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18/01/10

a morte em três dimensões

o diabo ganiu de fúria quando me viu,
baixou a cabeça cem metros e encarou-me
pequeno e insignificante. por momentos,
não fez nada. reparei nos mutilados que me
traziam instrumentos de corte quando alguém me
ateou o fogo. depois, ele disse,
tens muito com que te entreteres, mas podes
começar por oferecer os pulmões à fome dos outros, no
inferno, como sabes, não se respira. e eu usei a adaga
para furar a pele e abrir caminho entre as
costelas, com a própria mão retirei
os pulmões e estendi-os no chão, pequenos,
fatiados


a margarida faz esborre

estou com o joão peste a
ver quem passa. o parque está
calmo e não há sobressaltos.
o joão pergunta, ei, senhor monstro,
quem lhe contou isso. rimos.
o senhor monstro quer sentar-se,
mas tem entre as pernas
a margarida que lhe entrou pelo cu.
que faz ela aí, perguntei eu

está à procura de ideias, disse
ele. se eu me sentar,
o mais certo é partir-lhe a
espinha das costas, desfazer-lhe os ossos.
dá-me pena

reparamos, antes ainda, que
os rapazes estão impossíveis,
ficam-nos com o dinheiro em troca
de um biscate. para irem buscar o
jornal já não chega que lhes digamos um
poema do cesariny, ou mesmo que lhes
prometamos bilhetes para os concertos.
gozam-nos as barrigas a crescer,
o lustro da calvice

os rapazes trazem o jornal, chupam
gelados, agarram nas moedas à pressa,
empurram o senhor monstro, ele cai,
a margarida faz esborre

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / Cosmorama edições)

A POESIA DE VALTER HUGO MÃE

a minha avó

um dia, não passou pela porta da
cozinha.
como se nada fosse,
deu a volta pelo corredor e
abriu a entrada de portadas duplas e
seguiu gorda embora

um dia, saltaram os botões à
bata que vestia, quando se sentou e
a barriga quis espaço para cima dos
joelhos

um dia, apareceu num carro
escuro e chamou por mim. não
quis que o meu pai me oferecesse
dinheiro, achava que era demasiado
para o que eu valia

um dia, soubemos que não nos avisava de
estar em portugal. eu achava que era
muito convencida, como se lhe viessem
flores do cu por privilégio real

um dia, agarrou no meu braço prendendo-me.
suava, estava calor e parecia poder
derreter. disse-me mentiras por maldade. odiava
a candura dos meus doze anos. olhei para ela
e pensei, és uma puta gorda, és gorda e és porca

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

15/01/10

valter hugo mãe

o rapaz dotado de três mortes
tem o nome exactamente igual ao
meu. passa perto de mim a caminho
dos seus afazeres, triste, sem procurar,
como quem sabe chegar inevitavelmente ao
mesmo lugar de sempre. eu nunca diria
algo que pudesse atrasar-lhe o passo,
deixo-me ficar a vê-lo, convencido de
que sei o que acontece na sua vida, certo
de que entrará em casa, logo depois, com
a má sensação de soterrar a alma.
o rapaz dotado de três mortes
tem o rosto exactamente igual ao
meu. dirige-o para o chão e vê pequenas
pedras e grãos de areia, desvia-se do
lixo que moribunda pelo vento, os olhos
castanhos capazes de serem verdes pela luz
mais intensa do sol, o cabelo raro, a boca muito
fechada para dentro, poucos lábios, um queixo
redondo, feio, muito redonda toda a expressão,
delicada de mais para quem contém tanta
fúria para o bem e para o mal.
o rapaz dotado de três mortes
tem um sonho exactamente igual ao
meu. espera encontrar quem genuinamente o
queira, sem condições, como se esperasse
pela água e fosse semente e pudesse germinar
com o aspecto que lhe aprouvesse e ser, enfim,
de uma qualquer espécie sem reservas nem
preocupações.
o rapaz dotado de três mortes
só pensa em morrer. acorda para morrer.
pensa que a morte é a grande oportunidade. tudo
o mais é atrito no caminho. pensa que,
se houver deus, a morte é
verdadeiramente a oportunidade que conta. e
esforça-se por merecê-la.
hoje, sem que eu contasse, olhou para mim, não
disse nada, percebeu como éramos iguais e
não me estranhou. convenci-me de que já vira
outros como nós, à espera, fartos da vida
com ar de quem ainda quer mais. cheguei a casa,
pouco depois, soterrei a alma, permaneci
imóvel diante dos livros. pensei, há-de
haver um poema que me tire daqui, um
só poema que me traga a morte com toda a
benignidade do mundo

