Este poema de José Tolentino Mendonça também será lido na próxima sessão das "Quintas":
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
30/09/08
29/09/08
A ESTREIA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS"
É já no próximo dia 23 de Outubro que o Poeta José Tolentino Mendonça se estreará nas "Quintas de Leitura" do TCA.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de amanhã (13h00).
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão.
Do amor
À luz trazemos este paciente limite
não está em nós guiá-lo
ficará o amor
na sua grande maioria desconhecido
ensurdece a terra esta verdade
Assim se entende a inércia do mundo
pântanos torres e os recentes desertos
Assim se compreende por exemplo
que guardadores zelosos por nós pagos
cerrem a entrada nos jardins
ao princípio da noite
mas Lídia pede o poeta
«vem sentar-te comigo
à beira-rio»
à beira, à beira de quê?
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de amanhã (13h00).
Publicamos hoje um dos poemas que será lido na sessão.
Do amor
À luz trazemos este paciente limite
não está em nós guiá-lo
ficará o amor
na sua grande maioria desconhecido
ensurdece a terra esta verdade
Assim se entende a inércia do mundo
pântanos torres e os recentes desertos
Assim se compreende por exemplo
que guardadores zelosos por nós pagos
cerrem a entrada nos jardins
ao princípio da noite
mas Lídia pede o poeta
«vem sentar-te comigo
à beira-rio»
à beira, à beira de quê?
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)
26/09/08
25/09/08
A QUARTA PRESENÇA DE GONÇALO NAS "QUINTAS". ESTA NOITE.
Hoje é dia de Gonçalo M. Tavares nas "Quintas".
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
Para abrir o apetite para logo à noite, deixo-vos com mais um texto seu.
A FILHA
A filha discute com a mãe.
A mãe terá oitenta anos, a filha sessenta?
A mãe treme da cabeça e do guarda-chuva,
a filha ainda não.
A que ainda não treme discute como quem ensina.
Mas também tu irás tremer da mão e da cabeça
e também tu serás ensinada.
(in "1", Relógio D'Água Editores)
24/09/08
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA NAS "QUINTAS DE LEITURA".
Publicamos hoje mais um poema de José Tolentino Mendonça, o poeta convidado das "Quintas de Leitura" em 23 de Outubro.
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir da próxima terça-feira, dia 30 de Setembro.
Os versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
(in "A noite abre meus olhos"/poesia reunida, Assírio & Alvim)
23/09/08
O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
22/09/08
ESTE POEMA DEU NOME À SESSÃO
José Tolentino Mendonça estreia-se nas "Quintas de Leitura" no dia 23 de Outubro. Publicamos hoje o poema que deu nome à sessão.
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
A NOITE ABRE MEUS OLHOS
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça, in "A noite abre meus olhos - poesia reunida", Assírio & Alvim)
18/09/08
OS MORTOS
Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
PALAVRAS, ACTOS
A ironia ensina a sabotar uma frase
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
No verbo ou numa letra do substantivo
A frase trágica torna-se divertida,
E a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
17/09/08
CONSTRUÇÃO
A construção metódica de ruínas:
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
uma bomba.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio ´D'Água Editores)
16/09/08
PINTURA
O arco-íris cai não interferindo
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)
JÁ RESTAM POUCOS BILHETES
Aguarda-se com expectativa o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Uma sessão que se adivinha cheia de momentos mágicos.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
Participam:
Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem
No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.
15/09/08
O TREINO (OBSERVAÇÃO LIGEIRAMENTE PERVERSA)
Claro que o atleta treinado
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)
12/09/08
O ACIDENTE
A pedra cai sobre a cabeça
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)
11/09/08
ARQUITECTO
Depois da arquitectura
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)
10/09/08
CHÃO
Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.
(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)
09/09/08
A CAIXA DE FERRAMENTAS (SOBRE A POESIA)
Uma cabeça mais inteligente
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.
(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)
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