Mostrar mensagens com a etiqueta valter hugo mãe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta valter hugo mãe. Mostrar todas as mensagens

20/01/09

Um mundo de boas pessoas

Carlos Vaz Marques entrevistou valter hugo mãe para o programa Pessoal e Transmissível da TSF ( emitido a 29 de Setembro de 2008) .

À pergunta: qual é a sua crença mais profunda? valter responde:

"Acredito que este ainda vai ser um mundo de boas pessoas!"

O som desta conversa está online aqui:

http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=1019588

a poesia de valter hugo mãe

Este é o poema que escolhemos para a folha de sala da sessão da próxima quinta-feira. Será lido por Maria do Céu Ribeiro.

esplendorosa borboleta de sangue

todos os monstros têm o teu
nome, de mais ou menos bocas, grandes ou
pequenas milhares de patas, sangue jorrando ou
líquenes desfeitos, todos os monstros têm
o teu nome e por ofício perseguem-me. entram
por mim no soalheiro mundo dos
homens, usam a minha incúria

eu sou
uma esplendorosa borboleta de sangue. um
ser que voa no coração

e cada monstro virá dizer que me ama e
saberá convencer-me a suportar os seus
tentáculos, a apreciar até os beijos nos
orifícios mucosos por onde expele a
língua e será capaz de me fazer querer o
esbracejar nocturno dos seus gestos

e eu direi o teu nome e nunca me
enganarei

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

19/01/09

Revista Pública - jornal Público edição de ontem, Domingo.

NOTA: nesta sugestão da revista Pública refere-se entrada gratuita o que não é verdade, desconhecendo nós o porquê de tal afirmação.

a poesia de valter hugo mãe

nenhum amor escapa impune

deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que, também eu, sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo

queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim

(valter hugo mãe, "folclore íntimo", Cosmorama Edições)

16/01/09

ÍPSILON

Hoje no ÍPSILON do jornal Público. Para ler clicar sobre a imagem.
A fotografia de valter hugo mãe é de Pat.

a poesia de valter hugo mãe

burocracia do fim de uma longa amizade

serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

15/01/09

No ano passado foi assim


valter hugo mãe a cantar , músicos dos Mão Morta a tocar.
Um facínora em palco!
(fotografia de Hugo Moutinho)

a poesia de valter hugo mãe

coisas por acontecer, dois

vou morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis com
apenas vinte e quatro anos. pouco me
importa chegar a velho ou cumprir os
sonhos, porque já não saberei sonhar e
estarei morto a partir desse dia

tombarei o corpo para um largo
túmulo, onde poderá afeiçoar-se à morte
lentamente, concebendo algum
movimento, mas onde encontrará um
silêncio agreste ante todas as
tentativas de expressão,
e onde quem se abeire
o faça com a ilusão mesma dos
contactos entre dimensões, fugazes,
assustadores, mórbidos

no dia dezoito de março de mil novecentos e
noventa e seis as coisas mais pequenas
da terra serão já maiores do que
eu, na importância, no tempo, e estarão
ao nível dos meus olhos e nada mais
deverá ser o meu objectivo senão
partir definitivamente

hoje, sete de junho de dois mil e sete,
tenho trinta e cinco anos e sei
exactamente quando morri. o que aqui
têm é luz refractada e a
resistência ultrajante da palavra

(valter hugo mãe, "folclore íntimo" / Cosmorama Edições)

14/01/09

a poesia de valter hugo mãe

a morte em três dimensões

o diabo ganiu de fúria quando me viu,
baixou a cabeça cem metros e encarou-me
pequeno e insignificante. por momentos,
não fez nada. reparei nos mutilados que me
traziam instrumentos de corte quando alguém me
ateou o fogo. depois, ele disse,
podes começar por oferecer os pulmões à
fome dos outros. no inferno
não se respira

e eu usei a adaga
para furar a pele e abrir caminho entre as
costelas. com a própria mão retirei
os pulmões e estendi-os no chão, pequenos,
fatiados

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

13/01/09

valter hugo mãe por pat.

a poesia de valter hugo mãe

metamorfose

nós, os rapazes, dizíamos que as
raparigas eram burras e íamos pescar
ou saltar muros à cata de gatos vadios.
lentamente, o nosso corpo foi pedindo
explicações mais complexas sobre os
preconceitos infantis e as raparigas
começaram a chegar mais perto. eu
dizia-lhes que guardava um tronco de
árvore entre as pernas. elas queriam ver e
eu mostrava. a cabeça das raparigas
tornou-se um enorme fruto
a ser colhido

anos mais tarde, eu era o romeo castellucci e
caía em pó dos lugares como se
o movimento bastasse para definir a
felicidade. estar diante das raparigas e
amá-las era só a linha de um braço ou
de uma perna desenhando na luz a
minha tão sensível presença