(poema de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

14/01/10

JANEIRO É MÊS DE VALTER HUGO MÃE NAS "QUINTAS"

(Fotografia valter hugo mãe por Pat)

O Poeta valter hugo mãe é o próximo convidado das "Quintas de Leitura". BOMBA, assim se intitula a sessão, será uma grande festa da poesia, construída em torno da figura e da obra deste grande nome da literatura portuguesa.

Recordaremos, nos próximos dias, alguns textos emblemáticos da obra de valter hugo mãe.


erótica de fã

quero não ficar espantado se me nascer
um filho de tanto ouvir caetano veloso,
quero não explicar nada sobre este
tão grande amor



nossa senhora das andorinhas cansadas

no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

13/01/10

AINDA CESARINY

SONETO

nada sobre esta mão nada na outra
dum lado o pé do outro a maresia
para os lados do rim a luz é pouca
e uma vez sem exemplo é que eu queria

josé sebag em hong-kong toca
um psaltério roído pela traça
dá as mãos amarelas a uma foca
que evoca uma descida até à graça

dos dois elevadores lança-se a louca
paço por paço constrói-se o tapume
deita-se o sexo à beira da tua boca

o cardeal tardini vai ao lume
o teu cabelo sobe pela praça
anunciam-se braços de garoupa



À JUSTA

vou aqui por este lado
a vistoriar o historiado

vou por aqui e vou bem
já o dizia a minha mãe

pobre morta é verdade
mas é assim a eternidade

vou depressa antes que anoiteça
e o campo de facto desapareça

e canto esta canção irregular
que é como canta quem anda a vistoriar

(poemas de Mário Cesariny)

12/01/10

AINDA A POESIA DE MÁRIO CESARINY

ENVOÛTEMENT

quem lê na infância está perdido
quem não lê na infância está salvo
andar de automóvel é um acto suspeito
não andar de automóvel não é um acto suspeito
o lisboa não anda de automóvel
o fernando não anda de automóvel
o henrique não anda de automóvel
o carlos não anda de automóvel
o carlos lê na infância
o pedro oom não anda de automóvel

há um lago de brilhantes na minha boca
a minha boca é uma passadeira branca
as bocas dos meus amigos são passadeiras brancas
a boca da maria josé é uma passadeira branca
o mário henrique é uma passadeira branca
o joão artur é uma passadeira branca
(...)

(Mário Cesariny / Primavera Autónoma das Estradas / Assírio & Alvim)

04/01/10

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

29/12/09

A POESIA DE ADÍLIA LOPES

A árvore de Natal
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow

O NORTE DA EUROPA

I

O Pai Natal coberto de lantejoulas ia subindo a ladeira com ar circunstancial. O cumprimento que me dirigiu, corrigido por um gesto de perfeita cortesia, era tão naturalmente rico de proteínas que se comia à mão, em fato de baile.
Os dias iam correndo pela mão daquela cujo nome se vai ocultar na Península da Gata, a norte do Carvoeiro.
«É assim que cumpres?», perguntou Júlia Bahamas. Respondi que não era ainda tempo de colher maçãs e que também as uvas estavam por amadurecer. E acrescentei, exclamativamente:
«Ó Estações!»
Mas aí já ninguém ouvia ninguém, o círculo apertava-se coberto de espuma.

