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19/03/10

A POESIA DE FILIPA LEAL

POR UMA LUZ REAL

A rapariga debaixo da luz verde
da árvore
parecia usar a máscara disforme
dos pesadelos.

Era uma imagem nítida,
quase branca.

Fumava.
Olhava-me para dentro do medo
sem rosto
debruçada, lenta, circular.

Era noite.
Eu estava na rua à tua espera.
Na rua não, no carro.
Eu estava no carro de vidros abertos
de olhos abertos
debruçada.

Mas felizmente tu chegaste
com a tua luz real (tão real)
para me interromper o pesadelo.

x-x


QUARTO MINGUANTE

Os adolescentes da cidade
deitavam-se cada vez mais cedo.

Faltava-lhes o espaço para a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que só no quarto a sós
lhes denunciava a paixão.

Os adultos da cidade
deitavam-se cada vez mais tarde.

Não suportavam a náusea
desse lugar diminuto,
desse tédio
que no quarto só
lhes denunciava a solidão.

(2 poemas de Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/Deriva Editores)

15/03/10

A POESIA DAS NOSSA CONVIDADAS

Damos hoje um cheirinho do universo poético que nos espera no próximo dia 25 de Março. Poesia a quatro vozes.


Fui uma criança medrosa.
Tinha, como todas as crianças,
medo do escuro.
A minha irmã dizia-me: pensa no Mickey.
E eu calava-me e ficava perplexa a pensar:
mas porquê o Mickey.

(Filipa Leal, poema inédito)


Uma pedra

Atiro uma pedra à noite
a noite desfaz-se em aros
e há silêncio e solenidade
e trabalho o poema
com nova pedra na mão
mas não acuso tento salvar
aquilo a que me disponho
aquilo a que venho
sem temas nem fios
frente à grande boca da noite
com fome de nomes de coisas
maiores do que nós
que adormecemos sem querermos
na pouca luz que faz.

(Ana Salomé, poema inédito)


Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sotão
se me cresceram músculos neste olhar-te
neste cuidar que dá cuidado.
Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

(Catarina Nunes de Almeida)



e por vezes os afogados
voltam à tona de água
pois desejam de novo atirar-se
ainda não esgotaram o desespero
ainda não esperam completamente
ainda temem que nada chegue
não sabem ainda que já ninguém virá
que mesmo o mergulho foi em vão
que tudo a água lava, mas a vida não

(Bénédicte Houart, poema inédito)

10/03/10


Um espectáculo no feminino

Depois do estrondoso sucesso da sessão 100

“Põe a cassete da tempestade” é o título da próxima sessão das "Quintas de Leitura", ciclo poético promovido pela Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Ciência e Desenvolvimento, que no passado dia 25 de Fevereiro celebrou a sua sessão número 100.

As "Quintas de Leitura" voltam à carga a 25 de Março, às 22h00, no Auditório do TCA. Carga poética de altíssima voltagem. Um espectáculo pensado no feminino, que reúne, à volta de um verso, quatro vozes singulares e insubmissas da novíssima poesia portuguesa: Ana Salomé, Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida e Bénèdicte Houart.

As poetas convidadas lerão muitos textos inéditos, de sua autoria, destacando-se entre eles um texto de homenagem a Adília Lopes, escrito por Filipa Leal.

A apresentação da sessão estará a cargo de Catarina Portas, que fará, assim, a sua estreia nas "Quintas de Leitura". O espectáculo contará com dois momentos dedicados ao Movimento: a performer e bailarina Sónia Baptista vai surpreender-nos com a peça "Secrétaire"- dez irrepreensíveis minutos de dança; e, da Noruega, chega Iris Sofia, dançarina profissional de dança do ventre. Um momento que não esquecerá mais.

Refira-se ainda que a desconcertante artista plástica Isabel Padrão assina a imagem do espectáculo. Um trabalho inspirado no universo poético das escritoras convidadas.

Depois de um retemperador intervalo, adivinha-se um concerto memorável de Paulo Furtado, "The Legendary Tigerman". Uma "one-man band" na tradição dos velhos blues do Delta do Mississipi. Tocará temas do seu novo e aclamado disco "Femina". Tudo a propósito, num espectáculo dedicado à mulher e à sua beleza.

Junte-se a nós. A razão já é conhecida: ninguém pode viver sem poesia.

Bilhetes a 9,00 e 6,00 Euros. Espectáculo para maiores de 16 anos (bem contados).


é uma casa de passagem onde

se vê o mar quando

a puta veste o fato de marinheiro e

põe a cassete da tempestade

(poema de Bénèdicte Houart)

A próxima sessão é vezes quatro no feminino

03/06/09

ESTE POEMA VAI SER LIDO PELA FILIPA LEAL NO RECITAL DO DIA 18.

Mais um POEMA DE AMOR escolhido por Inês Pedrosa:

POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

NUNO JÚDICE

01/04/09

Para ver



Filipa Leal













Bruna Carvalho e Ricardo Vidal

"Movimentos diferentes, para pessoas diferentes"

solos coreografados por Tânia Carvalho



Filipa Leal



Carla Miranda e germanO 'nunes


Paulo Campos dos Reis e José Pereira de Sousa (violoncelista)

Nota: o violoncelo na imagem é o famoso Montagnana, de Guilhermina Suggia.













Lula Pena


Ao centro Joana Rêgo (imagem)

FOTOGRAFIAS DE SARA MOUTINHO.

