas
uma linha traçada a giz no chão.
(in "1", editora Relógio D'Água)
A Natureza tem uma entrada por trás
como os clubes clandestinos;
e o coração, mesmo apaixonado, não é tão estúpido
como uma galinha, por exemplo,
que é capaz de seguir durante horas
uma linha traçada a giz no chão.
(in "1", editora Relógio D'Água)
17/07/08
Bife Picado fora de horas
OS AVIÕES
Lembro-me: não gostava de aviões.
Companheiros de jogo levantavam dedo e cabeça
Em direcção às bem organizadas nuvens de passageiros
E eu permanecia de rosto baixo como excluído
De uma brincadeira de que desconhecia o alfabeto.
Nunca me diverti com o excesso, ainda hoje
Tenho vergonha de certos ruídos,
Dizem-me que baixo muito a cabeça;
Como uma vaca que olha para a erva. E é verdade.
Por vezes tenho vergonha de ver, muitas vezes vergonha
De ser visto.
Gonçalo M. Tavares em "1" ( editora relógio d' água)
Gonçalo M. Tavares será o próximo convidado do ciclo "Quintas de Leitura". Nos próximos dias publicaremos neste blogue alguns dos seus poemas.
Companheiros de jogo levantavam dedo e cabeça
Em direcção às bem organizadas nuvens de passageiros
E eu permanecia de rosto baixo como excluído
De uma brincadeira de que desconhecia o alfabeto.
Nunca me diverti com o excesso, ainda hoje
Tenho vergonha de certos ruídos,
Dizem-me que baixo muito a cabeça;
Como uma vaca que olha para a erva. E é verdade.
Por vezes tenho vergonha de ver, muitas vezes vergonha
De ser visto.
Gonçalo M. Tavares em "1" ( editora relógio d' água)
Gonçalo M. Tavares será o próximo convidado do ciclo "Quintas de Leitura". Nos próximos dias publicaremos neste blogue alguns dos seus poemas.
16/07/08
15/07/08
AS PRÓXIMAS SESSÕES
Estamos quase de férias. Divulgamos, hoje, em primeira mão, as duas próximas "Quintas de Leitura".
Dia 25 de Setembro
A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares
participam ainda:
Bernardo Sassetti (piano solo)
Susana Menezes, Pedro Lamares, Paulo Campos dos Reis e Isaque Ferreira (leituras)
Alexandre Soares (guitarra)
Rachel Caiano (imagem)
Dia 23 de Outubro
A Noite Abre Meus Olhos
participam:
José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)
Filipa Leal, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis (leituras)
Ilda David' (imagem)
O Teatro do Campo Alegre ao serviço do SONHO.
Dia 25 de Setembro
A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares
participam ainda:
Bernardo Sassetti (piano solo)
Susana Menezes, Pedro Lamares, Paulo Campos dos Reis e Isaque Ferreira (leituras)
Alexandre Soares (guitarra)
Rachel Caiano (imagem)
Dia 23 de Outubro
A Noite Abre Meus Olhos
participam:
José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)
Filipa Leal, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis (leituras)
Ilda David' (imagem)
O Teatro do Campo Alegre ao serviço do SONHO.
11/07/08
Momentos da noite de ontem