Mário Cesariny/António Dacosta
Primavera Autónoma das Estradas

23/12/09

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL

Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não

(poema de Adília Lopes, in "Dobra"/Assírio & Alvim)

22/12/09

NATAL DE 1964

Este ano a quadra festiva vai ser melhor do que nunca

no seu centro vai haver
um grande grande ramo de flores
que é por onde vão entrar
uns atrás dos outros de cabeça pra baixo
os rapazes de mais categoria das artes e das letras
uns atrás dos outros de mãos dadas
cantarolando com a boca cheia
e escorregando docemente escorregando
para debaixo da mesa
onde os espera Jesus
para introduzi-los na grande sala de recepção ao vómito

Quanto ao autor destes versos
aguardará um telefonema até ao último momento
mas à cautela e antes que seja tarde
já comprou um cachucho
que mandou fechar à chave no seu cofre-forte

(poema de António José Forte, in "Uma Faca Nos Dentes")

09/12/09

AS "QUINTAS DE LEITURA" RECEBEM VASCO GATO

lua cheia


nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.


sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
- é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canções ao acordar do ano.


vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
- vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.


hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

x-x

suspiro tardio


se ao menos eu sentisse totalmente
o movimento da terra em volta do sol.
se eu pudesse conhecer o segredo
da germinação sem roubar da terra
a vida enorme, o rebentar largamente.


se me fosse permitida a amplitude,
a alegria, o agora das planícies
em fim de tarde, e eu não mais
precisasse de trabalhar a atenção,
assim descalço sobre a realidade.


promete-me que amanhã virá a lua
e que, na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.


promete-me que no fim terei existido.

(poemas de VASCO GATO, in "Um Mover de Mão"/ Assírio & Alvim)

07/12/09

VASCO GATO

Foste tu desintegrar o espelho da tua própria carne.
Saberes que te conjuga uma estrela de mão
esquerda, essa inesperada
sombra
que se infiltra no teu suor, trémula,
como os recém-nascidos,


e rutila.


Foste tu atrair sobre ti
a sorte das vagas desirmanadas, o esqueleto
de um incêndio, os amuletos que
os gatos transportam no
escuro.


Foste tu contornar os venenos,
com o verão à espera de te ver cair.


Foste tu a esperança de um copo, na cena
derradeira da minha boca, o espaço e a esquina
que me denuncia,


quando o segredo cai ao chão,


e a estrela corre da mão esquerda para o fulcro do peito.

x-x


No peito, a manivela ferrugenta
que faz abrir a respiração
começou a emperrar
e o corpo aprendeu rapidamente:
o suor como se a roupa
fosse um antídoto.


O belo cavalo branco de cascos
impretéritos avançou
então
pelas vértebras
mas não impediu que a imagem
fosse real.


Cordas de piano
por onde trepam os assassinos
e onde por vezes
se enforcam
antes de alcançarem a janela,


o repto impune dos que dormem:


vela-me.


x-x


O homem é um raio desabitado. E a terra dissipa-o.


(Poemas de VASCO GATO, in "Omertà"/Edições Quasi)

04/12/09

MAIS UM POEMA DE VASCO GATO

Vi árvores de cera arder num peito descoberto.
A luz precipitada na paisagem, devorada
pelos olhos até celularmente
o corpo
se acender.


Então, a sombra. Que é um desenho.
Que é um prestígio do movimento.


Quero explicar a FOME. Quando a chama
se extingue e sobram flores de cera,
frias,
para dedos cegos - então a carne
é essa paisagem que evolui.


Roupa estendida em noites de navios.
Uma bússola a morder
a boca que tudo perde.
Vento, vento quase mero espaço,
a intriga de duas paredes.


15 mil cães numa cidade.

