03/09/08

A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES

Retomamos hoje a publicação de mais alguns poemas do próximo convidado das "Quintas de leitura".

Conselhos inúteis

Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.

(in "1" / Relógio D'Água Editores)

O REGRESSO DE GONÇALO M. TAVARES ÀS "QUINTAS DE LEITURA"

25 de Setembro marca o regresso de Gonçalo M. Tavares a este ciclo poético. Um evento que contará com a presença dos seguintes artistas:

Gonçalo M. Tavares - conferência sobre os seus quatro livros pretos (O Reino)
Bernardo Sassetti - piano solo
Rachel Caiano - responsável pela imagem da sessão
Alexandre Soares - guitarra
Susana Menezes, Isaque Ferreira, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis - leituras

Os bilhetes para esta sessão estarão à venda a partir de 4 de Setembro.

02/09/08

ATÉ SEMPRE, POETA!



uma boina

eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara

enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa

(Joaquim Castro Caldas, in "Mágoa Das Pedras"/Deriva Editores)

01/09/08

SÓ CÁ VIM VER O SOL

Morreu ontem Joaquim Castro Caldas. Morreu um grande Poeta e um Homem de uma enorme integridade intelectual.

Publicamos aqui, sem cortes, um belo e comovente depoimento do também grande Poeta António Pedro Ribeiro:

"Foi o Joaquim Castro Caldas que me ensinou a dizer poesia. Foi o Joaquim Castro Caldas que me mostrou aquele jeito rebelde e sarcástico de lidar com as palavras. O Joaquim foi o mentor das noites de poesia no Pinguim quando uma multidão acorria àquele bar no Porto para, simplesmente, ouvir e dizer poesia. O Joaquim foi um dos maiores divulgadores da poesia neste país. E era, também, um excelente poeta. Quando escrevo estas linhas o Joaquim se não está morto deverá estar às portas da morte. Agora é fácil culpar o álcool, as úlceras, a vida que o Joaquim levava. Agora toda a gente vai procurar os escritos que o Joaquim deixou por aí espalhados. O Joaquim Castro Caldas tinha um feitio difícil. Por vezes, parecia arrogante. Mas por detrás dessa aparente arrogância havia uma grande generosidade. A generosidade de quem viu o inferno mas também o céu. A obra do Joaquim não teve o reconhecimento que merecia. Porque o Joaquim era um verdadeiro poeta. Levou uma vida de poeta. Andou pelos bares, procurou a loucura. Não foi um desses versejadores da corte, bem comportadinhos, sempre à cata do prémio. Olha, Joaquim, espero que te safes desta. Senão vai para o céu. Vai para o céu, porque o mereces. "

(António Pedro Ribeiro, 31/08/2008)


Morreu o Poeta, fica o seu valioso legado poético.

QUE SE FREUD

aos 20 já fodes
ainda não te fodem

aos 30 ainda fodes
mas já te fodem

aos 40 nem odes
nem ais de cima

aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem

aos 60 dizem-te
que sabes da poda

aos 70 não te fodem
porque já se fodem

aos 80 que se Freud
porque a morte

(Joaquim Castro Caldas, in "Convém Avisar os Ingleses / Quasi Edições)

Joaquim, confesso-te, aqui, coração à altura do teclado: com a idade, fui aprendendo a gostar de ti.

01/08/08

Este blogue estará de férias todo o mês de Agosto.
Vamos ter saudades. Boas férias!

31/07/08

A POESIA TAMBÉM VAI A BANHOS


José Tolentino Mendonça será o poeta convidado das "Quintas de Leitura" no mês de Outubro (dia 23).
Recordamos aqui, antes das merecidas férias, o poema que dá nome à sessão.

A NOITE ABRE MEUS OLHOS

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

(in "A noite abre meus olhos"- poesia reunida / Assírio & Alvim)
(fotografia de Pat)

30/07/08

MESA

A mesa tem uma qualidade: não deixa cair as coisas.
Não interfere no mundo: a mesa recebe, ampara.
Não julga, não dá instruções excessivas.
Recebe,
ampara,
não deixa cair.
Sobre ela as coisas claras permanecem claras, e não caem.
As escuras permanecem escuras, e não caem.

(Gonçalo M. Tavares in "1"/ Relógio D' Água)

29/07/08

UM DENTISTA

Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher, e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)

28/07/08



A imagem da sessão dedicada à Poesia de José Tolentino Mendonça é da autoria de Ilda David' .

(Paisagem da ilha da Madeira)

DEPOIS DE FÉRIAS

Relembramos aqui as próximas sessões do ciclo "Quintas de Leitura", todas depois de férias:

25 de Setembro
"A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares"

Participam:
Gonçalo M. Tavares (poeta convidado)
Bernardo Sassetti e Alexandre Soares (músicos convidados)

23 de Outubro
"A noite abre meus olhos"

Participam:
José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)

20 de Novembro
" -Irene! Irene!
Sirva o leite-creme"

Poesia de entretenimento científico.
O encontro histórico entre os dois únicos colectivos poéticos do mundo aprovados, vacinados e carimbados pela Asae: O COPO (Lisboa) e a CAIXA GERAL DE DESPOJOS (Porto-Nova Iorque-Arraiolos). Um momento poético com sabor a anchovas de Mirandela e endívias à Previdência, onde não faltarão textículos salteados de Adília Lopes, Alberto Pimenta e Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

TCA: um teatro ao serviço do SONHO.

O DINHEIRO

Se dois biliões caírem no terraço
de duas crianças estúpidas
serão transformados em papéis pequenos e inúteis,
soldados de uma qualquer batalha infantil. Daí a importância
dos Bancos e do modo exaustivo como desenvolvem
o mapa do comércio e da chantagem. O dinheiro
deve cair sempre nas mãos de quem conhece os seus segredos,
porque não se trata, lá está, de uma brincadeira de crianças.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)

25/07/08

O VERÃO

Quanto ao Verão: esse período nefasto e quente
Não apresenta qualquer talento para a chuva, diga-se.
Como o mudo que se concentra excessivamente
Para proferir um assobio magrinho
E acaba por tropeçar de maneira desastrada,
Caindo de uma altura
Desagradável,
E falecendo. O Verão, de facto,
Seria insuportável, não fosse
O futuro e a cerveja.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água)

24/07/08

MAR

Não te espantes com máquinas,
com invenções de última hora.
Inacreditável é a quantidade de elementos
que ainda não obedecem aos homens.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)

23/07/08

FÓSFORO

Se acendes um fósforo durante o dia
para ver,
significa que não há janelas nem electricidade,
nem sequer sol.
Ou então significa que és louco.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)

22/07/08

POEMA RARO

Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)

Allegro ainda...



Entrevista à Poeta Catarina Nunes de Almeida pela Poeta e jornalista Filipa Leal. Fotografias de Pat. (para ler clicar sobre as imagens).

21/07/08

A PROVA NA POESIA

Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)