21/10/08

Atenção ! Alteração ao espectáculo


Por motivos de saúde a fadista Aldina Duarte não poderá participar na sessão dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça, na próxima Quinta-feira, dia 23 Outubro, às 22h00. Em seu lugar actuará o songwriter Francisco Silva (Old Jerusalem).

José Tolentino Mendonça
nas Quintas de Leitura

"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)

A noite de 23 de Outubro marca a estreia do Poeta e teólogo José Tolentino Mendonça nas "Quintas de Leitura" do TCA.

Intitulada "A noite abre meus olhos", a sessão dedicada a Tolentino contará com a presença do songwriter Francisco Silva – OLD JERUSALEM – música alternativa, pop e folk. Francisco Silva interpretará alguns dos seus maiores êxitos dos seus três álbuns já editados por uma das actuais editoras de referência Borland.

As leituras perpassam toda a obra poética de Tolentino e estarão, desta feita, a cargo dos actores Sofia Grillo, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis e da poeta Filipa Leal.

A performer Sónia Baptista, presença habitual nas "Quintas de Leitura", apresentará, em estreia absoluta, a peça "Da Anatomia do Caracol", inspirada nos versos de Tolentino Mendonça.

Refira-se, por fim, a estreia da conhecida artista plástica Ilda David' neste ciclo poético. Ficaremos a dever-lhe as inolvidáveis imagens da sessão.

Uma noite de estreias e de estrelas fulgentes que darão Luz à sua existência.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".

O actor Pedro Lamares lerá na sessão da próxima quinta-feira este poema de José Tolentino Mendonça:

Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia

primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

20/10/08

MAIS UM POEMA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Uma coisa a menos para adorar

Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

( in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

17/10/08

É JÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA A SESSÃO COM O POETA JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Um dos poemas que será lido na sessão:

Plumas

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio

José Tolentino Mendonça

16/10/08

A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Um poema de José Tolentino Mendonça, que será lido por Filipa Leal na sessão do próximo dia 23 de Outubro:

Diálogo para um personagem
de Andrei Tarkovskii

dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio

faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

15/10/08

HERBERTO HELDER, OUTRA VEZ


cabelos amarrados quentes que se desamarram,
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te

(Herberto Helder in "A faca não corta o fogo", Assírio & Alvim)

14/10/08






As Quintas de Leitura são mote criativo. Exemplo nesta notícia publicada no jornal DESTAK de hoje. Aqui a notícia foi dividida e ampliada para melhor leitura. (clicar sobre as imagens).

UMA PAUSA NA CRISE


O mais recente livro de Herberto Helder - "A faca não conta o fogo", 3.000 exemplares, Assírio & Alvim"- esgotou em poucas horas.
Para quem não teve a felicidade de o conseguir adquirir, aqui vos deixo um dos poemas que mais me fascinou:

(na morte de Mário Cesariny)

corpos visíveis,
nobilíssimos,
inseparável luz que move as coisas,
ter um inferno à mão seja qual for a língua,
toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas,
à porta do forno crematório alguém lhe toca,
vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não
possas, brilha acima,
faz brilhar a mão que melhor redemoinha,
a mão mais inundada,
e ele entra sem esperança nenhuma,
só na última linha quando o coração rebenta,
reconhece quem o olha

Herberto Helder

13/10/08

AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Começar a semana a publicar um poema de José Tolentino Mendonça dá saúde e faz crescer.
Assim sendo, não hesitei:

Avisos

Explosões ouviam-se cada vez mais perto na baía
mas dizia-se são pescadores furtivos
amanhã veremos centenas de pequenos peixes
mortos pela praia.

um vento ríspido trazia do deserto
nuvens de areia
depositava às portas e nos telhados
uma muda ameaça

(in "A noite abre meus olhos/ poesia reunida", Assírio & Alvim)

10/10/08

Mudamos de cara!

Um belo dia para mudar.

Após 25 mil páginas visitadas neste blogue resolvemos

mudar de cara, ou pelo menos de cabeçalho.



Fica aqui o mote que encabeçou este blogue desde a sua nascença até hoje.





NOVALIS, por nós:



A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia.

Quanto mais poético, mais verdadeiro.

AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Publicamos hoje o poema que abre a sessão de 23 de Outubro. Será lido pelo actor Pedro Lamares.

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

09/10/08

princesa prometida - aldina duarte

A MULHER DESCONHECIDA


Mais um poema de José Tolentino Mendonça. Será lido, na sessão de 23 de Outubro, pelo actor Pedro Lamares.

A mulher desconhecida

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida, Assírio & Alvim)


Fotografia de Pat

08/10/08

"Os dias contados" de José Tolentino Mendonça


A actriz Sofia Grillo lerá, na sessão de 23 de Outubro, este belo poema de José Tolentino Mendonça:

Travessa da infância

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi
muito depois
repito

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)


Fotografia de Mafalda Capela

07/10/08

A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Publicamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão do dia 23 de Outubro.

Revelação

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

06/10/08

A NOITE ABRE MEUS OLHOS

23 de Outubro no TCA: uma noite cheia de estrelas fulgentes.

Poesia
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Música
ALDINA DUARTE
acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado)

Leituras
FILIPA LEAL, SOFIA GRILLO, PAULO CAMPOS DOS REIS e PEDRO LAMARES

Performance
SÓNIA BAPTISTA

Imagem
ILDA DAVID'

"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)

25.000 PÁGINAS VISITADAS DO NOSSO BLOGUE

Obrigado a todos os que, dia a dia, nos ajudam a crescer. Juntos, virados para o Futuro e de mãos dadas com o Sonho, construiremos um mundo com mais Amor e mais Liberdade.

Este poema é para si, que ainda acredita que a Poesia pode ajudar a transformar o mundo.

SOCORROS MÚTUOS

Códigos indecifráveis, demasiados
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.

Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.

De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.

Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.

(poema de Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão", &etc)

03/10/08

O ESTERCO DO MUNDO

Tenho amigos que rezam a Simone Weil
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»,
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

02/10/08

A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A tua mão

Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
uma linha de fogo em enormes proporções
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto

tanto se parece a uma despedida

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

01/10/08

ALDINA DUARTE NAS "QUINTAS DE LEITURA"

(Fotografia de Pat)


É a terceira presença da fadista Aldina Duarte nas "Quintas de Leitura".
Aldina actuará, durante trinta minutos, na segunda parte da sessão "A noite abre meus olhos", dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça.

A fadista, acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado), cantará alguns temas do seu novo disco "Mulheres ao espelho".

No dia 23 de Outubro todos os caminhos vão dar ao TCA.