(poema de VASCO GATO, in "Omertà"/ Edições Quasi)

02/12/09

VASCO GATO NAS "QUINTAS DE LEITURA". DIA 17 DE DEZEMBRO. SESSÃO IMPERDÍVEL.

SONATA


O violoncelo encosta a cabeça ao teu ombro
e é um lamento ainda vegetal que lhe sai do sangue
quando o arco rasga o ar, o silêncio, a mão.


Fechas e abres os olhos, há gente a escutar,
as paredes curvam-se e estalam, tudo é frágil,
e a partitura é sempre um pouco além do olhar.
Os dedos levitam sua dureza sobre as cordas,
estremeces amarrada à vertigem da tua
própria queda - nisto se ergue a música.


Também tu não possuis trastos, tacteias
interiormente em busca das notas particulares
e do movimento inspirado.


Há uma demorada e subtil alquimia nesta sala.


E o violoncelo é o imóvel instrumento
da tua trágica, suave aparição.

x-x

DO CAIS


Todos os barcos partiram já
deste cais improvisado no abandono
das memórias queimadas, partiram sem velas,
e ninguém reconheceu o rasto incerto
do definitivo longe.


Só agora dou pelo peso do esquecimento.
A espuma embrulha-me com limos, espanto e sal.
E uma inviolável concha flutua na minha existência.


Apago as estrelas com a manga da absoluta solidão,
percebo que nenhuma luz me habita os olhos
- e fico cego diante do espelho.


Ninguém reconheceu que se morria.

(poemas de Vasco Gato, in "IMO"/Edições Quasi)

30/11/09

70.000 PÁGINAS VISITADAS


Festejamos com um belo poema de Vasco Gato, as (quase) 70.000 páginas visitadas ao blogue das "Quintas de Leitura".


DA PAIXÃO

É pelas horas amarrotadas do dia
que fulgura o centro vivo da paixão.

E o coração é como um astro privado.

Ao fundo, posso ver: lutas por raspar
toda a matéria espelhada
do teu corpo. Desejas existir.
Mas a pele, agora o sabes, é
uma dura conquista.

A demorada beleza dos lírios
foi sempre o demorado lugar
da trégua. Apresentas o rosto
marcado pelo rodar das sombras,
e nas pálpebras o lucilar
tranquilo da idade.

Desapertas a luz, enches os olhos
das imagens impossíveis: todas
as muralhas se afundam na terra,
e o trapézio da noite balança
entre a boca segredada
e o espelho.

Atiras-te por fim para a tua própria
existência. O coração estanca,
transborda de sangue,
e o teu corpo dando nós,
vértebra por vértebra,
em torno do centro vivo da paixão.

(poema de Vasco Gato, in "IMO"/ Edições Quasi)

Poema de A. Pedro Ribeiro


ESPERO POR TI, GORETI

Espero por ti, Goreti
às quatro da manhã no "Big Ben"
espero por ti, Goreti
apesar de saber que estás na Madeira
a mares de mim
a mares das àguas
que bebo aqui
espero por ti, Goreti
no meio da fala da puta
da puta que fala
e dos chulos que se amontoam
em redor
espero por ti, Goreti
apesar de ter gasto o cacau todo
nos bares das redondezas
depois da entrevista na Rádio Casa Viva
depois da Idade Média
no "Armazém do Chá"
e dos outros sítios da moda
onde um gajo se sente como o Lou Reed
Take a walk on the wild side
espero por ti, Goreti
porque hoje até vi o Santo Graal
no "Piolho"
e dei dois euros ao mendigo
espero por ti, Goreti
no meio dos rufias da noite
após uma hora de conversa
com o Zé Pacheco
o escultor
que me passou três euros para a mão
sem eu lhe pedir nada
e a puta que fala
e não se cala
já as conheces há 2000 anos
e continuas a andar
a entrar nas casas
como entravas
e a puta que beija
e a puta que vai
e o empregado
que fala nos quintos do inferno
e até já me sinto nas minhas quintas
e até já volto a pedir cerveja
sou a estrela
e a barriga enche
e o Adriano goza
e o marquês de Sade
já ninguém se escandaliza
mal sabem elas
as palavras do divino
espero por ti, Goreti
e ando a estoirar o dinheiro
do Campo Alegre
assim
como se fosse nada
e a puta fala
e a outra puta não vem
não há aqui
estrelas do rock n' roll
só o gajo
a escrever à mesa
e o pessoal que fala
como a puta
de boina
brasileira
que bebe
e já não saca
mas dá lições de moral
à clientela
e que se vai
e nos deixa sós
com umas estranjas insossas
espero por ti, Goreti
e inauguro o caderno
e sinto-me como Allen Ginsberg
sabes, tens razão
há pessoas que não valem mesmo nada
e o Socrates hoje até foi derrotado
na Assembleia da República
e os gajos só falam
da pen e das gigas
e já não há putas
nem travestis
para animar esta merda