Dead Combo

Dead Combo com Ana Deus e Alexandre Soares

Filipa Leal e Catarina Nunes de Almeida

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Susana Menezes e Pedro Lamares
10/07/08
09/07/08
AS ESTRELAS CHAMAM-SE UMAS ÀS OUTRAS PELOS NOMES PRÓPRIOS
Amanhã há mais estrelas na Rua das Estrelas.
Por ordem de entrada em órbita:
Catarina Nunes de Almeida
Marta Bernardes
Filipa Leal
Maria Bleck Soares
Susana Menezes
Pedro Lamares
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Tó Trips
Pedro Gonçalves
Ana Deus
Alexandre Soares
-Junte-se a nós e seja a estrela principal desta noite fulgente.
Por ordem de entrada em órbita:
Catarina Nunes de Almeida
Marta Bernardes
Filipa Leal
Maria Bleck Soares
Susana Menezes
Pedro Lamares
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Tó Trips
Pedro Gonçalves
Ana Deus
Alexandre Soares
-Junte-se a nós e seja a estrela principal desta noite fulgente.
O "DIÁRIO" DE CATARINA
As ondas rebentaram na saia
muito perto da estrada de pó.
O teu corpo por escrito em cima da mesa:
«Pégaso trocou as asas pelo peso de uma mulher».
Fomos recebendo o dia como se ele fosse
as margens e a sombra e nós
o caudal lento entre pernas da terra.
Cada gota um meio. Nem princípio nem fim.
E o dia chegou nu sem penas nem pêlos
igual aos animais alados cobertos
pelo peso de uma mulher.
(in "Prefloração", Quasi Edições, Catarina Nunes de Almeida)
muito perto da estrada de pó.
O teu corpo por escrito em cima da mesa:
«Pégaso trocou as asas pelo peso de uma mulher».
Fomos recebendo o dia como se ele fosse
as margens e a sombra e nós
o caudal lento entre pernas da terra.
Cada gota um meio. Nem princípio nem fim.
E o dia chegou nu sem penas nem pêlos
igual aos animais alados cobertos
pelo peso de uma mulher.
(in "Prefloração", Quasi Edições, Catarina Nunes de Almeida)
08/07/08
A POESIA DE CATARINA NUNES DE ALMEIDA
FUSÃO
I
Quando as amoras estão maduras
a menstruação corre no vale
vinda do teu lado. A noite é uma ponte
deitada sobre as margens da cintura:
lugares de xisto onde repousam
sombras de animais.
II
Por vezes os seios crescem-me no teu peito.
Os dias vêm quando vêm os teus lábios
maçã que mordo entre as pernas.
Todo o nosso corpo é flor mútua
escultura que brotou do mesmo chão
imperfeita.
(in "Preflorações", Quasi Edições)
I
Quando as amoras estão maduras
a menstruação corre no vale
vinda do teu lado. A noite é uma ponte
deitada sobre as margens da cintura:
lugares de xisto onde repousam
sombras de animais.
II
Por vezes os seios crescem-me no teu peito.
Os dias vêm quando vêm os teus lábios
maçã que mordo entre as pernas.
Todo o nosso corpo é flor mútua
escultura que brotou do mesmo chão
imperfeita.
(in "Preflorações", Quasi Edições)
07/07/08
AS "FÁBULAS" DE CATARINA NUNES DE ALMEIDA
Ainda uma palavra no labirinto ainda
a carne crua na boca dos centauros;
são assim as fábulas: os bandos partem
e os flamingos esperam,
as patas esmagando as penas que ficaram.
Depois são as asas que poisam no dorso de outros animais
são os campos que germinam nas entranhas das sementes
e a terra que não morre de parto
ainda que as flores nasçam siamesas.
(in "Preflorações", Quasi Edições)
a carne crua na boca dos centauros;
são assim as fábulas: os bandos partem
e os flamingos esperam,
as patas esmagando as penas que ficaram.
Depois são as asas que poisam no dorso de outros animais
são os campos que germinam nas entranhas das sementes
e a terra que não morre de parto
ainda que as flores nasçam siamesas.
(in "Preflorações", Quasi Edições)
04/07/08
A PROSTITUTA DA RUA DA GLÓRIA
Tanges a noite sem saber que a noite
é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango -
um ténue resquício de feno escondido na nuca.
Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.
Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes -
ténues resquícios de feno escondidos na nuca.
Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.
(in "Preflorações", Catarina Nunes de Almeida)
é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango -
um ténue resquício de feno escondido na nuca.
Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.
Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes -
ténues resquícios de feno escondidos na nuca.
Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.
(in "Preflorações", Catarina Nunes de Almeida)
03/07/08
"PREFLORAÇÃO" de CATARINA NUNES DE ALMEIDA
Prosseguimos hoje a divulgação de alguns poemas de Catarina Nunes de Almeida, a próxima convidada das "Quintas de Leitura".
HÍMEN
Desenho as palavras no lento desabraço das nossa pernas.
Esta noite compreendi que o meu corpo é leve
onde o teu estremece
que o teu nome acaba nas entranhas
onde o cheiro tem o meu nome
e queima.
CERES
Soubeste esperar por mim
embalada na carne o teu hálito
no meu hálito
alimentando os deuses
e as raízes que sustêm as almas.
Havia já um poema encravado no caule
duas notas da sinfonia
escorrendo para os beiços da terra.
Escavei-te e bebi
do teu incêndio
o meu incêndio
e nasci.
TODAS AS SERPENTES
Se me engasgar com o teu sangue
algum dia a minha língua será uma pétala?
Apenas um lago onde a terra derrama
todas as serpentes.
HÍMEN
Desenho as palavras no lento desabraço das nossa pernas.
Esta noite compreendi que o meu corpo é leve
onde o teu estremece
que o teu nome acaba nas entranhas
onde o cheiro tem o meu nome
e queima.
CERES
Soubeste esperar por mim
embalada na carne o teu hálito
no meu hálito
alimentando os deuses
e as raízes que sustêm as almas.
Havia já um poema encravado no caule
duas notas da sinfonia
escorrendo para os beiços da terra.
Escavei-te e bebi
do teu incêndio
o meu incêndio
e nasci.
TODAS AS SERPENTES
Se me engasgar com o teu sangue
algum dia a minha língua será uma pétala?
Apenas um lago onde a terra derrama
todas as serpentes.
02/07/08
20.000 PÁGINAS VISITADAS DO NOSSO BLOGUE
A todos os que continuam a acreditar que o Sonho e a Poesia são os motores da História, dedicamos este poema da "novíssima" Catarina Nunes de Almeida, a próxima convidada das "Quintas de Leitura":
ÚLTIMA SENTENÇA
Os meus cabelos morreram
abraçados às aves.
Entornei-lhes os meus seios
para que vivam de sede.
(in "Prefloração", Quasi Edições)
ÚLTIMA SENTENÇA
Os meus cabelos morreram
abraçados às aves.
Entornei-lhes os meus seios
para que vivam de sede.
(in "Prefloração", Quasi Edições)
01/07/08
CATARINA NUNES DE ALMEIDA, A NOSSA PRÓXIMA CONVIDADA
CRUCIAL
Meio-dia na boca.
Um só toque entre mim
e o poema:
tanto porém o sangue
da primeira vez.
(in "Prefloração, Edições Quasi)
Meio-dia na boca.
Um só toque entre mim
e o poema:
tanto porém o sangue
da primeira vez.
(in "Prefloração, Edições Quasi)
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