26/03/09

















Notícias da imprensa de hoje (a última é do Jornal de Notícias).
Para ler clicar sobre as imagens.


HAVEMOS DE IR A VIANA

A viagem começa às 22h00. Aperte o cinto, desate o coração, ofereça-nos a sua veia mais assanhada. Deixe a Palavra invadir-lhe as entranhas.
As próximas duas horas ficam por conta da nossa tripulação espacial:

FILIPA LEAL
LULA PENA
CARLA MIRANDA
GERMANO'NUNES
PAULO CAMPOS DOS REIS
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA
JOANA RÊGO
BRUNA CARVALHO
RICARDO VIDAL

Não saia do seu lugar. Chegaremos ou não chegaremos a Viana por volta da meia-noite.

23/03/09

É JÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA A SESSÃO COM A POETA FILIPA LEAL

Vénus de Milo

Rendi-me
quando a falta de tempo
lambeu o meu suor
numa insónia eterna

Desisti da linguagem
quando mergulhei
no amplo sufoco das palavras
com os minutos contados

Cortei ambos os braços
quando não pude esticá-los
para vos abraçar

*

Quero coleccionar os teus passos,
os teus gestos, os teus traços...
Guardá-los em páginas de seda...
Suaves, como tu...
E oferecer-te uma larga medalha,
espelhar o profundo clarão
que rodeia a tua face...
Adorar-te como quem adora um deus,
com a placidez crente dos fiéis...
Acreditar como quem é eterno
e crê e vive a eternidade...
Reconheço a flauta muda
enterrada nas salas que pisaste...
Herdei os cânticos sagrados
e hoje sonho com as tuas mãos
levantadas para agarrar o divino.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/Cadernos do Campo Alegre)

17/03/09

DOURO

Não sei se prefiro o rio
ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

De um lado
os barcos ancorados,
do outro lado:
barcos - na imediata memória das âncoras.
Deste lado, o porto, ou o cais,
contracenando com a sua própria inexistência
daquele lado.

Existirá aquele rio nos espelhos?
Poderá este subsistir sem as janelas?

Sou dourada como os peixes que te
desabitaram. E, do outro lado, sou
desabitada.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

16/03/09

FALTAM 10 DIAS PARA A SESSÃO COM FILIPA LEAL

Ela é uma das vozes mais importantes da novíssima poesia portuguesa. Vai estar nas "Quintas de Leitura" no próximo dia 26 de Março.

No Princípio Era

Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.

(Filipa Leal, Janeiro de 2007)

13/03/09

HAVEMOS DE IR A VIANA

Uma sessão cheia de estrelas fulgentes.
Com sorte, seremos projectados muito para lá de Viana.
Participações, sem peias, sem rede:

FILIPA LEAL (poeta convidada)
CARLA MIRANDA, GERMANO'NUNES e PAULO CAMPOS DOS REIS (leituras)
BRUNA CARVALHO e RICARDO VIDAL (dança)
JOSÉ PEREIRA DE SOUSA (violoncelista)
LULA PENA (concerto acústico)
JOANA RÊGO (pintura)

Cento e vinte minutos de pura magia...

12/03/09

ESTE POEMA NÃO VAI SER LIDO NA SESSÃO DE FILIPA LEAL

Confesso. Este é o meu poema preferido de toda a obra de Filipa Leal. Não resisto a divulgá-lo:



Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

(Filipa Leal, in "Talvez os Lírios Compreendam"/ Cadernos do Campo Alegre)

10/03/09

OS LIVROS DE FILIPA LEAL

Para quem quiser conhecer melhor a obra de Filipa Leal:

2003
«Lua-Polaroid», Corpos Editora
2004
«Talvez os Lírios Compreendam», Cadernos do Campo Alegre
2006
«A Cidade Líquida e Outras Texturas», Deriva Editores
2008
«O problema de Ser Norte», Deriva Editores
2009
«A Inexistência de Eva», Deriva Editores

09/03/09

UM POEMA INÉDITO DE FILIPA LEAL

Este poema, dedicado a Adilia Lopes, foi escrito por Filipa Leal no dia 23 de Outubro de 2008. É o poema da folha de sala da sessão "Havemos de ir a Viana". Será lido por germanO´nunes.

APOCALYPSE NOW

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

(Filipa Leal)

UMA CURIOSIDADE

(fotografia de Guilhermina Suggia - George Eastman House Still Photograph - Archive. Aqui.)




Na próxima sessão das "Quintas de Leitura" (dia 26 de Março), o violoncelista José Pereira de Sousa vai tocar com o Montagnana que pertenceu a Guilhermina Suggia (1885-1950).


O Montagnana (que tem inscrita uma data que pode ser lida como 1700 ou 1710) é um violoncelo construído pelo italiano Domenico Montagnana (1686-1750).
O instrumento foi avaliado em três milhões de euros e é propriedade da Câmara Municipal do Porto. José Pereira de Sousa, primeiro-violoncelo da ONP, é o actual depositário do instrumento, na sequência de um acordo estabelecido com a Câmara do Porto. Desde há dois anos, o Montagnana é utilizado com regularidade por Pereira de Sousa,
que cuida da sua manutenção e o mantém em actividade.


"Tocar nele é não só dá-lo a ouvir mas também mostrá-lo às pessoas, que assim usufruem deste património único", revelou o músico ao jornal "Público".


Na sessão, José Pereira de Sousa interpretará a Suite nº 1 de Bach.