resta-me esperar pelo metro
e aturar estes matrecos
que não dizem
a ponta de um corno
espero por ti, Goreti
e o "Big Ben" já não é
o que era
por todo o lado
me tratam
como ao príncipe da Baviera
já não sou o que era
quando armava confusões
e não tinha um tostão
amanhã não vou sair da aldeia
~vou dar dinheiro aos de lá
sempre é a terra do meu pai
não me fica mal
o pessoal junta-se todo nos sítios
e os outros ficam ás moscas
é tudo uma questão de moda
top-model
como tu poderias ser
e entram os freaks
e pedem sanduíches
e o rock n' roll rola
e telefonei a horas á minha mãe
agora durmo com máscara
por causa da apneia
vai-te deitar, mãe
não fiques á minha espera
que eu hoje estou no rock
andei a fazer observação participante
como se dizia na Faculdade
e já só tenho vontade
de continuar a escrever
espero por ti, Goreti
e já não há putas
no "Big Ben"
anda tudo bem comportadinho
a falar de cabos
e playstations
como o Rocha
que apareceu no "Orfeuzinho"
e me pagou o cafézinho
não suporta o Red e o Dick
mas eu não tenho preconceitos
aprendi com o Nietzsche
já o disse na entevista
espero por ti, Goreti
e a mulher e a namorada
está entretida com o computador
enquanto o gajo olha para a TVI
até parece que os gajos
me querem filmar
sou uma estrela
há gajos que me reconhecem
mas as gajas não me dão
beijos na boca
deve ser por causa da barriga
é por causa dos fritos
e do pão
a cerveja já não conta
até a deito fora
a partir de certa hora
é veneno
mas juro que no "Piolho"
bebi o Graal
estava a micar uma gaja
que estava a escrever
eu conheço-a
não sei de onde
até ensaiei em Vila do Conde
na praia
onde há gajos a pescar
não sei o quê
vá-se lá perceber o homem

Espero por ti, Goreti
e ainda há gajos que dão
as boas noites
a toda a gente
que se armam
em presidente
e o Sócrates
e o Vara
e o Godinho
são todos um docinho
deviam ir todos presos
apesar do Reinaldo
e dos indefesos
ide todos dar uma volta
o homem controla
e ordena
e isto está uma bruta seca
espero por ti, Goreti
e vou ter de pedir mais cerveja
é mais forte do que eu
estes gajos fazem-me a cama
e só me pedem cartão
e eu vou até
ao fim do filão
este pessoal dos bares
desconhece o "Big Ben"
fica mesmo junto à estação
não há que enganar
está tudo fodido
mas é o que está a dar
espero por ti, Goreti
e aparecem gajas
para um gajo olhar
não são grande coisa
até vou mijar
espero por ti, Goreti
e até dou espectáculo
faço piruetas
equilibrismo
e até nem fui dançar
as putas falam comigo
mas eu já gastei o cacau
sou o maior
sou um carapau
espero por ti, Goreti
e nunca escrevi como hoje
se me tivesses ligado
era outra dose
espero por ti, Goreti,
não sou o Pablo Neruda
sou mais como o Ginsberg
levo tudo à bruta
espero por ti, Goreti
e esta merda não muda
um gajo bem diz umas coisas
mas a gaja é surda
espero por ti, Goreti
e não se passa nada
o cabrão fala, fala
e nunca mais é
de madrugada
o gerente inteligente
mas põe-me doente
e anda tudo com
um sorriso "pepsodent"
espero por ti, Goreti
e isto nunca mais acaba
o relógio não avança
e não se passa nada
ninguém fala do Sócrates
nem do Vara
anda tudo de tola avariada
espero por ti, Goreti
e sabes que te espero
e sabes que te quero
até ao fim.


