16/09/08

PINTURA

O arco-íris cai não interferindo
Nas cores do quadro. O pintor
Agradece. O peixe lento
Que o pintor trouxe ao mundo tem
Cores despropositadas, porém não há nenhuma razão
Para apontar aos peixes a responsabilidade
De um erro, afinal,
Estético.
Quanto à literatura: não falha na cor,
Mas jamais acerta nas palavras.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)

JÁ RESTAM POUCOS BILHETES


Aguarda-se com expectativa o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Uma sessão que se adivinha cheia de momentos mágicos.

Participam:

Gonçalo M. Tavares - escritor convidado
Bernardo Sassetti - piano solo
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares - leituras
Rachel Caiano - imagem

No dia 25 de Setembro (22h00) todos os caminhos do Porto vão dar ao TCA. Junte-se a nós e ajude-nos a construir uma noite memorável.

15/09/08

O TREINO (OBSERVAÇÃO LIGEIRAMENTE PERVERSA)

Claro que o atleta treinado
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D´Água Editores)

12/09/08

O ACIDENTE

A pedra cai sobre a cabeça
como cai sobre todas as coisas,
caindo com o peso inteiro e agressivo
concentrado numa intenção malvada,
recuperando no acto da queda a parte animal
(inimiga do homem)
que um dia lhe terá sido roubada pelos Deuses
quando separaram funções e coisas do Mundo
e à pedra disseram: não mais te mexas sem ordem dos outros.
A pedra cai, então, sobre a cabeça do ingénuo funcionário
dos correios, reformulando, por instantes,
o desequilíbrio do mundo.
Eis que sou um animal e odeio, diz a pedra
com a sua matéria
sobre a ingénua cabeça calva
de um funcionário dos correios,
amigo dócil dos seus patrões,
ingénuo como a pedra calma e imóvel em cima da erva
num domingo de sol claro.

(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D'Água Editores)

11/09/08

ARQUITECTO

Depois da arquitectura
deslocou-se para o invulgar:
fundou um poema.

(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio D'Água Editores)

10/09/08

CHÃO

Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

(Gonçalo M. Tavares in "1"/Relógio d'Água Editores)

09/09/08

A CAIXA DE FERRAMENTAS (SOBRE A POESIA)

Uma cabeça mais inteligente
que o resto do corpo; como a concentração
de instrumentos mortais
numa pequena cabana: nada fica de fora
a não ser o insignificante. Cinco dedos em cada mão,
e dois pés, duas pernas,
uma vertical desilusão sou eu para o Mundo,
e o meu corpo inteiro para o Mundo é ainda um traço
fácil de apagar, como um número escrito a lápis pela criança.
Porém a cabeça ainda sabe distinguir entre o animal
e a pedra, e tal habilidade é útil
como uma caixa de ferramentas.
Por vezes no entanto há isto: subitamente o homem envelhece
e começa a misturar tudo.

(Gonçalo M. Tavares, in "1" / Relógio D'Água Editores)

Performance Líquida - Margarida Mestre

Uma das grandes performers que já passaram este ano pelas Quintas de Leitura. As palavras são de Jorge Sousa Braga.

08/09/08

DESTINO

Ninguém tem tanto azar que caia num buraco inexistente
nem tanta força que seja capaz de subir à montanha plana.
Escavando, levantava a cabeça,
e quando levantava a cabeça dançava.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D'Água Editores)

05/09/08

A próxima aventura de Gonçalo M. Tavares nas Quintas de Leitura


Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares às "Quintas de Leitura". Será a sua 4ª presença neste ciclo poético.

A sessão, intitulada "A Literatura e o Reino", realiza-se no dia 25 de Setembro, às 22h00, no Café-Teatro do TCA.

Gonçalo fará uma conferência sobre os seus quatro livro pretos (tetralogia "O Reino"): "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser", "Jerusalém" (Prémio Portugal Telecom "de literatura" 2007) e ""Aprender a rezar na Era da Técnica".

O pianista Bernardo Sassetti (piano solo) será o cúmplice primeiro de Gonçalo M. Tavares nesta aventura por terras do "Reino".

Serão lidos fragmentos, escolhidos pelo autor, de cada um dos livros que compõem a tetralogia. As leituras estarão a cargo de Susana Menezes, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Paulo Campos dos Reis.

