24/07/08

MAR

Não te espantes com máquinas,
com invenções de última hora.
Inacreditável é a quantidade de elementos
que ainda não obedecem aos homens.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)

23/07/08

FÓSFORO

Se acendes um fósforo durante o dia
para ver,
significa que não há janelas nem electricidade,
nem sequer sol.
Ou então significa que és louco.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)

22/07/08

POEMA RARO

Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/Relógio D' Água)

Allegro ainda...



Entrevista à Poeta Catarina Nunes de Almeida pela Poeta e jornalista Filipa Leal. Fotografias de Pat. (para ler clicar sobre as imagens).

21/07/08

A PROVA NA POESIA

Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água)

18/07/08

A POESIA DE GONÇALO M. TAVARES

O AMOR

A Natureza tem uma entrada por trás
como os clubes clandestinos;
e o coração, mesmo apaixonado, não é tão estúpido
como uma galinha, por exemplo,
que é capaz de seguir durante horas
uma linha traçada a giz no chão.

(in "1", editora Relógio D'Água)

17/07/08

Bife Picado fora de horas

O duo Bitahkiz Ayeli: Thollem Macdonas (piano) e Germaul Barnes (dança)

A peça Ícones da autoria de Victor Hugo Pontes


LUPA em Vénus. Estreia absoluta.


Actuação do colectivo poético Caixa Geral de Despojos.

Tiago Bettencourt (solo)

Mafalda Capela faz aqui o rescaldo fotográfico deste memorável recital.

OS AVIÕES

Lembro-me: não gostava de aviões.
Companheiros de jogo levantavam dedo e cabeça
Em direcção às bem organizadas nuvens de passageiros
E eu permanecia de rosto baixo como excluído
De uma brincadeira de que desconhecia o alfabeto.
Nunca me diverti com o excesso, ainda hoje
Tenho vergonha de certos ruídos,
Dizem-me que baixo muito a cabeça;
Como uma vaca que olha para a erva. E é verdade.
Por vezes tenho vergonha de ver, muitas vezes vergonha
De ser visto.

Gonçalo M. Tavares em "1" ( editora relógio d' água)

Gonçalo M. Tavares será o próximo convidado do ciclo "Quintas de Leitura". Nos próximos dias publicaremos neste blogue alguns dos seus poemas.

15/07/08

AS PRÓXIMAS SESSÕES

Estamos quase de férias. Divulgamos, hoje, em primeira mão, as duas próximas "Quintas de Leitura".

Dia 25 de Setembro
A Literatura e o Reino - conferência por Gonçalo M. Tavares

participam ainda:

Bernardo Sassetti (piano solo)
Susana Menezes, Pedro Lamares, Paulo Campos dos Reis e Isaque Ferreira (leituras)
Alexandre Soares (guitarra)
Rachel Caiano (imagem)

Dia 23 de Outubro
A Noite Abre Meus Olhos

participam:

José Tolentino Mendonça (poeta convidado)
Aldina Duarte (fado)
Sónia Baptista (performance)
Filipa Leal, Pedro Lamares e Paulo Campos dos Reis (leituras)
Ilda David' (imagem)

O Teatro do Campo Alegre ao serviço do SONHO.

09/07/08

AS ESTRELAS CHAMAM-SE UMAS ÀS OUTRAS PELOS NOMES PRÓPRIOS

Amanhã há mais estrelas na Rua das Estrelas.
Por ordem de entrada em órbita:

Catarina Nunes de Almeida

Marta Bernardes

Filipa Leal

Maria Bleck Soares

Susana Menezes

Pedro Lamares

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Tó Trips

Pedro Gonçalves

Ana Deus

Alexandre Soares

-Junte-se a nós e seja a estrela principal desta noite fulgente.

O "DIÁRIO" DE CATARINA

As ondas rebentaram na saia
muito perto da estrada de pó.
O teu corpo por escrito em cima da mesa:
«Pégaso trocou as asas pelo peso de uma mulher».

Fomos recebendo o dia como se ele fosse
as margens e a sombra e nós
o caudal lento entre pernas da terra.
Cada gota um meio. Nem princípio nem fim.

E o dia chegou nu sem penas nem pêlos
igual aos animais alados cobertos
pelo peso de uma mulher.

(in "Prefloração", Quasi Edições, Catarina Nunes de Almeida)

Na revista FOCUS de hoje.

08/07/08

A POESIA DE CATARINA NUNES DE ALMEIDA

FUSÃO

I
Quando as amoras estão maduras
a menstruação corre no vale
vinda do teu lado. A noite é uma ponte
deitada sobre as margens da cintura:
lugares de xisto onde repousam
sombras de animais.

II
Por vezes os seios crescem-me no teu peito.
Os dias vêm quando vêm os teus lábios
maçã que mordo entre as pernas.
Todo o nosso corpo é flor mútua
escultura que brotou do mesmo chão
imperfeita.

(in "Preflorações", Quasi Edições)

No suplemento Das Artes e das Letras - jornal O Primeiro de Janeiro de ontem.
Aqui edição on-line.