Porto, "Big Ben", Novembro de 2009.

(Fotografia de Pat captada na sessão de Quintas de Leitura do TCA - Um Poeta no Sapato - Outubro de 2009. A ler: António Pedro Ribeiro)

27/11/09

MAIS POESIA DE VASCO GATO

MÍMICA

Pode a noite doer
se as mãos tocarem a sua própria pureza
e houver um ponto negro ao centro

Quando no pulso
parece crescer uma pequena solidão
como se o espaço se afastasse e de repente
um véu cobrisse
todas as memórias futuras

Pode a noite tremer assim
para que os muros se abram ao meio

Para que a transparência dos gestos
publique essa mímica oculta
antiga intimidade

x-x

REGRAS DO ESQUECIMENTO


Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

x-x

ETERNO OUTONO

Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?

(poemas de VASCO GATO, in "IMO"/ Edições Quasi)

23/11/09

A POESIA DE VASCO GATO


haverá talvez um poema


haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

x-x

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem


quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

x-x

primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

(poemas de VASCO GATO, in "Um Mover de Mão"/Assírio & Alvim)
Fotografia de Tiago Vieira

18/11/09

Fotografia de Pat


IGUAIS AOS DEUSES

António Pedro Ribeiro

Acordo de madrugada. Penso que sou um rei em cima do palco. As mulheres acham-me piada e riem-se para mim. Ontem só bebi cinco cervejas. Tenho bebido muitas mais noutras noites. Pensava que depois de ter ido ao Campo Alegre as mulheres bonitas me viriam dar beijos na boca. Afinal, não. É a mesma rotina de sempre. É como um gajo em frente ao computador a teclar. Terei algo que os outros não têm. Ando na demanda do Graal, procuro os moinhos de Quixote. A anarquia vem ter comigo. Estou mesmo muito bem disposto. Poderia ter conversas espirituosas com muita gente. Fá-los-ia rir. Pelo menos não ando para aí a partir os vidros dos carros. O que até nem era má ideia. Anjo em chamas. Por onde andas? Por aí, atrás da minha loucura. Os meus berros são de louco. Cambaleio pelo palco. Faz-me falta o Henrique. Ando a ouvir as canções todas das Las Tequillas no youtube. Diz a palavra. Quero ir para o palco. O meu reino por um palco. A plateia aborrece-se, entendia-me. Sempre as pessoas normais a fazer as coisas normais. Sempre as pessoas a dizer avé-maria ao chefe, ao Sócrates, ao Cavaco. Sempre atrás do dinheiro e do estatuto social. Sempre fechadas na família. Sempre a fingir que estão bem. Sempre a criticar o parceiro do lado. Não! Não é isso que quero. Afastei-me dessa via. Não sou mesquinho, não sou merceeiro. Estou do lado da liberdade. Do lado do criador. Do bailarino. Vim para aqui de graça para criar. Assim devo continuar. Assim é o Artista. Provoco os outros. Faço-os rir. Para isso vim ao mundo. Nada a fazer. A vida não é só comer, beber e sacar dinheiro. Estamos aqui para algo de muito mais alto, de mais sublime. Estamos aqui para sermos iguais aos deuses.