O guitarrista Alexandre Soares (Ex-GNR) apresentará a peça "Nas mãos de Lenz", inspirada numa das personagens do livro "Aprender a rezar na Era da Técnica".

A imagem da sessão é da responsabilidade de Rachel Caiano, que prossegue assim a sua habitual colaboração com o autor convidado.

Prometemos-lhe uma noite intensa e mágica, onde poderá ouvir tudo o que nunca foi dito sobre os livros pretos de Gonçalo M. Tavares.
Uma noite que se prolongará pelos dias seguintes. Absolutamente a não perder.
(fotografia: Pat)

DOIS MUNDOS

Repara, são dois mundos.
Não é possível atirar água
à matemática.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)

04/09/08

SOBRE O AMOR

No intervalo entre duas garrafas, ele colocou uma terceira
Garrafa, e assim sucessivamente
Até fazer uma garrafeira. O espaço entre duas partículas
Da Física não é tão entusiasmante como o espaço
Que existe algures no teu decote;
daí que a parte da cidade interessada no erotismo
tenha abandonado todos os estudos
Que se referem a partículas mínimas e outras
Preciosidades. Medidas discretas tem o ar,
Que não se vê, e o Nada, que não existe. Robustez, é preciso;
Em cima da semente minúscula que se construa um edifício
Alto ou pelo menos uma laranjeira.
Vejamos: o que é o amor? O amor depois de aberto ao meio
É um. E mais não sei sobre essa
Mentira.
(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)

03/09/08

A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES

Retomamos hoje a publicação de mais alguns poemas do próximo convidado das "Quintas de leitura".

Conselhos inúteis

Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.

(in "1" / Relógio D'Água Editores)

O REGRESSO DE GONÇALO M. TAVARES ÀS "QUINTAS DE LEITURA"

25 de Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares a este ciclo poético. Um evento que contará com a presença dos seguintes artistas:

Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras

Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.

02/09/08

ATÉ SEMPRE, POETA!



uma boina

eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara

enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa

(Joaquim Castro Caldas, in "Mágoa Das Pedras"/Deriva Editores)

01/09/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Morreu ontem Joaquim Castro Caldas. Morreu um grande Poeta e um Homem de uma enorme integridade intelectual.

Publicamos aqui, sem cortes, um belo e comovente depoimento do também grande Poeta António Pedro Ribeiro:

"Foi o Joaquim Castro Caldas que me ensinou a dizer poesia. Foi o Joaquim Castro Caldas que me mostrou aquele jeito rebelde e sarcástico de lidar com as palavras. O Joaquim foi o mentor das noites de poesia no Pinguim quando uma multidão acorria àquele bar no Porto para, simplesmente, ouvir e dizer poesia. O Joaquim foi um dos maiores divulgadores da poesia neste país. E era, também, um excelente poeta. Quando escrevo estas linhas o Joaquim se não está morto deverá estar às portas da morte. Agora é fácil culpar o álcool, as úlceras, a vida que o Joaquim levava. Agora toda a gente vai procurar os escritos que o Joaquim deixou por aí espalhados. O Joaquim Castro Caldas tinha um feitio difícil. Por vezes, parecia arrogante. Mas por detrás dessa aparente arrogância havia uma grande generosidade. A generosidade de quem viu o inferno mas também o céu. A obra do Joaquim não teve o reconhecimento que merecia. Porque o Joaquim era um verdadeiro poeta. Levou uma vida de poeta. Andou pelos bares, procurou a loucura. Não foi um desses versejadores da corte, bem comportadinhos, sempre à cata do prémio. Olha, Joaquim, espero que te safes desta. Senão vai para o céu. Vai para o céu, porque o mereces. "

(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)


Morreu o Poeta, fica o seu valioso legado poético.

QUE SE FREUD

aos 20 já fodes
ainda não te fodem

aos 30 ainda fodes
mas já te fodem

aos 40 nem odes
nem ais de cima

aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem

aos 60 dizem-te
que sabes da poda

aos 70 não te fodem
porque já se fodem

aos 80 que se Freud
porque a morte

(Joaquim Castro Caldas, in "Convém Avisar os Ingleses / Quasi Edições)

Joaquim, confesso-te, aqui, coração à altura do teclado: com a idade, fui aprendendo a gostar de ti.

01/08/08

Este blogue estará de férias todo o mês de Agosto.
Vamos ter saudades. Boas férias!