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

12/01/09

a poesia de valter hugo mãe

a última vez

organizei uma festa para a qual
convidei apenas os meus
amigos suicidas. fazemos tudo como
se fosse a última vez

queres vir ao meu inferno

gostava de te mostrar as pequenas
cabeças falantes guardadas nos lugares mais
escuros da minha casa. gostava que
ouvisses o que dizem

os mortos, encostados às paredes e com
problemas de equilíbrio, disciplinam-se
lentamente. vês a minha casa

vou buscar o meu coração. guardei-o aqui
algures e, por ti, tenho a certeza, vale a
pena voltar a encontrá-lo e correr todos os
riscos de novo

cuidado com o cão, não morde, mas é
pesado e pode tirar-te o fôlego com as
patas no peito e depois vou querer
beijar-te

achas que podes não morrer antes

há champanhe e bolo de chocolate

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

a poesia de valter hugo mãe

a natureza revolucionária da felicidade

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

09/01/09

a poesia de valter hugo mãe

fim

tentei matar-me no dia onze de julho de
dois mil e seis. o sol era intenso mas
os meus olhos perderam de tal modo a luz,
que a própria faca brilhando se tornou
apenas um animal de dentes afiados que
me feriu os dedos mas não se deixou
apanhar. a morte fugiu-me assim. foi o
mais estranho que me aconteceu e pode
só isso ser o mais peculiar que tenho
para deixar dito, deitando por terra qualquer
obra, qualquer outro poema, que soará,
seguramente, uma redundância depois
que a vida se prolonga para lá do fracasso

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

Foi você que pediu uma noite intensa e revolucionária?

Valter hugo mãe e Slimmy como nunca os viu


a natureza revolucionária da felicidade

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca

(valter hugo mãe)


As "Quintas de Leitura" abrem o ano, na noite de 22 de Janeiro, às 22h00, com o Poeta valter hugo mãe, como habitualmente. Esta é a quinta "aparição" neste ciclo poético do escritor que em 2007 foi Prémio Literário José Saramago.

Nesta sessão, intitulada "a natureza revolucionária da felicidade", valter mostrará todas as suas ricas e variadas facetas artísticas. Contará histórias, cantará, mostrará desenhos e fotografias de sua autoria e divulgará textos inéditos escritos para as vozes e alma de Isaque Ferreira e Pedro Lamares. Registe-se ainda a estreia nas "Quintas" da actriz Maria do Céu Ribeiro que lerá cinco poemas do mais recente livro de valter hugo mãe - "folclore íntimo".

Na primeira parte da sessão actuará ainda o pianista Pedro Pereira, um dos mais promissores e laureados pianistas nacionais. Pedro Pereira frequenta actualmente o Conservatório Tchaikovsky de Moscovo. O pianista desloca-se a Portugal para actuar nas "Quintas de leitura" e, oito dias depois, no Theatro Circo de Braga.

O músico Slimmy fechará a noite em beleza. Aliando um visual irreverente com um estilo musical viciante, Slimmy é um dos grandes fenómenos actuais da música portuguesa. Prepare-se para um imperdível concerto acústico, em que Slimmy (voz e guitarra) se fará acompanhar pelos músicos Garcez (bateria), Garim (voz e baixo) e ainda Quico Serrano (piano).

Espectáculo para maiores de 16 anos.

08/01/09

a poesia de valter hugo mãe

mieloma, um

os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós

a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora.

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama Edições)

07/01/09

a poesia de valter hugo mãe

inês subtil

talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efémeras

talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo

talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome

não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quando te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração

como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti

também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo

(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/Cosmorama edições)

06/01/09

SLIMMY NAS QUINTAS


Slimmy vai actuar em concerto acústico na próxima sessão de Quintas de Leitura, dia 22 de Janeiro, num espectáculo dedicado à escrita de valter hugo mãe. Slimmy é um músico português, de nome Paulo Fernandes, que residiu em Londres alguns anos, pelo que faz parte da cena musical internacional, tendo chegado a ter um tema na série CSI Miami. Saiba mais sobre Slimmy clicando aqui.

29/12/08

A próxima sessão de Quintas de Leitura,
a primeira de 2009, é revolucionária.
Ou será feliz?
(Para ler clicar sobre a imagem)
(Imagem do flyer: valter hugo mãe)

03/12/08

OS POETAS DAS "QUINTAS"/valter hugo mãe

a máquina de fazer espanhóis

uma máquina que transformasse portugueses em
espanhóis, impecável, infalível, perfeita, eles
entrando por um lado pálidos e mirrados, saindo
do outro corados, estendidos de narizes proeminentes e
orgulho. uma máquina que fosse tão esperta que,
no momento de decidir cada coisa, preterisse sempre
portugal e trouxesse ao de cima o esplendor do país
vizinho. era pegar nessa máquina, saber quem a inventou
e fazer-lhe amor pelo cu até que desfalecesse extenuado.
enviar relatório detalhado para todo o mundo, alardiar
entusiasticamente a satisfação de quem, nem que seja
por casmurrice, espera por sebastião

(valter hugo mãe, in "pornografia erudita")