14/10/08

UMA PAUSA NA CRISE


O mais recente livro de Herberto Helder - "A faca não conta o fogo", 3.000 exemplares, Assírio & Alvim"- esgotou em poucas horas.
Para quem não teve a felicidade de o conseguir adquirir, aqui vos deixo um dos poemas que mais me fascinou:

(na morte de Mário Cesariny)

corpos visíveis,
nobilíssimos,
inseparável luz que move as coisas,
ter um inferno à mão seja qual for a língua,
toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas,
à porta do forno crematório alguém lhe toca,
vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não
possas, brilha acima,
faz brilhar a mão que melhor redemoinha,
a mão mais inundada,
e ele entra sem esperança nenhuma,
só na última linha quando o coração rebenta,
reconhece quem o olha

Herberto Helder

13/10/08

AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Começar a semana a publicar um poema de José Tolentino Mendonça dá saúde e faz crescer.
Assim sendo, não hesitei:

Avisos

Explosões ouviam-se cada vez mais perto na baía
mas dizia-se são pescadores furtivos
amanhã veremos centenas de pequenos peixes
mortos pela praia.

um vento ríspido trazia do deserto
nuvens de areia
depositava às portas e nos telhados
uma muda ameaça

(in "A noite abre meus olhos/ poesia reunida", Assírio & Alvim)

10/10/08

Mudamos de cara!

Um belo dia para mudar.

Após 25 mil páginas visitadas neste blogue resolvemos

mudar de cara, ou pelo menos de cabeçalho.



Fica aqui o mote que encabeçou este blogue desde a sua nascença até hoje.





NOVALIS, por nós:



A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia.

Quanto mais poético, mais verdadeiro.

AINDA A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Publicamos hoje o poema que abre a sessão de 23 de Outubro. Será lido pelo actor Pedro Lamares.

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

09/10/08

princesa prometida - aldina duarte

A MULHER DESCONHECIDA


Mais um poema de José Tolentino Mendonça. Será lido, na sessão de 23 de Outubro, pelo actor Pedro Lamares.

A mulher desconhecida

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida, Assírio & Alvim)


Fotografia de Pat

08/10/08

"Os dias contados" de José Tolentino Mendonça


A actriz Sofia Grillo lerá, na sessão de 23 de Outubro, este belo poema de José Tolentino Mendonça:

Travessa da infância

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi
muito depois
repito

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)


Fotografia de Mafalda Capela

07/10/08

A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Publicamos hoje mais um dos poemas que será lido na sessão do dia 23 de Outubro.

Revelação

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

06/10/08

A NOITE ABRE MEUS OLHOS

23 de Outubro no TCA: uma noite cheia de estrelas fulgentes.

Poesia
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Música
ALDINA DUARTE
acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado)

Leituras
FILIPA LEAL, SOFIA GRILLO, PAULO CAMPOS DOS REIS e PEDRO LAMARES

Performance
SÓNIA BAPTISTA

Imagem
ILDA DAVID'

"Não avances tão depressa, minha noite" (José Tolentino Mendonça)

25.000 PÁGINAS VISITADAS DO NOSSO BLOGUE

Obrigado a todos os que, dia a dia, nos ajudam a crescer. Juntos, virados para o Futuro e de mãos dadas com o Sonho, construiremos um mundo com mais Amor e mais Liberdade.

Este poema é para si, que ainda acredita que a Poesia pode ajudar a transformar o mundo.

SOCORROS MÚTUOS

Códigos indecifráveis, demasiados
segredos. A mente precisa de ajuda
para se libertar de certas coisas.

Voam os pássaros, sem nada
que os prenda. Andamos por aí
até acabar a gasolina.
Sim, Lisboa, tenho medo.
E não me envergonho disso.

De resto, há momentos em que
esse factor pouco importa.
Como quando erguemos
as mãos acima da cabeça
e avançamos para a luz.

Virá talvez o dia em que fraqueje.
Quem sabe, podemos fazer isso juntos.
Assim ninguém sai a perder.

(poema de Vítor Nogueira, in "Bagagem de Mão", &etc)

03/10/08

O ESTERCO DO MUNDO

Tenho amigos que rezam a Simone Weil
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»,
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

02/10/08

A POESIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A tua mão

Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
uma linha de fogo em enormes proporções
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos em inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto

tanto se parece a uma despedida

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

01/10/08

ALDINA DUARTE NAS "QUINTAS DE LEITURA"

(Fotografia de Pat)


É a terceira presença da fadista Aldina Duarte nas "Quintas de Leitura".
Aldina actuará, durante trinta minutos, na segunda parte da sessão "A noite abre meus olhos", dedicada à poesia de José Tolentino Mendonça.

A fadista, acompanhada por José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (viola de fado), cantará alguns temas do seu novo disco "Mulheres ao espelho".

No dia 23 de Outubro todos os caminhos vão dar ao TCA.

30/09/08

A QUE DISTÂNCIA DEIXASTE O CORAÇÃO

Este poema de José Tolentino Mendonça também será lido na próxima sessão das "Quintas":


A casa onde às vezes regresso

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

29/09/08

A ESTREIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS"

É já no próximo dia 23 de Outubro que o Poeta José Tolentino Mendonça se estreará nas "Quintas de Leitura" do TCA.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de amanhã (13h00).
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão.

Do amor

À luz trazemos este paciente limite
não está em nós guiá-lo
ficará o amor
na sua grande maioria desconhecido
ensurdece a terra esta verdade

Assim se entende a inércia do mundo
pântanos torres e os recentes desertos
Assim se compreende por exemplo
que guardadores zelosos por nós pagos
cerrem a entrada nos jardins
ao princípio da noite

mas Lídia pede o poeta
«vem sentar-te comigo
à beira-rio»

à beira, à beira de quê?

(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)

26/09/08

Uma noite para sempre















De cima para baixo: o genérico das Quintas de Leitura, o cenário, Paulo Campos dos Reis, Isaque Ferreira, Susana Menezes, Alexandre Soares, Pedro Lamares, Bernardo Sassetti e Gonçalo M. Tavares.

(Fotografias de Pat)





25/09/08

Hoje nos jornais









De cima para baixo: Jornal de Letras (24 de Setembro) e revista Sábado e jornais Público, Jornal de Notícias, Destak e Meia- Hora ( hoje). Para ler clicar sobre as imagens.


A QUARTA PRESENÇA DE GONÇALO NAS "QUINTAS". ESTA NOITE.

Hoje é dia de Gonçalo M. Tavares nas "Quintas".
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.

A FILHA

A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.

(in "1", Relógio D'Água Editores)

24/09/08

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".

Publicamos hoje mais um poema de José Tolentino Mendonça, o poeta convidado das "Quintas de Leitura" em 23 de Outubro.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.

Os versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)

23/09/08

O POEMA

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)